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Quem é o Superman do Rebirth? (Parte 2 de 5)

Depois de ter sua origem estabelecida por John Byrne na segunda metade da década de 1980 e de ter se firmado como exemplo para toda a comunidade heróica do universo DC, o começo da década de 1990 reservou uma ingrata surpresa para o Superman. Vivendo seu auge como herói, liderando a Liga da Justiça e também uma ótima fase na vida pessoa, estando noivo de Lois Lane, o kryptoniano não podia imaginar o que o destino reservava.

Chega o Apocalypse

Do nada. Foi assim que surgiu o mais forte oponente do Homem de Aço. Um monstro gigante, vestido com uma roupa verde, se libertou de uma misteriosa câmara metálica enterrada em um ponto isolado dos Estados Unidos. A fera conseguiu sair da sua prisão usando apenas um dos braços, já que o outro continuava amarrado para trás. E, usando apenas este braço, ele cruzou o país, deixando um rastro de destruição e seguindo inexplicavelmente rumo a Metrópolis, como que atraído pela cidade do Superman.

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O herói, naquele momento, era entrevistado ao vivo em um talk-show. Quando recebeu a notícia do que se passava, se dirigiu ao campo de batalha. Lá ele encontrou a Liga da Justiça massacrada pelo oponente. Naquele, momento a criatura já havia ganhado o nome que a consagrou: Apocalypse.

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Depois que a Liga caiu, uma troca de golpes, cada vez mais brutais, marcou a batalha do Superman contra o monstro. Por mais que o herói se esforçasse, ele não parava. Mesmo com pontuais intervenções da aliados, como a Supergirl, o kryptoniano estava em clara desvantagem no embate.

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A luta finalmente chegou a Metrópolis e o defensor da cidade deixou de se conter, passou a golpear seu rival com todas as suas forças. Naquele momento, as janelas dos prédios se estilhaçavam com a onda de choque causada pelos socos e ambos os lutadores sangravam. Em meio ao último ato do combate, o Homem de Aço conseguiu ainda conversar com Lois Lane e reiterar o quanto a amava.

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Logo em seguida, o combate se encerrou. O golpe fatal de Apocalypse atingiu Clark Kent, mas ao mesmo tempo o monstro encontrou seu fim através do mais certeiro soco do Superman. Dois cadáveres ficaram estirados em frente à sede do Planeta Diário. Aquela HQ terminou com uma cena sem balões, mas nada silenciosa, na qual os leitores puderam ouvir, em suas cabeças, o som do choro desesperado de uma mulher que perdia o amor de sua vida e não podia contar isso para ninguém.

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No mundo real, pela primeira vez uma história em quadrinhos ganhou repercussão em larga escala na mídia de massa. No Brasil, por exemplo, a morte do Superman teve destaque no Jornal Nacional.

Volta triunfal

A saga que sucedeu a morte do Superman foi tão empolgante quanto difícil de ser resumida. Envolveu o surgimento de quatro Supermen, que buscavam ocupar a vaga deixada pelo original, enquanto o cadáver do kryptoniano havia sumido de sua sepultura. Superboy revelou desde o começo que era um clone. Aço deixava claro que era um homem em uma armadura, buscando honrar a memória de seu salvador. Superciborgue alegava amnésia parcial, dizia não saber como ressuscitou, mas afirmava categoricamente ser o verdadeiro. Já o quarto, e aparentemente mais violento, conhecido como Superman do Visor ou Último Filho de Krypton, não explicava quem era, embora fosse fisicamente idêntico a Kal-El. No fim das contas, este último era a personificação de um artefato kryptoniano chamado Erradicador. Ele assumiu o “S” e a capa após guardar o corpo de Clark em uma matriz de regeneração na Fortaleza da Solidão.

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Quando o mundo já acreditava que o Superciborgue era quem dizia ser, a verdade veio à tona. Aliado ao alienígena Mongul, ele destruiu a cidade de Coast City, matando no processo milhões de conterrâneos do Lanterna Verde Hal Jordan (Hal jamais foi o mesmo depois disso, mas este é um assunto para outra série de artigos). Ciborgue era, na verdade, Hank Henshaw, um antigo desafeto do Superman que, em estado de loucura, culpava o herói pela morte de sua esposa.

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Nem com a força combinada dos outros três Supermen com Lanterna Verde e Supergirl o vilão parecia estar perto de ser derrotado. O que mudou todo o cenário foi o despertar do verdadeiro Superman, que se regenerou na câmara, ressuscitou e surgiu em campo utilizando um uniforme negro.

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Embora tenha entrado na batalha ainda enfraquecido, quando o Erradicador foi ferido e liberou sua energia solar, Kal-El a absorveu e seus poderes voltaram à carga máxima. Assim, recém-retornado da morte, o Homem de Aço derrubou um oponente mais mortal que Apocalypse e, desta vez, manteve-se vivo e forte, provando que estava pronto para novos e maiores desafios.

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Período turbulento

Nos meses que se seguiram ao retorno, Superman teve sobrecarga de seus poderes e ainda precisou evacuar Metrópolis às pressas quando ela foi destruída por um enlouquecido Lex Luthor. A cidade, em seguida, foi remontada por Zatana e também coube a ele trazer a população de volta.

O herói ajudou ainda a recriar o Big-Bang, quando a linha do tempo foi desmantelada durante a crise ocorrida na saga Zero Hora. Como se as provações tivessem sido poucas, a criatura conhecida como Devorador de Sóis apagou o sol e, com isso, Kal-El perdeu suas habilidades especiais. Mesmo quando a estrela reacendeu as energias do kryptoniano permaneceram exauridas. Justamente na época em que precisava viver como um humano normal, chegou para Clark um momento muito próprio da cultura dos humanos: o casamento.

Recompensa

A HQ que mostrou o casamento do Superman focou muito mais no no nervosismo dos noivos e nos preparativos da cerimônia do que no tom aventuresco. A trama fugiu do lugar comum de casamentos de super-heróis. Não surgiu nenhum vilão para a trapalhar a união do casal. Aliás, Superman até tentou patrulhar as ruas, mesmo sem poderes, mas foi abordado por Batman, que comunicou que aquele deveria ser seu dia de folga e que uma força-tarefa, maior do que a Liga da Justiça, cuidaria de Metrópolis até o final da lua de mel.

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Desta forma, o que a revista mostrou foi o casamento de Lois Lane, mas não com Superman, e sim com o humano Clark Kent, um cara que de tão admirado por seus pares pode contar com eles para que pudesse dar toda a atenção à mulher de sua vida no mais importante momento do relacionamento dos dois. Refletindo sobre essa postura, o leitor mais atento já consegue relacionar este personagem com o Clark Kent pai de família mostrado em Rebirth.

Na próxima parte: Eletrizante! Dividido! Rei do Mundo!


Top 5 melhores games baseados em quadrinhos

por Alexandre Woloski [BlogBuster]

A maioria das pessoas pensa que os games baseados em quadrinhos são muito ruins, e elas não estão totalmente erradas. Em sua grande maioria, os jogos inspirados em HQs são muito aquém do esperado. Mas para provar que nem todos os jogos são tão ruins assim, separei uma pequena lista de 5 bons jogos baseados em quadrinhos – existem mais bons jogos do que esses listados abaixo, mas para selecionar e deixar somente o que realmente vale a pena, elenquei apenas cinco.

Então pegue o seu joystick e vamos jogar!

5. Spiderman and Venom: Maximum Carnage

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Posso estar equivocado, mas aqui se encontra o melhor jogo do Homem-Aranha de todos os tempos. Há quem diga que aquele lançado para PS1 é o melhor, mas eu não concordo, apesar daquele jogo me trazer muitas lembranças boas.

O jogo foi lançado em 1994 e é uma adaptação do quadrinho Maximum Carnage, um crossover entre Homem-Aranha e Venom, lançado em 1993. A história trata do surgimento de um novo inimigo, o Carnificina (Carnage), e o Homem-Aranha tem que unir forças com o Venom para destruir essa nova ameaça. No decorrer da trama o Carnificina se alia com diversos inimigos do amigão da vizinhança como: Doppelganger (aquele Homem-Aranha de seis braços), Demogoblin, Shriek, entre outros. Pra não deixar barato, o teioso também convoca seus amigos e recebe ajuda de: Capitão América, Punho de Ferro, Gata Negra e muitos outros.

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Por ser um jogo estilo Beat’ em Up, onde você segue da esquerda para a direita descendo a porrada em todo mundo, ele teve uma receptividade muito boa, já que naquela época era o estilo que predominava nos consoles com Streets of Rage, Final Fight e Double Dragon. Mesmo que a história seja bem simples, o jogo é muito divertido e vale a pena a experiência.

Plataforma: Super Nintendo e Mega Drive

4. X-Men 2: Clone Wars

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Apesar dos mutantes terem inúmeros jogos bons ao longo do tempo, principalmente na década de 90, este, sem dúvidas é o melhor deles. Como na época os jogos estilo Beat’ em Up estavam em alta e a fórmula de adaptar quadrinhos para este estilo também, não era hora de mudar.

Lançado em 1995, X-Men 2: Clone Wars é sequência direta do jogo intitulado apenas X-Men, lançado em 1993 e baseado no desenho da TV dos anos 1990, o que podemos perceber pelas vestimentas dos personagens. Aqui, os mutantes têm a missão de derrotar o vilão Phalanx, que veio para a terra querendo dominá-la, e para isso ele capturou e clonou vários mutantes que ajudarão em sua causa.

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Para impedir Phalanx, foi reunido um seleto grupo de mutantes: Ciclope, Wolverine, Fera, Gambit, Noturno e Psylocke; além disso, eles recebem a ajuda de seu “amigo” momentâneo Magneto. Durante a jornada para derrotar o vilão, diversos rostos familiares aparecem para dificultar a missão, dentre eles estão os Sentinelas e o poderoso Apocalipse.

A jogabilidade era bem simples como todos os jogos deste estilo, mas o que era divertido aqui é que em cada fase você controlava um X-Men aleatório, sendo assim, tinha que ter uma estratégia diferente toda vez, já que cada um tinha um estilo diferente de se jogar. Apesar de parecer um jogo simples, ele não é; sendo o melhor jogo dos mutantes lançado até então.

Plataforma: Mega Drive

3. Injustice

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Já pensou colocar os vilões e heróis do Universo DC para descer na mão uns com os outros? Pois em Injustice você pode fazer isso. Lançado em abril de 2013, Injustice traz uma história totalmente independente dos quadrinhos: após a morte de Jimmy Olsen, Lois Lane e seu filho não nascido, Superman entra em surto e estabelece uma nova ordem mundial, fazendo com que os heróis e vilões lutem entre si, provocando uma grande guerra entre os aliados do Superman contra os aliados do Batman.

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A história é bem simples, mas esse nem é o ponto alto do game, até porque, em um jogo de luta, o que mais importa é a porrada. A jogabilidade é a mesma dos últimos jogos do Mortal Kombat, justamente por ser produzida por Ed Boon, um dos criadores do jogo. Entre os selecionáveis, além de Batman e Superman, podemos contar com: Aquaman, Shazam, Mulher Maravilha, Arqueiro Verde, Asa Noturna, Exterminador, Coringa, Lobo, Lez Luthor, Flash e muitos outros.

O jogo fez um grande sucesso e acabou sendo adaptado para os quadrinhos, onde a história foi melhor trabalhada e agora sim faz um grande sentido. Injustice é, sem dúvidas, um jogo indispensável para quem é fã de HQs.

Plataforma: Playstation 3, Playstation 4, PS Vita, Wii U, Xbox 360

2. TMNT IV – Turtles in Time

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Aqui, meus amigos, está o melhor jogo de estilo Beat’ em Up lançado nos anos 90. Quem viveu a infância naquela época e jogava bastante video-game, com certeza já jogou ou ouviu falar de algum jogo das Tartarugas Ninjas. Mesmo que o TMNT Arcade de 1989 seja um divisor de águas para o estilo, este aqui é, sem dúvidas, o melhor jogo das Tartarugas Ninjas lançado até hoje, bem como uma das melhores adaptações dos quadrinhos.

A maioria dos jogos antigos acabam ficando datados e envelhecem muito mal, mas este é uma das raras exceções. TMNT IV consegue se equiparar e ser tão bom quanto as grandes e milionárias franquias dos dias de hoje, tanto em termos de jogabilidade quanto na diversão proporcionada. Possibilitando jogar de até 4 pessoas, cada um assume o papel de uma das Tartarugas Ninjas: Leonardo, Rafael, Michelangelo e Donatello.

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A história não é um ponto alto, já que naquela época as tartarugas não possuíam grandes sagas para serem contadas. Ela começa com as tartarugas olhando o noticiário no domingo à noite, nele está April O’Neil relatando uma catástrofe provocada por Krang: ele roubou a Estátua da Liberdade.

As tartarugas vão para a rua ver o que está acontecendo e combater o exército de vilões que toma New York, quando repentinamente o Destruidor as lança em um portal que leva para outro tempo. Viajando em diversas eras, agora elas precisam combater as forças do Destruidor no passado e no futuro, para que, no final, elas consigam voltar ao seu tempo e devolver a Estátua da Liberdade ao seu devido lugar.

Plataforma: Super Nintendo e Arcade

1. Série Batman: Arkham

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Se eu fosse considerar os jogos da série Arkham de forma independente, esse top 5 teria espaço para apenas um outro jogo, porque com certeza os quatro games ocupariam todas as primeiras posições. Isso tudo não é por eu ser um fã do Batman, mas sim porque os jogos desta série reúnem o que há de melhor até aqui nas adaptações de quadrinhos, além de aprender com os erros do passado.

Toda a série Arkham não segue nenhuma história dos quadrinhos, embora algum arco do jogo lembre alguma saga, o jogo é totalmente independente e apenas usa os elementos possíveis do universo do Homem-Morcego. A série acabou levando as adaptações para outro patamar, trazendo uma jogabilidade nunca vista até então, o que acabou se tornando padrão e já é utilizada também em outros jogos.

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Além de ser graficamente muito bom, os desenvolvedores adicionaram um modo furtivo ao game, algo parecido com o que é visto na série Metal Gear, onde o personagem pode se camuflar, se esconder, abater e fugir dos inimigos. Estes, que são destaques por aqui, onde além do Coringa, vemos muitos vilões do universo do Batman, como Bane, Arlequina, Espantalho, Charada, Hera Venenosa, Homem Calendário e muitos outros. Ainda podemos jogar com vários personagens como Robin, Asa Noturna e Mulher-Gato.

Todos os jogos são acima da média, a prova disso é que a série tem inúmeros prêmios de melhor jogo e atualmente o Arkham Asylum faz parte do Guinness World Record como “jogo de super-herói mais aclamado pela crítica”. Fica aqui então a minha dica: se não quiser jogar os títulos anteriores desse Top 5, tudo bem, só não perca a oportunidade de jogar qualquer um da série Arkham do Batman, são todos imprescindíveis, seja você fã de quadrinho ou não.

Plataforma: Xbox 360, Xbox One, Playstation 3, Playstation 4, PS Vita, PC, Wii U, Nintendo DS, Android e IOS

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Alexandre Woloski é produtor audiovisual e um dos criadores do BlogBuster, grupo responsável pela cobertura da ComicCON RS 2016 em parceria com o Redação Multiverso. Especialista em games, atua há cerca de 10 anos na área como redator e editor em diversos sites e revistas do tema.


Sobre frustrações, inspirações e quadrinhos

Acho que um dos sentimentos mais comuns nos dias atuais é o de impotência. Somos criados para sermos pessoas de sucesso, grandes profissionais, grandes nomes. Somos induzidos a acreditar que a felicidade vem apenas com grandes conquistas, com o reconhecimento de outras pessoas que são reconhecidas por seus êxitos. E é claro que toda essa pressão resulta em problemas, em desgastes e frustrações.

Por muito tempo me senti desencaixada no mundo e sozinha mesmo quando tinha companhia. Eu sabia o que eu queria fazer: contar histórias. Só não sabia como. E acho que foi isso que me fez, por muito tempo, deixar de contar histórias. Não encontrar uma fórmula a seguir me deixou estagnada e acompanhada de medos. Medo de falhar, medo de não ser boa. Medos, inseguranças e a pressão que causa a depressão se fizeram mais presentes do que nunca.

Há alguns anos eu estava deprimida e de bobeira na internet (como quase sempre) e me deparei com um discurso chamado “Make Good Art”, feito pelo Neil Gaiman e ouvir as palavras dele me pareceu como se eu estivesse tomando graciosos tabefes.

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“Se você tem ideia do que você quer fazer, o que você foi colocado para fazer aqui então vá lá e faça! E isso é muito mais difícil do que parece e, às vezes, no final, muito mais fácil do que você pode ter imaginado. Porque normalmente há coisas que você precisa fazer antes que possa chegar ao lugar que você quer estar”. Esse é um dos trechos (traduzido por mim) do discurso feito pelo Gaiman. E por causa dele consegui parar um pouco para pensar sobre tudo isso que vim falar com vocês aqui. Compreendi que eu precisava viver para ter histórias para contar. E com viver quero dizer viver mesmo. Ler, ouvir música, assistir a filmes e seriados, ter frustrações, “buscar a felicidade”, brincar com os gatos e cachorros. Tudo isso gera experiência, gera inspiração. E se alguma doença, algo que seja problemático em algum grau faz parte da sua vida, por que não usar isso para algo que te faça bem?

Demorei algum tempo até finalmente deslanchar no meu trabalho como autora de tirinhas e como artista, mas sei que todos os anos que se passaram foram vistos como período preparatório, como um laboratório para que eu tivesse mais maturidade e pudesse abordar as coisas que me afligem sem medo, e talvez inspirar pessoas que se identifiquem a fazer o mesmo. Foram anos em que colhi histórias e tentei compreender que a vida precisa acontecer de algum jeito, que não posso esperar encontrar “um caminho certo”. Momentos ideais recheiam nossos dias quando nos permitimos viver sem todas as expectativas e anseios pelo tão sonhado sucesso. Aliás, sucesso é conseguir aproveitar bem os dias, com as coisas que você gosta de fazer, né? E sei bem como isso é verdade porque me inspirei em outros artistas, da música, dos quadrinhos (assistindo painéis em eventos – compareçam em todos que puderem!), filmes, animações. Espero mesmo poder trazer benefícios a outras pessoas como outras pessoas (que sabem ou não que eu existo) trouxeram para mim.

Vejam bem, dia 27 de setembro desse ano foi publicada uma entrevista feita com o Tom Chaplin, músico e vocalista do Keane, uma das minhas bandas preferidas, e que está agora em carreira solo enquanto a banda segue em hiato. Quem já conversou comigo ou leu algumas das entrevistas que dei sabe que Keane é uma das maiores influências na minha vida e no meu trabalho como artista. Na entrevista, ele conta que o processo criativo do primeiro trabalho solo dele causou uma catástrofe: depressão e a retomada do vício em drogas. Isso porque ele não conseguia escrever músicas como ele queria. E ele fala abertamente sobre como ele arruinou seus relacionamentos. Ele disse que foi para não perder sua esposa e filha é que tomou iniciativa de se recuperar – Tom já não se importava mais apenas com ele. Estive assim nas últimas semanas, vendo pessoas tentarem me ajudar e eu não conseguir sair sozinha do buraco em que eu me meti por motivos parecidos: insatisfação com o que crio.

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Outro artista que admiro e acompanho desde os meus 13 anos -hoje tenho 24-, Gerard Way (o carinha do Umbrella Academy, do Doom Patrol, diretor do selo Young Animal), me deu o privilégio de ouvir ele falar sobre a depressão dele, sobre esses problemas que também o fizeram se sentir frágil e como ele luta diariamente para se manter em equilíbrio. Com medicamentos e terapia (que, no meu caso, é o desenho e acredito que também seja para muitos outros quadrinistas).

Gerard Way PR via Brian Bumbery 2014 credit:  Eric Ray Davidson 

Eles sempre foram artistas abertos para esses assuntos, e sempre falaram dessas questões em suas músicas. Cresci vendo pessoas consagradas falarem sem medos sobre problemas que imaginamos acontecerem somente conosco. Vi eles usarem esses temas: depressão, cotidiano, força, vícios dos mais variados tipos etc. na arte deles e isso fez com que eu me sentisse à vontade para falar dos meus problemas também. Acho que essa é uma forma de exorcizar coisas que muitas vezes nos sufocam e também é uma forma de causar identificação e inspiração: se eles, meus modelos, têm graves problemas e conseguem enfrentá-los, por que eu também não posso? E se eles me fazem ter essas reflexões, por que não tento fazer o que amo, falar do que estiver me afligindo, se essa for minha vontade/necessidade, e repassar alguma mensagem para quem precisa?

Bóra fazer arte, galera.

 

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Letícia Pusti é criadora da página de tirinhas Another Art Book, hoje com quasem 100 mil seguidores, onde retrata o lado cômico e por vezes depressivo da vida universitária. É estudante de Artes Visuais na UFRGS e estagiária do Estúdio Complementares. Sua primeira história em quadrinhos, intitulada Im.pessoais, foi financiada pelo Catarse.


10 HQs imperdíveis da nova Marvel NOW!

Em outubro, a Marvel Comics começa a publicar nos Estados Unidos a sua nova linha editorial intitulada Marvel NOW!. Além das revistas já existentes que seguem com numeração normal, a editora anunciou vários novos títulos – um prato cheio para quem quer acompanhar ou colecionar desde o começo. Como muitos dos anúncios foram surpreendentes, mas nem todos os leitores terão tempo de acompanhar tudo, a equipe do Redação Multiverso selecionou 10 HQs estreantes que podem ser consideradas imperdíveis neste novo capítulo da Casa das Ideias.

Champions

Roteiro: Mark Waid / Arte: Humberto Ramos

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Por Leonardo Mello de Oliveira

O time que será formado pelos ex-vingadores Homem-Aranha (Miles Morales), Miss Marvel e Nova, junto a outros jovens heróis, tem tudo para ser uma importante equipe adolescente. Waid provou que sabe escrever personagens que carregam legado, vide sua longa passagem pelo título The Flash. Além disso, a proposta de tratar o conceito do que é ser um super-herói e de lidar com problemas mais mundanos é ótima. Apesar de não ser um entusiasta da arte do Humberto Ramos, acredito que, dentro daquilo que será mostrado, ela pode combinar bem.

Amazing Spiderman: Renew Your Vows

Roteiro:  Gerry Conway / Arte: Ryan Stegman

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Por Émerson Vasconcelos

Não é à toa que Amazing Spider-Man: Renew Your Vows chamou tanta atenção como tie-in da recente versão de Guerras Secretas e que agora se torna série regular em Marvel NOW!, com roteiros de Gerry Conway e arte de Ryan Stegman. Pouca coisa incomoda tanto os fãs de longa data do Homem-Aranha nos quadrinhos quanto o remendo cronológico que apagou o casamento e boa parte do relacionamento de Peter Parker com Mary Jane Watson. Por isso, a possibilidade de ver o aracnídeo casado, e criando uma filha com o amor de sua vida, gera tantas expectativas.

Kingpin

Roteiro: Matthew Rosenberg / Arte: Ben Torres

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Por Jonathan Nunes

Não é raro ver vilões ganhando suas próprias revistas, mas essa é a primeira vez que o Rei do Crime terá uma HQ mensal só para ele. Atualmente o personagem aparece em uma minissérie em seis edições, que mostra Wilson Fisk voltando a Nova York e se aproveitando da Guerra Civil entre os heróis para restabelecer seu posto criminoso. A história foi tão bem recebida que Matthew Rosenberg, dessa vez ao lado de Ben Torres na arte, continuará escrevendo a escalada do vilão até recuperar o seu trono.

Death of X

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Roteiro: Charles Soule e Jeff Lemire / Arte: Aaron Kuder

Por Marina de Campos

Death of X chega com uma missão monumental: preencher o abismo de perguntas deixado desde o fim das Guerras Secretas – entre elas, o que afinal aconteceu com Ciclope? –, abrir caminho para a prometida batalha entre mutantes e inumanos na nova saga que começa em dezembro e, sobretudo, satisfazer os fãs de X-Men, que andam desconfiados com os rumos do grupo. Tudo isso em uma minissérie de apenas quatro edições assinada por Charles Soule e Jeff Lemire, com desenhos de Aaron Kuder. O sugestivo título parece mais uma provocação, mas é melhor pagar para ver.

Cage!

Roteiro e Arte: Gendy Tartakovsky

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Por Lucas Gonçalves

Gendy Tartakovsky é criador de animações como o bem-humorado Laboratório de Dexter e o frenético Samurai Jack. Além de ser um grande fã de quadrinhos, ele está trabalhando há anos com a ideia de uma HQ de Luke Cage. Com o título Cage!, a obra agora, finalmente, será lançada, resgatando o clima dos anos 1970 do personagem, com direito até a tiara e cinto de corrente. Se o título tiver toda a graça e a ação desenfreada das animações produzidas por Tartakovsky, tem tudo para ser uma grata surpresa de 2016.

Jessica Jones

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Roteiro: Brian Michael Bendis / Arte: Michael Gaydos

Por Guilherme Wunder

Com boas chances de conquistar números altos de vendas, Jessica Jones pode ser considerada um dos principais lançamentos deste ano. A nova série vai chamar a atenção dos antigos leitores, que se deliciaram com Alias e que poderão conferir o reencontro da heroína com os criadores Brian Michael Bendis e Michael Gaydos. Ao mesmo tempo, deve conquistar, pelo menos em seus primeiros números, a atenção dos fãs do seriado produzido pela Netflix. Obviamente esses fatores não garantem o sucesso da HQ, mas a expectativa pode beneficiar a Marvel.

Avengers

Roteiro: Mark Waid / Arte: Mike Del Mundo

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Por Leonardo Mello de Oliveira

Levando em conta o trabalho que Waid desenvolveu até agora com seus All-New, All-Different Avengers, podemos esperar uma HQ de equipe leve e divertida, com uma interação muito interessante entre os membros. O escritor é um mestre em desenvolver personagens e enviá-los a novos caminhos, sendo fiel às personalidades já estabelecidas. É grande a curiosidade para saber como será o novo status quo da equipe depois dos eventos da segunda Guerra Civil, assim como para entender como ficam as relações entre os membros e a convivência com os Campeões (Champions). Da mesma forma, a riquíssima arte do Del Mundo também gera uma alta expectativa.

Invincible Iron Man

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Roteiro: Brian Michael Bendis / Arte: Stefano Caselli

Por Jonathan Nunes

A nova HQ do Homem de Ferro começou a causar polêmica logo que foi anunciada. Um dos principais motivos para a divisão de opiniões é que Tony Stark não vestirá mais a armadura do herói e nem será o protagonista da revista. Riri Willians, uma adolescente negra, é a nova herdeira da armadura do herói e passará a atuar sob a alcunha de Iron Heart. A mudança traz inúmeras possibilidades criativas, mas a estranheza que criou em parte do público exigirá um trabalho ainda mais refinado por parte de Brian Michael Bendis e Stefano Caselli, autores da revista.

Occupy Avengers

Roteiro: David Walker / Arte: Gabriel Walta

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Por Marina de Campos

Que tal uma road trip pelos EUA na companhia de um herói em crise existencial que decide formar sua própria equipe e trocar os vilões e as grandes catástrofes pela luta cotidiana contra as injustiças sociais? Aceito carona! Com originalidade e forte conotação política, Occupy Avengers segue a trama de Guerra Civil II mostrando a transformação de Gavião Arqueiro depois de se ver considerado traidor por super-heróis e salvador pela população. Promessa de uma história humana, reflexiva e fincada na realidade, como a Marvel bem sabe fazer.

The Unworthy Thor

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Roteiro: Jason Aaron / Arte: Olivier Coipel

Por Lucas Gonçalves

Toda jornada de um deus é uma grandiosa e épica história, principalmente quando se trata de seu ressurgimento – tanto no quesito da morte/queda quanto na tão esperada volta, após algum tempo ausente –, e o retorno do filho de Odin tem tudo para honrar tais características. Com os roteiros do sempre genial Jason Aaron – que já entrou para a história entre os melhores autores do personagem – e a fabulosa arte do Olivier Coipel, O Indigno Thor é uma das grandes apostas dessa nova fase da Marvel e talvez possa se tornar um vindouro clássico moderno.

Menção honrosa: Infamous Iron Man

Roteiro: Brian Michael Bendis / Arte: Alex Maleev

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Por Jonathan Nunes

Victor Von Doom há algum tempo se aproxima de Tony Stark, e agora que o bilionário vai largar a armadura, o vilão assumirá a identidade heroica para si, prometendo triunfar onde Stark falhou. Se ver as maquinações de Von Doom como herói não fosse o suficiente, outro aspecto que anima nessa nova revista é sua equipe criativa. Brian Michael Bendis e Alex Maleev, responsáveis por umas das melhores fases do Demolidor e pela graphic novel Scarlet, assumem o título e devem mergulhar fundo na psique do vilão.


O peso da cultura pop em V de Vingança

por Marina de Campos

Você aí atrás dessa tela rodeado por estantes que já não dão mais conta de tantos livros, discos, filmes e quadrinhos, sempre perseguido por essa compulsão de acumular, resgatar, salvar do mundo, levar pra casa mesmo sem ter mais tempo ou espaço, mentindo pra si mesmo que aquele vai ser o último exemplar. Por acaso já se deu conta? Essa é a sua Galeria das Sombras.

Pode ser difícil de imaginar agora, mas no fim dos anos 1970 os jovens britânicos Alan Moore e David Lloyd eram quase anônimos como eu e você, devorando livros e idolatrando suas estantes à espera da chance de usar todas as ideias incríveis que reuniram e preservaram ali. A oportunidade apareceu por acaso em 1982, quando a revista Warrior convocou os dois para um novo título – aquele mesmo, que logo viria a se tornar uma das histórias em quadrinhos mais influentes de todos os tempos.

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Quando chegou a hora eles não pouparam munição: despejaram no projeto suas melhores e mais contundentes influências, tudo aquilo que absorveram após anos arrastando consigo uma pesada bagagem cultural. Em seu artigo sobre V de Vingança, Moore conta que só foi encontrar o rumo depois de listar algumas boas referências como ponto de partida. “Certa noite, em desespero, redigi uma longa lista de conceitos que gostaria de abordar em V, numa rápida associação livre que levaria qualquer bom psiquiatra a puxar a cordinha de emergência”. As anotações traziam temas aleatórios como George Orwell, Juiz Dredd, David Bowie, Fahrenheit 451, Marx Ernst, Thomas Pynchon e até ideias abstratas como “a atmosfera dos filmes ingleses sobre a Segunda Guerra”. Após algumas trocas de cartas, Lloyd veio com aquela que seria a referência fatal. “No instante em que li suas palavras, duas coisas me ocorreram. Primeiro, Dave era mais doido do que eu supunha; e segundo, era a melhor ideia que eu tinha ouvido em toda minha vida. Súbito, os vários fragmentos desconexos em minha cabeça começaram a se encaixar, organizados pela imagem da máscara de Guy Fawkes”.

Isso dá a dimensão da importância das referências por trás de V de Vingança, certamente um dos motivos que tornam a obra tão monumental. Nada está ali por acaso, nem um detalhe, nem um enquadramento, nem uma citação sem um bom motivo. Ao mesmo tempo, dá pra dizer que um pouco de tudo se encontra ali: arte, música, cinema, teatro, literatura, história, política, religião, psicologia, comportamento… a cultura pop de um século condensada em 300 páginas. E o melhor: da mesma maneira que se vale de tantas referências, V de Vingança se tornou uma das maiores referências do nosso tempo, o que só reforça esse fascinante ciclo de inspiração e influência que impulsiona a arte desde sempre.

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Para completar, a ideia também se manifesta dentro da própria trama, com a Galeria das Sombras: uma incrível coleção que não deixa V se esquecer de sua identidade e de sua própria humanidade. Proibida pelo governo totalitário como forma de limitar o pensamento da população e destruir sua individualidade, a cultura tem mesmo esse poderoso efeito. É nesse ambiente que a jovem Evey descobre quem realmente é e o que acredita, algo até então impossível pela ausência de referências. É a busca por esse mundo ideal reproduzido em seu esconderijo subterrâneos que os guia em sua cruzada por liberdade. É o encontro de uma plenitude possível, de um motivo para tudo isso. Pois no fundo você sabe, quase sempre são as nossas leituras, as nossas coleções, essas paixões mantidas tão próximas e que dizem tanto sobre nós, aquelas que dão algum sentido e são no fim a única arma de resistência possível contra a banalidade da vida.

 

Uma seleção de referências da cultura pop em V de Vingança

Simpatia pelos Stones

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“Por favor, permita que eu me apresente… Sou um homem de riquezas e bom gosto”. Irônica, sutil e tão precisa quanto uma referência deve ser, essa é uma daquelas passagens de V de Vingança que fazem o leitor vibrar de identificação. O trecho inicial de Sympathy for the Devil, clássico dos Stones de 1968, tem tanto impacto aqui quanto na música. A distribuição de frases na sequência de quadros é cinematográfica, enquanto que o deboche de V, a compreensão apavorada do padre e o detalhe da luz que bate na franja do mascarado formando sarcásticos chifres completam a mensagem. Frente ao aspecto mais podre da religião, não havia forma melhor de evocar o diabo – e provocar simpatia por ele.

Hitler por toda parte

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Não é curioso como a gente sempre dá um jeito de relacionar Hitler a tudo? Uma obsessão coletiva que beira ao culto, mesmo que em tom reprovador. Em V de Vingança ele inevitavelmente aparece, e mais de uma vez: além de ser citado entre os ditadores na sequência do discurso na TV, sua controversa biografia Minha Luta aparece na estante de V na Galeria das Sombras. A ironia é que o livro aparece bem ao lado de O Capital, de Karl Marx, obra fundamental do comunismo.

Dietilamida de Ácido Lisérgico

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Talvez tenha sido a primeira, mas estava longe de ser a última referência de Alan Moore às drogas em suas histórias. E sua aparição acontece em um momento-chave da trama, quando Finch chega ao extremo em sua busca por compreender a mente de V e se submete a uma experiência com LSD em Larkhill, crendo na teoria de que sob efeito do ácido fosse possível absorver experiências vividas em um mesmo local. Símbolo da contracultura dos anos 1960, o LSD influenciou boa parte da produção cultural da época, ainda que controverso até os dias de hoje.

A foice de Bradbury

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O escritor americano Ray Bradbury tem forte influência sobre V de Vingança. Primeiro, aparece na lista de conceitos de Moore através do clássico Fahrenheit 451, uma distopia de atmosfera semelhante à HQ por semelhanças como a ambientação em um futuro de governo totalitário, onde todos os livros são proibidos e queimados. Depois, seu conto A Foice é citado dentro da história em um momento muito simbólico, que mostra a evolução de Eve, agora imersa nesse mundo e capaz de fazer suas próprias referências.

O termo Motown é familiar?

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O nome da lendária gravadora independente que alavancou o sucesso de gêneros musicais afro-americanos com uma mistura de rock, soul, gospel e rhythm and blues nos anos 1960 e 70, assim como a citação à icônica cantora negra de jazz Billie Holliday, também não aparecem por acaso. A insinuação de V sobre algumas culturas ainda mais sufocadas que as outras traz à tona os aspectos políticos e sociais abordados na trama, que mostram a exclusão e perseguição de minorias como negros e homossexuais em um regime autoritário, e o desprezo à sua cultura como arma eficaz.

O V de Thomas Pynchon

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Essa é umas das referências que aparecem de forma literal tanto na lista de Moore quanto no resultado da obra. Um dos escritores mais intrigantes e inovadores do século 20, Thomas Pynchon publicou em 1963 o romance intitulado V, descrito como uma variação entre a “cultura intelectual” e o meio da cultura pop underground, o que não por coincidência também pode ser dito sobre a Galeria das Sombras e o próprio V de Vingança. Além disso, a passagem do livro faz uma clara menção à identidade desconhecida do protagonista e a ideia de uma mensagem maior e mais importante do que um indivíduo.

[Os Irmãos] Marx

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Entre os muitos pôsteres de filmes que decoram a Galeria das Sombras, como os clássicos Os Assassinatos da Rua Morgue, Fúria Sanguinária e O Filho de Frankenstein, também estão presentes os Irmãos Marx, comediantes considerados precursores por um estilo de humor sem regras, inesperado e por vezes nonsense. Em Os Quatro Batutas, de 1931, o icônico Groucho Marx e seus irmãos são passageiros clandestinos em um navio e bagunçam uma festa social a bordo, capturando alguns impostores. A referência parece aludir à situação de V, clandestino em um sistema que abala as estruturas e captura inimigos, tendo a ironia e elemento inesperado como arma.

O Experimento Milgram

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Um momento marcante acontece quando o personagem aparece para Delia no meio da noite. Consciente de seu papel no trágico passado de V, a médica cita o famoso Experimento Milgram, realizado na Universidade de Yale em 1963. Buscando entender como tantas pessoas comuns cometeram atrocidades durante o nazismo e ao fim justificaram que estavam apenas cumprindo ordens, o controverso episódio testou até que ponto a obediência à autoridade poderia se sobrepor à razão do indivíduo, o levando a ultrapassar limites morais em nome de uma obrigação. E a conclusão não foi nada boa. Depois de uma conversa franca, a resignação de Delia e a suavidade de V em cumprir sua missão fazem desta uma das sequências mais belas e doloridas de V de Vingança.

V de Velvet Underground

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Referências são legais, mas às vezes enchem o saco! Clássico do Velvet Underground, “I’m Waiting For the Man” não chega a ser tão conhecido quanto a capa do disco em que está inserido – famoso pela icônica banana do artista Andy Warhol, símbolo da pop art –, mas funciona com perfeição justamente por ser menos acessível e tirar Eve do sério, talvez em uma autoironia de Moore sobre as suas recorrentes citações.

A sociedade alternativa de Crowley

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A frase ficou muito famosa no Brasil graças a Raul Seixas, que a imortalizou na música Sociedade Alternativa – um verdadeiro hino à anarquia, assim como V de Vingança. Mas a citação original vem da Lei de Thelema de Aleister Crowley, controverso ocultista que no início do século 20 afirmou ter recebido ensinamentos de um deus-demônio, o que assustou a sociedade da época e fez com que fosse declarado pela imprensa como “o homem mais perverso do mundo”. Será que a liberdade segue sendo um conceito tão perverso assim? Faz o que tu queres pois é tudo da lei, da lei!

Os Miseráveis e os clássicos

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Quando o caos toma conta das ruas, um icônico retrato aparece em um muro: o olhar de Cosette estampa o cartaz da peça Les Miserables, baseada no romance de Vitor Hugo, sobre um homem que passa de ex-criminoso a líder revolucionário. A alusão ao livro também evoca a obra A Liberdade Guiando o Povo, de Delacroix, na qual o autor francês se inspirou para a criação de alguns personagens, e que se explica como referência por seu sugestivo nome. Entre outros clássicos indiretamente citados em V estão Fausto, A Odisseia de Homero, A Divina Comédia, As Viagens de Gulliver, Mil e Uma Noites, Dom Quixote e a sempre onipresente obra de Shakespeare.

 

Referências baseadas na leitura da obra e no levantamento realizado pela Universidade de Louisiana que pode ser conferido na íntegra aqui.


Quem é o Superman do Rebirth? (Parte 1 de 5)

Por Émerson Vasconcelos

Com a chegada da iniciativa Rebirth, vários leitores que começaram a acompanhar as HQs da DC Comics nos últimos anos foram pegos de surpresa, e até ficaram um pouco confusos, com a subtituição do Superman vigente por uma versão anterior e mais velha. Enquanto isso, fãs veteranos comemoraram a retomada daquele que muitos consideram como o homem de aço definitivo. Mas, afinal de contas, quem é este herói amado por tantos e ainda desconhecido de uma parcela do público que aprendeu a amar aquele que a DC acaba de descartar?

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Cidadão do Kansas

Em 1986, depois da Crise nas Infinitas Terras, veio Alan Moore e, com ele, o fim do Superman. Ou, pelo menos, o fim daquele Superman que os leitores acompanhavam até então. Semanas depois, um novo surgiu, pelas mãos de John Byrne, que se propôs a remontar o mito do homem de aço, fazendo dele novamente o último kryptoniano, sem parentes vivos, sem animais de estimação vindos direto do seu planeta natal e até mesmo sem grandes vínculos com uma cultura morta.

A versão de Byrne estabeleceu que Kal-El foi mandado para a Terra ainda como um feto, guardado em uma câmara matriz que servia como útero artificial. O planeta Krypton passou a ser retratado como um lugar frio e tecnológico, onde o contato físico não era uma prática comum e as crianças eram geradas através de inseminação artificial. Ou seja, quando houve a explosão que vitimou todos os kryptonianos, Jor-el e Lara tiveram que se despedir de um filho ainda em gestação, que não levou lembrança alguma de seu lar original.

Desta forma, ao cair na fazenda Kent, o Superman de Byrne não apenas aterrisou, ele nasceu no momento em que a câmara matriz, convertida em nave, se abriu. Apesar de ser o último kryptoniano, em decorrência de sua genética, Clark Kent nasceu em solo americano, sendo de fato um cidadão do Kansas. Em tempos de Guerra Fria este detalhe se tornou fundamental para a boa aceitação da versão que passou a ser vista como a definitiva do personagem nos quadrinhos.

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Vale pontuar também que, desta vez, ao contrário do que aconteceu nas versões anteriores do cânone, Jonathan Kent estava vivo na fase adulta de seu filho adotivo, sendo, assim como a esposa Martha, um conselheiro para o herói. Mesmo com várias revisões de origem e retcons, o homem de aço pós-crise se manteve vigente até 2011, quando foi substituído na iniciativa conhecida como Novos 52. E, mais relevante do que isso, ele se tornou tão icônico que foi trazido de volta depois que a versão mais recente naufragou aos olhos do público e da crítica.

Uma curiosidade a ser pontuada é que a primeira cena em que Clark voa vestindo o uniforme azul e vermelho na fase Rebirth é uma referência direta à primeira vez em que ele sai da fazenda Kent como Superman no arco inicial de Byrne.

 Tabus quebrados

Ainda sob o comando de John Byrne, o herói precisou romper seus limites. Em um arco escrito pelo autor, Kal-El se vê obrigado a matar três kriptonianos que destruíram toda a Terra em um universo paralelo. Após o ato, Kal-El megulhou em um período longo de depressão e incertezas. Pela primeira vez em muitos anos o leitor viu Superman contestando fortemente seus atos e convivendo com o remorso, mesmo sabendo que não tinha outra alternativa no momento em que os vilões ameaçaram destruir também a Terra da universo DC.

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Após um exílio no espaço, tanto as atividades heróicas quanto o emprego de Clark Kent no Planeta Diário foram retomados. Depois de tomar a decisão mais difícil de sua carreira, o que se viu foi um herói cada vez mais forte, decidido e inspirador. Em paralelo, protagonizou a primeira fase nas HQs em que Clark não foi retratado como um homem trapalhão e inseguro. Jornalista premiado, esta versão do garoto de Smallville conquistou o coração de Lois Lane e se tornou seu noivo, saindo da sombra de seu próprio alter-ego voador.

Mais do que se tornar noivo de sua, até então, eterna namorada, Clark revelou a ela, já na fase em que outros autores escreviam os quatro títulos do herói, seu grande segredo. Ele o fez de forma tão segura que a convenceu de que seus motivos para manter o segredo eram nobres. Com isso, além de não perder o respeito de Lois, ganhou uma importante aliada na árdua tarefa de inventar desculpas para suas ausências na redação do jornal.

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Líder nato

Embora Byrne tenha criado a versão pós-crise em 1986, foi nas mãos de Dan Jurgens que o herói teve seus momentos mais marcantes na década seguinte. Escritor também do título da Liga da Justiça da América, Jurgens fez com que o Superman se tornasse uma espécie de sol, em torno do qual todos os outros integrantes da equipe orbitavam. Nesta fase, a Liga era formada por heróis que, na época, tinham pouca expressão, como Fogo, Gelo, Besouro Azul e Gladiador Dourado. Isso evidenciava ainda mais a forma como estes outros defensores da justiça respeitavam, admiravam e chegavam a seguir cegamente as orientações do líder. Mesmo Guy Gardner, que bateu de frente com Kal-El em várias ocasiões nos bastidores das missões, costumava seguir à risca o que ele propunha no campo de batalha.

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A liderança da Liga e o noivado com Lois Lane constituíam o que parecia ser o melhor momento na vida de um herói, uma recompensa por todos os serviços prestados. No entanto, justamente nesta época, ele prestou mais um serviço, que não trouxe nenhum tipo de compensação. Na verdade, pelo contrário, aquela missão, começada ao lado da sua equipe e terminada em um esforço individual, lhe custou a própria vida.

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Na próxima parte: Da morte ao casamento!


Em busca da cerda perfeita

por Jader Corrêa

Na minha caminhada pelos meandros do desenho nada foi mais inquietante do que a busca da arte-final correta – já falo correta, porque “perfeita” é uma quimera inalcançável.

Começando muito cedo a me arriscar em algumas publicações de tiras de humor em um jornal local, teria que “refinar” minha técnica de desenho, então, aos quinze anos fui apresentado à tal caneta técnica de nanquim ou caneta recarregável. É um material muito usado por desenhistas arquitetônicos e engenheiros, robusta e com um recipiente interno para colocação de nanquim, ela possuía uma agulha finíssima por dentro do cilindro que desemboca na ponta.

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[Arte com caneta nanquim recarregável]

E essa agulha era um problema, ou melhor, um dos problemas, praticamente toda vez que era usada você tinha que desmontá-la toda e fazer uma minuciosa limpeza, deixando de molho num vidro com água. E – ai de você! – se entortasse aquela agulhinha, aí futricava tudo. A caneta não funcionava mais e já era o preço que você tinha pagado por ela, que não era nem um pouco barato.

Além disso, você tinha que ficar o tempo todo fazendo um movimento de vai e vem com seu punho para fazer descer o fluxo da tinta. Para quem continua usando esta caneta, saiba que tem meu respeito e admiração total. Neste meio tempo, também decidi experimentar o bico de pena. Pra quem não conhece, é uma técnica clássica de arte-final onde você molha uma ponta de metal fendada no nanquim.

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[Arte com bico de pena]

Comecei usando a pena “mosquitinho”, a mais comum de todas, e devo dizer que foi um desastre, pela minha inexperiência, e a mão mais pesada que a do Coisa, quase sempre afundava a pena no papel e assim, ou estragava o papel ou a pena, pois se ela começava a abrir demais atrapalhava o fluxo de tinta. Não poucas vezes me irritei pelo fluxo de tinta simplesmente parar e eu não saber o que fazer, e muitas vezes isso acontecia por estar usando um nanquim escolar que criava uma crosta na ponta do metal. Até então, arte-finalizar totalmente com o pincel era uma utopia para minhas pequenas mãos descalibradas, além de só entrar em contato com pincéis toscos, num nível pouco melhor que o escolar.

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[Arte com pincel]

Fui utilizando a caneta técnica e o bico de pena até o início dos anos 1990, quando comecei a experimentar pincéis de pelo de marta. Os primeiros foram os da Tigre, indicados, na época, pelos professores da faculdade de Artes. Depois experimentei várias marcas e nesse processo fui treinando minha mão para traço com pincel, que considero o mais eficiente, orgânico e belo de todos os traços, imprimindo profissionalismo no desenho. Das marcas nacionais, atualmente uso a Condor, n° 0, 402.

Não lembro em que ponto dos anos 1990 (talvez mais para o final da década) surgiram as canetas de nanquim descartáveis, que foram uma revolução em termos de praticidade, já que não precisávamos mais estar carregando e limpando as canetas técnicas. Usei  elas durante muito tempo para produzir minhas charges e caricaturas, pela facilidade de transporte e uso.

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[Arte com brush pen]

Hoje em dia, existe uma infinidade de tipos de caneta, inclusive as brush pens, canetas com ponta de pincel que são muito práticas para o uso e evitam o “ops… derrubei o vidro de nanquim no meu desenho!”. É preciso dizer que não existe material certo para arte-final, cada um usa o que se sente mais confortável, inclusive a arte-final digital, mas isto é assunto pra outra coluna.

Abraço.

Veniet Cito.

coluna-jaderJader Domingues Corrêa é formado em Arte-Educação, trabalhou muitos anos como chargista e hoje é integrante do Dínamo Estúdio. Faz ilustrações para livros, quadrinhos e sketch cards para o mercado americano, e lançou neste ano a HQ Natureza Artificial.


A magia e a religião por trás de Shazam

por Iuri Andréas Reblin

O Capitão Marvel fez parte da infância de muita gente. As aventuras daquele jovem menino de camisa vermelha, chamado Billy Batson, que se transforma num super-herói adulto ao pronunciar a palavra mágica “Shazam!”, conduziram milhões de crianças e adultos às bancas e à frente das televisões nas manhãs e matinês das décadas de 1970 e 80 Brasil afora. E a fórmula de seu sucesso transcendia as histórias bem-humoradas. Ela envolvia a mistura de magia, mito, religião e heroísmo, abrindo possibilidades para qualquer pessoa, criança ou adulto se identificar com o personagem e arriscar exclamar a palavra mágica na esperança de que um raio o transformasse em alguém excepcional. Embora não seja publicado atualmente, o Capitão Marvel – ou Shazam, como é chamado depois da era Novos 52 – ainda é até hoje um dos super-heróis mais amados pelo público.

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A grande façanha das histórias de Shazam reside justamente na introdução da magia no gênero da superaventura e, por consequência, do mito e da religião, os quais atuam como elementos atinentes ao universo mágico. Este é explorado de maneira exemplar: há um mago que habita um lugar especial (a Pedra da Eternidade) e se comunica com seres sobrenaturais como espíritos, deuses, demônios; há crianças que são capazes de canalizar poderes divinos e transfigurar seus corpos por meio de um encantamento mágico realizado pelo mago; há personagens mítico-religiosos que participam como coadjuvantes. Em outras palavras, as histórias ilustram um universo mágico muito similar ao descrito por Marcel Mauss em seu Esboço de uma Teoria Geral da Magia e àquele que permeia o imaginário das histórias infantis, aplicando a esse universo um toque de modernidade. Entretanto, a apresentação desse universo mágico não é meramente ilustrativa nas histórias de Shazam. Ela é fundamental na constituição da premissa central de qualquer enredo do herói.

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Acróstico divino

Toda vez que o jovem Billy Batson pronuncia “Shazam” ele se transforma no campeão da humanidade. Shazam é o nome do mago que concedeu a Billy Batson a habilidade de canalizar poderes de entidades mítico-religiosas, cujas iniciais formam o próprio nome do mago, por meio de um encantamento mágico. Shazam é um acróstico de Salomão, Hércules, Atlas, Zeus, Aquiles e Mercúrio, os nomes das personagens mítico-religiosas que aceitaram compartilhar uma fração de seus dons com aquele escolhido pelo mago para ser o campeão da humanidade. Esse escolhido precisa ser alguém altruísta, de coração puro e digno para administrar tais dons. Assim, toda vez que Billy Batson pronuncia o nome do mago, ele se transforma no super-herói defensor da humanidade. Essa premissa revela uma relação criativa entre magia, mito e religião que se condensa no pronunciamento da palavra mágica.

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A magia é uma arte de fazer. Ela possibilita realizar aquilo que não pode ser realizado por meios convencionais. Ela visa uma mudança de estado. Em Shazam, é um encantamento mágico que possibilita a um ser humano canalizar poderes de personalidades mítico-religiosas, a uma criança se transformar em adulto. A magia acontece por meio da palavra mágica. Entretanto, Shazam não é uma palavra comum. É um nome. Mais ainda, é um acróstico que reúne o nome de deuses e heróis gregos e um personagem bíblico. Em Shazam, mitos religiosos clássicos permeiam não apenas o contexto das histórias, mas residem naquilo que faz o personagem ser quem é. Condensam-se na palavra mágica que é um nome próprio acróstico. Ao pronunciar Shazam, Billy não está apenas conjurando um feitiço, mas está invocando aqueles que lhe empoderam com seus dons. Assim, Shazam é mais que magia: é o reconhecimento da existência das entidades sobrenaturais ou divindades, de sua superioridade e distinção e é a intercessão por auxílio no momento de tribulação, a qual é respondida por meio da concessão de poderes sobre-humanos. Ao conceder o poder, as próprias entidades passam a agir por meio de seus acólitos. Mais que uma palavra e um nome, Shazam é expressão de um encontro entre o divino e o humano.

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Poder em favor do próximo

Essa perspectiva religiosa embutida no ato mágico é potencializada por outros elementos vinculados à premissa central das histórias. Se, por um lado, o ato mágico permite que as crianças tenham acesso ao poder de figuras mítico-religiosas, por outro lado, elas não se tornam detentoras do poder; o poder não lhes pertence. Em Shazam, os super-heróis se mantêm numa posição de serviço e doação. O acesso e não posse do poder ressalta o sentido de carisma tal como proposto pelo Apóstolo Paulo, isto é, de que os dons recebidos são compreendidos como não do receptor, mas dados a ele e destinados ao serviço em favor do próximo.

Enfim, as histórias em quadrinhos são sempre um caldeirão rico de infinitas possibilidades quando se trata de representação e leitura do mundo humano. Enquanto arte de fazer, a magia (e, com ela, o mito e a religião) aproxima leitores de seus anseios e os enseja a exclamar juntos com a narrativa a palavra mágica que torna o impossível possível: Shazam!

Para saber mais

AS AVENTURAS DO CAPITÃO MARVEL. John English e William Witney. EUA: Hiram S. Brown, Jr./Republic Pictures : ClassicLine, 1941. DVD Vídeo (215 min.).
MAUSS, Marcel. Esboço de uma teoria Geral da Magia. Lisboa: Edições 70, 2000.
REBLIN, Iuri Andréas. Para o alto e Avante: uma análise do universo criativo dos super-heróis. Porto Alegre: Asterisco, 2008.
SHAZAM! Joseph Simon. EUA: Filmation : Focus Filmes, 1981. DVD Vídeo (370 min.) (2 discos).
VIANA, Nildo; REBLIN, Iuri Andréas (Orgs.). Super-heróis, cultura e sociedade: aproximações multidisciplinares sobre o mundo dos quadrinhos. Aparecida: Idéias e Letras, 2011.

 

Coluna Iuri2Iuri Andréas Reblin é pesquisador associado à ECA-USP, onde realiza seu pós-doutoramento em Ciências da Comunicação, especificamente, em Histórias em Quadrinhos, é doutor em teologia e autor de diversos livros e textos sobre quadrinhos, super-heróis e religião, dentre os quais se destaca seu recente “O Alienígena e o Menino”. Em 2013, conquistou o Prêmio Capes de Tese por sua pesquisa. É professor na Faculdades EST, em São Leopoldo/RS.


Little Nemo: leitura, linguagem e inovação

por Picareta Psíquico, dos Quadrinheiros

Segundo Maryanne Wolf, professora da Universidade de Tufts (Massachussetts), nosso cérebro processa a informação impressa e a digital de forma bastante diferente. Computadores, tablets e smartphones estimulam o processamento de informação de um jeito multimodal, nos incentivando a pular de um aplicativo a outro, clicando em hiperlinks, consultando temos, buscando o perfil do autor nas redes sociais, etc. A experiência de leitura nos meios digitais é multidimensional e faz com que nossa atenção fique dividida entre a reflexão interna e todas as conexões externas que podemos fazer, por isso ela é por definição expansiva.

O texto impresso estimula a leitura profunda, essencialmente interna, reflexiva, contemplativa. Essa forma de absorver informação estimula a síntese, a convergência de ideias e conceitos, o que leva a uma compreensão mais sólida. Mas o que nos interessa aqui é – onde as histórias em quadrinhos se encaixam nessas possibilidades de leitura?

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Essa linguagem que combina texto e imagem tem uma sintaxe própria. Claro que por vezes são só imagens dispostas em um determinado padrão, outras raras vezes só o texto organizado espacialmente também em um determinado padrão, mas a discussão sobre quais os elementos que definem uma história em quadrinhos dão sempre muito pano pra manga. Não vamos entrar nisso aqui nesse texto (talvez em um próximo!). Vamos considerar quadrinhos como um conceito amplo, ainda que com suas especificidades.

Quadrinhos são uma linguagem multimodal, por isso pode ser vista como uma espécie de síntese entre uma leitura multidimensional e uma leitura “impressa” (ainda que existam quadrinhos digitais), no sentido que exige conexões externas e também uma compreensão mais sólida.

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Peguemos por exemplo essa página de Winsor McCay, de seu personagem Little Nemo, publicada nos jornais impressos norte americanos em 1908. McCay é um dos ícones da Nona Arte por seu traço elegante, cores, composição de página, ritmo narrativo, inventividade e concisão. Ainda nos primórdios do desenvolvimento da linguagem dos quadrinhos ele já fazia experimentos buscando os limites dessa mídia.

Na página abaixo vemos o personagem deitado, percebendo que as pernas de sua cama estão crescendo e se movendo. Elas caminham para fora do quarto, saindo pela porta, ganhando as ruas e crescendo cada vez mais até saltarem por cima de prédios, ate que tropeçam em uma torre de igreja fazendo com que Little Nemo caia da cama e se veja no chão de seu quarto.

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                   [Mais páginas de Little Nemo aqui]

Cada quadro é numerado para que o leitor do início do século passado, não habituado a esse tipo de linguagem, pudesse acompanhar a história sem confusão. Elas conduzem o leitor de forma linear pela narrativa sem hiperlinks ou outras possibilidades que expandam a leitura.

Mas uma segunda olhada na página nos leva a outras camadas. A disposição dos quadros em três fileiras que dividem a página criam um ritmo que nos causa algumas sensações. A sequencia narrativa nos dá a sensação de crescimento constante, com o tamanho dos quadros reforçando o tamanho das pernas da cama. Os quadros 13 e 14 que são o clímax da ação da história, dividem o mesmo cenário de fundo, criando a sensação de tempo acelerado, já que é tudo tão rápida que não há tempo para retratar a mudança de espaço físico. Os últimos dois quadros desaceleram tudo e o tamanho dos quadros recuam rapidamente, fechando o ciclo narrativo e retornando ao início da história.

[Em 2012 o Google homenageou o personagem com um Doodle]

Síntese e expansão

A experiência de ler uma história em quadrinhos nos faz criar conexões entre as partes e o todo, entre a linearidade da narrativa e o significado de cada quadro e da relação dele com os outros e com a página. É como se estivéssemos olhando para um projeto arquitetônico e extraíssemos de suas linhas retas, suas curvas, sua relação com a luz natural e artificial, suas texturas, proporções, materiais e cores, um pequeno conto com começo, meio e fim, com personagens, sentimentos, falas e silêncios.

A fragmentação da informação, característica mais claramente vista no mundo virtual, é parte da Nona Arte, assim como a coesão linear da narrativa. O caos do mundo digital busca a infografia para organizar a informação e a mídia impressa busca a transmídia para dar expansão para sua tendência à síntese. Ambas se apoiam na sintaxe da linguagem dos quadrinhos para suprir suas deficiências e dialogar com os novos leitores.

A junção de síntese e expansão, de foco com abertura para a complexidade, é algo que estimula muito a criatividade. Saber desenhar uma narrativa é hoje uma habilidade muito cobiçada, em todos os níveis de empreendedorismo, com o storytelling e o design thinking como carros chefe da inovação, coisa que os leitores de quadrinhos já sabiam desde o século passado!

 

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quadrinheiros2Os Quadrinheiros tem como missão ampliar a leitura do mundo a partir das histórias em quadrinhos. Através de reflexões aprofundadas ou comentários engraçados, conectam a nona arte a diferentes áreas do conhecimento, aliando a paixão dos fãs e o rigor de acadêmicos e pensadores. Visite o blog www.quadrinheiros.com e conheça o canal youtube.com/osQuadrinheiros.


Os bastidores da Família de Morte Crens

por Gustavo Borges

Produzir este novo álbum foi uma tarefa bastante diferente de tudo que fiz em “A Entediante Vida de Morte Crens”. No primeiro livro, fora ter sido uma coletânea de material realizado ao longo de quase dois anos, produzi tiras pontuais e colori o que faltava pra lançar a edição. “A Entediante Família” foi um outro processo, começando pelo fato de pegar muitas tiras que havia produzido em preto e branco durante os dois anos seguintes – estava tudo na gaveta, inédito – e colorir todas de uma vez. Então analisei o que faltava para fechar uma edição, pensei um número de páginas (26). E, na hora, não fez sentido pra mim parar e desenhar várias tiras soltas. Eu queria dedicar este espaço e esse tempo para fazer uma narrativa maior, e assim me desafiar. Fiquei bem indeciso, mas acabei chutando o balde! Apostei em fazer a HQ longa. O livro ficou diferente, e foi total reflexo da produção dele.

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Encontrando o rumo

Não sei dizer quais foram as minhas influências para criar este álbum. O clima dele estava claro na minha cabeça – eu sabia o que deveria fazer. Produzir tantas tiras já havia me dado o rumo de atmosfera que eu precisava para o personagem. Faltava pensar em um roteiro que julgasse inteligente. Inclusive eu, como autor, posso dizer que fico tranquilo quanto a esse ter sido meu trabalho seguinte a “Pétalas”. Penso que ele permitiu testar meus conhecimentos, mostrar o que, quem, eu me tornei. Não que seja possível fazer uma comparação com “Pétalas”, pois são pontos muitos distintos de história, mas sim em apontar um caminho coerente e firmar como eu penso em contar histórias e explorar isso narrativamente.

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Realidade x minimalismo

Como os personagens são todos bem simples, quis que ainda assim o leitor tivesse a impressão de realidade, no sentido de dimensão, espaço, câmera, luz. Isso tornou a tarefa de desenhar e colorir mais desafiadora. Em contrapartida, do lado de fora da “HQ longa”, eu tentei explorar exatamente a síntese da tira, do simples, do minimalismo nos desenhos. Óbvio, isso tudo é o que eu quis passar – o que consegui ainda não me disseram!

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Um autor canceriano

Com “A Entendiante Família de Morte Crens” aprendi que é difícil mexer com personagens “imutáveis”. Que não posso pensar na expectativa do público – coisa que me “bugou” no pós-Pétalas. Por fim, não que eu acredite ou acompanhe horóscopos… Mas percebi que eu sou não só uma pessoa canceriana, mas sim um autor canceriano. Tudo que escrevo de alguma forma vem envolto em um mel com algum tipo de sentimento.

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A Entediante Família de Morte Crens reúne uma coletânea de tiras e uma HQ longa de 26 páginas. A publicação independente tem 80 páginas coloridas e capa cartonada, e está à venda por R$ 20 em http://gustavoborges.iluria.com

 

coluna-gustavoGustavo Borges surgiu na internet com as tiras Edgar e A Entediante Vida de Morte Crens, e logo tornou-se um dos destaques do cenário independente nacional. Em 2015 bateu recorde de financiamento coletivo no Catarse com Pétalas, em parceria com Cris Peter. Lançou A Entediante Família de Morte Crens na ComicCON RS 2016 e trabalha nos projetos coletivos Escolhas, com Felipe Cagno e Cris Peter, e A Noiva, HQ em parceria com Eric Peleias e Michel Ramalho selecionada pelo Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo.


Redação Multiverso é o site colaborativo de produção de conteúdo sobre quadrinhos
da Produtora Multiverso, em uma iniciativa paralela e complementar à realização da
ComicCON RS – principal convenção de quadrinhos e cultura pop do Rio Grande do Sul.