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O colecionismo é um obstáculo para as HQs digitais?

Quando você pensa em uma história em quadrinhos, que imagem vem à sua cabeça? Uma revista ou a tela de algum dispositivo? A mídia física através da qual os quadrinhos são apresentados (revistas, encadernados) tem uma ligação direta com a forma como estes são lidos e experienciados. O ritual de ir até uma banca ou livraria, comprar uma edição impressa, ler e colecionar é uma característica muito forte do universo das histórias em quadrinhos.

Para Agnelo Fedel, em seu livro “Os Iconográfilos: Teorias, Colecionismo e Quadrinhos”, são justamente os leitores que têm o hábito de colecionar que se tornam um dos motores da indústria do entretenimento, pois são esses que estão dispostos a investir tanto nos quadrinhos em si como também em produtos relacionados, de camisetas a action figures. E as editoras e empresas do ramo têm notado cada vez mais a importância desse leitor aficionado, pois além de serem consumidores fiéis, eles também se tornam porta-vozes das marcas de forma espontânea e gratuita. Que colecionador de quadrinhos não se empolga ao falar sobre seu hobby ou defender seus heróis preferidos?

Essa empolgação nem sempre é totalmente positiva, claro. A polarização das opiniões, especialmente no universo dos quadrinhos de super-heróis, gera discussões muitas vezes cansativas, em uma necessidade de se provar que a editora X é melhor que a Y, ou que o personagem A é mais poderoso que o B. Os universos cinematográficos da Marvel e da DC são um bom e atual exemplo disso, gerando debates e brigas acalorados nos comentários em sites de notícias e críticas (sim, eu sei que não devo ler comentários). Imagino qual seria a recepção das séries de quadrinhos Marvel X DC e DC X Marvel dos anos 90 caso saíssem hoje em dia…

Outro fenômeno que tenho observado atualmente vem do crescimento dessa indústria e do número de fãs aficionados. Esse crescimento e aumento na variedade de perfis de leitores é evidentemente positivo, pois movimenta o mercado e abre espaço para a produção de mais conteúdo. No entanto, isso parece também ter criado um perfil diferente de colecionador – aquele que compra de tudo, tem prateleiras forradas com coleções completas, mas não lê na mesma proporção. Claro, isso também é um reflexo da forma como as redes sociais têm sido usadas (disputa por curtidas e ostentação) e não vou me aprofundar nessa discussão. E também não é minha intenção criticar essa forma de colecionar, pois eu também sempre tenho pilhas de quadrinhos não lidos que compro e não dou conta. Levanto essa questão para seguir discutindo a materialidade das histórias em quadrinhos e como isso se dá no ambiente digital.

A crescente disponibilidade de edições encadernadas, luxuosas e com capa dura reforça a mitificação das histórias e dos autores. Segundo Allan Vieira, em artigo publicado nos anais do Intercom em 2013, no fim dos anos 80 os quadrinhos viram uma ampliação e modificação do seu público, o que refletiu tanto no teor das histórias quanto na forma como elas eram apresentadas fisicamente. O mercado de edições de luxo, voltadas a colecionadores, começou a se expandir, contribuindo para essa construção do mito, do quadrinho como objeto de desejo e como via de encontro de fãs e ídolos. Todas essas questões contribuem para que as histórias em quadrinhos ainda sejam compreendidas de uma forma física. Vieira defende que a revista em si é parte da experiência como um símbolo material de um universo narrativo, a percepção do que são as HQs de fato passa pela materialidade do meio. Então como ficam os quadrinhos digitais diante disso tudo?

Coexistência possível?

Os quadrinhos digitais, de modo geral, trazem uma série de vantagens. Desde a redução de custos de produção e impressão até a distribuição de fato. Ao ser disponibilizado na internet, uma obra pode ter o feedback instantâneo de seus leitores, além é claro da interação mais próxima entre quem produz e quem consome. Quanto à diminuição dos custos, infelizmente nem sempre resulta em um valor final menor para o consumidor, o que acaba por atrapalhar a aceitação pelos leitores. É difícil de convencer alguém a pagar por um arquivo digital o mesmo que por uma revista impressa. O sentimento de posse da HQ não é o mesmo quando se compara um volume em uma prateleira e um arquivo em um HD, ao menos não para o leitor aficionado e colecionador.

Além de mudanças na produção e distribuição, os quadrinhos digitais também mudam a forma como o leitor os consome, mexendo com a identidade da mídia. Schlittler, em seu livro “TV digital interativa: convergência das mídias e interfaces do usuário”, diz que por causa da digitalização, as mídias no geral passam a ser identificadas pela experiência que proporcionam ao usuário (além de sua interface), ao invés de o serem por seu aspecto físico. Os quadrinhos digitais existem como informação pura, sua materialidade some, mas o seu contexto se mantém. A forma pode ser diferente, não representando mais a função do objeto de forma óbvia, mas a linguagem dos quadrinhos nos faz reconhecê-los como tal mesmo assim. No ambiente digital, portanto, a funcionalidade se descola da materialidade.

Ainda que muitos leitores consumam quadrinhos digitais (em scans ou em sites como o Social Comics), a característica de colecionador que é tão forte nesse meio faz com que seja comum que, mesmo após ler na tela, se comprem versões impressas dessas mesmas obras (mesmo que em muitos casos seja apenas para guardar e não necessariamente ler). Esse hábito faz com que alguns acreditem que a indústria dos quadrinhos seja o ambiente perfeito para a coexistência do impresso e do digital. O site do jornal NY Times publicou em 2014 um artigo (link ao fim do texto) em que defende essa ideia, com uma perspectiva otimista de que os quadrinhos digitais podem funcionar como uma vitrine para os impressos, alimentando assim o mercado de uma forma mais ampla.

Os quadrinhos digitais podem mudar a forma como consumimos e colecionamos, mas certamente não serão responsáveis pela morte das HQs impressas. Eu acredito no potencial das histórias em quadrinhos digitais, inclusive ao utilizarem recursos impossíveis ao impresso. Mas também admito que faço parte do grupo dos que não conseguem deixar de adquirir as versões físicas de suas obras preferidas.

 

Bibliografia

FEDEL, Agnelo. Os Iconográfilos: Teorias, Colecionismo e Quadrinhos. São Paulo: LTCE Editora, 2007.

VIEIRA, Allan Victor Castro. Aplicação da Cauda Longa na venda de Quadrinhos pela internet e a importante função dos consumidores colecionadores. In: Anais do Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação. XV Congresso de Ciências da Comunicação na Região Nordeste. Mossoró: Uern – Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, 2013.

SCHLITTLER, João Paulo Amaral. TV digital interativa: convergência das mídias e interfaces do usuário. São Paulo: Blucher, 2011.

COMICS SALES RISE, in Paper and Pixels. Disponível em: <http://www.nytimes.com/2014/07/21/business/media/comics-sales-rise-in-paper-and-pixels.html?_r=1>.

 

Thiago Krening é ilustrador e designer gráfico graduado pela UFSM, especialista em Cinema pela Unifra e Mestre em Design pela UFRGS, com dissertação voltada aos quadrinhos digitais. Mantém a página de tiras e HQs Historietas Randômicas e Confabulações Aleatórias.

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