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Quadrinhos contra o nazifascismo

introdução por Marina de Campos

Ao contrário do que alguns dizem, os quadrinhos não são lugar de escapismo. Assim como toda boa arte, refletem o mundo seja de forma literal ou em metáforas que podem sim ser bem delirantes às vezes, mas sem deixar de distrair e divertir sempre colocam no fundo da mente uma lição ou provocação. Você pode nem se dar conta disso, mas no fim das contas o seu herói (e o seu vilão) preferidos dizem muito sobre você e sua forma de ver o mundo.

A prova de que não há como dissociar os quadrinhos da realidade é que qualquer assunto que se possa imaginar já foi abordado em algumas dessas milhões de páginas publicadas em todos esses anos. Vamos lá, abra o jornal e escolha um tema: os recentes acontecimentos em Charlottesville? A sinistra nova onda de simpatizantes do nazifascismo? A ascensão de líderes de extrema-direita quando achamos que nunca mais fosse se repetir? Assuntos como supremacia branca, intolerância religiosa, homofobia e xenofobia cada dia mais em pauta, como se fosse aceitável valores assim sequer estarem em discussão?

Pois é, os quadrinhos têm tudo a ver com isso. Maus (hors concours em uma lista como essa), por exemplo, é nada menos que uma das obras-primas da nona arte, e uma verdadeira aula sobre o impacto do nazismo na vida de uma família. É claro que nem tudo são flores e, se as HQs refletem o mundo, em certos momentos refletem também o seu lado controverso, como acontece com Frank Miller e alguns pontos discutíveis de sua obra, com Holly Terror e até o clássico O Cavaleiro das Trevas.

Mas quando se coloca a história em perspectiva fica clara a posição libertária e igualitária que os quadrinhos sempre abraçaram. Não demorou para que, no meio da tensão das últimas semanas, artistas e leitores se posicionassem com diversas manifestações, entre elas a hashtag #ComicsHateNazis, espalhando pela internet imagens cheias de simbolismo e muitas ao pé da letra, com heróis literalmente socando nazistas e todas essas coisas fantásticas que só os quadrinhos podem proporcionar. Aqui vai uma seleção para lembrar de ideais pelos quais vale a pena lutar.

 

Pantera Negra

por Jonathan Nunes

Entre as edições 19 e 24 de Jungle Action (1976), coube a um dos maiores símbolos do movimento negro entrar em combate direto contra um dos mais intolerantes grupos raciais dos quais a história já teve registro. “Panther vs the Klan” traz o Pantera Negra usando suas habilidades para combater a Ku Klux Klan. Segundo relatos, Don Mcgregor, roteirista da revista na época, foi encorajado a colocar mais personagens brancos na HQ do herói, e resolveu esse problema trazendo a KKK para enfrentar o personagem. Na trama, T’Challa viaja até uma cidadezinha no interior da Georgia para investigar um aparente suicídio de uma conhecida, mas logo ele percebe que o caso vai muito além do superficial e remete ao envolvimento da Klan. Infelizmente, em virtude das baixas vendas a revista foi descontinuada e o arco não chegou a ser concluído, mas a maneira como o modus operandi da KKK é descrito na HQ continua sendo o mesmo visto nas páginas de jornais até hoje, e essa abordagem realista faz dessa uma das obras mais essenciais do Pantera Negra. Foi bom ver o herói usando a cruz em chamas, símbolo da KKK, como arma para combatê-los em uma luta, mas o peso dramático da situação segue impactante mesmo quarenta anos depois.

Hellboy

por Lucas Gonçalves

O célebre personagem criado por Mike Mignola não poderia estar de fora da lista, já que sua origem está diretamente ligada ao tema. Hellboy foi descoberto pelo professor Trevor Bruttenholm e soldados Aliados no fim de 1944, após ter sido invocado do inferno pelos nazistas juntamente com o mago Rasputin com o intuito de trazer o apocalipse à Terra. Apesar disso, o carismático demônio se rebelou e aprendeu a importância do ser humano passando a combater as forças das trevas, e até hoje luta contra nazistas, como em Hellboy e o B.P.D.P. 1952, ou ainda no crossover com Savage Dragon, onde enfrentam um gorila com o cérebro de Hitler.

Arqueiro Verde

por Leonardo Mello de Oliveira

A partir do início dos anos 1970, o Arqueiro Verde passou por uma reformulação e passou a atuar como um grande defensor de causas sociais, o que viria a marcar o personagem e a firmar-se como uma das principais características do mesmo. Esse lado do herói foi o ponto mais explorado na fase de Denny O’Neill e Neal Adams na revista do Lanterna Verde, em que Hal Jordan atravessava os EUA em uma road trip ao lado de Oliver Queen, que estava disposto a mostrar ao Lanterna todos os problemas sociais pelos quais o país passava. Assim, a dupla tinha que enfrentar inimigos como o racismo, as drogas e a exploração dos mais pobres pelos mais ricos. Depois de ser deixado pra escanteio por um período, o lado justiceiro social de Oliver voltou com força em seu título dentro da iniciativa DC Renascimento. Com roteiros de Benjamin Percy e arte de Juan Ferreyra e Otto Schmidt, a HQ apresenta o Arqueiro encarando um poderoso grupo de ricos bancários e empresários, que coordenam vários ataques a minorias pelo país. O herói luta contra o tráfico de pessoas, grupos extremistas de direita, terroristas domésticos e até em defesa de tribos indígenas.

V de Vingança

por Marina de Campos

Certamente uma das mais contundentes alegorias contra o fascismo, a obra-prima de Alan Moore e David Lloyd reimagina a Inglaterra sob um regime totalitário e um herói anarquista disposto a derrubá-lo. Assim como na vida real, os sinais estão nas entrelinhas, debaixo da falsa impressão de normalidade em que a personagem Eve vive até conhecer V. A intolerância e a perseguição a minorias aparecem em diversas passagens, como quando ele fala de música, citando desde Billie Holliday até os artistas da Motown, e insinua que a cultura negra foi totalmente apagada, ou com o relato de Valerie, que conta sua trágica história de amor homossexual em uma das sequências mais belas e duras da HQ. Um grito contra qualquer tipo de autoritarismo, V de Vingança também reforça o papel da cultura e da arte como potente arma contra a intolerância e a submissão, tanto na própria trama, com a Galeria das Sombras transformada em importante personagem para o despertar de Eve, quanto na realidade, com a icônica máscara que ganhou vida como símbolo em protestos ao redor do mundo.

As Tartarugas Ninja

por Jonathan Nunes

Em 1989 as Tartarugas Ninja tiveram um de seus embates mais complicados e mais malucos da história dos quadrinhos. Na edição número 64 de Teenage Mutant Ninja Turtles Adventures, publicada pela Archie, os heróis viajam no tempo e tem um embate com o próprio Adolf Hitler. Na trama, o cérebro de Hitler sobrevive a guerra e se transforma numa espécie de robô cibernético, viajando no tempo para evitar a derrota do Reich durante a Segunda Guerra Mundial. Uma cena que ficou conhecida na HQ, é quando Rafael acerta um violento soco no ditador querendo se vingar pelos milhões que o líder totalitário matou durante a guerra. No fim da história, em outra cena dramática, para evitar que as tartarugas tenham acesso ao seu cérebro, Hitler dá um tiro na própria cabeça, se suicidando bem em frente aos heróis.

Trindade DC

É claro que os mais tradicionais super-heróis de todos os tempos também cruzaram incontáveis vezes com o tema em suas histórias. Fortes símbolos norte-americanos, Superman, Batman e Mulher-Maravilha já enfrentaram nazistas e toda sorte de grupos extremistas, como no título Superman & Batman vs. Ku Klux Klan. Algumas outras imagens, entre centenas, falam por si só. Batman não perdoa os racistas. Sem qualquer delicadeza feminina, Mulher-Maravilha surra nazis com gosto. E ninguém ganha do Superman nos discursos sobre humanidade, paz e justiça.

Preacher

por Marina de Campos

Com seu característico humor negro e provocativo, Garth Ennis não deixa nenhum tabu da sociedade norte-americana passar ileso em Preacher. A busca do pastor Jesse Custer por um Deus que desistiu da humanidade se passa no Texas, estado sulista onde a herança dos confederados ainda é forte e a visão de extrema-direita prevalece. Por isso não é estranho que o antagonista Odin Quincannon, além de um mau caráter cheio de perversões doentias, se revele também um membro da Ku Klux Klan. Quando Jesse provoca sua ira enquanto atua como xerife da cidade de Salvation ao lado da policial negra Cindy, em Preacher #46, Odin recorre ao grupo para acabar com o problema. Steve Dillon não tem medo de desenhar cruzes em chamas, forcas, capuzes brancos e todos os rituais da tão famosa “seita cristã”, mas é claro que ele e Ennis fazem questão de debochar de cada detalhe, como na passagem que se tornou uma das mais populares da hashtag #ComicsHateNazis: “por que os maiores defensores da raça branca acabam sempre sendo os piores exemplos dela? Você! Cadê o seu maldito queixo?!”.

Jonah Hex

por Jonathan Nunes

O pistoleiro mais famoso dos quadrinhos da DC também teve seus confrontos contra grupos extremistas. Apesar de controverso, o ódio e desprezo de Jonah Hex é focado nos seres humanos em si, sem distinções de raça ou gênero. Por isso, ainda durante a Guerra Civil, Jonah percebe que os ideais dos confederados não eram os mesmos que ele defendia e abandona a causa. Ao longo dos anos seguintes, por diversas vezes o pistoleiro combateu e matou diversos intolerantes ex-membros do exército sulista. Porém, a dúvida que sempre existiu era por que Jonah Hex continuava usando o uniforme confederado mesmo após a guerra? Justin Gray e Jimmy Palmiotti deram sua versão da resposta a essa pergunta na história Seven Graves Six Feet Deep, publicada em Jonah Hex #36, de 2008. Na trama, Hex acaba vingando a morte de um grupo de negros cometida por ex-soldados sulistas. Os autores revelam ao longo das páginas que Hex usa o uniforme como uma forma de punição, pois após os horrores que cometera na guerra não se achava digno de ser tratado com respeito. Acreditava que merecia o ódio que vinha com o uniforme, e caso alguém simpatizasse com ele graças à sua vestimenta, julgava que a pessoa merecia morrer.

Capitão Marvel Jr.

por Émerson Vasconcelos

Considerado por muitos como um arremedo de super-vilão, e muitas vezes esquecido pelos leitores, que lembram muito mais do Adão Negro ou do Doutor Silvana quando pensam em adversários da Família Marvel, o Capitão Nazista e seus confrontos com o Capitão Marvel (atualmente conhecido como Shazam) têm uma grande importância na mitologia destes heróis. Em 1941, quando o Capitão Marvel ainda pertencia à Fawcett Comics, as HQs Master Comics #21 e Whizz Comics #25 mostraram como as forças de Adolf Hitler alteraram geneticamente um homem chamado Albrecht Krieger, usando um soro que visava transformá-lo em um soldado perfeito, em uma clara alusão à origem do Capitão América, apresentada um ano antes. Nas mesmas edições, Krieger, já transformado no Capitão Nazista, trava uma violenta batalha com o Capitão Marvel e com o Homem Bala. Durante a batalha, o vilão atinge um idoso chamado Jacob Freeman, que morre na hora, e seu neto, o jovem Freddy Freeman, que sofreu graves ferimentos e perdeu parte da mobilidade das pernas. É nesta ocasião que o Capitão Marvel intervém e, para conter os ferimentos de Freddy, compartilha seus poderes com o garoto, que se torna assim o Capitão Marvel Jr. Portanto, o Capitão Marvel Jr., em sua primeira versão, tem motivos pessoais para se envolver diretamente na Segunda Guerra Mundial, e não foram raras as capas em que o herói apareceu combatendo as tropas do Eixo. Vale pontuar que o sobrenome Freeman (homem livre) foi adotado por muitos judeus que nesta época chegaram a países de língua inglesa, um forte indício de que o Capitão Nazista pode não ter atingido integrantes da família por acaso. Embora a origem do Capitão Marvel Jr. tenha sido recontada algumas vezes, na década de 1990 o quadrinista Jerry Ordway mostrou mais uma vez Krieger como o responsável pelo ataque à família Freeman, embora fora do contexto da Segunda Guerra Mundial.

Blacksad

por Jonathan Nunes

Blacksad é uma elogiada série de graphic novels escrita por Juan Díaz Canales e desenhada por Juanjo Guarido, toda protagonizada por animais antropomórficos. No segundo volume, intitulado Arctic Nation, o detetive particular John Blacksad (um gato preto), começa a investigar o desaparecimento de uma garotinha. Sua investigação o leva a um confronto direto com a Nação Ártica, que nada mais é do que a versão da HQ para a Ku Klux Klan, aqui formada por animais supremacistas brancos. Conforme a investigação segue, Blacksad vai descobrindo o envolvimento de vários e importantes nomes do cenário político da cidade com a Nação Ártica, inclusive o chefe de polícia. No clímax da história, o detetive chega a se disfarçar com as vestimentas de um dos membros da seita, chegando ao ponto de lutar com os integrantes a socos e tiros, finalizando por queimar o galpão onde o clã se reunia. Assim como as demais histórias de Blacksad, a trama carrega um profundo peso sentimental e filosófico que, apesar de ser protagonizada por animais, nos faz pensar como grupos como esse ainda podem ter tantos adeptos nos dias atuais.

X-Men

por Marina de Campos

Quando se fala em tolerância e igualdade – ou o contrário disso –, nada é mais simbólico nos quadrinhos de super-heróis do que X-Men. Como a questão já se encontra na essência de sua premissa, todas as histórias nesses mais de 50 anos carregam alguma referência ou lição, mas algumas são especialmente marcantes. Em meio a centenas de personagens, a série conseguiu representar nas HQs a luta de judeus, negros, homossexuais, indígenas e todos aqueles que sofreram perseguição ao longo da história apenas por serem quem são. “Seu único crime foi terem nascido”, como diz Magneto no início de “Deus Ama, o Homem Mata”, icônica obra assinada por Chris Claremont que serviu de inspiração para o elogiado filme X-Men 2, trazendo temas como política e religião de forma dura e realista. A trama mostra um mundo nada diferente do nosso, tomado por ódio gratuito e preconceito sustentado por instituições conservadoras, que quase leva o próprio Charles Xavier a duvidar da luta pacífica. Lançado em 1982, o clássico também lança um novo olhar sobre Magneto, já que os heróis juntam forças com o lendário vilão contra o fanático religioso William Stryker e sua cruzada pelo extermínio de mutantes.

Outra passagem memorável nos quadrinhos protagonizada por ele – e que mostra que o pensamento nazifascista pode ser ultrajante até mesmo para vilões – acontece quando Magneto, mutante judeu fugido dos campos de concentração, confronta Caveira Vermelha e seu passado como servo de Hitler.

Hellblazer

por Lucas Gonçalves

Constantine costuma lidar contra todo tipo de forças do além, mas alguns fantasmas reais da sociedade sempre dão um jeito de aparecer. Seu primeiro autor, Jamie Delano, é um forte ativista de esquerda, que criticou diversas vezes grupos fascistas, principalmente nazistas e políticos de extrema-direita, em sua fase na HQ. Outros autores de peso também colocaram o mago inglês contra o fascismo, como Garth Ennis, que junto com seu famoso parceiro Steve Dillon fez o arco Fear and Loathing, em que o mago e sua namorada Kit precisam lidar com um grupo de neo-nazistas. Outra história memorável é “No Future, de Peter Milligan e Simon Bisley, onde John Constantine e nada menos que o espírito de Sid Vicious, lendário baixista da banda Sex Pistols, enfrentam o partido conservador inglês (composto por zumbis do inferno) e, claro, nazistas.

Capitão América

por Leonardo Mello de Oliveira

Vestindo os ideais americanos, o Capitão América se firmou como um dos principais personagens a lutar pela liberdade e pela igualdade. Com isso, suas histórias são, na maioria das vezes, muito políticas. Não por menos, visto que, na capa de sua primeira revista, temos o herói socando Hitler. Depois de combater o nazismo na Segunda Guerra, Steve Rogers passou por vários outros momentos de luta contra as injustiças sociais. Em suas histórias mais recentes, destacam-se três ocasiões. Em Novo Pacto, de 2002, o Capitão se vê às voltas do atentado de 11 de setembro e das consequências sociais acarretadas por ele, como o crescente preconceito com pessoas da religião muçulmana. Para a época, a história foi ousada ao tratar sobre o assunto ainda quando Nova York tentava superar o trauma. Já em Duas Américas, de 2010, temos duas versões do Capitão América, Steve e Bucky, lutando ao lado do Falcão para desmantelar um grupo de extrema direita que planeja um atentado terrorista em solo americano. Recentemente, quando Sam Wilson assumiu o manto do herói, o mesmo passou por maus momentos por não o aceitarem como Capitão, além de ser ainda mais rejeitado depois de ir contra ações que prejudicavam minorias.

 

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