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Alan Davis, morcegos, pregos e legiões

O mês de dezembro de 2016 é marcado pela visita de Alan Davis ao Brasil, como um dos convidados da Comic Con Experience. Davis tem seu nome fortemente ligado à Casa das Ideias, em decorrência de sua passagem, em início de carreira, pela Marvel UK e, depois, pelos títulos dos mais importantes heróis e supergrupos da editora nos Estados Unidos. Por outro lado, pouco se fala da sua importância para a DC Comics, que não está ligada a uma grande quantidade de títulos, mas sim a uma atuação pontual, que originou histórias de alto nível e até mesmo uma que é considerada por muitos como um clássico.

Turbulências em Gotham

Davis teve sua estreia nos quadrinhos norte-americanos em 1985 e foi em uma série da DC. Mais precisamente, ele começou a atuar na linha de títulos da Batman e passou por algumas das principais revistas do personagem. Logo de início, assumiu a mensal Batman and the Outsiders, que era escrita por Mike W. Barr.

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Logo depois, de 1986 a 1987, cuidou por sete edições da arte de Detective Comics, também escrita por Barr, entre os números 569 e 575 e saiu com o arco Batman: Ano Dois em andamento. Na última edição que produziu, teve um forte desentendimento com o corpo editorial da DC e se negou a redesenhar a capa e páginas internas. A editora alegava que a arma empunhada por Joe Chill, o assassino dos pais do Batman, estava diferente da que foi concebida anteriormente por Frank Miller e David Mazzucchelli. Como não houve acordo, Davis foi embora e Todd McFarlane assumiu o seu posto, colocando em suspenso a passagem meteórica do britânico por Gotham.

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Com o passar do tempo o desentendimento esfriou e o artista retornou, em 1991, para, novamente ao lado de Barr, produzir Batman: Full Circle, uma sequência direta de Ano Dois. A HQ  mostrava um sucessor do anti-herói Ceifador, que foi o principal antagonista da fase abandonada por Davis, e lidava com a obsessão desde novo adversário pelo Homem-Morcego.

Um prego no caminho

Em 1998 Alan Davis retornou à DC como desenhista no número 100 do título mensal da Legião dos Super-Heróis. Logo ilustrou também a edição anual da equipe lançada na mesma época. No entanto, foi como roteirista que o britânico se destacou naquele ano e firmou seu nome entre os preferidos pelos fãs dos medalhões da editora.

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Em Liga da Justiça: O Prego, Davis escreve e desenha uma série de três edições que mostra como seria o Universo DC se a caminhonete dos Kent tivesse seus pneus furados por um prego na estrada exatamente no dia da chegada do bebê Kal-El à Terra. Neste cenário, o casal Jonathan e Martha não conseguiu pegar a estrada e, por consequência, a nave do futuro Superman caiu longe de seus olhos.

Toda a comunidade heróica se moldou sem o Homem de Aço como sua bússola moral. Com isso, personalidades de conhecidos personagens, assim como seus caráteres, sofrem mudanças radicais nesta realidade alternativa. Falar sobre a ameaça real e sobre quem criou o bebê kryptoniano nesse universo estragaria totalmente a leitura.

Liga da Justiça: O Prego é leitura obrigatória para fãs do universo DC em geral e também uma bela indicação para aquele seu amigo que gosta de heróis, mas que não entende a importância do último filho de Krypton.

No futuro, sem os Kent

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O conceito de um Superman não criado pelos Kent foi retomado em 2002 por Mark Farmer, que escreveu A Legião do Superboy. A história apresentava um jovem Kal-El que caiu com sua nave 10 séculos à frente em relação ao que se espera. Como não poderia deixar de ser, já que Davis tinha familiaridade com o conceito e Farmer é seu arte-finalista de longa data, o autor de O Prego teve uma nova oportunidade de participar de uma reinvenção do Superman. Esta é outra boa indicação para os fãs de HQs das antigas. O clima é de Era de Prata, com muitas referências às antigas histórias da Legião e uma interpretação única e certeira do Superboy.

Por mais um prego

Davis ainda retornou em duas ocasiões para a editora. Produziu uma história do Batman em preto e branco, que foi publicada em 2002, no número 25 da série Batman: Gotham Knights.

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Por fim, em 2004, retomou o universo de O Prego, com Liga da Justiça: O Outro Prego. Esta sequência tem uma trama bastante inferior à original, mas lida bem com clichês do gênero e possui um final surpreendente.

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Desde então, novos trabalhos de Davis não tem sido publicados pela DC. Como nerds amam uma trilogia, ninguém reclamaria se eleretornasse à editora para um terceiro capítulo da saga de O Prego.


O merecido retorno do Ronin de Frank Miller

De um lado Kazuo Koike e Goseki Kojima, mangakás japoneses que revolucionaram o mercado com a obra-prima Lobo Solitário, protagonizada por um samurai assassino sem rumo. Do outro, Jean Giraud, mais conhecido como Moebius, um dos maiores quadrinistas que a França já viu, e um verdadeiro ícone do gênero da ficção científica. Tirando os quadrinhos, qual a improvável ligação entre eles? A resposta é Ronin, a tão inovadora quanto subestimada obra de Frank Miller que mistura esses dois universos distantes e, por incrível que pareça, dá certo.

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Ronin surgiu em 1983, depois do nome de Frank Miller ficar famoso na Marvel por reformular o universo do Demolidor e alcá-lo ao panteão dos heróis mais famosos da editora, e ser convidado a escrever uma graphic novel para a DC Comics. Naquela época Miller ainda não era “O” autor de Batman – O Cavaleiro das Trevas, mas já era um dos grandes nomes da indústria dos quadrinhos e gozava de certa liberdade criativa dentro da DC, uma das editoras mais tradicionais dos Estados Unidos.

Suas histórias sempre envolviam contos policiais, com uma enorme pegada noir, mas o observador mais atento vai perceber que Miller, um assumido admirador do mangá Lobo Solitário, também sempre flertou com as histórias de samurais e ninjas, então nada mais justo do que fazer uma trama com tais elementos. Mas o que pegou todo mundo de surpresa foi misturar isso com o melhor das HQs europeias de ficção científica, principalmente as feitas pelo genial e saudoso Moebius. A ideia pode parecer bizarra, mas Miller fez dessa mistura a sua HQ mais inovadora, ousada e, infelizmente, a mais subestimada também.

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A HQ começa com a busca vingativa de um Ronin – termo usado para samurai sem mestre – dono de uma espada mágica, contra a morte de seu mestre, Ozaki-Sama, pelas mãos do demônio Agat. No clímax da batalha, Agat, que foi gravemente ferido com a espada banhada com sangue de um inocente – no caso, o próprio Ronin – lança um feitiço nos dois, aprisionando as duas almas na arma, que seria encontrada por cientistas nova-iorquinos no futuro.

Em paralelo, a história apresenta o telecinético Billy Challas, uma criança com a síndrome Tetra-amelia (síndrome de rara ocorrência caracterizada por uma falha na formação embrionária, causando a ausência dos braços e pernas), e Virgo, o computador vivo da empresa Aquarios, conversando sobre os sonhos estranhos do rapaz, que envolvem uma luta entre um samurai e um demônio. Os quatro personagens se encontram quando a espada liberta as almas de Agat e Ronin, que possui Billy, obrigando a construir um novo corpo cibernético para os dois. Para complicar ainda mais as coisas, Casey McKenna, a chefe de segurança de Aquarios, começa a caçar Ronin/Billy.

Oscilando entre o Japão feudal e uma Nova York decadente, cheia de gangues nazistas e mutantes canibais, Miller conta uma história épica e cheia de reviravoltas dignas dos bons tempos do diretor M. Night Shyamalan. Contar mais da história é tirar toda a graça da HQ, mas seria uma injustiça não falar dos personagens que vão crescendo e surpreendendo com o passar da história, principalmente Casey, tão durona quanto a ninja Elektra, outra mulher “badass” criado por Miller.

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Visualmente falando, Ronin consegue ser mais bonito que Sin City e 300, HQs cuja arte é de encher os olhos de qualquer um. Há várias sequências sem nenhuma fala, pois a narrativa e a arte de Miller são tão perfeitas e detalhistas que passam mais informação do que qualquer balão de fala. Aliás, um dos grandes méritos da arte são as cores da Lynn Varley, a ex-esposa do autor.

O tom chapado e predominantemente verde/cinza passa toda a frieza de Aquarios e da decadente Nova York, enquanto as cores vivas e vibrantes conseguem transmitir o clima do Japão e das lutas contra Agat. Chega até ser engraçado ver uma sequência no melhor estilo Lobo Solitário e, ao virar de página, um painel que invoca o surrealismo das histórias da revista Heavy Metal. Miller sempre foi um autor de vários traços, e ao olhar sua arte em Ronin, bate a curiosidade de ver mais histórias com esse visual.

Ronin fez um enorme sucesso, influenciando diversos artistas e histórias, como a trilogia Matrix e o desenho animado Samurai Jack, que é praticamente uma adaptação – extremamente bem-feita – para o público infantil, mas, infelizmente, a HQ caiu no esquecimento com o passar do tempo. Quer um exemplo? Pergunte para qualquer fã as cinco melhores histórias do Frank Miller. Serão poucos que se lembrarão da HQ, ofuscada pelos trabalhos seguintes de Miller na DC. Pode parecer heresia, mas na opinião desse redator, em alguns aspectos Ronin é mais grandioso do que O Cavaleiro das Trevas.

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A HQ foi publicada pela primeira vez no Brasil em 1988, em uma minissérie em seis partes pela Abril, que relançou o material em forma de encadernado em 1991. Em 2003, a extinta Opera Graphica publicou a história em três partes, sendo que cada uma continha duas edições, e depois num encadernado em 2005. Após 11 anos de espera, a Panini finalmente relança a HQ com o acabamento que a obra merece, aproveitando a presença de Frank Miller na Comic Con Experience no começo de dezembro. A edição definitiva de capa dura tem formato 18,5 x 27,5 cm, 336 páginas, e valor de R$ 92. Caso você nunca tenha lido a obra, não perca mais tempo – e caso não conheça os três artistas do começo da resenha, esse vai ser um ótimo ponto de partida. Épico e revolucionário, Ronin é um clássico que merece ser lembrado e relembrado sempre, o que felizmente acontece agora com o seu ressurgimento nas prateleiras.


Almanaque 21 e os melhores filmes de super-heróis

Estamos vivendo a era de ouro das adaptações de quadrinhos para o cinema. Nunca foram lançados tantos filmes baseados em HQs (e com qualidade). É verdade que nem todas as transposições são necessariamente fieis ao material original – e nem precisam ser – e algumas franquias estão com maiores problemas em engrenar. É o caso da DC Comics/Warner, que tenta dar um jeito em seus heróis nos cinemas após lançar dois controversos trabalhos em 2016: Batman vs Superman: A Origem da Justiça e Esquadrão Suicida. O mesmo pode ser dito da Fox, que não conseguiu acertar em Quarteto Fantástico, em 2015, e recebeu uma resposta morna do público e crítica com X-Men: Apocalipse neste ano. O megassucesso Deadpool deu um alívio para o estúdio da raposa, que planeja continuar com essa toada mais violenta, voltada para um público acima dos 18 anos, com Logan, em 2017. Quem está rindo à toa no momento é a Marvel/Disney que, mesmo com uma fórmula pouco mutável na construção de suas histórias, tem agradado os espectadores a cada novo lançamento, fazendo longas-metragens que ultrapassam um bilhão de dólares.

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Sou fã dos heróis no cinema e TV há um bom tempo. Era um viciado no seriado sessentista do Batman, exibido no SBT entre as décadas de 1980 e 1990. Depois, vi o primeiro filme do homem-morcego, de Tim Burton, em uma Tela Quente da vida nos idos dos anos 1990. E o interesse foi aumentando com o passar dos anos. Só muito tempo depois fui ler os quadrinhos para descobrir a outra faceta destes personagens que acabaram dominando as telonas, em uma rara inversão. Hoje em dia talvez seja mais corriqueiro que os fãs do cinema busquem as HQs depois de conhecerem os personagens nas telas. Mas para pessoas de 30 anos ou mais, esse caminho inverso parece mais raro. Também não tenho aquela predileção (que muitos têm) entre Marvel ou DC. Ambas têm grandes heróis e histórias que rendem excelentes filmes. O que mais um fã destes personagens deveria almejar é que as produções protagonizadas por estes personagens sejam as melhores possíveis, sejam quais forem suas editoras.

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Desde fevereiro deste ano, sou o editor-chefe de uma revista digital chamada ALMANAQUE21 que é composta por críticas e curiosidades de assuntos relacionados ao cinema e à televisão. Depois de edições voltadas ao Oscar 2016, aos filmes de Hollywood dos anos de 1990 e à série Friends, chegou a vez de fazer uma revista dedicada aos super-heróis. Como é de praxe na publicação, foram escolhidas 21 produções que ganharam destaque e espaço privilegiado. Desde Superman: O Filme, de 1978, dirigido por Richard Donner, até Deadpool, de 2016, dirigido por Tim Miller. Como pode-se imaginar, não foi fácil compilar essa listagem, dadas as ótimas produções que têm aportado nas telonas. Como fazer listas é uma arte – das mais difíceis – algumas regras foram estipuladas para tentar dar um panorama mais amplo. De outra forma, talvez teríamos uns 5 filmes estrelados pelo Batman, por exemplo. Portanto, uma das regras era: apenas um filme por franquia.

Curiosamente, muitas das produções escolhidas foram continuações. Existe uma máxima que sequências não são tão boas quanto os filmes originais, mas isso está longe de ser verdade quando falamos em super-heróis. Blade II, de Guillermo Del Toro, X-Men 2, de Bryan Singer, Homem-Aranha 2, de Sam Raimi, Hellboy II, também de Del Toro, Batman: O Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan e Capitão América 2: O Soldado Invernal, dos irmãos Russo são alguns exemplos de continuações que conseguiram ir além dos seus antecessores. Outro ponto importante foi resgatar algumas produções que não tiveram tanto êxito nas bilheterias, como é o caso de Rocketeer, de Joe Johnston, e Dredd, de Pete Travis, títulos completamente diferentes entre si, mas que não atingiram o público como poderiam em suas épocas.

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Além das críticas a esses grandes filmes, a revista ainda conta com uma compilação das piores produções já lançadas no gênero (Mulher-Gato em primeiro lugar, claro), as maiores bilheterias e os filmes que chegarão aos cinemas até 2020 – são muitos, como vocês bem sabem. Caso você tenha ficado curioso o suficiente para conhecer a revista, o site www.almanaque21.com é o caminho para encontrá-la. Aqui vale também um agradecimento à ComicCon RS, uma das parceiras da publicação, que tem ajudado bastante na divulgação desse trabalho independente, feito de fãs para fãs.

 

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Rodrigo de Oliveira é jornalista, radialista da Unisinos.FM, crítico do site Papo de Cinema e editor-chefe da revista digital ALMANAQUE21. Também é mediador de debates da ComicCON RS desde suas primeiras edições.


Os artistas estrangeiros no Alley da CCXP 2016

Falta muito pouco para a Comic Con Experience 2016 e, enquanto a programação dos disputados painéis não sai, é hora de explorar todas as possibilidades do gigantesco Artists Alley desta edição, montar o próprio roteiro e começar a se preparar para mergulhar em um universo paralelo onde seus heróis e ídolos estão ali sentados em uma mesa à sua espera.

Além dos mais de 400 artistas nacionais que materializam dentro da convenção a incrível diversidade dos quadrinhos brasileiros, o espaço ainda conta com a presença de um seleto grupo de nomes estrangeiros, acessíveis como nunca. Nem todos os convidados anunciados na programação oficial da CCXP estão no Alley, ao mesmo tempo em que alguns artistas internacionais ali presentes não estão entre os convidados oficiais e podem passar despercebidos para o público.

Por isso o Redação Multiverso mapeou os quadrinistas estrangeiros do Artists Alley deste ano, trazendo um breve perfil e uma galeria de imagens que inclui possíveis sketches e artes originais para você cobiçar desde já (sem esquecer que vai enfrentar filas inevitáveis). Outros destaques da programação, como Frank Quitely e Brian Azzarello, autografam em estandes da feira em horários determinados. A lista abaixo segue a ordem alfabética de acordo com a posição das mesas no mapa.

 

Mapa do Artists Alley CCXP 2016

Paul Pope, mesa B18/19

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Um dos nomes mais alternativos da lista de convidados da CCXP, Pope tem um traço tão estranho quanto atraente, que no Brasil pode ser visto nas HQs autorais 100% e Bom de Briga, mas também em sua peculiar versão do Homem-Morcego para a DC Comics em Batman Ano 100. Não deixe de pegar um sketch desse Batman bizarro se tiver a chance.

Simon Bisley, mesa B20/21

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Reza a lenda que seu nanquim é feito com sangue de demônio e ferro líquido, mas preferimos acreditar que Simon é apenas o desenhista mais durão dos quadrinhos, que imortalizou a versão definitiva de Lobo, passou por Hellblazer e fez até capas de discos para o macabro Danzig.

Leandro Fernandez, mesa B34

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Leandro Fernandez começou a carreira como aprendiz de Eduardo Risso, mas foi muito além disso. Com trabalhos marcantes no mercado norte-americano em títulos como Punisher Max e Wolverine, atuou na série The Names, da Vertigo, ao lado de Peter Milligan, e lançou recentemente a HQ autoral Far South, publicada no Brasil pelo selo Stout Club.

Bill Sienkiewicz, mesa B41/42

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Pegue um pouco de Led Zeppelin, misture com arte moderna, um tiquinho de Neal Adams e muita, mas muita atitude. Junte isso com os melhores roteiros dos anos 1980 (como o clássico Elektra: Assassina, ao lado de Frank Miller, que também vai estar presente na CCXP), asse com técnicas avançadas e voilá! Assim nasce Bill Sienkiewicz, um dos desenhistas mais originais que você verá nas HQs.

Mark Farmer, mesa C18/19

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Muitos consideram praticamente impossível dissociar o lápis de Alan Davis do nanquim do também britânico Mark Farmer. Arte-finalizou clássicos como Batman: Ano 2, LJA: O Prego, LJA: O Outro Prego, Quarteto Fantástico: O Fim e Homem Animal: Origem das Espécies. Como quase todos os artistas envolvidos na invasão
britânica aos quadrinhos norte-americanos ocorrida na década de 1980, Farmer teve o seu início como artista na revista semanal 2000 AD, onde desenhou séries como Juiz Dredd e Anderson: Psi Division.

Alan Davis, mesa C20/21

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Um dos principais convidados da CCXP deste ano, o britânico Alan Davis se destacou em parcerias com Alan Moore em Capitão Britânia e Miracleman, e nos Estados Unidos fez diversos trabalhos para a DC Comics em títulos como Batman e Liga da Justiça, mas foi na Marvel que fez história ao lado de Chris Claremont em X-Men, Excalibur, Wolverine e outros. No alley ele vai estar lado a lado com seu fiel parceiro, o arte-finalista Mark Farmer. Imperdível!

Jok, mesa C37/38

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Artista argentino que acaba de ter a HQ de horror Quarenta Caixões publicada no Brasil pela Jambô, em parceria com o roteirista uruguaio Rodolfo Santullo, Jok emplacou um sucesso na revista digital Aces Weekly, de David Lloyd, com a série de fantasia Doungeons and Burglars, e neste ano desenvolveu um projeto ainda secreto para a editora britânica Titan Comics.

Salvador Sanz, mesa C39/40

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O talentoso artista argentino adora o Brasil, já esteve na ComicCON RS e se mostrou muito simpático e acessível. Tem como característica presentear os fãs com impressionantes sketches de personagens de suas surpreendentes obras dentro do gênero do horror, como Noturno, Angela Della Morte e Legião, todas publicadas no Brasil.

Gerardo Zaffino, mesa C41/42

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Filho do também artista Jorge Zaffino, o argentino Gerardo Zaffino vem pela primeira vez ao Brasil mostrar seu estilo sombrio, com técnicas que lembram um pouco o traço de Sean Gordon Murphy, e que se destacou após a parceria com o lendário escritor Warren Ellis em Karnak, da Marvel.

Peter Kuper, mesa E18/19

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Outro nome alternativo entre os convidados da CCXP, o norte-americano Peter Kuper é conhecido pelo trabalho autoral que tem pontos altos como a consagrada tira Spy vs. Spy, na Revista Mad, suas elogiadas adaptações de obras de Franz Kafka e a recente conquista do Eisner de melhor álbum com Ruínas, graphic novel que acaba de sair no Brasil pela Marsupial.

Yanick Paquette, mesa F26/27

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Artista canadense responsável por algumas das mais belas versões recentes de heroínas como Mulher-Maravilha, Batgirl e Catwoman, Paquette também é lembrado como frequente parceiro de Grant Morrison em elogiadas obras como Mulher-Maravilha: Terra Um, Batman Inc. e O Retorno de Bruce Wayne. Trabalhos de encher os olhos.

Jae Lee e June Chung, mesa G01/02

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O casal Jae Lee e June Chung trabalha junto de forma extraordinária. Depois do desenhista vencer o prêmio Eisner em 1999 por Inumanos ao lado de Paul Jenkins, os dois fizeram diversos trabalhos em parceria para a DC Comics, como edições especiais de Antes de Watchmen, Batman/Superman e Superman: American Alien, com traços originais e cores vibrantes. Mas os sketches em preto e branco também chamam atenção.

Eduardo Risso, mesa G03/04

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Poucos desenhistas trabalham tão bem com sombras e com o clima noir quanto Eduardo Risso, lendário artista de 100 Balas convidado da CCXP junto com o roteirista Brian Azzarello. Sua arte lembra os melhores momentos de Frank Miller, mas com um toque muito pessoal, mostrando todo o talento dos vizinhos argentinos. Não dá pra passar pela mesa sem pegar um desses autógrafos personalizados.

Ariel Olivetti, mesa G05/06

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O argentino Ariel Olivetti ilustrou nada menos do que a célebre minissérie Space Ghost, da DC Comics, que pela primeira vez imprimiu tom de realismo ao clássico herói das animações. Embora este seja certamente um marco em sua carreira, é impossível listar em poucas linhas todos os títulos relevantes nos quais trabalhou. Na DC se destacou também em O Reino (continuação direta de Reino do Amanhã), ao lado do roteirista Mark Waid, e na minissérie Superman e Batman vs. Aliens e Predadores. Seu trabalho de destaque mais recente em títulos mainstream foi publicado pela Marvel, no título Venom: Space Knight. Além disso, lançou a HQ independente HQ ICH, que foi lançada no Brasil pela Jambô Editora de forma quase simultânea ao lançamento na Argentina.

Julian Totino, mesa G22/23

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Atuante como desenhista no mercado norte-americano desde 2009, o argentino Julian Totino se destacou como capista em editoras como BOOM! Studios, Kickstart Comics, DC Comics e Dark Horse. Atua na Marvel Comics desde 2011 e já desenhou HQs como X-treme X-Men, Uncanny X-Force, Venom: Circle of Four, Hulk: Season One, X-Men:
Season One, Fantastic Four: Season One, Daredevil: Season One e Spider-Man: Season One.

Max e Sebastián Fiumara, mesa G24/25

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Esses irmãos têm o incrível dom de desenhar criaturas horrendas e dar dinamismo e agilidade às suas páginas. Quer ver uma HQ bem desenhada, frenética e com um traço original? Então pegue algo dos Fiumara, desenhistas de títulos como B.P.R.D e Abe Sapiens, ao lado de Mike Mignola, e revistas como Homem-Aranha, Namor e Hulk vs. Vingadores.

Juan Ferreyra, mesa H20/21

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Artista argentino que vem ganhando destaque na DC Comics. Em sua carreira meteórica já desenhou uma temporada de Esquadrão Suicida durante a iniciativa Os Novos 52 e atualmente cuida da arte do título mensal do Arqueiro Verde na fase Rebirth. Além de se destacar pela qualidade de seu traço e do seu trabalho com cores, a simpatia é outra marca de Juan, que vem cativando o público por onde passa. Neste ano ele foi amplamente elogiado por quem o conheceu na ComicCON RS e também cativou a imprensa especializada durante a New York Comic Con.

Mahmud Asrar, mesa H39/40

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Da Turquia vem Mahmud Asrar, que ficou conhecido pelo título da Supergirl da DC Comics, no qual trabalhou entre 2011 e 2013. Foi no traço dele que toda uma geração de leitores, que começou a acompanhar HQs com a fase Os Novos 52, conheceu a Garota de Aço. Também é lembrado pela minissérie de Star Wars intitulada Jedi: The
Dark Side, que produziu para a Dark Horse. No entanto, desde 2014 é nos títulos dos mutantes da Marvel que tem se destacado ao ilustrar diversas edições das séries Wolverine and the X-Men e All-New X-Men.

Yildiray Cinar, mesa H41/42

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O turco Y?ld?ray Ç?nar tem no currículo os títulos de alguns dos principais personagens da DC Comics. Trabalhou em revistas como Supergirl, Fury of Firestorm, Teen Titans, Legion of the Super-Heroes e Adventures of Superman. Na Casa das Ideias trabalhou em Invincible Iron Man e na Image foi responsável pela arte de Savage Dragon, um dos medalhões da editora.


A folha branca e a tal inspiração

Em algum momento sempre nos deparamos com uma folha branca. Aqueles instantes de esperar a musa ingrata que nunca aparece na hora que precisamos: a inspiração.

Não raro o quadrinista independente acumula funções de desenhista, roteirista, letrista, arte-finalista, passador de cafezinho e office boy. E não raro falta inspiração. Principalmente para o roteirista, na hora de elaborar uma história, há sempre o momento “assustador” da concepção.

Segundo Alan Moore, sua maior inspiração sempre foi colocar comida na mesa. O que nos leva a questão da existência real da inspiração. Para ser mais específico, inspiração é aquela coisa quase epifânica que penetra nosso cérebro, faz brotar ideias e que talvez seja tão mitológica quantos as ideias fabulosas que dela surgem.

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Fui chargista diário de um jornal durante 22 anos e nunca pude ficar esperando grandes sacadas brotarem do nada. A charge tinha que sair de qualquer maneira não importando o quão mal-humorado ou sem ideias eu estivesse no dia. Com o tempo você cria métodos que facilitam a feitura de uma charge, e talvez eu escreva sobre isto numa coluna futura.

Nesta, quero ser mais específico sobre a produção de um roteiro, e em se tratando deste, um bom ponto de partida é a IDEIA. Alan Moore também escreveu um texto sobre como produzir um bom roteiro, que pode ser encontrado facilmente na internet, e é obrigatório para quem quer se aventurar na produção de uma HQ.

Segundo o autor, a “ideia” não é somente a decisão de criar uma história sobre dois caras de colante trocando socos ou se será sobre uma invasão espacial, a ideia é algo mais profundo, é basicamente sobre o que você quer passar para o leitor. O que você quer que ele entenda sobre a sua visão do mundo, é pessoal e estará no subtexto. A história em si é uma casca para se chegar ao fundo do que você quer transmitir. Se você quer que dois caras de colante troquem socos, ok, mas por que eles estão trocando socos?

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Pergunte-se o que você quer dizer para o mundo: qual o seu ponto de vista de determinada questão ou fato? A partir daí crie um mundo que se tornará a metáfora para sua ideia. Creio que a partir daí você pode dar um chute nesta ingrata chamada inspiração e tocar o barco.

Mas aí temos que dar sequência narrativa à história. Não existe uma fórmula para isto, você deve descobrir o que o deixa mais confortável. Uma coisa que funciona para mim é já saber o final da história, vários escritores como Isaac Asimov montam sua história a partir de um final. Estruturar o início, o meio e a fim da narrativa (mesmo que não nesta ordem) também pode dar uma segurança ao roteirista. Outra coisa que funciona para mim, quando a coisa empaca, é deixar o problema de lado e dar uma caminhada ou sair do ambiente de criação. Logicamente que o nó no roteiro vai ficar, como um fantasma do Constantine, pairando ao seu redor, mas tenho conseguido bons resultados com a tal oxigenação do cérebro (que nem sei se é mito ou um placebo psicológico qualquer).

No final, retornamos àquele clichê do homem da lâmpada que nos diz que 99% é transpiração mesmo. Só resta saber se existe mesmo o tal 1%.

Veniet Cito.

 

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Jader Domingues Corrêa é formado em Arte-Educação, trabalhou muitos anos como chargista e hoje é integrante do Dínamo Estúdio. Faz ilustrações para livros, quadrinhos e sketch cards para o mercado americano, e lançou neste ano a HQ Natureza Artificial.


Asterios Polyp e os pontos cegos da percepção

por Jonathan Nunes

Aviso: o artigo contém detalhes e revelações sobre a trama 

Muito já foi dito sobre Asterios Polyp e o modo como seu autor, David Mazzucchelli, soube usar magistralmente as mais diferentes ferramentas narrativas para contar sua história. A obra foi publicada no Brasil pelo selo Quadrinhos na Cia e aclamada pelo público e pela crítica. De fato, Asterios Polyp é uma obra que se diferencia das demais por tratar a linguagem sequencial da forma que ela sempre mereceu ser tratada: como a nona arte. Mas para mim, mais do que uma história de autodescobrimento, Asterios Polyp é uma narrativa sobre o modo como cada um de nós percebe o mundo, e os pontos cegos que somos incapazes de observar.

Numa rápida sinopse, Asterios Polyp é um renomado e respeitado arquiteto que leciona numa faculdade em Ithaca e tem diversos livros publicados sobre o assunto. Apesar disso, Asterios tem a fama de arquiteto de papel, visto que nenhum de seus ostentosos e premiados projetos jamais chegou a de fato ser construído. A história começa quando um raio acerta o prédio do arquiteto e causa um incêndio, e Asterios se vê então obrigado a sair do local apenas com a roupa do corpo e alguns pertences pessoais. Devido a essa reviravolta, Asterios decide partir sem rumo em uma viagem de autodescobrimento.

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Asterios é um homem egocêntrico e petulante. Ele apenas consegue perceber o mundo a sua volta de forma dualística, ignorando qualquer outro conceito. Em uma de suas aulas, Asterios afirma que a arte se divide em factual e ficcional. Factual não se disfarça como arte e ficcional apresenta uma ilusão a quem vê. Ele termina mostrando que apenas acredita na factual ao afirmar que “tudo que não é funcional é meramente decorativo”. Ao escolher usar sua percepção de modo funcional, Asterios acredita que pode desenvolver uma abordagem do mundo onde tudo funciona de forma racional.

Mazzucchelli nos faz perceber o mundo de Asterios através de seus olhos, apresentando um mundo repleto de dualidades técnicas. Os capítulos são divididos de maneira alternada entre o presente e o passado do personagem, cada período tem dois tons de cores dominantes, além de sempre retratar Asterios com formas retas e alinhadas. O uso de Ignazio, o irmão gêmeo de Asterios morto no parto, como narrador da história, também é uma forma de demonstrar a dualidade do personagem, visto que devido à ausência do irmão ele se sente de alguma forma incompleto e assombrado.

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O autor quer nos mostrar, através da história de Asterios, que o problema de observarmos o mundo como preto no branco é que fechamos nossos olhos para toda a área cinza. E é exatamente essa incapacidade de ver o que está entre os extremos que faz com que a vida de Asterios desmorone, assim como seu casamento.

Hana, a esposa de Asterios, é uma mulher com compreensões e crenças bem diferentes das do esposo. Por ser uma artista plástica, Hana vê o mundo de modo ficcional e subjetivo. É exatamente essa diferença entre os dois que, de início, traz equilíbrio ao casal. Mazzucchelli brinca com a nossa percepção ao demonstrar essa integração em dois momentos diferentes. O primeiro quando os personagens se encontram pela primeira vez, e as linhas quentes e vivas com as quais ele desenha Hana preenchem o desenho singular e frio com o qual Asterios é retratado. O segundo momento é logo após Asterios contar a Hana sobre seu irmão morto no parto e sua aflição de se sentir vigiado, Mazzucchelli desenha os personagens deitados na cama retratando um Yin-Yang, símbolo oriental para o equilíbrio.

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Em certo momento da história, Hana ministra uma aula de arte onde coloca dois tijolos sobre uma bancada e pede quantos objetos os alunos podem ver. Após a maioria responder dois, um único aluno responde três afirmando que o espaço entre os dois objetos forma uma terceira forma. Hana afirma que “um escultor não projeta apenas formas, mas cria uma área espacial finita”. Asterios é incapaz de conseguir dar valor a esses espaços vazios, seja na arte ou na vida, já que isso não se demonstra funcional. Ele é incapaz de perceber o modo como ignora e trata Hana com desdém, e isso leva seu casamento ao fim. No início do capítulo, Mazzucchelli abre a narrativa com um pequeno quadro mostrando duas tulipas. Assim como Asterios, se não prestarmos a devida atenção, seremos incapazes de perceber a silhueta de Hana entre os dois objetos.

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No início da história, Asterios assiste a vídeos do circuito interno de sua casa, tentando reviver suas memórias e enxergar em que ponto sua percepção ignorou os detalhes mais relevantes de seu relacionamento. Próximo ao fim do livro, Mazzucchelli usa um monólogo de Ignazio para explicar o quanto a nossa memória é algo que depende exclusivamente da nossa percepção: “Toda lembrança, não importa o quão remota, acontece no ‘agora’, no momento em que é convocada à mente. […] toda lembrança é uma recriação, não uma reprodução”.  Para ilustrar isso, Mazzucchelli usa uma sequência de painéis onde Asterios se recorda da mesma situação sempre de maneiras diferentes, filtrando a memória através do avanço de sua percepção.

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Durante sua viagem, Asterios ainda tem dificuldades para compreender e respeitar as opiniões e percepções alheias. Até que exatamente na metade da revista, Mazzucchelli coloca uma página dupla onde o personagem olha para uma enorme cratera cuja qual Asterios chama de “buraco”. É só a partir deste momento que o personagem consegue perceber o tamanho do vazio dentro de si e começa a se abrir verdadeiramente para abordagens diferentes.

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Quando Mañana, a garçonete do café em Apogee, argumenta com Asterios que o que mantém uma relação saudável são três fatores, “amor, confiança e respeito”, ela usa para provar sua teoria três porta-copos empilhados em pirâmide e afirma: “basta tirar um só e tudo desaba”. Asterios, que afirmou anteriormente não conseguir raciocinar em termos triplos, percebe finalmente o quanto sua antiga percepção filtrou os detalhes pequenos, porém mais importantes de sua vida.

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Logo após esse momento, Asterios é atingido na cabeça por uma garrafa. Antes de acordar no hospital, Asterios mata o irmão gêmeo durante um delírio. O ato marca não apenas o fim da narração de Ignazio como também a libertação do personagem da ideia de dualidade. Ao acordar, Asterios descobre que perdeu um dos olhos e isso demonstra que o personagem mudou sua visão do mundo de maneira literal e figurativa. Um detalhe interessante é que no início da HQ, Ignazio conta que o sobrenome Polyp se deu por que ao chegar ao país um funcionário da imigração da Ilha Ellis abreviou pela metade o sobrenome do pai de Asterios. Polyphemus, na mitologia grega, é o nome do ciclope gigante filho de Poseidon e Thoosa.

Ao reencontrar a esposa após tudo isso, Asterios e Hana aproximam suas mãos, mas não se tocam. Isso prova que ambos agora sabem apreciar o espaço vazio que os completa. Apesar de ter uma nova percepção do mundo a sua volta, é exatamente um detalhe que Asterios deixa de perceber e levar em consideração durante a trama, que causa o final da história. Com isso, o autor quer nos mostrar que independente de nossa percepção sempre haverá pontos cegos no modo como vemos o mundo. Jamais seremos capazes de perceber todos os espaços vazios a nossa volta. Nas palavras do próprio Mazzucchelli, “tudo é filtrado através de alguma forma de percepção”. Portanto, não existe percepção certa ou errada, mas devemos fazer nosso melhor para respeitar e compreender a alheia. Mas principalmente, necessitamos amar, confiar e respeitar aqueles que queremos ao nosso lado, para que eles nos acompanhem até o último segundo de nossos dias.

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Quem é o Superman do Rebirth? (Parte 5 de 5)

Em 2015 o Superman de uma geração voltou. Durante a saga Convergência, a DC Comics mostrou que cidades extraídas de diversos universos extintos da editora haviam sido trancadas em domos e transportadas para um planeta sob o domínio de Brainiac. Na saga, que teve um desenvolvimento de qualidade questionável, os leitores puderam ver mais uma vez personagens com os quais acreditavam que jamais teriam contato novamente.

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Uma das cidades isoladas era a Gotham do universo pré-Ponto de Ignição, onde os leitores puderam ver Clark (sem poderes, devido às propriedades do domo) e Lois em uma tranquila vida civil, às vésperas do nascimento de seu primeiro filho. Quando os domos caíram, os heróis de todas as cidades se enfrentaram por ordem de Telos, um capanga de Brianiac. Em meio à confusão, Lois entrou em trabalho de parto e deu a luz ao pequeno Jonathan Lane Kent.

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No final da saga, Brainiac oferece aos sobreviventes de todas as cidades uma chance de voltarem aos seus universos de origem, desde que eles consigam impedir o colapso do Multiverso ocorrido na Crise nas Infinitas Terras.

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As versões pré-crise do Flash Barry Allen e da Supergirl foram os primeiros a se alistarem para a missão, mas foram seguidos pelo Hal Jordan do período da Zero Hora, quando detinha os poderes de Parallax, e pelo Superman pré-Flashpoint. No entanto, Lois só permitiu que o marido voltasse no tempo para impedir a Crise se ela e Jon pudessem ir juntos. Mesmo com a relutância de Clark, Brainiac aceitou a exigência e mandou a todos para o confronto com o Antimonitor. Logo depois ele informou aos demais presentes que os enviados haviam conseguido impedir o fim do multiverso e mandou todos para casa. O final de Convergência não mostrou o novo final da Crise nas Infinitas Terras e nem apontou o que aconteceu com quem trabalhou para impedi-la.

Lois e Clark

Poucos meses depois do fim de Convergência, a DC Comics lançou a série Superman: Lois e Clark. escrita por Dan Jurgens. Logo na primeira edição, é mostrado que depois de vencerem o Antimonitor os integrantes do grupo enviado pro Brainiac foram parar no universo de Os Novos 52. Enquanto Hal, Kara e Barry optaram por explorar outros destinos, Lois e Clark preferiram assumir novas identidades e criar seu filho de forma discreta no novo universo.

No entanto, Clark não poderia ficar de braços cruzados ao ver que a sua contraparte era mais jovem, inexperiente e, por muitas vezes, errática naquela Terra. Com o intuito de atuar de forma preventiva para impedir o surgimento de vilões que existiam no seu universo, mas que ainda não tinham dado as caras em Os Novos 52, ele adotou um uniforme negro e passou a patrulhar o globo, sempre se mantendo longe dos holofotes.

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Durante os oito números que a série durou, Jurgens alternou a narrativa entre o presente e momentos em que o Superman ainda se adaptava à sua vida atual nos últimos dez anos. Nos dias atuais Lois é uma escritora de livros-reportagem de denúncia, que assina com pseudônimo e irritou ninguém menos que o líder da Intergangue. O Superman, como de costume, está envolvido com ameaças extraterrestres. Só que, pela primeira vez, vemos ele precisar dividir sua atenção entre o seu dever como herói e sua responsabilidade de proteger sua família. Ao mesmo tempo, Jonathan descobre que seu pai foi o Superman de outro universo e precisa lidar com as verdades e mentiras que envolveram a sua própria criação.

As ameaças mostradas em Superman: Lois e Clark servem como pano de fundo para o que Jurgens realmente trabalha na trama. O que importa aqui são as relações entre os integrantes da família White (sobrenome adotado por Lois e Clark nos primeiros anos na nova Terra) e a forma como Superman se contém para não se envolver diretamente e aos olhos do público em grandes aventuras.

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Eles acompanharam à distância a derrocada de Juninho Play (para entender porque o Superman dos Novos 52 é chamado assim no Redação Multiverso, clique aqui). Lois Lane havia revelado a identidade secreta da nova versão do herói ao mundo e seus poderes estavam oscilando. Por coincidência ou não, na mesma época em que Juninho sofria com este problema, o Superman também passava por uma oscilação de poderes.

Adeus para Juninho

Os últimos meses de Juninho Play foram marcados por histórias que expuseram o quanto os roteiristas e editores sempre estiveram perdidos em relação ao que fazer com esta versão do kryptoniano, que nunca namorou Lois Lane e que preferiu ser um blogueiro do que seguir trabalhando no Planeta Diário. Em menos de um ano ele deixou de ter identidade secreta, ganhou um novo poder, perdeu poderes, mudou de visual, começou a se sentir doente e, enfim, morreu. Durante sua saga derradeira, conheceu o Superman e admitiu que o mundo ficaria bem aos cuidados dele.

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Enfrentando um homem flamejante, Juninho exauriu suas últimas forças e faleceu na frente de Lois, Lana Lang, Batman e Mulher-Maravilha, que era sua namorada nesta versão. Ao ver sua contraparte morrer, Superman decidiu honrar sua memória e voltar a vestir o uniforme vermelho e azul.

Rebirth

Na fase Rebirth o Superman finalmente retornou aos seus dias de glória. Como protagonista de Action Comics e do seu título solo, vemos o herói mais decidido e firme em suas posturas do que nunca. A fragilidade de Juninho Play saiu de cena para dar lugar a um Superman de meia idade, capaz de tudo para defender tanto o universo quanto sua família. Além disso, o vemos tomar conta de seu filho para dar apoio à decisão da sua esposa sobre retomar sua identidade e seu trabalho no Planeta Diário, após a morte da Lois dos Novos 52. Vale pontuar que mesmo com a morte de Juninho Play, a identidade de Clark Kent não ficou vaga, já que uma versão humana surgiu ao mesmo tempo em que o Superman retornou. Até agora não se sabe quem é o Clark humano.

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Ao passar mais tempo com Jonathan, Superman começou a treiná-lo para ser o novo Superboy e, desta forma, os leitores podem vê-lo também como um mentor. Da mesma forma, no título Trinity, o vemos como um homem que procura estabelecer laços com pessoas que ele acredita que conhece, mas que não o reconhecem. Batman e Mulher-Maravilha tinham relações próximas com Juninho Play e ainda têm ressalvas à sua substituição.

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Em pouco tempo depois de seu retorno à vida pública, Kal-El já enfrentou versões de velhos inimigos, como o Erradicador, e até mesmo um Apocalypse que parece ser realmente aquele que o matou, e não uma contraparte do universo atual.

Superman is once again battling Doomsday in the pages of Action Comics, with art by Tyler Kirkham. MUST CREDIT: DC Comics

Ele também é observado pelo enigmático Senhor Oz, que pode ser a chave para a verdade sobre as identidades do Superman e do Juninho Play. Na única vez em que vimos um encontro do misterioso observador com o herói, ele afirmou que tanto Superman quanto Juninho não eram quem pensavam ser.

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Aos leitores fica a oportunidade de acompanhar mensalmente as histórias de um Superman em versão mais icônica. Um herói que todo um background envolvendo grandes conquistas, derrotas, vitórias e decepções.

 

Leia também

Quem é o Superman do Rebirth? Parte 1, Parte 2, Parte 3Parte 4 e Parte 4,5

 


Um dia na loja de quadrinhos

Nos Estados Unidos existe um dia do ano em que leitores vão até a loja de quadrinhos mais próxima e saem de lá com gibis exclusivos e gratuitos debaixo do braço. Demorou quinze anos, mas a boa ideia foi finalmente “copiada” e a partir de agora o Brasil tem seu próprio Dia do Quadrinho Grátis, uma versão do tradicional Free Comic Book Day americano que a editora Devir apresenta ao público neste final de semana.

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A data original foi criada a partir de uma ideia sugerida pelo lojista Joe Field, que percebeu como o surgimento de franquias de super-heróis como X-Men no cinema estavam despertando novamente o interesse do público pelos quadrinhos no começo do novo milênio. A iniciativa foi abraçada por Jim Valentino, editor da Image Comics, que sugeriu unir a data ao primeiro fim de semana de estreia do Homem-Aranha de Sam Raimi, aproveitando a efervescência da época. E foi assim que tudo começou: no dia 4 de maio de 2002, depois de assistir na tela grande uma das mais emblemáticas e divertidas produções do gênero e se lembrar do prazer de ler um gibi, o público americano foi atraído para as comic shops com a distribuição de edições grátis de títulos como Star Wars, Tomb Raider, Liga da Justiça e, claro, Homem-Aranha.

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O evento começou pequeno, com poucos participantes e reimpressões de edições populares, mas cresceu até se tornar um dia muito aguardado pelos leitores, já que as editoras passaram a publicar materiais inéditos especialmente para o Free Comic Book Day – a exemplo dos lançamentos de discos no Record Store Day –, incluindo prelúdios das principais sagas da Marvel e da DC, ou aproveitando ainda as tradicionais grandes estreias de maio, como foi o caso de X-Men 2, Homem de Ferro e Os Vingadores.

Versão brasileira

Assim como a inspiração estrangeira, o Dia do Quadrinho Grátis também começa pequeno e liderado por uma editora alternativa, mas com o mesmo potencial para crescer, ser abraçado pelo público e por outras editoras e se tornar uma tradição no país. O momento favorável é semelhante àquele que originou o Free Comic Book Day: o Brasil vive a febre dos filmes de super-heróis com intensidade, batendo recordes de bilheterias a cada estreia, e nunca viveu uma fase melhor para a produção nacional, além de sediar hoje uma das maiores convenções de quadrinhos do mundo com a realização da Comic Con Experience em São Paulo.

Com 19 lojas participantes espalhadas pelo país, o Dia do Quadrinho Grátis acontece neste sábado, 19 de novembro, junto com a Virada Nerd, uma maratona de atividades relacionadas à cultura pop com programação própria em cada um dos espaços, e algumas atrações coletivas organizadas pela Devir e disponibilizadas para toda a rede, como a distribuição de exemplares gratuitos, lançamentos exclusivos e transmissão de bate-papos com convidados internacionais via streaming.

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Nessa primeira experiência com o formato a Devir distribui dois títulos: uma edição exclusiva de Umbrella Academy, de Gerard Way e Gabriel Bá, trazendo a história “Mas o passado não perdoa”, um preview de duas páginas e alguns sketches do artista; e A Origem dos Piratas do Tietê, com as duas primeiras histórias do clássico de Laerte. Entre os lançamentos que chegam às lojas participantes neste sábado estão o terceiro volume de Saga, premiada obra de Brian K. Vaughan e Fiona Staples, e Lumberjanes, HQ vencedora do Eisner de Noelle Stevenson, Grace Ellis e Brooke Allen. Com transmissão exclusiva nas lojas, os bate-papos por streaming contam com a participação dos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá e os americanos Matt Fraction e Gerard Way. A programação detalhada de cada local pode ser conferida no site.

Ponto de encontro

Além da chance de voltar pra casa com quadrinhos grátis, o dia é uma oportunidade para os fãs apoiarem o árduo trabalho realizado pelas lojas especializadas em quadrinhos, quase sempre conduzidas por pessoas apaixonadas pelo gênero. É o caso de Guilherme Dei Svaldi, editor da Jambô e dono da loja Nerdz, de Porto Alegre, que vê no Dia do Quadrinho Grátis um passo importante para aproximar lojas e editoras de um novo público. “Não temos no Brasil a tradição das comic shops, nos EUA elas são tão comuns quanto padarias em algumas cidades – estou brincando, é claro, mas não chega a ser tão longe da verdade. Aqui ainda são raras, mas aos poucos esse paradigma está mudando, e um evento como o Dia do Quadrinho Grátis é importante nesse processo, pois é uma ferramenta útil para atrair o público leigo para esse mundo”.

Com a pesada concorrência dos gigantes do e-commerce que dominam as vendas no país, Guilherme também vê na iniciativa uma maneira de mostrar ao público o diferencial de se frequentar uma loja de quadrinhos. “Justamente oferecer algo que essas empresas grandes, mas generalistas, não conseguem oferecer. Isto é, eventos focados, conhecimento real sobre o produto e o público, e um ambiente realmente agradável e amigável. As pessoas estão valorizando cada vez mais um espaço onde possam se sentir à vontade e encontrar pessoas com os mesmos gostos e anseios”, explica o lojista. No Rio Grande do Sul o Dia do Quadrinho Grátis também é celebrado em Bagé, na livraria Café e Prosa, e em Caxias do Sul, na Livraria Colecionador, além de diversos outros pontos do país, como as lojas Comix e Terra Média, em São Paulo.

Liderado pela editora Devir nessa primeira tentativa de trazer o conceito para o Brasil, o Dia do Quadrinho Grátis já conta com o apoio de diversos parceiros como Instituto dos Quadrinhos, Novo Século, New Pop, Record, Globo Livros, Nemo, Quadrinhos na Cia., Leya, Social Comics, JBC e Editora Aleph, o que indica que com o engajamento do público a iniciativa pode crescer nos próximos anos e se tornar tão forte quanto a data original. Então, já tem planos para esse sábado?


A volta dos autores que não foram

O ano de 2016 está bastante turbulento para os bastidores dos quadrinhos americanos. Alan Moore e J. Michael Straczynski, dois grandes nomes da indústria, anunciaram que vão se aposentar das HQs. Claro, há uma enorme rotatividade de autores no ramo dos quadrinhos, mas o que fazer quando suas mentes mais criativas se aposentam? Apesar do choque inicial, muitos autores mudaram de ideia sobre colocar um ponto final em suas carreiras – até o próprio Moore já fez algo parecido. Essa não é a primeira vez que o criador de obras-primas como Watchmen e V de Vingança dá declarações polêmicas e ameaça se afastar do gênero. Será que dessa vez é pra valer? Neste texto apresento quatro exemplos de alguns dos meus autores favoritos que anunciaram que largariam os quadrinhos e logo depois voltaram atrás.

Grant Morrison

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Amado por muitos e odiado por tantos outros, Grant Morrison anunciou em 2013, logo após sua fase na HQ Action Comics, que deixaria os quadrinhos de super-heróis. Não demorou muito para que ele voltasse à DC Comics para lançar Multiverso DC (2014-2015), saga que explora os diversos universos da editora, e Mulher Maravilha: Terra Um (2016). Multiverso DC fez tanto sucesso que logo teve uma continuação anunciada, embora ainda sem data de lançamento. Alguns acreditam que devido à aposentadoria de Moore e à rivalidade entre os dois autores, Morrison pode anunciar uma nova aposentadoria, mas esse é o tipo de coisa que torço para que não ocorra.

Mike Mignola

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O criador do Hellboy, e dono de um dos traços que mais gosto nos quadrinhos, declarou no começo deste ano que iria se retirar da nona arte para dedicar inteiramente à pintura.  O autor afirmou: ”Eu não posso dizer ao certo se essa vai ser a última coisa do Hellboy que eu estarei envolvido. Eu não quero colocar uma nota final nisso, mas por enquanto esse é o fim da minha era desenhando e escrevendo sobre o Hellboy”. Tal notícia pegou todo mundo de surpresa, mas não demorou muito para Mignola anunciar novas minisséries sobre o universo do menino do inferno (“The Visitor: How and Why He Stayed”, “Hellboy and the B.P.R.D.: 1954  – Ghost Moon” e “Lobster Johnson: The Pirate’s Ghost”). Mesmo que nenhuma das séries tenha a arte dele, para mim, quanto mais HQs do Mignola, melhor.

James Robinson

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Em 2009, durante a polêmica fase na mensal da Liga da Justiça, James Robinson lançou vários tweets com tom depressivo. Em alguns deles falava em se aposentar dos quadrinhos. Para piorar, em 2013, suas ideias para a HQ da Terra-2 eram podadas pela DC, o que resultou na saída do autor da editora. Por sorte, Robinson foi contratado pela Marvel em 2014. O autor está em boa fase há dois anos e foi o grande responsável pelas últimas aventuras do Quarteto Fantástico, além de ser o atual escritor das séries do Esquadrão Supremo e da Feiticeira Escarlate.

Greg Rucka

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Rucka é conhecido por seus ótimos roteiros e, principalmente, por suas personagens femininas fortes, mas ele também é lembrado por ter brigado com a DC e a Marvel devido à forma como as empresas tratam seus personagens e escritores. O ápice dessa confusão foi quando a Marvel anunciou que iria cancelar a revista mensal do Justiceiro, título que Rucka escrevia em 2011, o que resultou no afastamento do autor das HQs do mainstream. Na época, ele escreveu até a uma carta de desabafo, que pode ser lida aqui. Mas como nada é definitivo nas HQs, Rucka voltou para a Marvel em 2014, no título solo do Ciclope, e hoje é o autor da elogiada nova fase da Mulher Maravilha na DC Comics.


A era dos revivals no Japão

por Luciano Maciel

Resgatar séries que deram certo nos anos 80 e 90 tem sido uma fórmula de sucesso no mercado de cultura pop. No oriente, esta tendência também ganha força atualmente. Afinal, quem não quer conquistar uma nova legião de fãs e, ao mesmo tempo, reconquistar uma outra, formada por saudosistas que cresceram carentes por uma continuação? O problema é que nem tudo que funcionava três décadas atrás funciona da mesma maneira hoje em dia, o que resulta em muita discórdia e comentários raivosos na internet. É muito complicado convencer um fã de que as séries que crescemos assistindo na TV Manchete seriam motivos de piada para o público da geração que não viu o tetra da seleção brasileira. E há também o caso do fã que renega os reboots, com a justificativa de que eles estragam aquele desenho que ele tanto gostava.

Então, existe uma forma disso dar certo? Eu diria que sim, e tenho até alguns exemplos para comentar. Posso citar casos como os de Digimon Tri e de Cavaleiros do Zodíaco, que teve uma meia dúzia de sequências e spin-offs bem-sucedidos, ou Sailor Moon, que teve série nova lançada recentemente. E também é possível lembrar de Dragon Ball Z, que além de ter sido relançada de forma enxuta em Dragon Ball Kai, ainda teve dois filmes inéditos lançados no cinema, que chegaram a ser lançados aqui no Brasil. Podiam muito bem ter parado por aí, mas resolveram continuar a história em Dragon Ball Super, e aí começou o problema.

Escolhas ruins

No caso da nova série de Dragon Ball, o problema surgiu quando o estúdio achou que seria uma boa ideia continuar fazendo a série como se estivesse em 1996, com animação ruim e um roteiro arrastado, feito para durar décadas. Sem contar que a trama não se compara em nada com as sagas da série clássica. E conforme os episódios vão passando, é cada vez mais nítido que Dragon Ball Super não tem rumo definido. O próprio Akira Toriyama, autor do mangá Dragon Ball, chegou a criticar publicamente a produção do anime, dizendo estar desapontado com o que fizeram com seus personagens. Apesar do relativo sucesso com o público mais jovem, DBS não soube “envelhecer” a franquia, e, para os fãs de longa data, parece uma piada de mau gosto.

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No entanto, o problema maior de Dragon Ball não está no seu roteiro ou na produção. É o formato de série, com um número “infinito” de episódios, que está esgotado. Vivemos em uma época em que as pessoas querem fazer maratona e ver temporadas inteiras em uma sentada. E com DBS isso não funciona, porque a história é feita para passar semanalmente na TV e se torna sacal quando os episódios são assistidos em sequência. Passar algumas semanas na expectativa por um novo episódio não é problema. É até divertido, com toda a gritaria nas redes sociais. O problema é não ser recompensado por essa espera.

Revisão de formato

Por outro lado, tivemos Digimon Tri, que não apenas inovou no seu enredo, mas apostou em um formato interessante para o seu segmento: uma série de filmes. Sendo lançado em uma quadrilogia, a nova saga dá sequência à primeira e segunda temporadas, trazendo de volta seus personagens em uma aventura que atualiza os conceitos da franquia em muitos aspectos. Formato semelhante ao que o estúdio Gainax fez com Rebuild of Evangelion, o remake da cultuada série Evangelion, de Hideaki Anno. Recontando a trama com novos detalhes, e inserindo novos acontecimentos, a serie já teve três filmes lançados. O quarto, com o tão aguardado final definitivo, estava previsto para 2015, mas foi adiado e não tem previsão de lançamento.

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O formato de filme, além de viabilizar um cuidado muito maior com o roteiro e contar com um orçamento bem bacana para caprichar na animação, facilita muito a sua comercialização em mercados fora do Japão. Tanto que os dois primeiros filmes de Rebuild of Evangelion chegaram até a ser lançados aqui no Brasil. Já Digimon Tri, nos Estados Unidos, foi transformada em uma série de doze episódios para ser lançada em serviços de streaming. Em outros tempos, quanto teríamos que esperar para ver essas séries do lado de cá do planeta?

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Efeito streaming

Falando em streaming, outro caso interessante é o de Kamen Rider Amazons, que resgata um personagem clássico do gênero em uma minissérie de 13 episódios. A produção é da Amazon japonesa, e sua exibição será exclusivamente pela plataforma de vídeo da empresa. Contrariando não apenas o formato do seriado clássico, que normalmente é feito em 52 episódios para TV, a série possui um tom mais adulto, o que vai contra as recentes temporadas da franquia, cada vez mais infantis e comerciais. Além de Kamen Rider, a Amazon comprou os direitos para a produção de uma série de Ultraman. Seria uma alternativa para que o gênero não dependa mais da venda de bonequinhos para sobreviver?

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Hoje nós vivemos em uma época maravilhosa para ser nerd. Não apenas pela quantidade de conteúdo que temos para consumir, mas também pelo grande número de meios que temos para isso. E as produtoras cada vez mais utilizam estes recursos para expandir suas franquias pelo mundo. O Crunchyroll também já está disponível aqui faz tempo. E até no Netflix, aquele serviço de vídeos “modinha”, já temos uma lista enorme de animes e série japonesas. Com tanta opção assim, será que vale mesmo a pena esperar uma semana inteira para ver um episódio em que nada acontece?

luciano-colunaLuciano Maciel é diretor de arte e freelancer, graduado em Publicidade e Propaganda pela Unisinos. Com passagens por agências como Publivar/On, Escala e Centro, e clientes de destaque como Universidade de Caxias do Sul, Sport Club Internacional, Grupo Record-RS, Senac RS E Secretaria de Turismo do Rio Grande do Sul, Luciano também é responsável pela identidade visual da ComicCON RS, principal convenção de quadrinhos e cultura pop do estado.


Redação Multiverso é o site colaborativo de produção de conteúdo sobre quadrinhos
da Produtora Multiverso, em uma iniciativa paralela e complementar à realização da
ComicCON RS – principal convenção de quadrinhos e cultura pop do Rio Grande do Sul.