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Dark Nights: Metal – Quem são os Gaviões da DC Comics?

Desde maio de 2016, com o lançamento de DC Universe Rebirth #1, a DC Comics implanta em sua linha de quadrinhos a retomada de conceitos e personagens clássicos que foram abandonados ou simplesmente ignorados com o reboot dos Novos 52, de 2011. Vários deles têm aparecido aqui e ali em diferentes títulos, e muitos que foram prometidos pelo editorial aguardam o momento de seu retorno. Apesar de não estar ligada diretamente à trama principal da iniciativa Renascimento, a saga atualmente em publicação Dark Nights: Metal, de Scott Snyder e Greg Capullo, está catapultando de volta aos holofotes dezenas dessas ideias que ainda não haviam sido exploradas na cronologia atual. Nesta série de artigos, explicamos cada uma delas, seu histórico dentro da editora e o papel que desempenham no novo evento.

Gavião Negro e Mulher-Gavião

Dark Nights: Metal inicia dando foco para os personagens e resgatando os conceitos originais de reencarnações e mantendo a origem estipulada por Geoff Johns e David Goyer. Ainda não foram totalmente explicados os papéis de ambos dentro da saga ou se há alguma relação entre Carter Hall e o Katar Hol do universo dos Novos 52, que morreu recentemente na minissérie The Death of Hawkman. Metal coloca Carter como um explorador, com ligação com as tribos primordiais da humanidade e com uma espécie de seita que reúne alguns dos personagens imortais da DC Comics. Além disso, Snyder e Capullo trazem de volta outros conceitos perdidos junto com o retorno dos Gaviões, como os Desafiadores do Desconhecido, os Falcões Negros, o Tornado Vermelho e o Homem Borracha. Sabe-se que, atualmente, Carter está perdido no Dark Multiverse, depois de liderar uma expedição para explorar o universo de matéria negra.

Kendra Saunders, estabelecida como a Mulher-Gavião na fase de Johns e Snyder, também retornou em Metal, dessa vez como líder do Esquadrão dos Falcões Negros, a Lady Falcão Negro. Ela é a atual reencarnação de Chay-Ara e lidera uma missão para impedir que o Batman seja usado pelo demônio Barbatos como um portal para que ele seja libertado do Dark Multiverse.

Com certeza, Metal ainda vai trazer novas possibilidades para os Gaviões e sua mitologia. Mais respostas para os mistérios dos dois heróis devem vir com o one-shot Hawkman Found #1, que chega em  20 de dezembro com roteiros de Jeff Lemire e arte de Bryan Hitch e Kevin Nowlan.

Mas para entender a importância destes personagens no Universo DC, é preciso mergulhar nas suas trajetórias. Os Gaviões têm origens muitas vezes contraditórias, que acabaram embasando uma rica mitologia que envolve viagens planetárias, egito antigo e reencarnações.

Mitologia complexa

Criados por um dos nomes mais importantes dos quadrinhos, o roteirista Gardner Fox, o Gavião Negro e a Mulher-Gavião foram dois importantes personagens da Era de Ouro, com papeis centrais dentro da Sociedade da Justiça da América. Nesta primeira encarnação, o casal de heróis alados era formado por Carter Hall e Shiera Sanders, que descobrem ser a reencarnação dos príncipes egípcios Khufu e Chay-Ara. Khufu e Chay-Ara foram mortos pelo sacerdote maligno Hath-Set com uma adaga de Metal Enésimo, o que fez com ficassem presos em um eterno ciclo de reencarnações. Carter e Shiera utilizam o Metal Enésimo como material para os seus cintos, o que lhes dá a habilidade de voar e atuar como Gavião Negro e Mulher-Gavião.

Quando a DC decidiu reformular vários dos heróis da Era de Ouro para a Era de Prata, Gardner Fox criou uma nova origem para os personagens. Agora, o Gavião Negro era Katar Hol, um policial do planeta Thanagar que veio para a Terra atrás do criminoso Byth Rok. Fascinado pelo nosso mundo, Katar se muda para a cidade de Midway City com sua esposa, Shayera, adota o nome de Carter Hall e vira o curador do museu da cidade. Utilizando suas habilidades de policial e o equipamento Thanagariano, como o cinto de anti-gravidade feito de Metal Nth, os dois se tornam os heróis Gavião Negro e Mulher-Gavião, membros valorosos da Liga da Justiça. Agora, o casal de heróis apresentado na Era de Ouro vivia na Terra 2, enquanto os reformulados habitavam a Terra 1.

O que fez com o Gavião Negro se tornasse um dos personagens com uma das cronologias mais bagunçadas já vistas foi o estabelecimento da extinção das Terras paralelas com a chegada da Crise nas Infinitas Terras. A partir daí, por um longo período, não se conseguiu firmar uma cronologia sólida para o Gavião, sendo que, a cada retcon que era contado, mais sua história ficava confusa. Apesar dessa fase cobrir um elogiado run do roteirista e artista Timothy Truman à frente do personagem, não vale a pena mencionar todos os remendos cronológicos que foram sendo feitos até o papel do Gavião Negro dentro da história da DC ser finalmente estabelecido, no início dos anos 2000.

Com a história O Retorno do Gavião Negro, escrita por Geoff Johns e David S. Goyer dentro da revista da SJA, o casal de Gaviões recebeu uma cronologia definitiva. Khufu e Chay-Ara entraram em contato com o Metal Nth através de uma nave thagariana que havia caído no Egito Antigo. Além disso, agora Carter e Shiera foram os Gaviões que integraram a Liga da Justiça originalmente. Ambos ficaram presos na dimensão do Limbo junto dos demais membros da Sociedade da Justiça por um período. Neste meio tempo, dois novos casais ocuparam os mantos: o espião híbrido humano/thagariano Fel Andar e a terráquea Sharon Parker, e os policiais de Thanagar Katar Hol e Shayera Thal. Carter e Shiera voltaram do Limbo, mas durante os eventos da saga Zero Hora acabaram morrendo. A alma de Carter se fundiu com a de Katar Hol, o Gavião Negro da época, para formar o avatar do Deus Gavião, uma entidade extradimensional. No entanto, o poder foi demais para Katar, que perdeu o controle e acabou banido para o Limbo depois de virar uma ameaça à Terra.

A alma de Shiera foi habitar o corpo de Kendra Saunders, neta do seu primo Speed Saunders, no momento em que a jovem tentou suicídio. No entanto, Shiera continuou acreditando que era Kendra, mantendo as memórias da garota. Speed de certa forma reconheceu a mudança de Kendra e a influenciou para que se tornasse a nova Mulher-Gavião. Kendra só descobre sua conexão com Shiera depois de ser levada a Thanagar por uma ordem de sacerdotes que buscam um campeão para derrotar o ditador tirânico Onimar Synn. Sabendo do laço da nova Mulher-Gavião com Carter Hall, eles a utilizam para reviver o Gavião original, que retorna do Limbo, agora retendo algumas características de Katar Hol, como o cabelo preto. Carter retoma o manto e volta a ser um membro crucial da SJA, além de reatar sua relação com Shiera, apesar da mesma não reter as memórias das vidas passadas dos dois.

Depois de mais uma rodada de mortes e ressurreições, ocorridas durante a saga A Noite Mais Densa, os gaviões retornam e, desta vez, Shiera volta com plena noção de seu amor por Carter e não se reconhece mais como Kendra. No entanto, a felicidade dos dois dura pouco. Na saga O Dia Mais Claro, Shiera morre mais uma vez e não retorna até o reboot da cronologia da editora, ocorrido pouco depois.

Com a chegada dos Novos 52, todo o conceito de reencarnações e a conexão com o Egito Antigo foram esquecidos. O Gavião Negro agora era novamente Katar Hol, um policial do planeta Thanagar. Shayera Thal agora era uma princesa thanagariana, sem conexões com o manto de Mulher-Gavião. Na Terra-2, uma nova versão da Mulher-Gavião foi apresentada, dessa vez encarnada por uma nova Kendra Saunders, também sem ligação com a mitologia original dos Gaviões. Com a morte de Katar, o encerramento da série da Terra-2, e os recentes acontecimentos de Dark Nights: Metal, o futuro destas versões, assim como de grande parte da cronologia da fase Novos 52, é incerto.

 


Quadrinhos contra o nazifascismo

introdução por Marina de Campos

Ao contrário do que alguns dizem, os quadrinhos não são lugar de escapismo. Assim como toda boa arte, refletem o mundo seja de forma literal ou em metáforas que podem sim ser bem delirantes às vezes, mas sem deixar de distrair e divertir sempre colocam no fundo da mente uma lição ou provocação. Você pode nem se dar conta disso, mas no fim das contas o seu herói (e o seu vilão) preferidos dizem muito sobre você e sua forma de ver o mundo.

A prova de que não há como dissociar os quadrinhos da realidade é que qualquer assunto que se possa imaginar já foi abordado em algumas dessas milhões de páginas publicadas em todos esses anos. Vamos lá, abra o jornal e escolha um tema: os recentes acontecimentos em Charlottesville? A sinistra nova onda de simpatizantes do nazifascismo? A ascensão de líderes de extrema-direita quando achamos que nunca mais fosse se repetir? Assuntos como supremacia branca, intolerância religiosa, homofobia e xenofobia cada dia mais em pauta, como se fosse aceitável valores assim sequer estarem em discussão?

Pois é, os quadrinhos têm tudo a ver com isso. Maus (hors concours em uma lista como essa), por exemplo, é nada menos que uma das obras-primas da nona arte, e uma verdadeira aula sobre o impacto do nazismo na vida de uma família. É claro que nem tudo são flores e, se as HQs refletem o mundo, em certos momentos refletem também o seu lado controverso, como acontece com Frank Miller e alguns pontos discutíveis de sua obra, com Holly Terror e até o clássico O Cavaleiro das Trevas.

Mas quando se coloca a história em perspectiva fica clara a posição libertária e igualitária que os quadrinhos sempre abraçaram. Não demorou para que, no meio da tensão das últimas semanas, artistas e leitores se posicionassem com diversas manifestações, entre elas a hashtag #ComicsHateNazis, espalhando pela internet imagens cheias de simbolismo e muitas ao pé da letra, com heróis literalmente socando nazistas e todas essas coisas fantásticas que só os quadrinhos podem proporcionar. Aqui vai uma seleção para lembrar de ideais pelos quais vale a pena lutar.

 

Pantera Negra

por Jonathan Nunes

Entre as edições 19 e 24 de Jungle Action (1976), coube a um dos maiores símbolos do movimento negro entrar em combate direto contra um dos mais intolerantes grupos raciais dos quais a história já teve registro. “Panther vs the Klan” traz o Pantera Negra usando suas habilidades para combater a Ku Klux Klan. Segundo relatos, Don Mcgregor, roteirista da revista na época, foi encorajado a colocar mais personagens brancos na HQ do herói, e resolveu esse problema trazendo a KKK para enfrentar o personagem. Na trama, T’Challa viaja até uma cidadezinha no interior da Georgia para investigar um aparente suicídio de uma conhecida, mas logo ele percebe que o caso vai muito além do superficial e remete ao envolvimento da Klan. Infelizmente, em virtude das baixas vendas a revista foi descontinuada e o arco não chegou a ser concluído, mas a maneira como o modus operandi da KKK é descrito na HQ continua sendo o mesmo visto nas páginas de jornais até hoje, e essa abordagem realista faz dessa uma das obras mais essenciais do Pantera Negra. Foi bom ver o herói usando a cruz em chamas, símbolo da KKK, como arma para combatê-los em uma luta, mas o peso dramático da situação segue impactante mesmo quarenta anos depois.

Hellboy

por Lucas Gonçalves

O célebre personagem criado por Mike Mignola não poderia estar de fora da lista, já que sua origem está diretamente ligada ao tema. Hellboy foi descoberto pelo professor Trevor Bruttenholm e soldados Aliados no fim de 1944, após ter sido invocado do inferno pelos nazistas juntamente com o mago Rasputin com o intuito de trazer o apocalipse à Terra. Apesar disso, o carismático demônio se rebelou e aprendeu a importância do ser humano passando a combater as forças das trevas, e até hoje luta contra nazistas, como em Hellboy e o B.P.D.P. 1952, ou ainda no crossover com Savage Dragon, onde enfrentam um gorila com o cérebro de Hitler.

Arqueiro Verde

por Leonardo Mello de Oliveira

A partir do início dos anos 1970, o Arqueiro Verde passou por uma reformulação e passou a atuar como um grande defensor de causas sociais, o que viria a marcar o personagem e a firmar-se como uma das principais características do mesmo. Esse lado do herói foi o ponto mais explorado na fase de Denny O’Neill e Neal Adams na revista do Lanterna Verde, em que Hal Jordan atravessava os EUA em uma road trip ao lado de Oliver Queen, que estava disposto a mostrar ao Lanterna todos os problemas sociais pelos quais o país passava. Assim, a dupla tinha que enfrentar inimigos como o racismo, as drogas e a exploração dos mais pobres pelos mais ricos. Depois de ser deixado pra escanteio por um período, o lado justiceiro social de Oliver voltou com força em seu título dentro da iniciativa DC Renascimento. Com roteiros de Benjamin Percy e arte de Juan Ferreyra e Otto Schmidt, a HQ apresenta o Arqueiro encarando um poderoso grupo de ricos bancários e empresários, que coordenam vários ataques a minorias pelo país. O herói luta contra o tráfico de pessoas, grupos extremistas de direita, terroristas domésticos e até em defesa de tribos indígenas.

V de Vingança

por Marina de Campos

Certamente uma das mais contundentes alegorias contra o fascismo, a obra-prima de Alan Moore e David Lloyd reimagina a Inglaterra sob um regime totalitário e um herói anarquista disposto a derrubá-lo. Assim como na vida real, os sinais estão nas entrelinhas, debaixo da falsa impressão de normalidade em que a personagem Eve vive até conhecer V. A intolerância e a perseguição a minorias aparecem em diversas passagens, como quando ele fala de música, citando desde Billie Holliday até os artistas da Motown, e insinua que a cultura negra foi totalmente apagada, ou com o relato de Valerie, que conta sua trágica história de amor homossexual em uma das sequências mais belas e duras da HQ. Um grito contra qualquer tipo de autoritarismo, V de Vingança também reforça o papel da cultura e da arte como potente arma contra a intolerância e a submissão, tanto na própria trama, com a Galeria das Sombras transformada em importante personagem para o despertar de Eve, quanto na realidade, com a icônica máscara que ganhou vida como símbolo em protestos ao redor do mundo.

As Tartarugas Ninja

por Jonathan Nunes

Em 1989 as Tartarugas Ninja tiveram um de seus embates mais complicados e mais malucos da história dos quadrinhos. Na edição número 64 de Teenage Mutant Ninja Turtles Adventures, publicada pela Archie, os heróis viajam no tempo e tem um embate com o próprio Adolf Hitler. Na trama, o cérebro de Hitler sobrevive a guerra e se transforma numa espécie de robô cibernético, viajando no tempo para evitar a derrota do Reich durante a Segunda Guerra Mundial. Uma cena que ficou conhecida na HQ, é quando Rafael acerta um violento soco no ditador querendo se vingar pelos milhões que o líder totalitário matou durante a guerra. No fim da história, em outra cena dramática, para evitar que as tartarugas tenham acesso ao seu cérebro, Hitler dá um tiro na própria cabeça, se suicidando bem em frente aos heróis.

Trindade DC

É claro que os mais tradicionais super-heróis de todos os tempos também cruzaram incontáveis vezes com o tema em suas histórias. Fortes símbolos norte-americanos, Superman, Batman e Mulher-Maravilha já enfrentaram nazistas e toda sorte de grupos extremistas, como no título Superman & Batman vs. Ku Klux Klan. Algumas outras imagens, entre centenas, falam por si só. Batman não perdoa os racistas. Sem qualquer delicadeza feminina, Mulher-Maravilha surra nazis com gosto. E ninguém ganha do Superman nos discursos sobre humanidade, paz e justiça.

Preacher

por Marina de Campos

Com seu característico humor negro e provocativo, Garth Ennis não deixa nenhum tabu da sociedade norte-americana passar ileso em Preacher. A busca do pastor Jesse Custer por um Deus que desistiu da humanidade se passa no Texas, estado sulista onde a herança dos confederados ainda é forte e a visão de extrema-direita prevalece. Por isso não é estranho que o antagonista Odin Quincannon, além de um mau caráter cheio de perversões doentias, se revele também um membro da Ku Klux Klan. Quando Jesse provoca sua ira enquanto atua como xerife da cidade de Salvation ao lado da policial negra Cindy, em Preacher #46, Odin recorre ao grupo para acabar com o problema. Steve Dillon não tem medo de desenhar cruzes em chamas, forcas, capuzes brancos e todos os rituais da tão famosa “seita cristã”, mas é claro que ele e Ennis fazem questão de debochar de cada detalhe, como na passagem que se tornou uma das mais populares da hashtag #ComicsHateNazis: “por que os maiores defensores da raça branca acabam sempre sendo os piores exemplos dela? Você! Cadê o seu maldito queixo?!”.

Jonah Hex

por Jonathan Nunes

O pistoleiro mais famoso dos quadrinhos da DC também teve seus confrontos contra grupos extremistas. Apesar de controverso, o ódio e desprezo de Jonah Hex é focado nos seres humanos em si, sem distinções de raça ou gênero. Por isso, ainda durante a Guerra Civil, Jonah percebe que os ideais dos confederados não eram os mesmos que ele defendia e abandona a causa. Ao longo dos anos seguintes, por diversas vezes o pistoleiro combateu e matou diversos intolerantes ex-membros do exército sulista. Porém, a dúvida que sempre existiu era por que Jonah Hex continuava usando o uniforme confederado mesmo após a guerra? Justin Gray e Jimmy Palmiotti deram sua versão da resposta a essa pergunta na história Seven Graves Six Feet Deep, publicada em Jonah Hex #36, de 2008. Na trama, Hex acaba vingando a morte de um grupo de negros cometida por ex-soldados sulistas. Os autores revelam ao longo das páginas que Hex usa o uniforme como uma forma de punição, pois após os horrores que cometera na guerra não se achava digno de ser tratado com respeito. Acreditava que merecia o ódio que vinha com o uniforme, e caso alguém simpatizasse com ele graças à sua vestimenta, julgava que a pessoa merecia morrer.

Capitão Marvel Jr.

por Émerson Vasconcelos

Considerado por muitos como um arremedo de super-vilão, e muitas vezes esquecido pelos leitores, que lembram muito mais do Adão Negro ou do Doutor Silvana quando pensam em adversários da Família Marvel, o Capitão Nazista e seus confrontos com o Capitão Marvel (atualmente conhecido como Shazam) têm uma grande importância na mitologia destes heróis. Em 1941, quando o Capitão Marvel ainda pertencia à Fawcett Comics, as HQs Master Comics #21 e Whizz Comics #25 mostraram como as forças de Adolf Hitler alteraram geneticamente um homem chamado Albrecht Krieger, usando um soro que visava transformá-lo em um soldado perfeito, em uma clara alusão à origem do Capitão América, apresentada um ano antes. Nas mesmas edições, Krieger, já transformado no Capitão Nazista, trava uma violenta batalha com o Capitão Marvel e com o Homem Bala. Durante a batalha, o vilão atinge um idoso chamado Jacob Freeman, que morre na hora, e seu neto, o jovem Freddy Freeman, que sofreu graves ferimentos e perdeu parte da mobilidade das pernas. É nesta ocasião que o Capitão Marvel intervém e, para conter os ferimentos de Freddy, compartilha seus poderes com o garoto, que se torna assim o Capitão Marvel Jr. Portanto, o Capitão Marvel Jr., em sua primeira versão, tem motivos pessoais para se envolver diretamente na Segunda Guerra Mundial, e não foram raras as capas em que o herói apareceu combatendo as tropas do Eixo. Vale pontuar que o sobrenome Freeman (homem livre) foi adotado por muitos judeus que nesta época chegaram a países de língua inglesa, um forte indício de que o Capitão Nazista pode não ter atingido integrantes da família por acaso. Embora a origem do Capitão Marvel Jr. tenha sido recontada algumas vezes, na década de 1990 o quadrinista Jerry Ordway mostrou mais uma vez Krieger como o responsável pelo ataque à família Freeman, embora fora do contexto da Segunda Guerra Mundial.

Blacksad

por Jonathan Nunes

Blacksad é uma elogiada série de graphic novels escrita por Juan Díaz Canales e desenhada por Juanjo Guarido, toda protagonizada por animais antropomórficos. No segundo volume, intitulado Arctic Nation, o detetive particular John Blacksad (um gato preto), começa a investigar o desaparecimento de uma garotinha. Sua investigação o leva a um confronto direto com a Nação Ártica, que nada mais é do que a versão da HQ para a Ku Klux Klan, aqui formada por animais supremacistas brancos. Conforme a investigação segue, Blacksad vai descobrindo o envolvimento de vários e importantes nomes do cenário político da cidade com a Nação Ártica, inclusive o chefe de polícia. No clímax da história, o detetive chega a se disfarçar com as vestimentas de um dos membros da seita, chegando ao ponto de lutar com os integrantes a socos e tiros, finalizando por queimar o galpão onde o clã se reunia. Assim como as demais histórias de Blacksad, a trama carrega um profundo peso sentimental e filosófico que, apesar de ser protagonizada por animais, nos faz pensar como grupos como esse ainda podem ter tantos adeptos nos dias atuais.

X-Men

por Marina de Campos

Quando se fala em tolerância e igualdade – ou o contrário disso –, nada é mais simbólico nos quadrinhos de super-heróis do que X-Men. Como a questão já se encontra na essência de sua premissa, todas as histórias nesses mais de 50 anos carregam alguma referência ou lição, mas algumas são especialmente marcantes. Em meio a centenas de personagens, a série conseguiu representar nas HQs a luta de judeus, negros, homossexuais, indígenas e todos aqueles que sofreram perseguição ao longo da história apenas por serem quem são. “Seu único crime foi terem nascido”, como diz Magneto no início de “Deus Ama, o Homem Mata”, icônica obra assinada por Chris Claremont que serviu de inspiração para o elogiado filme X-Men 2, trazendo temas como política e religião de forma dura e realista. A trama mostra um mundo nada diferente do nosso, tomado por ódio gratuito e preconceito sustentado por instituições conservadoras, que quase leva o próprio Charles Xavier a duvidar da luta pacífica. Lançado em 1982, o clássico também lança um novo olhar sobre Magneto, já que os heróis juntam forças com o lendário vilão contra o fanático religioso William Stryker e sua cruzada pelo extermínio de mutantes.

Outra passagem memorável nos quadrinhos protagonizada por ele – e que mostra que o pensamento nazifascista pode ser ultrajante até mesmo para vilões – acontece quando Magneto, mutante judeu fugido dos campos de concentração, confronta Caveira Vermelha e seu passado como servo de Hitler.

Hellblazer

por Lucas Gonçalves

Constantine costuma lidar contra todo tipo de forças do além, mas alguns fantasmas reais da sociedade sempre dão um jeito de aparecer. Seu primeiro autor, Jamie Delano, é um forte ativista de esquerda, que criticou diversas vezes grupos fascistas, principalmente nazistas e políticos de extrema-direita, em sua fase na HQ. Outros autores de peso também colocaram o mago inglês contra o fascismo, como Garth Ennis, que junto com seu famoso parceiro Steve Dillon fez o arco Fear and Loathing, em que o mago e sua namorada Kit precisam lidar com um grupo de neo-nazistas. Outra história memorável é “No Future, de Peter Milligan e Simon Bisley, onde John Constantine e nada menos que o espírito de Sid Vicious, lendário baixista da banda Sex Pistols, enfrentam o partido conservador inglês (composto por zumbis do inferno) e, claro, nazistas.

Capitão América

por Leonardo Mello de Oliveira

Vestindo os ideais americanos, o Capitão América se firmou como um dos principais personagens a lutar pela liberdade e pela igualdade. Com isso, suas histórias são, na maioria das vezes, muito políticas. Não por menos, visto que, na capa de sua primeira revista, temos o herói socando Hitler. Depois de combater o nazismo na Segunda Guerra, Steve Rogers passou por vários outros momentos de luta contra as injustiças sociais. Em suas histórias mais recentes, destacam-se três ocasiões. Em Novo Pacto, de 2002, o Capitão se vê às voltas do atentado de 11 de setembro e das consequências sociais acarretadas por ele, como o crescente preconceito com pessoas da religião muçulmana. Para a época, a história foi ousada ao tratar sobre o assunto ainda quando Nova York tentava superar o trauma. Já em Duas Américas, de 2010, temos duas versões do Capitão América, Steve e Bucky, lutando ao lado do Falcão para desmantelar um grupo de extrema direita que planeja um atentado terrorista em solo americano. Recentemente, quando Sam Wilson assumiu o manto do herói, o mesmo passou por maus momentos por não o aceitarem como Capitão, além de ser ainda mais rejeitado depois de ir contra ações que prejudicavam minorias.

 


Anúncios da Panini na ComicCON RS 2017

Uma das principais atrações da ComicCON RS 2017 foi a presença de Levi Trindade, editor-chefe da Panini Comics, e seu painel de anúncios da editora para o segundo semestre de 2017, além de outras novidades de quadrinhos Marvel, DC, Vertigo, Star Wars e nacionais para o ano que vem. A seguir, uma lista detalhada com os títulos comentados.

Marvel

A megassaga Guerra Civil II chega ao Brasil em formato minissérie, com duas edições americanas por edição nacional. A publicação inicia em setembro e deve durar até o início de 2018.

Novas Coleções Históricas Marvel chegam em breve. A minissérie Torneio de Campeões ganha uma edição única, sem caixa colecionadora. A divisão Marvel Terror continua a publicação da série Tumba do Drácula em outubro. A série já teve 4 volumes publicados e deve compor mais um box, com mais três volumes programados para 2018. Além disso, Levi comentou a possibilidade de Hulk e Mestre do Kung Fu ganharem Coleções Históricas ano que vem, com Mestre do Kung sendo publicado em ordem cronológica desde sua primeira aparição.

As graphic novels A Morte do Capitão Marvel e Elektra Vive retornam em capa dura e formato álbum, como publicadas originalmente. Além da história com a morte do Capitão, o volume irá contar com a primeira aparição do personagem e a edição na qual o mesmo luta contra o vilão Nitro, ocasião em que provavelmente adquiriu câncer. Elektra Vive deve chegar para a Comic Con Experience, em dezembro.

Ainda para este ano, estão programados dois encadernados do Pantera Negra. Os mesmos compilam a fase mais recente de Ta-Nehisi Coates e Brian Stelfreeze, completando o arco Uma Nação Sob Nossos Pés.

Para a Coleção Marvel Deluxe, o terceiro volume de Demolidor, com Decálogo. O encadernado irá contar com os últimos dois arcos da fase de Brian Michael Bendis e com o primeiro de Ed Brubaker. A premiada série Alias, de Bendis e Michael Gaydos, ganha republicação este ano, desde o primeiro encadernado. A HQ sai com o mesmo formato no qual foi publicada pela Panini em 2010, com capa dura e papel couchê, dessa vez completando toda a série, que deve compreender dois ou três encadernados no total. A ideia é anteceder a nova fase de Jessica Jones.

As elogiadas minisséries Marvels, de Kurt Busiek e Alex Ross, e 1602, de Neil Gaiman e Andy Kubert, saem em capa dura ainda este ano. Marvels terá capa escolhida pelos leitores ano passado e 1602 deve ser publicada em formato maior que o americano.

Em entrevista ao Redação Multiverso, Levi afirmou que um dos focos de 2018 será a publicação de toda a Trilogia do Infinito, de Jim Starlin. Também declarou que Justiceiro MAX, de Garth Ennis, deve começar a ser republicado ano que vem desde o início, com a minissérie Nascido para Matar. Inumanos, série de Paul Jenkins e Jae Lee, também está programada para 2018.

Star Wars

Para a linha de HQs baseadas na franquia Star Wars, foram anunciados os segundos volumes dos encadernados das séries Star Wars, de Jason Aaron, e Darth Vader, de Kieron Gillen. As duas já tiveram seus primeiros volumes publicados este ano.

Millarworld

O universo de personagens concebidos por Mark Millar ganha força, com 4 novos encadernados capa dura ainda neste ano. MPH, com Duncan Fegredo, Starlight, com Goran Parlov, Círculo de Júpiter, spinoff de Legado de Júpiter, e Crononautas, com Sean Murphy, foram os títulos de Millar prometidos pela Panini.

Nacionais

Da parceria com o estúdio Stout Club, a Panini anunciou para a CCXP deste ano Open Bar, de Eduardo Medeiros, e o terceiro volume de Xampu, de Roger Cruz.

Valente, de Vitor Cafaggi, tem seu sexto e último volume previsto para maio de 2018. No entanto, Levi afirmou que este não é o fim de Valente e que a editora tem planos para o personagem.

DC Comics

A primeira saga do Renascimento, Liga da Justiça Vs. Esquadrão Suicida chega no fim do ano em dois volumes, que devem conter três edições americanas cada. Do evento surge a nova revista da Liga da Justiça da América, de Steve Orlando e Ivan Reis. O título inicia com um especial contendo os one-shots de quatro personagens da equipe e terá revista mensal própria a partir de 2018.

Ainda nos novos títulos do Renascimento, Batgirl sai em encadernado de capa cartonada em outubro deste ano. Superwoman e Batgirl e Aves de Rapina devem ganhar o mesmo tratamento e tem lançamento previsto ainda para 2017.

Na linha da Hanna Barbera, a Panini inicia com a publicação da série Future Quest em dois encadernados programados para outubro e novembro. Flintstones terão seu primeiro volume em encadernado ainda em 2017. Scooby Apocalypse e Corrida Maluca devem ganhar o mesmo tratamento no próximo ano.

Nos encadernados de luxo, A Noite Mais Densa chega em um compilado maior, incluindo a série principal e mais os tie-ins com a revista do Lanterna Verde. Gotham D.P.G.C. finaliza com o quarto volume programado para setembro. O encadernado Os Maiores Super-Heróis do Mundo, que compila graphic novels de Paul Dini e Alex Ross, retorna em novembro. Também em novembro, deve chegar a aguardada encadernação em capa dura de Superman: Entre a Foice e o Martelo,  de Mark Millar. Também foram confirmadas as republicações de Reino do Amanhã e Watchmen para 2017. Em entrevista, Levi afirmou que há planos de republicar Crise nas Infinitas Terras em 2018.

Também afirmou que mais republicações de material de Jack Kirby na DC estão previstas somente para 2018. Segundo o editor, há a ideia de publicar The Demon, série mais curta do artista, e depois experimentar a publicação de seu material na revista Superman’s Pal, Jimmy Olsen, que pode dar início a uma leva de HQs do Quarto Mundo.

Vertigo

Para a Vertigo, foi confirmado o segundo volume de Promethea ainda para este ano. A edição deve contar com páginas desdobráveis, incluídas na sua publicação original. Escalpo deve sair em encadernados que compilam dez edições e a ideia é de completa-lo em cinco volumes, com dois a três por ano. O primeiro chega para a CCXP. Também está programado para este ano o sétimo volume de Vampiro Americano, de Scott Snyder e Rafael Albuquerque. Ainda teremos o lançamento do inédito Clean Room, de Gail Simone, que sairá com o título Sala Imaculada. A elogiada graphic novel de Paul Dini e Eduardo Risso, Dark Night: A True Batman Story, será publicada com o título Uma Noite de Trevas ainda em 2017.


Nove HQs para conhecer José Luis García-López

Um dos mais influentes artistas de quadrinhos e um dos principais nomes a fazerem a história da DC Comics, José Luis García-López contribui com seu lápis para várias publicações ao longo dos anos. Muitos dos seus trabalhos viraram clássicos cultuados até hoje e continuam a influenciar demais desenhistas da indústria. Compilamos nove HQs essenciais para quem quiser conhecer melhor a arte deste grande mestre, em comemoração à sua vinda para o Brasil neste fim de semana, como convidado internacional da ComicCON RS 2017.

Superman

Um dos trabalhos mais lembrados de García-López sem dúvida é sua contribuição para a revista do Superman. Na metade dos anos 70, o artista marcou o Homem de Aço com sua arte anatomicamente perfeita e enquadramentos de ação de tirar o fôlego. Em histórias bem mais simplistas, ainda com resquícios da Era de Prata, García-López foi acompanhado pelo roteirista Gerry Conway na maioria das edições que desenhou. No decorrer do run, vemos Superman enfrentando criminosos radioativos, planos mirabolantes de Lex Luthor e suas próprias dúvidas pessoais, como seu lugar no planeta Terra. Além disso, o kryptoniano ainda usa uma gama de poderes que podem parecer estranhos atualmente, como a hipnose. A Panini publicou recentemente todo o período do desenhista no Superman, em duas edições dos encadernados Lendas do Homem de Aço.

Jonah Hex

(Colaboração de Jonathan Nunes)

Um trabalho incrivelmente competente, porém, pouco mencionado de Garcia-Lopez, é a sua fase na HQ do desfigurado pistoleiro Jonah Hex. Apesar do personagem ter sido criado no traço do Tony Dezuniga, poucos artistas deram tanta personalidade ao caçador de recompensas como Garcia o fez. O artista estreou no título em Weird Western Tale #32, de 1976, apresentando uma das melhores narrativas de Hex ao enfrentar o rebelde índio Bigfoot.
O traço característico e limpo de Garcia-Lopez, deu a trama de Hex uma agilidade e dramaticidade até então não vista nas HQs do pistoleiro, algo que fez o artista voltar em mais 12 oportunidades para assumir a arte da revista. Essa confiança no traço do artista, fez com que dois dos vilões mais clássicos de Hex aparecessem pela primeira vez sob a responsabilidade de Lopez; o mestre dos disfarces Chamaleon, e o mexicano El Papagayo. Lopez também desenhou várias capas da revista, entre elas uma que mostra Jonah Hex em uma aventura na Amazônia brasileira.

Superman vs. Wonder Woman

A parceria com Gerry Conway na revista Superman renderia a García-López uma incontável série de histórias aclamadas. Uma delas, envolvendo o próprio Superman, publicada no especial All New Collectors’ Edition C-54, em 1977. A história se passa na Terra-2, na época da Segunda Guerra Mundial, e conta com o atrativo de uma batalha épica entre o Superman e a Mulher-Maravilha dessa Terra. A graphic novel de 74 páginas mostra um conflito de ideias entre os dois heróis quando ambos ficam sabendo da posse de uma ogiva nuclear por parte do governo dos Estados Unidos. Enquanto Clark Kent confia na responsabilidade do país, Diana Prince acredita que o melhor seria que nenhuma nação possuísse uma arma tão poderosa. Como em qualquer crossover, os dois ícones ainda devem enfrentar a ameaça do Barão Blitzkrieg e do Samurai Sumô, que pretendem roubar a ogiva para o Eixo. Uma história cheia de ação e reviravoltas, lindamente desenhada pelo artista espanhol. Foi publicada pela Panini dentro do primeiro volume de Lendas do Homem de Aço.

Esquadrão Atari

O conceito da segunda equipe do Esquadrão Atari foi criado pelas geniais mentes da dupla Gerry Conway e García-López, que desenhou os 12 primeiros números da série, em 1984. A equipe era a segunda encarnação de um time de aventureiros e exploradores dimensionais, inicialmente criados em uma iniciativa da DC com a produtora de videogames Atari. Liderado pelo líder do primeiro esquadrão, Martin Champion, o grupo contava com vários tipos alienígenas diferentes, que, juntos, lutavam contra o Destruidor Negro. A série é considerada uma obra-prima de ficção científica, tanto por seus plots profundamente inspirados pelos conceitos do gênero quanto pela arte esplendorosa de García-López. O artista criou visuais exóticos para várias espécies alienígenas, além de imaginar cenários e arquiteturas cósmicas ricas em detalhes. A série foi publicada somente pela Abril, dentro das revistas Heróis em Ação e Superamigos.

Cinder & Ashe

(Colaboração de Marina de Campos)

Em um de seus trabalhos mais originais, García-López repete a parceria de Atari Force com Gerry Conway na aclamada minissérie que se tornou um dos títulos cult da DC Comics. Com uma trama policial madura e diferente do que se via na editora nos anos 1980, antes da criação da Vertigo, Cinder & Ashe se destinava ao público adulto e trazia uma dupla de investigadores particulares que assumem o caso do desaparecimento da filha de Wilson Starger, mas deparam-se com Lacey, uma figura perigosa que está conectada ao passado dos dois e suas sombrias memórias da Guerra do Vietnã. Distante da estética dos super-heróis que ajudou a imortalizar, García-López se mantém sóbrio e elegante, mas revela novas facetas ao explorar o clima noir e mais violento da história, transmitindo ação, drama e suspense como ninguém. Pouco conhecido por aqui, esse clássico alternativo da carreira do artista saiu no Brasil apenas pela editora Abril em 1989.

Batman vs. Hulk

O terceiro crossover entre as editoras Marvel e DC foi concebido pela dupla Len Wein e José Luis García-López, em 1981. Na história, Bruce Banner trabalha nas Indústrias Wayne para vigiar um experimento com radiação gama em desenvolvimento. Quando o Coringa decide roubar o projeto para ajudar um ser chamado Figurador, capaz de transformar sonhos em realidade, o Hulk acaba despertando e atraindo a atenção do Batman. A inusitada dupla tem de trabalhar junta para impedir os planos malucos do Palhaço do Crime envolvendo a estranha entidade. Mais um trabalho de García-López em que a ação predomina, com cenas dinâmicas e elegantes, que compõem verdadeiras coreografias de lutas e batalhas. O desenhista ainda aproveita para experimentar com cenas psicodélicas envolvendo o Coringa, mostrando uma respeitável versatilidade. O crossover foi publicado no Brasil pela última vez pela Editora Abril, em Grandes Encontros Marvel & DC #3, de 1993.

Novos Titãs

Apesar de sua passagem durar apenas cinco edições, García-López marcou a revista New Teen Titans ao ilustrar um arco épico da história dos jovens heróis no comando do roteirista Marv Wolfman. Ao explorar as origens divinas de Lilith, membro da equipe com poderes psíquicos, os Jovens Titãs ficam cara a cara com os Titãs da mitologia grega. O desenhista também foi o responsável pela primeira aparição da personagem Quartzo, que depois apareceria em Crise nas Infinitas Terras. García-López pôde engrandecer ainda mais sua arte, desenhando a complexa arquitetura do Monte Olimpo Grego e muitos deuses e criaturas mitológicas, sendo também o responsável pelo criativo visual de Quartzo. Por incrível que pareça, o arco permanece inédito no Brasil.

Road to Perdition

(Colaboração de Marina de Campos)

Outra chance de conferir um lado completamente diferente de seu trabalho é Road to Perdition, ou Estrada para a Perdição, série publicada pela divisão Paradox Press da DC Comics na virada dos anos 2000. Escrita por Max Allan Collins, a trama se passa durante a Grande Depressão Americana e acompanha um mafioso e seu filho enquanto buscam vingança após uma imperdoável traição. A obra ganhou uma elogiada adaptação para o cinema pelo diretor Sam Mendes em 2002, estrelando Tom Hanks, Paul Newman, Jude Law e Daniel Craig. García-López assina as sequências que desenvolvem esse universo publicadas a partir de 2003, e surpreende com uma arte detalhista em preto e branco que evoca todo o clima noir da história e se aproveita da época para uma reconstrução histórica impressionante.

Twilight

Ao lado do grande roteirista Howard Chaykin, García-López pôde mais uma vez se jogar na ficção científica espacial e reimaginar um novo universo futurista para DC Comics na minissérie Twilight. Publicada em 1990, a história contava com novas versões de personagens espaciais obscuros da editora, criados principalmente nos anos 50. A trama girava em torno do herói renegado Léo Futuro, que, após derrotar Karel Sorenson, membro dos Ciganos Estelares que havia se tornado uma deusa viva depois de se envolver numa explosão com uma raça de aliens imortais, se torna um déspota ao absorver os poderes de Sorenson. A série reapresenta ainda versões de Star Hawkins, Ranger do Espaço, Ironwolf e muitos outros. Assim como em Esquadrão Atari, García-López aproveita a liberdade criativa que tem para desenvolver cenários futuristas deslumbrantes e visuais alienígenas bizarros. A minissérie foi publicada em três edições pela DC em formato Prestige e nunca chegou ao Brasil.


A representação da juventude no Valente de Vitor Cafaggi 

É de conhecimento de qualquer um que acompanha o cenário de quadrinhos nacional a importância do roteirista/artista mineiro Vitor Cafaggi para o mercado. Responsável por duas graphics MSP populares, que reimaginaram o universo da Turma da Mônica de Mauricio de Sousa, o quadrinista trouxe frescor, sensibilidade e novidade para um segmento às vezes ignorado por parte dos colecionadores de HQs convencionais. Também é sabido que Cafaggi é um fã confesso do Homem-Aranha. Tanto é que um de seus primeiros trabalhos de destaque foi a webcomic Puny Parker, onde imaginava a infância de Peter Parker num traço fofo e com histórias muitas vezes sentimentais. Não por acaso, sua criação mais conhecida se trata de uma espécie de evolução de Puny Parker, uma tira que traz a essência das histórias clássicas do Cabeça-de-Teia: Valente, provavelmente um dos quadrinhos mais cativantes que você irá encontrar.

Valente traz em seu âmago a pedra fundamental do sucesso do Homem-Aranha e de Peter Parker, aquilo que muitos fãs consideram o diferencial das histórias do Aracnídeo. Trata-se da emoção que a HQ transmite ao leitor, aquela sensação mágica de identificação que faz com que torçamos veementemente pelo herói. É fácil de se comprovar quando tentamos selecionar grandes momentos do Aranha nos quadrinhos. Veremos que a maioria não será de cenas épicas de ação, mas de situações às vezes corriqueiras, relacionadas às escolhas e aos sentimentos de Peter. É um tanto quanto difícil de tentar explicar, visto que é um conceito intrinsecamente emocional e sensorial, que muda de leitor para leitor.

As tiras de Valente andam pelo mesmo caminho. Melhor, elas fazem da identificação, da emoção e da sensibilidade seus pilares de construção de narrativa. A HQ trata de um período pelo qual todos passam, um momento na vida em que tudo parece novo e excitante, mas ao mesmo tempo difícil e assustador. A juventude retratada em Valente é tão palpável que às vezes nos esquecemos de que estamos lendo uma história cujos protagonistas são animais antropomórficos. Os personagens nos são tão semelhantes que parecem se tornar nossos amigos.

Um grande trunfo da HQ é a caracterização do protagonista. Valente é um personagem extremamente comum, e é isso que o faz ser tão encantador. Ele não tem poderes especiais, nem é o escolhido por uma entidade cósmica ou possui inteligência acima da média. Nem mesmo se envolve em todo tipo de drama trágico. Morte, traição, casamento e dinheiro não movimentam sua história. Apesar de ser um cachorro, é construído de maneira tão humana que isso acaba ficando em segundo plano. Suas preocupações maiores envolvem a indecisão de mandar uma mensagem para a menina que ele gosta, ou se deve ir ao jogo de RPG dos amigos ou esperar a garota que está atrasada para o encontro. Valente é a personificação do leitor, ele é alguém normal, com seus hobbies, tarefas, paixões e dúvidas, muitas dúvidas. A juventude retratada está, esteve ou estará presente na vida de qualquer um que lê.

Não seria errado pensar que o amor é o grande catalisador das tramas da HQ. No entanto, não se trata do romance clichê, com personagens estereotipados com papéis específicos a cumprir dentro da trama. É o amor em construção, é sobre um jovem que tem que viver sua vida e desenvolver sua maneira de amar. É sobre o amor e a paixão como um conceito social, algo que pode unir ou separar pessoas, proporcionar experiências e moldar personalidades. Valente é ansioso, se apaixona a todo o momento por alguém diferente e precisa aprender a lidar com isso. Alguém que pensa com o coração, que deixa a emoção levar sua vida. Emoção que contagia o leitor e que faz com que ele se interesse pelo personagem e que queira saber aonde ele vai chegar.

Valente é a representação genuína da juventude como ela é, sem floreios ou muitas liberdades poéticas. É o desenvolvimento do adulto que irá surgir, um rito de passagem frenético e avassalador, cheio de altos e baixos, paixões e desilusões, amigos e desafetos. Um quadrinho extremamente sensível e tocante, pronto pra te fazer rir e chorar. Uma HQ que te convida, mesmo que você não perceba em meio a tanta diversão, a refletir sobre o jovem que existe, existiu ou existirá dentro de você. Valente é para todos, um quadrinho para o que der e vier que, por opção, fica marcado para sempre no coração de quem o lê, para onde quer que o leitor vá.


10 HQs para conhecer o Homem-Aranha

Com mais de 50 anos de história, o Homem-Aranha passou por diversas fases diferentes nos quadrinhos. Entre clássicos e polêmicas, o personagem conseguiu manter sua alta popularidade até hoje, se consolidando como um dos super-heróis mais queridos ao redor do mundo.

Com a chegada de mais um filme do Cabeça de Teia, separamos 10 HQs para quem quer se preparar antes de ir ao cinema ou também para quem se interessou pelo Amigão da Vizinhança depois de conhecê-los nas telonas:

Era Stan Lee/Steve Ditko

A dupla que criou o herói permaneceu unida no título por 38 edições e mais dois anuais. Nessa fase, muitos dos mais importantes conceitos da mitologia aracnídea foram criados, desde o plot básico de uma aventura comum do Aranha a praticamente todos dos seus mais icônicos vilões e coadjuvantes. As histórias são simples, mas muito bem escritas e desenhadas. Nesta fase, uma edição era quase um one-shot, apresentando geralmente uma história fechada com um vilão principal. É nesse run que vemos claramente as duas faces de Peter Parker, uma como um adolescente mais soturno e apático (muito influenciado pelas ideias de Ditko) e a outra como um super-herói alegre, sua real persona, quem ele queria ser sem as amarras sociais que o impediam. A fase foi publicada de maneira bem picotada no Brasil, sendo que as últimas vezes que saiu por aqui foram nos primeiros volumes da Coleção Histórica Marvel do Homem-Aranha. Mais difícil de encontrar, a Biblioteca Histórica Marvel publicou o material na íntegra, em 4 volumes de luxo.

Com Grandes Poderes…

Escrita por David Lapham e desenhada por Tony Harris, Com Grandes Poderes… foi uma minissérie do selo Marvel Knights, portanto, não é considerada canônica oficialmente. Ela mostra um outro lado da origem do Aranha, geralmente pouco explorado. O foco se dá no período em que Peter atuou como lutador de luta livre na TV, quando ainda estava aprendendo sobre seus poderes e o Tio Ben era vivo. É muito interessante a abordagem dada ao personagem, mostrando um Peter Parker arrogante e egoísta, ainda sem sua filosofia de que com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades. É a caracterização precisa de um adolescente que viu uma oportunidade de não ser mais o perdedor, de extrapolar e descarregar o peso de anos de bullying e exclusão. É claro que há a preocupação em ajudar os tios com o dinheiro que ganha, mas o importante na história é mostrar como o peso da tragédia com o Tio Ben foi importante para o surgimento do super-herói Homem-Aranha. Publicada pela Panini em 2010, a minissérie está programada para voltar às bancas dentro da Coleção Definitiva do Homem-Aranha, da Salvat.

Como Era Verde o Meu Duende

Publicada entre as edições #39 e #40 de The Amazing Spider-Man, este é um dos mais intensos combates do Aranha com seu pior inimigo, o Duende Verde. Nela, pela primeira vez é revelado que Norman Osborn era o sádico vilão. Da mesma forma que Peter descobre a identidade do Duende, Osborn descobre a do Homem-Aranha, o que os leva a uma batalha não apenas física, mas também psicológica, já que Peter era amigo de Harry Osborn, o filho de Norman. Apesar de curto, o arco foi um ponto de virada na história do herói, alterando sua relação com o Duende para sempre e consolidando o vilão como um dos mais perigosos nêmeses do Aranha. Com os roteiros sempre inspirados de Stan Lee e arte de John Romita, estreando no título, a história saiu no Brasil pela última vez dentro da edição nº 1 da Coleção Histórica Marvel do Homem-Aranha.

Homem-Aranha Nunca Mais

Sempre dividido entre sua vida civil e sua atividade heroica, Peter simplesmente desiste de ser o Homem-Aranha, decidido a se dedicar a família e aos estudos. No entanto, ele se vê na berlinda quando um novo e poderoso vilão aparece na cidade, se tratando nada mais, nada menos do que o Rei do Crime. Uma das mais icônicas histórias do herói, Homem-Aranha Nunca Mais foi publicada nas edição #50-52 de sua revista, mais uma vez pelas mãos de Stan Lee e John Romita. Levando Peter ao seu extremo, a HQ mais uma vez expõe a importância dos princípios do herói, como o Homem-Aranha vê seu papel no mundo e como é necessário que ele atue como herói, mesmo que tenha que sacrificar muitas coisas no processo. A história foi republicada várias vezes no Brasil, sendo a última na Coleção Oficial de Graphic Novels Marvel, da Salvat, e na edição nº 6 da Coleção Histórica Marvel do Homem-Aranha, pela Panini.

A Noite em que Gwen Stacy Morreu

Um ponto de virada não somente para o cânone do Homem-Aranha, mas para toda a história dos quadrinhos, a morte da namorada de Peter e personagem amada dos leitores é considerada por muitos o maior clássico do herói de todos os tempos. Tendo de enfrentar a culpa pela morte do pai de Gwen, o Capitão George Stacy, pelas mãos do Doutor Octopus, e os problemas com drogas de seu amigo Harry, Peter chega ao seu extremo depois que o Duende Verde sequestra Gwen. Mesmo tentando impedir o pior, a garota morre na queda da ponte do Brooklyn, levando Peter a reviver um dos seus maiores traumas. Cego pela raiva, o Aranha vai em busca de vingança contra Norman Osborn. Um final surpreendente com uma das cenas mais bonitas já feitas em HQs de super-heróis fecha a história com chave de ouro. Saiu originalmente em The Amazing Spider-Man #121-122, com os roteiros de Gerry Conway e arte de Gil Kane e John Romita. O clássico foi republicado recentemente na Coleção Oficial de Graphic Novels Marvel, da Salvat, e na edição nº 1 da Coleção Histórica Marvel do Homem-Aranha, pela Panini.

Homem-Aranha: Azul

Parte da trilogia das cores do escritor Jeph Loeb e do desenhista Tim Sale, Homem-Aranha: Azul é uma minissérie em seis edições que traz uma grande homenagem à fase de Stan Lee e John Romita no título do Homem-Aranha. Nela, vemos Peter nos dias atuais, casado com Mary Jane e relembrando dos momentos que passou com Gwen na juventude. Ele narra e grava suas memórias em fitas, enquanto vemos várias passagens dos primeiros anos do Aranha, como seus conflitos contra vilões como Duende Verde, Lagarto, Abutre, Rino, Kraven, entre outros. Também vemos sua vida particular, as reuniões com os amigos e a relação com a Tia May, além do triângulo amoroso que começava a formar com Gwen e Mary Jane. Tim Sale se apropria do traço charmoso de Romita Sr., mantendo suas marcas registradas, mas trazendo o frescor jovem que Romita passava com sua arte. Uma história extremamente emocional, uma carta de amor aos anos de ouro do Homem-Aranha. Foi republicada dentro da Coleção Oficial de Graphic Novels Marvel, da Salvat.

A Morte de Jean DeWolff

A relação do Homem-Aranha com a morte talvez seja uma das mais exploradas no universo dos super-heróis. Apesar de sua filosofia o manter como um herói correto e sempre presente, ela também faz com que suas falhas sejam sempre um peso grande demais para ser carregado. Talvez por isso, histórias que envolvem a morte de inocentes tenham um peso tão grande para Peter. Não foi diferente com o caso da capitã de polícia Jean DeWolff, assassinada misteriosamente. DeWolff era uma das poucas pessoas que apoiavam o Homem-Aranha, e sua morte o levou a uma intensa investigação para descobrir quem era o assassino de sua amiga. Uma trama simples, mas ao mesmo tempo instigante, que testou a moral de Peter mais de uma vez. A história conta ainda com o Demolidor e com Electro, em importantes participações. Publicada originalmente entre as edições #107-110 de Peter Parker, The Spectacular Spider-Man, a HQ foi o primeiro trabalho profissional do roteirista Peter David, que contou com os desenhos de Rich Buckler. Foi republicada no Brasil pela Panini, em um encadernado de capa cartonada em 2013, e está programada para sair dentro da Coleção Definitiva do Homem-Aranha, da Salvat.

A Última Caçada de Kraven

Sem dúvida uma das mais sombrias histórias do Aranha já produzidas, A Última Caçada de Kraven coloca o Amigão da Vizinhança em um duelo mortal contra Kraven, o Caçador. O roteirista J.M. DeMatteis entrega uma história densa, violenta e de certa forma desagradável de se ver em alguns pontos. A crueldade de Kraven, um vilão até ali pouco explorado, assusta o leitor, e as consequências de seu plano para acabar de vez com o Homem-Aranha são surpreendentes. Os desenhos de Mike Zeck complementam, dando um clima pesado e escuro, perfeito para a caracterização dos protagonistas da HQ desenvolvida por DeMatteis. Publicada em Web of Spider-Man #31-32, The Amazing Spider-Man #293-294 e The Spectacular Spider-Man #131-132, a icônica história saiu recentemente em um encadernado de luxo pela Panini e também foi republicada na Coleção Oficial de Graphic Novels da Salvat.

De Volta ao Lar

Depois de um período complicado de histórias duramente rejeitadas pelo público e pela crítica, era consenso na Marvel que uma renovação nas HQs do Escalador de Paredes era necessária. Para isso, foi chamado o roteirista de TV J. Michael Straczynski, que revolucionou o título ao recontar a origem do Aranha, adicionando conceitos místicos por trás dos poderes aracnídeos de Peter. Também criou um novo e imbatível vilão, o vampiro energético Morlun, e colocou Peter como um professor em sua antiga escola de ensino médio. Um ótimo ponto de partida para qualquer leitor de Homem-Aranha, De Volta ao Lar faz exatamente o que seu título sugere, colocando o Aranha novamente em tramas mais simples, mas não se esquecendo de sempre colocá-lo frente a grandes e novos desafios. A HQ conta ainda com os desenhos de John Romita Jr., em um de seus melhores trabalhos. O arco foi publicado originalmente nas edições de The Amazing Spider-Man (Vol. 2) #30-#35, e saiu no Brasil como a primeira edição da Coleção Oficial de Graphic Novels da Salvat.

Revelações

Dando continuidade ao seu trabalho no principal título aracnídeo, Straczynski e Romita Jr. trazem mais uma grande reviravolta na vida de Peter, fazendo com que a Tia May finalmente descobrisse a vida dupla do sobrinho como Homem-Aranha. Daí se segue uma história extremamente humana e emotiva, com Peter e May se entendendo depois de anos de segredos escondidos e com a maneira sempre carinhosa com que a amada tia lida com essa situação. Também é adicionado mais um conceito à mitologia do Aranha, com May revelando que também se sentia culpada pela morte do Tio Ben. Publicada entre as edição #37-39 de The Amazing Spider-Man (Vol. 2), Revelações foi republicada recentemente na Coleção Oficial de Graphic Novels da Salvat.


10 HQs da DC que merecem republicação no Brasil

Se depender do número de publicações e republicações em bancas e livrarias nacionais, os leitores de histórias de super-heróis vivem uma boa época para colecionar quadrinhos. No entanto, diversas fases clássicas ainda não ganharam uma edição recente e outras jamais foram lançadas na íntegra no país. Reunimos uma lista de títulos da DC Comics assinados por grandes nomes ou que representam fases importantes e que merecem voltar às prateleiras brasileiras em breve.

Superman por John Byrne

Após o fim da Crise nas Infinitas Terras, a DC reiniciou todo seu universo, e entre os vários clássicos que surgiram, um dos mais queridos é a fase de John Byrne no Superman. A reformação começou na minissérie “O Homem de Aço” e se estendeu nas mensais do personagem da época, sendo que essa fase é reverenciada ainda hoje, até mesmo nas HQs do Superman no Rebirth da DC. Além de levar o Homem de Aço a níveis que poucos conseguiram, Byrne deu a todos os personagens coadjuvantes uma personalidade única e marcante, principalmente Lex Luthor, que deixou de ser apenas um cientista maluco e se tornou um grande empresário genial e corrupto. Essa fase foi publicada pela editora Abril e, muito tempo depois, a Mythos e a Eaglemoss republicaram  a minissérie “O Homem de Aço”, mas a fase do Byrne nas mensais do Superman nunca foi republicada.

Esquadrão Suicida por John Ostrander

Algumas coisas ruins podem gerar bons frutos, então por que não aproveitar o polêmico filme do Esquadrão Suicida para lançar a aclamada fase escrita por John Ostrander, o grande criador do grupo? Reunindo diversos vilões da editora, Ostrander escreveu 66 edições repletas de suspense, espionagem e reviravoltas. Vale lembrar que a Arlequina não existia na época, mas as personagens femininas de Ostrander superaram facilmente o restante do grupo, principalmente Amanda Waller e Barbara Gordon, a ex-Batgirl que assumiu a identidade Oráculo. O Esquadrão Suicida de Ostrander foi publicado em partes pela Abril, então, para tirar o gosto ruim que o filme deixou, a Panini poderia publicar a fase, não?

Arqueiro Verde por Mike Grell

Graças ao sucesso da série, o Arqueiro Verde ganhou uma legião de fãs brasileiros, e já que a Panini publicou a fase que o herói se junta ao Lanterna Verde em uma viagem pelo EUA, por que não publicar a as histórias feitas por Mike Grell? O autor e desenhista foi um dos primeiros a escrever uma HQ com o selo “Recomendado para leitores maduros”, o que lhe deu toda liberdade para focar em temas mais pesados, como a violência contra as mulheres, as drogas e a hipocrisia política, aumentando ainda mais a carga politizada do personagem, que sempre defendeu as causas sociais. A fase do Grell começou na minissérie “Caçadores”, publicada aqui pela Abril, sendo que algumas edições da mensal foram publicadas pela editora. Apesar da Eaglemoss ter anunciado que “Caçadores” será publicado em sua coleção, seria muito bom se a Panini publicasse toda a fase do autor.

Starman por James Robinson

A década de 1990 foi um período bem conturbado e sombrio para quase todas as HQs de heróis, mas graças aos deuses dos quadrinhos, Starman de James Robinson trouxe um pouco de brilho para a época. Diferente de quase todos os personagens listados aqui, Jack Knight nunca quis ter uma vida cheia de aventuras, mas como o sangue da família fala mais alto, o filho caçula de Ted Knight, o primeiro Starman, se vê obrigado a assumir o título e defender a sua cidade.  Aqui no Brasil, Starman foi publicado por 3 editoras diferentes, sendo que nenhuma delas terminou a série e, em 2008, a Panini  lançou o primeiro encadernado da série, mas, infelizmente, nunca mais lançou nada. Como a esperança é a última que more, fica aqui o apelo para a editora dar mais uma chance a esse incrível personagem.

Liga da Justiça por Grant Morrison

Mesmo tendo Grant Morrison – um dos maiores autores de todos os tempos – e os pesos pesados da Liga da Justiça, essa fase teve só um encadernado publicado pela Panini. O que é uma baita injustiça, pois esse é um dos melhores trabalhos do careca escocês. Brincando com os medalhões da editora e toda a mitologia da DC, Morrison mostrou que Superman, Mulher-Maravilha, Batman, Aquaman, J’onn J’onzz, Lanterna Verde (Kyle Rayner) e Flash (Wally West) são as novas versões dos deuses do Olimpo. Item mais do que essencial para todos os fãs da equipe ou simplesmente de boas histórias. Essa fase foi publicada aqui na antiga mensal Os Melhores do Mundo, pela Abril.

Batman por Doug Moench e Kelley Jones

O guardião de Gotham sempre tem um pé voltado para histórias sombrias e macabras, e a dupla Doug Moench e Kelley Jones exploraram como ninguém essa faceta do Batman. Tramas envolvendo magia negra, circo de aberrações e crimes bizarros nunca foram tão divertidas e assustadoras quanto as produzidas por Moench e Jones. Aliás, falando no desenhista, o Batman de Kelley Jones faz jus ao título de Cavaleiro das Trevas, com sua capa e orelhas que lembram muito mais um ser que saiu do inferno do que um herói de quadrinhos. Essa fase foi parcialmente publicada por aqui e é até hoje querida pelos fãs.

Hitman por Garth Ennis e John McCrea

Os irlandeses Garth Ennis e John McCrea são dois perturbados, isso é fato. Mas são dois perturbados que sabem fazer ótimas histórias de humor negro recheadas de violência, e a melhor prova disso é a série Hitman. Protagonizada por Tommy Monaghan, um mercenário de bom coração, Ennis e McCrea não poupam ninguém de Gotham, usando e abusando de piadas grotescas que fariam o pessoal do Jackass bem orgulhoso. Mesmo com as cenas escatológicas, a HQ tem diversos momentos tocantes, fazendo até mesmo o mais cruel matador de aluguel chorar. A HQ foi parcialmente publicada por diversas editoras, mas nenhuma concluiu a série.

Questão por Dennis O’Neil

Dennis O’Neil é um autor que ficou famoso por abordar temas sociais e políticos em suas histórias, mas foi na série do Questão que o autor expôs todas as suas ideias, desde a sociedade americana, a corrupção política e a situação mundial. O autor aproveitou o fato de Vic Sage trabalhar no telejornal de dia e lutar como o herói sem rosto chamado Questão à noite para tocar na ferida da América, mas apesar do forte cunho político, a HQ não chega a ser panfletária. Um fato bem curioso é que junto com a fase de Mike Grell, a fase de O’Neil no personagem também foi uma das primeiras HQs de heróis direcionada para o público adulto. A Abril publicou as primeiras edições na saudosa revista Caçadores, sendo que a Panini até chegou a publicar o primeiro volume da série, mas devido às poucas vendas, a editora nunca mais publicou nada do personagem.

O Quarto Mundo de Jack Kirby

Difícil fazer uma lista de HQs sem citar Jack Kirby. O rei foi um dos (se não “O”) maiores criadores e mentes criativas da Marvel, e na DC não foi diferente. Kirby criou toda a mitologia do Quarto Mundo, que engloba diversas HQs, entre elas os Novos Deuses, Senhor Milagre e o Povo do Amanhã, e também vários personagens interessantes, como o demônio Etrigan, Kamandi, OMAC e, principalmente, Darkseid, um dos maiores vilões da DC e dos quadrinhos. Claro, iria ser sensacional se a Panini publicasse tudo do Kirby, mas se a editora publicasse Os Novos Deuses, que foi publicado em preto e branco pela Opera Graphica, o Brasil inteiro iria agradecer.

Mulher Maravilha por Greg Rucka

A atual mensal da Mulher-Maravilha escrita por Greg Rucka é uma das mais aclamadas pelos fãs no Rebirth, principalmente pela coragem de ter mostrado que a personagem já se relacionou com outras mulheres, mas, o que poucos sabem, é que Rucka já escreveu para a personagem antes, e essa fase não deve em nada para as edições atuais. Explorando todo o potencial da amazona, Rucka fez uma passagem poderosa, deixando bem claro a sua habilidade em escrever personagens femininas. Com o filme da heroína vindo por aí, nada mais justo do que presentear os fãs com essa fase (desculpe o trocadilho) maravilhosa, que foi publicada pela Panini na mensal Superman & Batman e  em edições especiais.


Origens do Arkham, um misto de livro-jogo e HQ digital

Pra quem joga ou já jogou RPG, os livros-jogos são velhos conhecidos. Trata-se, pra quem nunca ouviu falar, de um tipo de livro em que a história é interativa, mais ou menos como uma aventura de RPG que dispensa o mestre e permite que se jogue sozinho.

Tais livros contam uma história que, ao chegar a certos momentos chave, pede ao leitor que decida por um caminho ou outro. Dependendo da escolha, o leitor é direcionado para uma página diferente, que prossegue na aventura com base nas decisões tomadas. São livros construídos de uma forma multilinear, pois diferentes decisões acabam por construir diferentes experiências narrativas.

Tá, mas o quê isso tem a ver com quadrinhos digitais?

Na coluna de hoje vou falar um pouco sobre a HQ Batman: Origens do Arkham, que basicamente segue uma estrutura de livro-jogo.

Lançada originalmente para dispositivos móveis com o título Batman: Arkham Origins, traz uma história detetivesca baseada na aclamada série de games do Batman, iniciada com Arkham Asylum em 2009.

Não é pré-requisito para a compreensão da história que se tenha jogado algum dos games. Na verdade, a HQ pode inclusive servir como uma porta de entrada para esse universo.

Batman: Arkham Origins foi desenvolvida pela Madefire, uma empresa especializada em motion comics – ou quadrinhos digitais, como particularmente prefiro chamar. O app de mesmo nome disponibiliza diversas HQs digitais, tanto originais como baseadas em franquias famosas, como World of Warcraft, Injustice, Overwatch e outras.

B:AO apresenta uma história multilinear, como dito anteriormente, e utiliza uma série de recursos hipermidiáticos para propôr uma maior imersão e interatividade com o leitor.

Navega-se pelos quadros ao se tocar em uma seta à direita da tela. Os quadros vão compondo uma página conforme o leitor avança, criando uma diagramação dinâmica, recurso comumente aplicado em HQs digitais.

Em alguns quadros, animações simples são apresentadas. No geral, apenas algum movimento básico do personagem para destacar a ação.

Nesse sentido, um recurso interessante utilizado nessa HQ é a animação de foco. O destaque de uma cena muda ao mudar o foco da “câmera”, deixando o restante borrado. Dessa forma, o leitor é guiado por diferentes aspectos de uma composição, conforme a necessidade narrativa.

Na minha opinião, grande parte das animações utilizadas nessa HQ acabam por ser apenas “enfeites”, ou seja, cumprem apenas uma função estética e não necessariamente contribuem para a narrativa.

Quanto à estrutura narrativa, a HQ possui características semelhantes a um jogo, pois o leitor deve navegar pela história, escolhendo os melhores caminhos para solucionar a investigação. Existem diversas possibilidades de fracasso, o que leva a telas de dead end, que exigem que o leitor retorne a um ponto anterior para retomar a aventura.

Este sistema de falha e retorno acaba por se tornar cansativo, talvez pela sua simplicidade. No geral, são possíveis dois caminhos. Quando se toma um que leva a um dead end, retorna-se à cena da escolha e basta tomar o outro caminho para seguir. Essa estrutura fica repetitiva e não reflete em uma construção de experiência realmente única. Para terminar a história, o caminho não muda muito – a diferença para cada leitor é com quantos dead ends ele irá se deparar. Além disso, pude observar alguns “erros de continuidade”, ou seja, cenas que faziam referência a situações que teriam acontecido em um caminho diferente do qual escolhi, e que acabavam não fazendo sentido. Basicamente, um problema de estruturação da narrativa.

No ano de 2014 nos EUA e 2016 no Brasil, foi lançada uma adaptação impressa da HQ digital. E é aqui que a semelhança com os livros-jogos fica mais evidente.

Obviamente, na versão impressa não estão presentes os recursos multimídia, como sons e animações. A solução para a interatividade narrativa foi a mesma dos livros-jogos: ao chegar em uma “bifurcação”, uma caixa de texto diz para qual página o leitor deve seguir para continuar a história de acordo com sua escolha.

É difícil manter a atenção do leitor de modo a evitar que ele espie a página seguinte, especialmente quando a decisão se dá em uma página esquerda (como não olhar a da direita?). Essa dificuldade não existe na versão original, pois os quadros só vão aparecendo em tela conforme as escolhas tomadas.

Outro problema da versão impressa em comparação à digital é que, ao se chegar em um dead end, não existe uma referência de como prosseguir. Para manter a estrutura da HQ digital, deveria ao menos ser dito para qual página o leitor deve voltar para retomar a história, caso ele não queira começar novamente do zero.

Sempre defendo que os recursos digitais devem vir como contribuição para uma boa história, e não apenas como enfeite. A possibilidade de aproximar os quadrinhos de games no sentido de se propor uma narrativa interativa é bastante interessante, e creio que funciona melhor no ambiente digital do que na impressão, como é o caso de B:AO.

No entanto, o que tenho observado nos investimentos das grandes editoras em HQs digitais é a falta de esforço em contar histórias realmente memoráveis. Ainda aguardo um projeto de HQ digital interativa que invista energia em contar uma boa história acima de qualquer recurso multimídia, quem sabe utilizando nomes de peso da indústria para realmente reforçar esse mercado.

Batman: Origens do Arkham é um esforço positivo em uma direção interessante. A história é simples, mas tem uma estrutura com bom potencial. Poderia ser mais se houvesse um maior cuidado narrativo e se a interatividade realmente propusesse diferentes experiências, quase como em um game, e não uma linearidade disfarçada de multilinearidade.


Dez dos melhores retcons das HQs de super-heróis

Como já apontamos aqui, os retcons – recurso de roteiro em que se insere ou se retira elementos e conceitos na cronologia de um personagem de forma retroativa – nem sempre dão certo. No entanto, as tentativas de se consertar ou simplesmente enriquecer a história de um personagem algumas vezes alcançam seus objetivos tão bem que são aceitas abertamente pelos leitores e passam a integrar a cronologia de maneira orgânica e coerente.

Selecionamos aqui 10 retcons que foram muito bem-vindos para as HQs de super-heróis (pode conter spoilers!).

O Monstro do Pântano não era Alec Holland

Originalmente criado pelo roteirista Len Wein e pelo artista Bernie Wrightson, o Monstro do Pântano era o cientista Alec Holland, que, ao entrar em contato com suas experiências com plantas e afundar no pântano durante uma explosão, emergiu como uma criatura vegetal monstruosa. Na segunda série do personagem, durante os anos 80, Alan Moore assumiu a revista na edição 20 e, na emblemática história “Lição de Anatomia”, remodelou toda a origem do Monstro. A criatura não era Alec Holland transformado, mas um ser próprio do pântano que pensava ser o cientista. A partir dessa ideia, Moore criou toda uma nova mitologia para o personagem, trazendo conceitos como o “Verde”, o Parlamento das Árvores e os Elementais da Terra.

Os heróis da Era de Ouro da DC viviam em uma Terra paralela

Nos primórdios da Era de Prata, o editor da DC Comics Julius Schwartz trazia os super-heróis de volta ao topo, revitalizando antigos personagens e criando novos. O primeiro deles foi o Flash, agora um cientista chamado Barry Allen que ganhou seus poderes em um acidente com um raio e produtos químicos. Logo na primeira edição, é estabelecido que Jay Garrick, o primeiro Flash, era um personagem de quadrinhos no mundo de Barry, servindo inclusive de inspiração para a sua identidade heroica. No entanto, em The Flash #123, na icônica “Flash de Dois Mundos”, ao acelerar a uma incrível velocidade, o Flash vai parar em outra dimensão, onde encontra Jay Garrick. Essa Terra se chamaria Terra-2, e seria o lar de todos os demais heróis da Era de Ouro da editora. Assim era estabelecido o Multiverso da DC Comics.

O Visão não era o Tocha Humana original

O Visão era um androide construído pelo vilão robótico Ultron para lutar contra os Vingadores, mas a criatura se voltou contra o criador, e o Visão se tornou um dos principais heróis a participar da equipe. Durante a fase do roteirista Steve Englehart na revista, foi revelado que o Visão foi feito a partir do corpo do Tocha Humana original, o herói androide da Era de Ouro, e tinha os padrões mentais de Simon Willians, o Magnum, que haviam sido guardados em computador quando se acreditou que ele havia morrido. John Byrne decidiu mudar a origem do herói, e, em seu run na revista dos Vingadores da Costa Oeste, revelou que Immortus, o vilão responsável pela linha do tempo, havia criado outro Tocha, e esse foi o usado por Ultron. Ao mesmo tempo, descobriu-se que o Tocha original continuava intacto. Ele voltou a funcionar com a ajuda do Visão.

Bucky não morreu na batalha contra o Barão Zemo

Quando Stan Lee e Jack Kirby resgataram o Capitão América nas páginas de Avengers #4, estabeleceram também que o parceiro mirim do herói na Segunda Guerra, Bucky, havia morrido durante um confronto com o Barão Zemo ao impedir que uma bomba lançada pelo vilão caísse nos Estados Unidos. Ed Brubaker assumiu a revista do Capitão em 2005, e fez o que ninguém esperava: trouxe Bucky de volta à vida. Ele revelou que Bucky foi resgatado do acidente pelo governo soviético. Transformado em um assassino com constantes lavagens cerebrais, treinamento e um braço robótico, trabalhou em várias missões secretas para os soviéticos. Como sempre era colocado em criogenia depois das missões, recebeu o codinome de Soldado Invernal, e mal envelheceu durante esse período. Quando o Capitão descobriu o destino do amigo, fez com que ele se recordasse de sua antiga vida e voltasse para o lado dos heróis.

Capitão América e Bucky não voltaram da Segunda Guerra Mundial

A ideia de Stan Lee de trazer o Capitão América para os Vingadores nos anos 60 acabou criando incongruências com a cronologia da Era de Ouro, quando essa foi incorporada à Era de Prata. Ao fazer com que o Capitão e o Bucky não tivessem voltado aos EUA depois da Segunda Guerra, Lee conseguiu dar uma personalidade interessante a Steve Rogers: um homem fora de seu tempo, tendo que se adaptar a uma nova época e enfrentar o trauma de se sentir responsável pela morte do parceiro. No entanto, o Capitão havia tido outras publicações depois do fim da Guerra. Mais tarde, outros roteiristas tentaram explicar quem foram o Capitão América e o Bucky neste período, com destaque para William Burnside, um homem obcecado pelo Capitão que acabou se tornando um vilão, e Jack Monroe, que acompanhou Burnside como Bucky e depois virou o herói Nômade.

Jean Grey não morreu na Saga da Fênix Negra

Considerada uma das melhores histórias de todos os tempos da equipe mutante, a Saga da Fênix Negra não terminou como seus criadores gostariam. Chris Claremont e John Byrne foram obrigados por pressão editorial a matar Jean Grey no final da história, pois, para o editor-chefe Jim Shooter, não era moralmente correto a personagem não ser punida pelas atrocidades que havia cometido como Fênix Negra. Algum tempo depois, em um retcon, foi revelado que, ao ser dada como morta depois de tentar salvar os X-Men em uma missão, o corpo de Jean ficou em estase num casulo, escondido no fundo de um lago onde a nave que transportava a equipe caiu. Nesse momento, a Força Fênix moldou um avatar dela com sua personalidade e memórias, se passando por Jean por um período, até se suicidar na Saga da Fênix Negra. Os Vingadores depois acharam o corpo de Jean e, com a ajuda do Quarteto Fantástico, trouxeram a heroína mutante de volta.

Hal Jordan não se tornou um vilão em Crepúsculo Esmeralda

Na história Crepúsculo Esmeralda, o Lanterna Verde Hal Jordan enlouquece depois que Mongul e o Superman Ciborgue destroem Coast City. Desesperado para reconstruir sua cidade, o Lanterna tenta utilizar o poder de seu anel energético, o que é desaprovado pelos Guardiões. Com o intuito de utilizar a Bateria Central de Oa em seus planos, Jordan aniquila os Guardiões e toda a Tropa dos Lanternas Verdes, assumindo a identidade de Parallax. Depois Jordan ainda tentaria reformular o universo em Zero Hora e acabou se sacrificando para salvar o sol terrestre em Noite Final, assumindo o posto do Espectro após sua morte. Em Lanterna Verde: Renascimento, Geoff Johns reformulou o passado de Jordan, trazendo ele de volta à vida e revelando que Parallax era uma antiga entidade amarela do medo, que se apossou do Lanterna e o fez cometer todos os seus crimes. As premissas de Johns nessa história iniciaram uma rica e bem-sucedida fase dos Lanternas Verdes.

A nova Vespa é a filha de Hank Pym com sua primeira esposa

Durante o run de Mark Waid na revista dos Vingadores, All-New, All-Different Avengers, uma nova Vespa surge e se apresenta para a equipe. Logo se descobre que se trata de Nadia Pym, a filha de Hank Pym, o primeiro Homem-Formiga, com sua primeira esposa, Maria Trovaya. Maria apareceu apenas uma vez, na clássica Tales to Astonish #44, de 1963, como uma refugiada húngara que havia escapado de seu país para fugir do estado soviético. Quando ela e Hank visitaram a Hungria em sua lua-de-mel, Maria foi capturada e morta por agentes do governo, como uma lição por sua fuga. Nadia nasceu enquanto Maria estava em cativeiro e acabou sendo criada em uma Sala Vermelha, onde se treinavam meninas para se tornarem espiões. Nadia mostrou um grande talento para genética e, quando descobriu sobre seu pai, fez de tudo até conseguir escapar da Sala Vermelha e encontrá-lo. No entanto, Pym havia sido dado como morto quando ela finalmente chega aos EUA. Como forma de honrar o legado do pai, Nadia utiliza peças dos trajes de Pym e se torna a nova Vespa.

Wally West não foi apagado da cronologia depois dos eventos de Ponto de Ignição

Toda a construção do reboot do Universo dos Novos 52 e sua relação com o seu antecessor, o Universo Pós-Crise, causa dúvidas e confusão nos leitores até hoje. No one-shot Universo DC Renascimento, um pouco desse mistério é desvendado. O Wally West original, que foi o Flash titular por quase todo o período Pós-Crise, foi um dos vários personagens apagados no reboot. Ele ressurge nesta história, depois de tempos preso na Força de Aceleração. Ele revela que o Universo DC vem sendo modificado por uma força externa, que tirou dez anos da cronologia original do Universo Pós-Crise, alterando eventos e apagando personagens, o que explica todas as mudanças depois de Ponto de Ignição e a criação do novo universo. Ainda é explicado que o Wally West mais jovem que já havia aparecido nos Novos 52 era um primo do Wally mais velho, sendo que ambos ganharam o mesmo do avô, Wallace. Atualmente, o Wally original segue como Flash investigando e tentando achar o responsável pelas alterações cronológicas.

O Superman Pós-Crise viveu escondido no universo dos Novos 52 por 10 anos

Um retcon em constante construção, a presença do Superman do Universo DC Pós-Crise no Universo dos Novos 52 começou com a saga Convergência, onde vários personagens de diversas realidades e momentos da história da DC Comics foram reunidos em um planeta senciente chamado Telos. Dois desses personagens eram o Superman e a Lois Lane do Universo Pós-Crise. Após os eventos de Convergência, foi revelado que o casal foi parar no universo dos Novos 52 nove anos no passado. Durante esse período, Superman atuou como herói nas sombras, nunca se revelando. Depois da morte do Superman dos Novos 52, o Superman Pós-Crise assumiu o posto do herói. Ainda nos recentes eventos de Superman: Reborn, é sugerido que Clark se dividiu em dois seres, um azul e um vermelho, durante o Ponto de Ignição, sendo que o azul foi parar no mundo de Telos e o vermelho sofreu as mudanças dos Novos 52. Em Superman: Reborn, os dois voltam a ser um só, o que reescreve toda a cronologia do herói, que vem sendo desvendada atualmente nas revistas em publicação.

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A glória e o esplendor de José Luis García-López

Nenhum outro desenhista captou a glória e o esplendor de ser um super-herói como fez José Luis García-López. O poder e a imponência sem esforço, o olhar sempre cheio de boa vontade, a beleza suave e quase indiferente, própria dos legítimos deuses. Seus rostos dizem que salvar o mundo é um prazer – você não precisa nem agradecer. Eles invocam a inocência da era de ouro, inspiram autoconfiança, serenidade e elegância acima de tudo, e são a representação ideal da nossa mais doce utopia: um ser humano belo, justo e perfeito, melhor do que todos nós. O verdadeiro super-herói afinal, em toda sua glória e esplendor.

Convidado internacional da ComicCON RS 2017 – a maior convenção de quadrinhos e cultura pop do Rio Grande do Sul –, García-López é considerado pelo público e por seus próprios pares um dos maiores mestres da indústria dos quadrinhos. O artista espanhol redefiniu a figura dos super-heróis no imaginário popular ao elaborar o Guia de Estilo da DC Comics, servindo de referência para as gerações que vieram depois. Sua arte inconfundível se espalhou pelo mundo em camisetas, cadernos e toda sorte de produtos licenciados da editora, o que ajudou a popularizar de vez personagens como Batman, Super-Homem e Mulher-Maravilha. E hoje, assim como eles, ele é uma lenda.

Símbolo americano, sotaque espanhol

Mas como surge uma lenda? Da mesma forma que seus desenhos, García-López sempre soa leve e despretensioso, e faz tudo parecer muito simples. Quando descreve sua vida gosta de repetir que teve sorte, e que não sabe bem por que o escolheram para a missão de produzir as versões definitivas dos mais icônicos super-heróis de todos os tempos – como se até hoje não se desse conta do tamanho de suas habilidades. E não pense que aos 68 anos aceita fácil o título de lenda viva. “Nunca prestei muita atenção à projeção do que eu estava fazendo. Só nos últimos anos, graças às redes sociais, é que entendi que tinha fãs. Não costumo pensar sobre isso, eu apenas faço meu trabalho, algo que gosto e que tento fazer tão bem quanto posso”. Mas os fãs o consideram uma entidade suprema a ser reverenciada, e costumam se referir a ele com a benção louvado seja seu nome. “Francamente, deve ser uma piada, imagino que seja só uma brincadeira”, minimiza o artista em uma entrevista à revista Época em 2014, quando esteve no Brasil para a CCXP.

É curioso pensar que um dos responsáveis por ajudar a imortalizar esses símbolos norte-americanos tão fortes dentro da cultura pop seja um “imigrante”, como seu nome tipicamente latino denuncia. Nascido em Pontevedra, na Espanha, cresceu na Argentina e lá iniciou sua paixão pelos quadrinhos, admirando artistas nacionais como José Luis Salinas e Alberto Breccia, mas já ligado nos gibis de super-heróis que chegavam dos Estados Unidos. Fã de Batman, aos 14 anos começou a publicar os primeiros trabalhos apresentando seus esboços em todas as empresas de Buenos Aires, até chegar à importante editora Columba e começar a mandar ilustrações para um agente de Connecticut, sua ponte inicial com a América.

Em 1974, com 20 e poucos anos, foi para Nova York em busca do sonho americano levando apenas a sorte e o endereço da DC Comics no bolso. “Mas eu não consegui encontrar o prédio. Me disseram que eles tinham se mudado para o Rockfeller Center e eu não sabia que se tratava de um complexo de muitos edifícios”, conta o desenhista. Com a ajuda do artista e seu conterrâneo Luis Dominguez, percorreu o roteiro das editoras e logo de cara conseguiu um trabalho na Western Publishing Company e também a oportunidade de colorizar uma história do Super-Homem para a DC. E assim seu destino foi traçado quase que por acaso, pela ordem do mapa. “Por fim, ele me levou até a Marvel e perguntou se eu queria uma indicação para trabalhar ali. Eu recusei: já tinha muito trabalho a fazer”.

O cânone da DC Comics

José Luis García-López não precisou de muitos anos na indústria norte-americana para impressionar os altos escalões da DC. Até o começo dos anos 1980, já havia atuado em títulos clássicos como Action Comics e Detective Comics, passou por outros como Jonah Hex e Hercules Unbound e fez especiais marcantes como Superman vs. Wonder Woman e a edição de Batman vs. Hulk no famoso crossover com a Marvel. Não importava qual fosse a missão, ele dava conta com desenhos limpos e cheios de classe, proporções impecáveis e muito carisma.

Talvez tenha sido justamente por isso que, sem aviso, em 1982 foi escolhido pelo editor Joe Orlando para elaborar o Guia de Estilo da DC Comics, algo que de simples manual interno tornou-se com o tempo um verdadeiro cânone, o catecismo de todos os desenhistas que vieram depois. O significado disso era enorme: García-López imortalizaria a versão ideal de alguns dos personagens mais populares da história, os super-heróis da editora das lendas como eles foram feitos para ser e poderiam seguir sendo por toda a eternidade.

O feito significou um marco em sua carreira e na própria dinâmica da editora, reconhecidamente uma das empresas a melhor explorar os quadrinhos em outras áreas, como a televisão, o cinema, a animação, a publicidade e o mercado em geral, com produtos licenciados que hoje dominam desde os ambientes especializados até as lojas de departamentos. E foi com o traço dele que a DC escolheu popularizar sua marca ao redor do mundo e ao alcance dos fãs. “O resultado é que vejo meu trabalho por todo lado. Quando vou ao supermercado, quando entro em uma loja. Meus desenhos estão nas lancheiras, em caixas, camisetas, nem sei mais. Os desenhos daquele guia de 1982 continuam a ser usados, acho que é porque chegamos a um design muito leve, muito alegre, até o Batman aparece sorrindo!”, brinca o artista.

O homem e a lenda na ComicCON RS

De lá pra cá García-López assinou diversos trabalhos aclamados, como Novos Titãs, Atari Force, Cinder e Ashe, Estrada para a Perdição e Twilight, além de uma série de atuações esporádicas em títulos de quase todos os personagens da DC Comics. E ainda que afirme que o primeiro guia de estilo foi aquele em que teve maior liberdade para fazer o que gostaria, produziu diversas atualizações e novas versões do manual ao longo dos anos, até hoje a sua realização mais marcante. “Mas o incrível sobre García-López é que ele é muito mais do que apenas um artista de ‘poses’. Suas figuras têm sempre uma sensação de dinâmica, e mesmo quando ele desenha um simples movimento de virada, parece menos com um documento de referência e mais como se o próprio Super-Homem tivesse feito uma pausa ali para ter sua foto registrada antes de correr para ir salvar o mundo novamente”, define de forma certeira Chris Sims, do site Comics Alliance.

Além desse talento incomparável, não há uma menção a García-López que não venha acompanhada de elogios à sua personalidade. Humilde e atencioso, sempre disposto a conversar e deixar que os fãs testemunhem com seus próprios olhos a forma como materializa os heróis no papel, nos últimos anos o mestre veio ao país três vezes para participações na CCXP e demonstrou incrível sintonia com os brasileiros. A ComicCON RS traz o artista pela primeira vez ao Rio Grande do Sul, entre os dias 5 e 6 de agosto, para entrevistas, debates, presença no artists alley e sessões de autógrafos, proporcionando ao público essa imperdível chance de conhecer o homem e a lenda.

Ingressos à venda no site www.comicconrs.com.br/ingressos


Redação Multiverso é o site colaborativo de produção de conteúdo sobre quadrinhos
da Produtora Multiverso, em uma iniciativa paralela e complementar à realização da
ComicCON RS – principal convenção de quadrinhos e cultura pop do Rio Grande do Sul.