artigos

Filmes de heróis precisam seguir fórmula ou gênero?

Não é pecado pensar nos filmes de super-herói como um gênero cinematográfico, mas ignorar outras possibilidades para lidar com estas franquias é o caminho mais rápido para que o tema caia na repetição e logo cause um enjoo nos espectadores. O gênero super-herói pode sim ser constituído nos cinemas, mas até que ponto vale se apegar a ele? A temática permite que se trabalhe em diversos gêneros, sem necessidade de se encaixotar em uma fórmula única.

Até o momento, o que se vê são filmes que seguem três caminhos claros. Um deles começou em 1978, com o Superman de Richard Donner, e mostra um herói, ou grupo de heróis, que lida com um a ameaça e precisa sair de sua zona de conforto para enfrentá-la. Essa forma seria a base de um suposto gênero de super-heróis. Já vimos ela ser flexionada em dois formatos, um deles flerta com o drama, e foi este o usado em Superman – O Filme, por isso será chamado aqui de “fórmula Donner”. Os primeiros cinco filmes do Homem-Aranha produzidos pela Sony, por exemplo, seguem esta vertente.

O segundo caminho é o flerte com o humor, que teve tentativas fracassadas em Batman Eternamente e Batman & Robin, mas que encontrou o sucesso nas incursões da Marvel Studios e, por isso, é amplamente conhecido como “fórmula Marvel”.

Já o terceiro caminho, na verdade, é um leque de múltiplos caminhos, e, por isso, não pode ser rotulado, já que se entrelaça com vários gêneros e seriam filmes com super-heróis, mas não necessariamente seguiriam as fórmulas básicas. São os casos da trilogia Batman de Christopher Nolan e de filmes como Deadpool, Logan e, ao que parece Novos Mutantes. É justamente a existência desta terceira via, e a consistência das produções que se encaixam nela, que mostra que os super-heróis não precisam ficar presos a um único gênero e, muito menos, a uma ou duas fórmulas que o integram.

Fórmula Donner

A fórmula Donner reinou absoluta até a primeira década do século 21. As tentativas dos estúdios de se distanciar dela derraparam entre as décadas de 1980 e 1990, enquanto aquelas que apostaram no desenvolvimento dos conflitos do herói foram, com mais frequência, sucessos de bilheteria. Não raramente a vida amorosa dos protagonistas na fórmula Donner é conturbada.

A identidade secreta é uma constante e, com ela, a preocupação de manter seguras aquelas pessoas que o protagonista ama. Enquanto isso, a escalada de maldades do vilão faz com que o herói coloque sua própria vida, ou identidade secreta, em risco. Por padrão, isso resulta em sofrimento e desenvolvimento dramático.

Claro que algumas produções falharam miseravelmente em seguir esta fórmula, e filmes como Demolidor, Elektra e os filmes do Homem-Aranha dirigidos por Mark Webb são exemplos disso. Atualmente o universo cinematográfico da DC Comics tem apostado novamente neste terreno com frequência. O Homem de Aço e Mulher-Maravilha seguem à risca a estrutura da fórmula Donner, com o drama em primeiro plano e o humor entrando timidamente para quebra de tensão ou para pontuar característica de personalidade de algum personagem, seja ele principal ou não. Já Batman v. Superman pode ter problemas de montagem e de roteiro, mas o básico da fórmula Donner está ali, com a ameaça que motiva cada herói e o foco, inegavelmente exagerado nesse caso, no drama.

Fórmula Marvel

Embora a Marvel não tenha inventado a roda do sucesso para os filmes de super-herói, foi ela que conseguiu lapidar a fórmula tentada pela Warner nos anos 90 e fazê-la agradável para toda a família. No meio dos absurdos cometidos pelo diretor Joel Schumacher nos filmes do Batman, era clara a intenção de trazer a diversão para o universo dos heróis. Época errada, personagem errado, dose errada e piadas erradas, mas ainda assim uma tentativa válida. A existência destes filmes de Schumacher serviu para que Fox, Sony e Warner evitassem a proximidade demasiada de suas franquias com o humor.

Já a Marvel, por outro lado, preferiu não se intimidar e se aventurou lançando Homem de Ferro com muito humor na fórmula, mas um humor melhor distribuído e com piadas que funcionavam e eram verossímeis. Vale pontuar, no entanto, que no mesmo ano a mesma Marvel lançou O Incrível Hulk, totalmente calcado na fórmula Donner. A empresa conhecia os riscos de se aventurar em uma fórmula que já tinha sido rejeitada nos filmes do Batman e, possivelmente por isso, resolveu arriscar apenas em uma das produções. Claro que os absurdos estéticos e de diálogos dos filmes de Schumacher nunca foram seguidos pela Marvel, a semelhança está apenas na intenção de se fazer humor dentro do embate herói versus vilão.

De 2008 a 2017 a Marvel raramente se afastou de sua fórmula, o que garantiu muitos sucessos de bilheteria e uma consolidação de marca. Essa consolidação é tamanha que permitiria ao estúdio arriscar em outros formatos com certa frequência, mas até agora só vimos uma desviada de curso em Capitão América – Soldado Invernal, que se aproximou da fórmula Donner. No entanto, a preferência tem sido pisar em terreno conhecido e até mesmo personagens que, em essência, clamam por uma abordagem dramática, acabam ganhando um tom leve e, às vezes, cômico. Quem imaginaria uma abordagem bem humorada do Thor ou do Doutor Estranho em alguma mídia antes da implementação da fórmula Marvel?

Paralelamente, quem se aventurou a produzir filmes tentando seguir a fórmula Marvel fora da Marvel Studios até agora só cometeu gafes. Motoqueiro Fantasma 2, da Sony, beira o abismo (ou talvez caia nele) com suas tentativas falhas de piadas. A DC tentou duas vezes, com Lanterna Verde e depois com Esquadrão Suicida e é quase impossível determinar qual dos dois falhou mais.

Terceira via

A terceira via, que consiste basicamente em não enquadrar o filme em um “gênero super-herói” e sim buscar fórmulas estruturais de outros gêneros para produzir um conteúdo com super-heróis também começou falha. Superman 3 nada mais era do que uma comédia de Richard Pryor, com um super-herói. Só que se a fórmula Marvel permite que elementos de humor sejam incorporados em qualquer herói, desde que as piadas funcionem, não é bem assim quando se tenta incorporar o herói em um outro gênero, seja ele de comédia ou qualquer outro. Uma comédia do Superman não consegue ser nada além de ridícula, afinal, consiste em satirizar um personagem tradicionalmente sério. Só que a mesma estratégia, com o personagem correto inserido no gênero correto, pode render ótimos filmes.

A trilogia Batman de Christopher Nolan absolutamente abandona a necessidade de mostrar um filme de super-herói e se foca na estrutura de outros gênrros. Batman Begins é um filme policial que foca no combate à máfia e à banda podre da própria corporação, enquanto naquela Gotham City um herói surge, e luta com um vilão que vê a podridão da cidade como algo irreversível. A vitória de Batman não resolve os problemas apresentados no filme, apenas dá a Gordon a chance de seguir a limpeza da polícia e da cidade. Em O Cavaleiro das Trevas mais uma vez vemos um filme policial, focado dessa vez no lado humano do tira que quer se aposentar (Bruce Wayne) para viver um grande amor e no tira que quer assumir a limpeza da cidade (Harvey Dent), enquanto nenhum dos dois está preparado para enfrentar um mal diferente (Coringa). No fim, ambos pagam caro por quererem assumir um papel que não podem. O Cavaleiro das Trevas Ressurge, então, é um filme sobre como uma lenda pode inspirar um povo a conquistar a liberdade. Poderia ser um filme do Rei Arthur, mas, por acaso, é do Batman.

A Fox acertou em cheio duas vezes na inserção de heróis em outros gêneros. Deadpool é uma comédia e uma grande comédia sobre… super-heróis. O personagem sempre teve uma veia cômica e a sua tendência a quebrar a quarta parede possibilitou um filme que está para os super-heróis como Todo Mundo em Pânico está para o terror. Até mesmo a grande batalha final é uma paródia de outros filmes. A própria escolha do ator Ryan Reynolds leva a piadas sobre suas participações terríveis em filmes anteriores de super-heróis. Deadpool + Ryan Reynolds eram os elementos perfeitos para uma comédia.

Já no segundo acerto, a Fox trabalhou todo o marketing de Logan como um filme de estrada e entregou algo além disso. O que foi entregue nas telas misturou o que já se podia prever pelos trailers com um clima de western futurista e rendeu possivelmente o melhor filme com heróis de 2018. No caso de Logan vale pontuar que o estúdio poderia ter ousado mais. A inserção de uma batalha final com um vilão sem personalidade, típica dos filmes de super-herói, não era realmente necessária, embora não estrague o filme e nem o encaixote no “gênero super-herói”.

Às vezes para se marcar a inserção em um gênero é necessário ser justamente genérico, já nos materiais de divulgação, que incluem cartazes e trailers. Quem acusa Thor Ragnarok de parecer uma comédia pastelão nos trailers ou Novos Mutantes de ter um “trailer genérico de terror”, só está constatando as marcas que os estúdios quiseram evidenciar. A Marvel parece, pela primeira vez, estar indo além do gênero super-herói e abraçando o gênero comédia. Enquanto isso, a Fox segue suas experimentações e faz questão de deixar isso evidente quando lança o trailer dos mutantes mais jovens em uma sexta-feira 13, abusando dos clichês do gênero terror.

Afinal, super-herói é gênero?

Como tentei deixar claro no decorrer de todo este texto e resumo aqui, super-herói pode ser um gênero e dentro deste gênero cabem seus clichês e suas fórmulas. No entanto, este pode ser o caminho mais curto para uma saturação. O que acredito é que sim, em poucas décadas, talvez até menos de uma década, as fórmulas estarão desgastadas e veremos muito mais filmes de outros gêneros com super-heróis do que vemos hoje. Se os estúdios insistirem nas fórmulas, o risco real é de uma diminuição drástica do número de filmes, devido à saturação. Isso já aconteceu antes, quando o western se focava basicamente em mocinho versus bandido ou caubóis versus índios, em um cenário rico que poderia ter abrigado infinitos gêneros. O encaixotamento dos super-heróis em um gênero próprio é artificial, já que com eles é possível operar em qualquer tipo de história e isso já foi provado recentemente pelos exemplos citados.

Leia Também

Redação Multiverso é o site colaborativo de produção de conteúdo sobre quadrinhos
da Produtora Multiverso, em uma iniciativa paralela e complementar à realização da
ComicCON RS – principal convenção de quadrinhos e cultura pop do Rio Grande do Sul.