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O peso da cultura pop em V de Vingança

por Marina de Campos

Você aí atrás dessa tela rodeado por estantes que já não dão mais conta de tantos livros, discos, filmes e quadrinhos, sempre perseguido por essa compulsão de acumular, resgatar, salvar do mundo, levar pra casa mesmo sem ter mais tempo ou espaço, mentindo pra si mesmo que aquele vai ser o último exemplar. Por acaso já se deu conta? Essa é a sua Galeria das Sombras.

Pode ser difícil de imaginar agora, mas no fim dos anos 1970 os jovens britânicos Alan Moore e David Lloyd eram quase anônimos como eu e você, devorando livros e idolatrando suas estantes à espera da chance de usar todas as ideias incríveis que reuniram e preservaram ali. A oportunidade apareceu por acaso em 1982, quando a revista Warrior convocou os dois para um novo título – aquele mesmo, que logo viria a se tornar uma das histórias em quadrinhos mais influentes de todos os tempos.

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Quando chegou a hora eles não pouparam munição: despejaram no projeto suas melhores e mais contundentes influências, tudo aquilo que absorveram após anos arrastando consigo uma pesada bagagem cultural. Em seu artigo sobre V de Vingança, Moore conta que só foi encontrar o rumo depois de listar algumas boas referências como ponto de partida. “Certa noite, em desespero, redigi uma longa lista de conceitos que gostaria de abordar em V, numa rápida associação livre que levaria qualquer bom psiquiatra a puxar a cordinha de emergência”. As anotações traziam temas aleatórios como George Orwell, Juiz Dredd, David Bowie, Fahrenheit 451, Marx Ernst, Thomas Pynchon e até ideias abstratas como “a atmosfera dos filmes ingleses sobre a Segunda Guerra”. Após algumas trocas de cartas, Lloyd veio com aquela que seria a referência fatal. “No instante em que li suas palavras, duas coisas me ocorreram. Primeiro, Dave era mais doido do que eu supunha; e segundo, era a melhor ideia que eu tinha ouvido em toda minha vida. Súbito, os vários fragmentos desconexos em minha cabeça começaram a se encaixar, organizados pela imagem da máscara de Guy Fawkes”.

Isso dá a dimensão da importância das referências por trás de V de Vingança, certamente um dos motivos que tornam a obra tão monumental. Nada está ali por acaso, nem um detalhe, nem um enquadramento, nem uma citação sem um bom motivo. Ao mesmo tempo, dá pra dizer que um pouco de tudo se encontra ali: arte, música, cinema, teatro, literatura, história, política, religião, psicologia, comportamento… a cultura pop de um século condensada em 300 páginas. E o melhor: da mesma maneira que se vale de tantas referências, V de Vingança se tornou uma das maiores referências do nosso tempo, o que só reforça esse fascinante ciclo de inspiração e influência que impulsiona a arte desde sempre.

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Para completar, a ideia também se manifesta dentro da própria trama, com a Galeria das Sombras: uma incrível coleção que não deixa V se esquecer de sua identidade e de sua própria humanidade. Proibida pelo governo totalitário como forma de limitar o pensamento da população e destruir sua individualidade, a cultura tem mesmo esse poderoso efeito. É nesse ambiente que a jovem Evey descobre quem realmente é e o que acredita, algo até então impossível pela ausência de referências. É a busca por esse mundo ideal reproduzido em seu esconderijo subterrâneos que os guia em sua cruzada por liberdade. É o encontro de uma plenitude possível, de um motivo para tudo isso. Pois no fundo você sabe, quase sempre são as nossas leituras, as nossas coleções, essas paixões mantidas tão próximas e que dizem tanto sobre nós, aquelas que dão algum sentido e são no fim a única arma de resistência possível contra a banalidade da vida.

 

Uma seleção de referências da cultura pop em V de Vingança

Simpatia pelos Stones

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“Por favor, permita que eu me apresente… Sou um homem de riquezas e bom gosto”. Irônica, sutil e tão precisa quanto uma referência deve ser, essa é uma daquelas passagens de V de Vingança que fazem o leitor vibrar de identificação. O trecho inicial de Sympathy for the Devil, clássico dos Stones de 1968, tem tanto impacto aqui quanto na música. A distribuição de frases na sequência de quadros é cinematográfica, enquanto que o deboche de V, a compreensão apavorada do padre e o detalhe da luz que bate na franja do mascarado formando sarcásticos chifres completam a mensagem. Frente ao aspecto mais podre da religião, não havia forma melhor de evocar o diabo – e provocar simpatia por ele.

Hitler por toda parte

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Não é curioso como a gente sempre dá um jeito de relacionar Hitler a tudo? Uma obsessão coletiva que beira ao culto, mesmo que em tom reprovador. Em V de Vingança ele inevitavelmente aparece, e mais de uma vez: além de ser citado entre os ditadores na sequência do discurso na TV, sua controversa biografia Minha Luta aparece na estante de V na Galeria das Sombras. A ironia é que o livro aparece bem ao lado de O Capital, de Karl Marx, obra fundamental do comunismo.

Dietilamida de Ácido Lisérgico

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Talvez tenha sido a primeira, mas estava longe de ser a última referência de Alan Moore às drogas em suas histórias. E sua aparição acontece em um momento-chave da trama, quando Finch chega ao extremo em sua busca por compreender a mente de V e se submete a uma experiência com LSD em Larkhill, crendo na teoria de que sob efeito do ácido fosse possível absorver experiências vividas em um mesmo local. Símbolo da contracultura dos anos 1960, o LSD influenciou boa parte da produção cultural da época, ainda que controverso até os dias de hoje.

A foice de Bradbury

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O escritor americano Ray Bradbury tem forte influência sobre V de Vingança. Primeiro, aparece na lista de conceitos de Moore através do clássico Fahrenheit 451, uma distopia de atmosfera semelhante à HQ por semelhanças como a ambientação em um futuro de governo totalitário, onde todos os livros são proibidos e queimados. Depois, seu conto A Foice é citado dentro da história em um momento muito simbólico, que mostra a evolução de Eve, agora imersa nesse mundo e capaz de fazer suas próprias referências.

O termo Motown é familiar?

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O nome da lendária gravadora independente que alavancou o sucesso de gêneros musicais afro-americanos com uma mistura de rock, soul, gospel e rhythm and blues nos anos 1960 e 70, assim como a citação à icônica cantora negra de jazz Billie Holliday, também não aparecem por acaso. A insinuação de V sobre algumas culturas ainda mais sufocadas que as outras traz à tona os aspectos políticos e sociais abordados na trama, que mostram a exclusão e perseguição de minorias como negros e homossexuais em um regime autoritário, e o desprezo à sua cultura como arma eficaz.

O V de Thomas Pynchon

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Essa é umas das referências que aparecem de forma literal tanto na lista de Moore quanto no resultado da obra. Um dos escritores mais intrigantes e inovadores do século 20, Thomas Pynchon publicou em 1963 o romance intitulado V, descrito como uma variação entre a “cultura intelectual” e o meio da cultura pop underground, o que não por coincidência também pode ser dito sobre a Galeria das Sombras e o próprio V de Vingança. Além disso, a passagem do livro faz uma clara menção à identidade desconhecida do protagonista e a ideia de uma mensagem maior e mais importante do que um indivíduo.

[Os Irmãos] Marx

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Entre os muitos pôsteres de filmes que decoram a Galeria das Sombras, como os clássicos Os Assassinatos da Rua Morgue, Fúria Sanguinária e O Filho de Frankenstein, também estão presentes os Irmãos Marx, comediantes considerados precursores por um estilo de humor sem regras, inesperado e por vezes nonsense. Em Os Quatro Batutas, de 1931, o icônico Groucho Marx e seus irmãos são passageiros clandestinos em um navio e bagunçam uma festa social a bordo, capturando alguns impostores. A referência parece aludir à situação de V, clandestino em um sistema que abala as estruturas e captura inimigos, tendo a ironia e elemento inesperado como arma.

O Experimento Milgram

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Um momento marcante acontece quando o personagem aparece para Delia no meio da noite. Consciente de seu papel no trágico passado de V, a médica cita o famoso Experimento Milgram, realizado na Universidade de Yale em 1963. Buscando entender como tantas pessoas comuns cometeram atrocidades durante o nazismo e ao fim justificaram que estavam apenas cumprindo ordens, o controverso episódio testou até que ponto a obediência à autoridade poderia se sobrepor à razão do indivíduo, o levando a ultrapassar limites morais em nome de uma obrigação. E a conclusão não foi nada boa. Depois de uma conversa franca, a resignação de Delia e a suavidade de V em cumprir sua missão fazem desta uma das sequências mais belas e doloridas de V de Vingança.

V de Velvet Underground

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Referências são legais, mas às vezes enchem o saco! Clássico do Velvet Underground, “I’m Waiting For the Man” não chega a ser tão conhecido quanto a capa do disco em que está inserido – famoso pela icônica banana do artista Andy Warhol, símbolo da pop art –, mas funciona com perfeição justamente por ser menos acessível e tirar Eve do sério, talvez em uma autoironia de Moore sobre as suas recorrentes citações.

A sociedade alternativa de Crowley

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A frase ficou muito famosa no Brasil graças a Raul Seixas, que a imortalizou na música Sociedade Alternativa – um verdadeiro hino à anarquia, assim como V de Vingança. Mas a citação original vem da Lei de Thelema de Aleister Crowley, controverso ocultista que no início do século 20 afirmou ter recebido ensinamentos de um deus-demônio, o que assustou a sociedade da época e fez com que fosse declarado pela imprensa como “o homem mais perverso do mundo”. Será que a liberdade segue sendo um conceito tão perverso assim? Faz o que tu queres pois é tudo da lei, da lei!

Os Miseráveis e os clássicos

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Quando o caos toma conta das ruas, um icônico retrato aparece em um muro: o olhar de Cosette estampa o cartaz da peça Les Miserables, baseada no romance de Vitor Hugo, sobre um homem que passa de ex-criminoso a líder revolucionário. A alusão ao livro também evoca a obra A Liberdade Guiando o Povo, de Delacroix, na qual o autor francês se inspirou para a criação de alguns personagens, e que se explica como referência por seu sugestivo nome. Entre outros clássicos indiretamente citados em V estão Fausto, A Odisseia de Homero, A Divina Comédia, As Viagens de Gulliver, Mil e Uma Noites, Dom Quixote e a sempre onipresente obra de Shakespeare.

 

Referências baseadas na leitura da obra e no levantamento realizado pela Universidade de Louisiana que pode ser conferido na íntegra aqui.

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