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Entrevista: Kim W. Andersson no Brasil!

Claiton Silva

Autor do bem recebido quadrinho de terror adolescente Alena, lançado aqui este ano pela AVEC Editora, o autor sueco Kim W. Andersson esteve no Brasil na última semana, e foi um dos convidados estrangeiros da 63ª Feira do Livro de Porto Alegre. O canal BlogBuster esteve presente e bateu um papo descontraído com o quadrinista, que vem ganhando destaque internacional com traduções de sua obra, além da adaptação de Alena para o cinema em 2015. Atualmente ele produz a aventura de ficção científica Astrid pela editora americana Dark Horse, que também tem planos de ser publicada no Brasil. Em entrevista ao canal, Kim fala sobre anti-heróis, Alan Moore e protagonistas femininas, confira.

Claiton: Antes de mais nada, peço desculpas pelo meu inglês Joel Santana. E parabéns, eu me diverti com o quadrinho. Gostei muito de Alena.

Kim: Antes de mais nada, eu já ouvi inglês pior. E muito obrigado.

C: Você é um cara muito legal.

K: Até agora!

C: O seu primeiro trabalho “Love Hurts”, uma série de contos. E li algumas matérias a respeito. A HQ ainda está para ser lançada no Brasil, esperamos que pela AVEC, o Artur é nosso amigo, um cara bacana. Fale um pouco sobre “Love Hurts”.

K: Quando eu comecei a produzir HQs, eu era como muitos outros quadrinistas iniciantes, queria criar um projeto de um grande épico, com centenas de páginas. Cheguei a ter um projeto desses, mas o meu mentor, Peter Snejbjerg, um quadrinista dinamarquês, que trabalhou em títulos como Batman, B.P.R.D., Preacher, um verdadeiro desenhista de quadrinhos…

C: Preacher é f…

K: É, né?

K: Ele me disse: faça quadrinhos pequenos. Essa é a única maneira de você aprender a criar histórias em quadrinhos. Você precisa terminar uma história para aprender com ela. E é muito mais fácil finalizar uma história pequena do que uma grande. Então eu finalmente o ouvi e criei essa história pequena chamada “Love Hurts”. E eu criei algumas limitações. Elas são todas romances, são todas histórias de horror e todas possuem uma reviravolta. Geralmente eu uso diferentes identidades de homens e mulheres e equidade de gênero, o que eu acho bastante interessante. Mas claro, como é uma história curta, não há como ir muito a fundo nos personagens, você tem que lançar mão de arquétipos, personagens que nós já meio que “conhecemos”.

C: E há mais liberdade. Eu posso imaginar o que quiser a respeito da história…

K: Sim, sim.

C: Recentemente eu li “A vida secreta de Londres”, que traz Neil Gaiman, Alan Moore e outros autores. Histórias pequenas que são como um soco no estômago. Qual a principal diferença entre escrever “Alena” e essas histórias mais curtas?

K: Antes de mais nada, eu fiz uma porção de histórias curtas antes de começar a fazer “Alena”, porque eu queria sentir que estava pronto para começar. É um esforço gigante produzir uma graphic novel, levas anos para construir um livro como esse.

C: Você disse. Um ano e meio apenas para desenhá-la.

K: Sim. Apenas para desenhar.

K: Mas é desenhar, arte-finalizar, colorir. É basicamente tudo após terminar o roteiro. Leva de um ano e um ano e meio. É louco, né? O que eu posso fazer em uma história grande, e não é possível fazer em uma curta, é abordar temas mais sérios. Porque você precisa ser mais cuidadoso quando aborda temas mais sérios. Você precisa respeitar e dar mais tempo a eles, pois eles são mais difíceis de trabalhar.

C: Você tem a necessidade de construí-los de uma forma mais crível.

K: Sim. Eu posso criar personagens que não são os personagens típicos em uma história. Eu posso realmente dar a eles personalidade, para que eles pareçam mais humanos.

C: Fugir dos estereótipos.

K: Sim, fugir dos estereótipos. O que eu também fiz nas minhas histórias mais curtas, porém de uma forma muito mais brutal. Eu apenas os subvertia. Desta vez, eu pude conhecer meus personagens de uma forma diferente. Dá muito mais trabalho, é claro, pois é tão mais extenso, mas você acaba trabalhado a partir de uma perspectiva mais profunda de você mesmo. São temas mais sensíveis. Eu sinto que quando crio uma história curta é mais como se divertir. E eu adoro criar essas histórias, elas são super inspiradoras. Eu fiz isso por anos, mensalmente. Elas eram publicadas em uma revista. Então, em um mês eu assisti muito a filmes de kung-fu. Eu estava tão envolvido com o tema que eu fiz uma HQ sobre kung-fu. Uma HQ que misturava romance, horror e kung-fu. No mês seguinte, eu estava muito envolvido com sereias. Então eu fiz uma HQ romântica de horror com sereias. Eu fazia algo que estava relacionado àquilo em que eu me envolvia na época. Era muito inspirador. E foi a melhor maneira para mim aprender a ficar bom nesse lance de fazer quadrinhos.

C: E tudo isso traz a você uma base de fãs estruturada a partir de meninas adolescentes. Alena foi uma HQ feita pensando nessas garotas?

K: Eu acho que a história de “Alena” vem crescendo dentro de mim há muito anos. Eu vinha meio que “escrevendo com a mão esquerda”, enquanto realizava outros projetos for muitos anos antes de decidir “Isso é o que eu vou fazer!” e, como você disse, “Love Hurts” se tornou popular entre as meninas adolescentes. E eu levei isso para o meu coração. E fiquei muito feliz com isso. Eu as encontrava em sessões de autógrafos e elas eram tão legais, tão queridas. Eu senti realmente uma conexão com essas garotas. Então foi algo como “Eu vou dar a vocês, garotas, uma história”. Mas é claro é apenas uma questão de gênero. Você irá apreciar tanto quanto elas. A história parte de mim e eu sou um homem. Apenas “vesti” os personagens como garotas. Bullies! Eu acho que essas experiências do bullying e equidade sexual ou orientação sexual é tão universal, se aplica tanto a garotas quanto a garotos. Simplesmente, gosto de desenhar garotas.

C: Focando no roteiro. Alena começa como um filme de adolescente normal. Nós temos a garota que possui um o trauma, nós temos os bullies e, como eu disse antes, de repente tudo fica insano! Como foi o processo?

K: Eu acho que uma das razões para que isso tenha ocorrido é o fato de que eu estava muito influenciado por filmes de horror, muitos filmes americanos de horror. E eu senti que, subconscientemente, eu estava tentando mesclar muito subgêneros diferentes de horror, e eu tentei usar muitos deles. Eu acho que “Alena” começa dentro de um desses subgêneros, como uma história de fantasmas, e então evolui para uma outra, numa espécie história de horror adolescente e assustadora.

C: Na verdade, teve uma hora em que eu achei que Josefin estava viva. “Eu disse a mim mesmo: Essa mina tá viva!”

K: E meio que tudo termina como um verdadeiro “splatter movie”. Como um clássico “splatter movie” dos anos 80, você lembra desses filmes…

C: Eu li em uma entrevista que afirmou que “Alena” foi como uma terapia.

K: Há muito de mim no livro. Definitivamente, eu acho que há algo meu em todos os personagens. É claro que eu nunca matei ninguém, espero que você perceba isso.

C: Eu espero que não.

K: Ainda. Hahaha!

K: São questões sobre as quais eu pensava em desenhar. Como eu mencionei, é uma história que eu tinha em mente. De um certo modo faz sentido, pois eu era muito jovem. É muito íntimo, foi muito terapêutico escrever. Quando fizemos o filme sobre o livro eu fui convidado a voltar e rever o roteiro e todo meu trabalho relacionado ao livro. Eu reli tudo e eu percebi que aquela era uma pessoa diferente daquela que eu sou hoje. Eu não conseguiria escrever esse mesmo livro hoje. E eu fico feliz com isso, porque acho que sou uma pessoa mais feliz agora do que quando eu escrevi a HQ. Foi muito terapêutico.

C: E como foi a experiência com o filme?

K: Foi fantástico, é claro. Foi um sonho se tornando realidade. Na verdade não, pois eu nunca ousei sonhar com isso. O que é louco ver acontecendo. O filme acabou sendo bem sucedido e eu pude fazer parte disso, trabalhando no roteiro, da escolha do elenco, do figurino, das locações. Eu participei de toda pré-produção e quando eles começaram a rodar, me afastei. “Esse filho é do diretor, agora. É responsabilidade dele produzir um belo filme”. E ele realmente o fez. Daniel di Grado é o nome dele. Ele fez um filme lindo, do qual eu me sinto muito orgulhoso. E eu pude estar no filme. Fiz uma pequena participação no filme, o que fui muito legal.

C: Nós dois compartilhamos uma paixão. Ambos amamos Alan Moore.

K: Sim, com certeza!

C: Eu fiquei muito feliz quando você disse isso, antes.

K: Sim, no painel.

C: Ele é o Deus dos quadrinhos. Falando nisso, qual a sua maior influência? Stephen King, Alan Moore, Sam Kieth… Quais os seus autores preferidos?

K: Eu não sei se eu possuo um favorito. Eu realmente amo Alan Moore. Adoro o fato de que ele possui um tremendo respeito pela mídia dos quadrinhos. Ele realmente a compreende. Eu acho que ele tem falado comigo através de seus quadrinhos. As possibilidades da mídia. As histórias que você pode contar através dos quadrinhos. A forma com a qual você as pode contar. A força que as HQs possuem. Isso as fazem ainda mais legais, mágicas e excitantes que os filmes, a literatura e as outras mídias. Os quadrinhos possuem sua própria força e eu penso que Alan Moore é muito bom no uso dessa força. Eu acho que quadrinistas deveriam fazer isso. Alguns quadrinhos, quando eu leio, penso: “Isso deveria ser um filme, um romance, deveria ser literatura. Por que eles fizeram uma HQ? Leva tanto tempo para fazer um quadrinho! Faça um livro!”

C: Alguns livros dele simplesmente são impossíveis de se tornar um filme.

K: Sim. Eles tentaram…

C: E eles falharam.

K: Eu não sei. Eu gostei de “Watchmen”, foi ok. Mas acho que se resume a esse. E ele odeia os filmes.

C: Todos nós odiamos.

K: Sim, sim. Hehehe!

C: Finalizando, vamos falar de “Astrid”. Uma saga espacial bizarra que eu espero poder ler em breve.

K: Sim! Acho que vamos publicar aqui no Brasil, com certeza.

C: Conte um pouco para nós sobre a trama principal.

K: É meio que uma mistura de “Love Hurts” e “Alena”. Eu quis pegar a excitação e a inspiração, sentimentos que eu tive quando criei “Love Hurts”, e queria ter a oportunidade de ir fundo nos personagens como o fiz em “Alena”. E em cima disso eu queria criar uma protagonista, Astrid, que você irá realmente gostar, alguém por quem você irá torcer. Ela não consegue as coisas facilmente, mas você quer que ela as conquiste. Ela é uma pessoa boa de verdade e isso não é algo fácil de escrever. Mas você não pode ser bom o tempo todo, isso a faria inverossímil, desagradável. É claro que ela possui defeitos, mas ela é batalhadora. Eu acho que consegui transmitir isso. Eu realmente amo Astrid. Ela se tornou um personagem que eu gosto de verdade.

C: Isso nos dá um pouco de esperança.

K: Sim. Eu acho que sim. É um personagem inspirador.

C: Nós já temos um monte de anti-heróis.

K: Sim, eu estou farto de anti-heróis. É uma coisa tão anos 90.

C: É um momento para heróis, também.

K: Eu acho que sim. E há, também, o fato de ela se uma mulher. Creio que nós precisamos uma boa heroína. Eu criei uma galáxia fantástica repleta de monstros e criaturas extraordinárias para ela e suas aventuras. Há também questões políticas. É uma galáxia de ficção cientifica muito instigante. Basicamente criei o meu próprio Star Wars, entende?

C: Cara, muito obrigado.

K: Eu que agradeço.

C: Espero que você aproveite a Feira do Livro. É um evento que nos dá orgulho.

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