entrevistas

João Azeitona e a travessia do Porco Pirata

Desenhista, ilustrador, colorista de histórias em quadrinhos e velho conhecido do público gaúcho, João Azeitona desbrava agora os sete mares com o lançamento de seu Porco Pirata, numa travessia que levou quase uma década da sua concepção até a publicação, que chega pela editora Mino com evento de lançamento especial dentro da festa de fim de ano da Galeria Hipotética em Porto Alegre neste domingo, dia 17.

O fanzine Adeus, Tia Chica! foi o trabalho que abriu as portas do mundo dos quadrinhos para o jovem Azeitona. Esse projeto foi o primeiro do passo-fundense a receber uma indicação para o Troféu HQMix, feito que voltaria a se repetir outras vezes. Mas nos últimos anos o cenário mudou e agora o desenhista vem trabalhando com certa frequência para as editoras americanas. Em 2013 ele coloriu a minissérie The Secret History of the Foot Clan das Tartarugas Ninja, para a editora IDW e também a nova HQ do Robocop, intitulada Lembranças da Morte, que saiu pela Boom Studios. Contudo, o mais aguardado trabalho de Azeitona vem sendo desenvolvido desde antes disso tudo sair. Estamos falando de Porco Pirata, projeto que foi financiado através do Catarse e lançado pela Editora MINO numa bela edição durante a CCXP. Confira a entrevista de Azeitona ao Redação Multiverso e conheça mais sobre o grande lançamento do artista.

Porco Pirata é um dos personagens mais antigos da tua carreira, mas que nunca havia ganhado uma HQ para chamar de sua. Quando e como ele surgiu?

Os primórdios do Porco Pirata são do tempo que eu ainda morava em Florianópolis. Mas ele começou a ganhar força depois que eu cheguei em Porto Alegre lá por volta de 2007. Sempre gostei de histórias de aventura. Os filmes clássicos das Sessões da Tarde, como Goonies, foram uma grande influência e senti a necessidade de contar uma aventura assim em quadrinhos. A história surgiu juntando várias coisas que li na época como grandes assaltos cometidos por piratas, a biografia de alguns deles, mitologia grega e uma pitada de romance (sim, teremos romance na história do Porco). Lembrando que essa história que menciono não é essa que foi publicada agora. Essa história que falo conta a origem do Porco e encaminha o futuro do personagem enquanto essa que foi publicada agora é um spin-off para que todos conheçam o personagem, seus amigos, inimigos, onde ele vive e quando ele vive.

Um ser antropomórfico que é pirata e busca dominar os sete mares. De onde vieram tuas inspirações e referências para a construção de um personagem tão específico e diferente?

Pois então, eu andava lendo bastante coisas sobre piratas na época, sempre gostei, acho que são personagens icônicos nas histórias de aventuras. Juntando com um pouco de mitologia e fantasia os primeiros esboços foram surgindo e, inclusive, falando especificamente do Porco, mudaram muito pouco desde então. Meus amigos na época entraram em contato com o personagem e começaram a me incentivar a levá-lo adiante. Aí não parou mais.

Desde o surgimento do personagem tu participou de outros projetos para editoras norte-americanas, como Robocop. O que desta experiência e vivência no mercado estadunidense tu conseguiu trazer para está publicação?

Na verdade acho que o Porco levou para essas publicações algumas coisas. Principalmente falando de arte-final. Se posso enumerar uma coisa que essa experiência lá fora trouxe para o Porco foi a certeza de que eu queria fazer uma HQ em preto e branco e não colorida.

Em um primeiro momento tu iria lançar a obra de forma independente, através de financiamento coletivo, e depois anunciou a obra pela Editora MINO. Por que essa mudança e como foi essa negociação?

A negociação foi imprescindível para que o livro fosse lançado esse ano. Sozinho eu nunca teria conseguido terminar a tempo e garantir a qualidade com que o livro saiu. Sem a ajuda de toda a equipe da Mino a edição, a revisão, o trabalho com a gráfica e a logística das entregas teriam levado muito mais tempo. Toda a experiência da Mino agilizou muito o processo como um todo e garantiu uma qualidade a publicação que faz jus a todo o meu esforço nas páginas para ter o melhor material que eu conseguisse fazer. E todos sabemos que esse livro tinha que sair esse ano. Ninguém, mais do que eu, sofreu com todo esse atraso e o lançamento do Porco Pirata representa o fim de uma época muito difícil para mim. Agora é hora da içar velas e rumar à todo pano para novos tempos, desafios e novas aventuras, para mim e para o Porco.

Apesar de nunca ter sido lançado, bastante gente já conhece o personagem, seja através das redes sociais ou de fanzines onde ele apareceu. Como tu espera que seja a receptividade do teu público e do novo público com esse trabalho?

A receptividade tem sido ótima até agora. Tenho recebido várias mensagens de colaboradores que já receberam seus pacotes e que fazem questão de mandar e de me marcar em fotos do livro no instagram e no facebook. O que tem me deixado muito menos apreensivo, pois não fazia ideia de como todos iriam responder. É ótimo quando as pessoas fazem questão de mandar uma mensagem e dividir o que acharam sobre o livro. E pela quantidade de pessoas que me perguntam como adquirir o livro acho que o público novo está, pelo menos, curioso e vamos saber o que acharam do livro em breve.

Por ser um personagem tão folclórico na tua carreira, tu deve ter bastante história para contar. Essa primeira publicação é fechada ou deixa pontas para uma possível continuação?

Sim, deixa pontas, como eu tinha dito antes, essa história publicada agora apresenta o mundo do Porco Pirata aos leitores e dá uma pincelada em suas motivações e personalidade, assim como mostra os coadjuvantes da história. A minha intenção é publicar, em um futuro próximo, a origem do Porco Pirata e seus rumos. Mas, por enquanto, quero curtir muito os lançamentos e a CCXP onde posso encontrar e conversar com todo mundo sobre o livro.


Gabriel Arrais e o universo de Necromorfus

Gabriel Arrais é roteirista de quadrinhos e ficou conhecido no Brasil pela série Necromorfus. Na trama, acompanhamos a história de Douglas, um adolescente com algumas características incomuns: ele não envelhece, está preso para sempre na idade de 16 anos e pode se transformar em qualquer pessoa que já morreu, tocando em qualquer resto mortal.

O projeto teve seu primeiro volume publicado em 2014 e, inclusive, o artista esteve presente na Comic Con RS em 2016 para divulgar o seu trabalho. Em 2017, o roteirista disponibilizou seu terceiro volume no Catarse, que já ultrapassou os 174% da meta flexível, e segue em financiamento coletivo até o dia 8. O objetivo é lançar esta obra que dá continuidade ao projeto na Comic Con Experience, entre os dias 7 e 10 de dezembro, em São Paulo.

Em entrevista ao Redação Multiverso, Arrais conta um pouco sobre o surgimento deste universo criado em 2014, a experiência da produção, as expectativas para o lançamento e o que os fãs de Necromorfus podem esperar para o futuro da série. Confira!

De onde surgiu a ideia do Necromorfus?
Na época (anos 90), eu era muito viciado em X-Men, mas o poder transmorfo da vilã Mística sempre me chateava. Então pensei num personagem em que esse poder fosse mais coerente. Durante todos esses anos, a única coisa que mantive foi o nome e o poder do personagem. Após todo esse tempo na gaveta, a história ganhou muita maturidade. Na verdade eu ganhei maturidade e a história acompanhou. Quando criei o personagem, eu era um adolescente escrevendo sobre um personagem adulto. Hoje sou um adulto escrevendo sobre um personagem adolescente. Machado de Assis estava certo: o menino é o pai do homem (risos).

Agora está trabalhando no terceiro volume de Necromorfus. Em que estágio ele está?
Ele está em fase de impressão, foi enviado para a gráfica recentemente. Fica pronto no início de dezembro para ser lançado na CCXP, em São Paulo.

Você optou pelo financiamento coletivo para realizar esse projeto. Qual a importância e o termômetro que você tira com o apoio do teu público?
O apoio do público, através do financiamento coletivo, é muito importante. Ele ajudou a viabilizar parte do projeto. Tenho percebido que Necromorfus não é um quadrinho para leitores mais acostumados com o gênero de super-heróis. Os fãs mais engajados são pessoas que curtem temáticas mais adultas.

Você segue com a Korja. O que a editora te possibilita que não conseguiria sozinho?
A Korja foi o primeiro selo que acreditou no potencial de Necromorfus. E por ser um coletivo com membros em diversos estados, temos mais facilidade com a logística dos eventos.

Você está lançando este projeto na CCXP. Qual a importância do evento para os quadrinistas independentes?
Este evento, desde a sua primeira edição, consolidou-se como a maior convenção de quadrinhos do Brasil. Poder participar disto é o maior reconhecimento que um quadrinista independente pode ter. Estar ao lado dos grandes mestres nacionais e internacionais, além de um grande aprendizado é a realização do sonho de qualquer artista. O contato direto com o público de diversas regiões do Brasil, que só esse evento proporciona, também é fundamental para a evolução de futuros trabalhos.

Este terceiro volume se passa antes dos dois primeiros. Por que essa mudança na cronologia?
Precisei explicar alguns aspectos que serão fundamentais para o entendimento e desenvolvimento das futuras edições. Também para explicar um detalhe que aparece na edição 2. Além do mais, gosto de escrever de forma não linear. Em Necromorfus, o leitor sempre será surpreendido. Perguntas são levantadas, mas ao final do arco, tudo será respondido.

Tu vem construindo uma mitologia dentro de Necromorfus. Aonde pensa chegar?
Um dos pontos onde pretendo chegar é desenterrar possíveis verdades sobre grandes acontecimentos mundiais e sobre figuras históricas e entrelaçá-las com a vida do personagem principal. Com isso, pretendo chegar a novos apontamentos sobre a História como conhecemos. E ninguém melhor que Douglas para literalmente desenterrar estes novos pontos de vista.

Esse é o terceiro volume e você já está trabalhando no quarto. O que mais tem por vir quando se pensa neste universo?
No próximo volume, nos aprofundaremos mais no núcleo familiar do personagem. Com certeza, é a história com o final mais emocionante até agora. Também teremos uma edição especial com os candidatos a se tornarem o Deus da Terra durante os próximos cem anos. Ainda em relação a esse universo, também estamos trabalhando com a possibilidade de expandi-lo para outras mídias, mas as negociações ainda estão engatinhando.


Entrevista: Alcázar, Rubim e a saga do Cão Negro

Lançada pela AVEC Editora no ano passado, O Coração do Cão Negro introduziu aos leitores de quadrinhos Anrath e suas aventuras pela Irlanda medieval. A HQ rapidamente conquistou os leitores e foi amplamente elogiada pelo público e pela crítica. Como consequência, ainda no mesmo ano a editora anunciou a sequência da HQ, intitulada A Canção do Cão Negro, dando continuidade à série Contos do Cão Negro.

O Redação Multiverso entrevistou o roteirista Cesar Alcázar e o desenhista Fred Rubim, para conhecer um pouco mais sobre os bastidores dessa criação, as inspirações por trás do personagem, as expectativas para a próxima HQ e os planos envolvendo Anrath e seu universo.

Como foi a decisão de fazer a sequência A Canção do Cão Negro? A ideia de uma série já existia desde a concepção do primeiro volume ou foi uma consequência da boa aceitação?

Cesar: Anrath, o Cão Negro, surgiu como um personagem literário. Suas histórias já apareceram em cinco livros, um deles a novela “A Fúria do Cão Negro” (além de duas aparições em revistas digitais no exterior). A ideia sempre foi ir adaptando essas histórias já existentes, e talvez escrever algumas inéditas. Mas, claro, a boa aceitação do primeiro volume possibilitou que seguíssemos adiante com esses planos.

Fred: A ideia de se fazer uma série existia desde o começo, pois o Cesar já tinha bastante material escrito sobre o personagem (O Cão Negro nasceu na literatura fantástica). E é claro que a publicação e a boa aceitação do primeiro volume também nos impulsionaram a levar a história adiante.

Quais são as maiores inspirações e referências à cultura pop em O Coração do Cão Negro? E qual seria uma influência nova que vocês poderiam citar para essa continuação?

Cesar: Minhas principais influências para as histórias do Cão são os autores Robert E. Howard (mas não as histórias do Conan, como muitos acreditam, e sim o seu chamado “Ciclo Celta”) e Karl Edward Wagner. Em termos de quadrinhos, Slaine, criação de Pat Mills, e Thorgal, de Rosinski e Van Hamme, inspiraram bastante. A atmosfera e a composição de personagens em alguns filmes do Kurosawa (Os Sete Samurais, Yojimbo) também entraram no caldeirão que deu origem ao Anrath.

Fred: Bom, logicamente que filmes, séries, HQs que abordam os temas viking e medieval são uma referência, bem como autores fantásticos como H.P. Lovecraft e Robert E. Howard. Nesta nova aventura dá pra notar ainda mais o elemento fantástico, pois temos um personagem inspirado na mitologia Celta.

Como funciona o processo de criação em conjunto? A parceria deu certo desde o início ou foi um caminho trabalhoso até encontrar sintonia? Existe alguma curiosidade dos bastidores da produção?

Cesar: Desde o início tivemos uma parceria excelente, com muita liberdade e respeito. Trocamos muitas ideias e referências sempre.

Fred: Nosso processo é bem simples e não tem mistério. O Cesar escreve o roteiro, eu leio e faço os layouts. Analisamos os esboços juntos, e aí então eu finalizo as páginas.

O início da trajetória dos Contos do Cão Negro aconteceu no meio virtual, certo? Com a experiência do digital e do físico, que comparações são possíveis? O digital pode mesmo ser o futuro? O público ainda reage diferente aos dois formatos?

Cesar: A webcomic foi uma forma de apresentar a HQ ao público. Aos poucos, criamos um grupo de interessados. O primeiro capítulo foi até pirateado e colocado em sites para download, mesmo estando de graça online. Isso já deu uma mostra de que a história estava sendo bem recebida, hehe.

Fred: Começamos publicando as páginas semanalmente no site outrosquadrinhos.com.br, projeto do nosso amigo Fabiano Denardin. Esse início no virtual foi muito importante para criarmos uma pequena base de fãs e as pessoas começarem a conhecer nosso trabalho. Foi a partir daí que surgiu o interesse da AVEC editora, percebendo que existia de fato um público para consumir a hq impressa. E sim, a reação do público ainda é muito diferente ao ver a versão física, principalmente por conta do formato europeu da edição. Os apps de leitura virtual são muito práticos, não ocupam espaço e nos permitem conhecer muita coisa, mas as versões impressas valorizam e dão personalidade às hqs. Acho que quem curte uma experiência mais completa de leitura dificilmente irá substituir 100% o impresso pelo digital.

O quadrinho nacional é bastante variado, mas ainda não explora muito os gêneros, como é o caso de O Coração do Cão Negro ao trazer o formato clássico de Espada e Feitiçaria. Como foi esse desafio, como vocês enxergam esse cenário e o que acham que pode evoluir?

Cesar: Acho que do ponto de vista artístico e criativo o cenário vai muito bem. Os gêneros estão sendo explorados sim. Vi na última CCXP várias HQs de Fantasia, Horror, Ficção Científica, Policiais… A evolução que precisamos é no sentido mercadológico. Precisamos de profissionalização para que os autores de HQ possam trabalhar e ter seu sustento produzindo HQs.

Fred: Na verdade nós não pensamos muito nisso, apenas quisemos contar uma história que gostamos  de forma envolvente e instigante. Acho que o quadrinho brasileiro é muito rico e diversificado e pode crescer muito ainda, mas precisa se profissionalizar e quebrar o preconceito dos leitores. Acredito que isso depende  muito dos autores buscarem a excelência no seu trabalho e provarem que aqui também se faz quadrinhos com qualidade.

Por que a Irlanda e a mitologia celta e nórdica? Qual tipo de pesquisa e que recursos vocês utilizaram para ser fiel às paisagens, à linguagem, etc? Conhecem o país ou isso se tornou um “sonho” depois desse mergulho intenso?

Cesar: A Irlanda exerce um fascínio que não sei explicar. Muitas vezes vendemos o livro para um leitor simplesmente por dizer “a história se passa na Irlanda”. Desde que comecei a escrever as histórias do Cão, em 2009, tenho pesquisado muito sobre a cultura e o passado da Irlanda, tanto em livros quanto na internet. Vestuário, culinária, costumes, organização social… tudo isso é bem representado no livro, de acordo com o que se conhece. Quanto à ambientação, usamos muitas referências fotográficas. O bom é que ainda existem muitas construções do século XI por lá, o que oferece uma bela ideia de como as coisas eram. Infelizmente ainda não conheço a Irlanda pessoalmente, mas um dia chego lá.

Fred: Precisa de mais algum motivo além de sangue, feitiçaria e cabeças cortadas? (Risos) Graças ao google e também à vasta pesquisa histórica feita pelo Cesar, fiquei bem servido de referências. Eu já tinha bastante interesse pela cultura dos povos celtas e a história do local, e seria excelente conhecer o país pessoalmente antes de desenhar uma próxima edição.

O lançamento de um segundo volume já é um passo em direção à expansão desse universo, mas o que mais vocês imaginam que os Contos do Cão Negro podem alcançar? Trilogia, publicação no exterior, desdobramento em outras mídias como cinema e games… algo assim em mente?

Cesar: Esperamos que a série em quadrinhos continue, pois há material para pelo menos cinco volumes. Temos procurado editoras interessadas no exterior, acho que em breve pode sair alguma coisa.

Fred: Uma publicação no exterior seria fantástico, estamos tentando.

Três obras marcantes: Qual foi o primeiro quadrinho que você leu? Qual fez com que se encantasse e decidisse se tornar roteirista/desenhista? E qual foi o último que leu e renovou sua paixão pelos quadrinhos?

Cesar: Não lembro qual foi o primeiro quadrinho que li. Talvez algo da Disney ou do Mauricio de Sousa. As histórias do Corto Maltese, de Hugo Pratt, foram as que mais me encantaram até hoje. Elas me deram o desejo definitivo de trabalhar com quadrinhos, além da prosa. A última HQ que me deixou embasbacado foi Blacksad, de Juan Diaz Canales e Juanjo Guarnido. Que obra-prima!

Fred: Difícil lembrar do primeiro, mas com certeza foi algum do Mauricio de Sousa ou do Walt Disney, já que cresci rodeado por essas “revistinhas”, e fui alfabetizado por elas. Acho que o primeiro quadrinho que li no formato “Graphic Novel” e me causou maior impacto pela qualidade foi o “Didi Volta para o Futuro”, até hoje um dos meus favoritos. E uma das coisas recentes que tenho lido e gostado muito é Paper Girls, principalmente por conta da arte do Cliff Chiang.


Caio Oliveira, o rei da sátira

por Lucas Gonçalves e Marina de Campos

Com vocês: Caio Oliveira, o rei da sátira, mestre do timing, ligado no hype, cultuado pelos hipsters, detestado pelos fãs e idolatrado pelos haters, abençoado por Alan Moore, jurado de morte pelo Batman, temido e odiado pelo mundo que prometeu ironizar.

Conhecido pelo estilo ácido e debochado que tem se espalhado pela internet por meio da página Cantinho do Caio, nos últimos anos o artista piauiense conquistou seu espaço no cenário dos quadrinhos independentes ao se dedicar à sátira do universo da cultura pop e seus bastidores, produzindo HQs de sucesso como O Mago Supremo, estrelada por Alan Moore e Grant Morrison, e All Hipster Marvel, com os heróis da Casa das Ideias. Neste mês chega aos colaboradores do Catarse a edição de Super-Ego, trabalho que ironiza as crises existenciais dos super-heróis dentro de um consultório de psicanálise, e que foi publicado primeiro nos Estados Unidos pela Magnetic Press.

Em entrevista ao Redação Multiverso, Caio fala sobre suas influências e os dilemas de se trabalhar com esse tipo de humor, o acelerado processo criativo diário, sua complicada relação com o Batman e a expectativa de conhecer Glenn Fabry, artista responsável pela capa de Super-Ego que estará na CCXP Tour em abril. Confira!

 

Super-Ego está chegando aos colaboradores do Catarse agora, mas a obra saiu primeiro nos Estados Unidos em 2014, antes dos seus outros trabalhos se popularizarem por aqui. Como foi essa experiência lá fora? E como foi que você acabou tomando esse caminho da sátira nos quadrinhos?

Super-Ego foi um projeto que comecei a desenvolver em 2006, em 2011 eu comecei a enviar amostras pra editoras nacionais e gringas, mas sem conseguir retorno algum. Aí engavetei. Em 2012 eu conheci o Mike Kennedy (Lobo Solitário 2100), um autor americano que iria criar um site cuja proposta seria disponibilizar uma página de quadrinho online gratuita TODO DIA! Criou vários roteiros de séries diferentes e contratou artistas ao redor do mundo pra empreitada, e eu tava no meio. Comecei a desenhar uma série chamada Vivid pra ele, que gostou bastante do meu trabalho e me chamou pra fazer mais coisas (como Prophet Hill).

Um dia, me perguntou se eu teria algum material que gostaria de publicar no site e lembrei de Super-Ego. Mostrei e ele adorou! Aí passou a publicar a história em páginas semanais, depois de um tempo contratou o Lucas Marangon pra colorir as páginas e um belo dia disse que iria fundar uma editora, a Magnetic Press, e perguntou se eu não gostaria que Super-Ego fosse o primeiro gibi impresso da editora. Eu pirei! O cara realmente abraçou o projeto, mandou colorir tudo, contratou o Glenn Fabry (capista de Preacher!) pra fazer a arte da capa, contratou alguns artistas pra fazer pinups, criou uma bela campanha do Kickstarter, etc. Sem o Mike Kennedy, esse gibi ainda estaria numa gaveta (Obrigado por tudo, Mike).

Sobre as sátiras… bom, eu sempre tive essa vibe de sátiras nas coisas que desenhava, desde criança. Lembro de ter feito sátiras de Changeman com 9, 10 anos de idade, Cavaleiros do Zodíaco aos 15, etc. E sempre me interessei por assuntos de bastidores do mundo dos quadrinhos. Some-se a isso minha paixão por coisas nerd/pop como games e cinema e temos aí minha matéria prima favorita pra tirinhas.

E essa capa assinada por Glenn Fabry?! Deve ser incrível ter um privilégio desses do cara que fez as capas de Preacher e Hellblazer. Você pretende se agarrar ao pescoço dele durante toda a CCXP Tour Nordeste?

(Risos) Pois é, eu nem acreditei quando o Mike Kennedy me disse que a arte da capa seria dele! Pulei pelo estúdio quando soube! E agora ele vai estar aqui, no mesmo evento que eu enquanto lanço Super-Ego, que timing maravilhoso! Até enviei um email pro Mike perguntando como ou se devo abordar o Sr. Fabry e pedir pra ele autografar uma cópia pra mim,  se ele não pensaria que eu estou pirateando um gibi com arte de capa dele ou sei lá (risos). Porque estou neuvosor! Vou ter que me comunicar com ele no meu inglês falcônico pra explicar que sou o autor daquele gibi que ele fez a capa anos atrás… fico nervoso só de imaginar!

Quais são as suas principais influências para os roteiros nesse gênero de sátira e humor, e quais artistas são referência para você na hora de desenhar?

Acho que o maior influenciador foi o Sérgio Aragonés da MAD. Lia Groo quando moleque e achava bem mais legal que Conan. Outro que me influenciou foi o João Vicente Cardoso com seu Los Caballeros Ridículos, que saía no gibi Hyper Comix. Foi a primeira sátira que li de Cavaleiros do Zodíaco e aquilo era divertido demais! Sou amigo de facebook do João Vicente hoje e o cara é uma verdadeira enciclopédia nerd! Grande inspiração. Na arte, minhas inspirações são artistas de gibis de super-herói, claro. Artistas como Rick Leonardi, Barry Windsor Smith, Jon Bogdanove, Alex Toth, Eduardo Risso, Frank Quitely, Ivo Milazzo, etc. Alguns dá pra perceber claramente a influência no meu traço, outros é algo mais sutil… aprendi um truque aqui, uma sombra ali, um músculo acolá, mas tão todos lá.

O que você acha da disputa entre Alan Moore e Grant Morrison? Pensa em produzir mais HQs com esses e outros personagens de O Mago Supremo? E como explicar o incrível fenômeno das camisetas com a capa da edição, que podem ser vistas em todo e qualquer encontro nerd?

Eu acho sensacional a briga entre ambos! Quer dizer, nem sei se “briga” é o termo mais adequado… me parece mais uma tentativa do Morrison de chamar atenção do Moore, algo que eu entendo e respeito. É mais ou menos o que faço com as editoras Marvel e DC quando fico zoando com minhas tirinhas, “me notem! me notem!”. Não tenho nada planejado pra uma sequência de Mago Supremo, mas nunca se sabe. Por enquanto tenho planos de utilizar Moore e Morrison novamente como personagens num outro projeto, dessa vez como “vilões”. Mas é algo que ainda estou começando a desenvolver, vai demorar um pouco. Sobre as camisetas do Mago Supremo, só posso agradecer ao Guilherme do site As Baratas por isso. Ele que teve a visão! Dizem que a camiseta é o uniforme oficial dos eventos nerds! (risos).

Caio, em uma luta de vida ou morte, quem é que vence: uma velhinha com artrite ou o Batman? E por que é a velhinha? Mas falando sério, as piadas envolvendo o Batman se tornaram uma marca. Por que ele? Nessa era dos fanboys, você já foi xingado pelas brincadeiras com esse e outros personagens?

Ah, minha história com o Bátima é tão velha quanto minha história com a internet! Quando eu comecei a “surfar na web” em 99, 2000, meu primeiro destino foi um certo fórum de quadrinhos, numa pasta chamada “Cross”. Foi ali que meu couro ficou grosso e preparado pra internet! E foi ali que minha birra com o Bátima se desenvolveu! Quer dizer, eu já achava ele antipático nos gibis por causa do Morrison, mas o contato com os fãs do personagem só agravou isso! Quando tive contato com o termo “preparo” (que pregava que ele poderia derrotar qualquer um!), “preparo” se tornou um deus ex machina insuportável do personagem que os fãs compraram, mas não justificava aquele mesmo personagem esfregar o chão com a Liga da Justiça e ser feito de idiota pelo Coringa ou o Espantalho no mesmo mês em gibis diferentes. Fui a voz destoante naquele momento, quando era mais raro encontrar alguém que não o endeusava. Hoje já tá mais tranquilo, o Bátima já tem bem mais detratores. O que é bom pra mim, que tenho um público cativo, mas é ruim também, porque gosto do personagem. Pelo menos da minha ideia do que ele é: um grande detetive e um grande artista marcial, mas não mais que isso.

Já fui ofendido algumas vezes sim por conta das minhas tirinhas e ilustrações, mas se quer saber, bem menos do que eu esperaria, afinal, ofensas em áreas de comentário na internet são a regra! Mas no Cantinho do Caio (onde publico minhas tirinhas), elas são poucas, o que mostra que a galera lá entende a intenção e tem maturidade suficiente pra rir daquilo, mesmo alguns sendo fãs das coisas que tiro sarro (eu mesmo sou fã da maioria dessas coisas, afinal).

Se tivesse a chance, com qual personagem da Marvel e da DC você gostaria de trabalhar? E não diga que seria o Batman…

(Risos) Se eu fizesse o Bátima, daria um jeito de desenhar mamilos no uniforme sem que a editora percebesse!). Eu sempre tive vontade de fazer esses personagens mais periféricos das editoras, nada dos grandões. Tipo o Dr. Estranho, Manto & Adaga, Punho de Ferro na Marvel (se bem que na Marvel todo mundo agora é mainstream, já que tão ganhando filme ou série o.O), ou Caçador (Mark Shaw), Xeque-Mate, Barda na DC. Eu ADORAVA o título DC 2000 que a Abril publicava. Qualquer personagem daquele gibi seria ótimo trabalhar hoje em dia.

O fato de você não se levar a sério é o que muitas vezes atrai o público, mas também pode ter como efeito colateral não ser “levado a sério” no meio dos quadrinhos, mesmo com todo sucesso. Você sente isso de alguma forma, ainda que provavelmente não se importe?

Eu tenho bons contatos com o meio dos quadrinhos aqui no Brasil. Grandes artistas de quem sou fã desde os anos 90 curtem e às vezes interagem nas minhas postagens, e isso é fantástico! Não sei se o conteúdo que publico me afeta negativamente, não no mercado brasileiro, já que o alvo das minhas tiras geralmente são editoras ou estúdios americanos… mas já fiquei com uma pulga atrás da orelha sim com relação ao mercado externo. Às vezes tenho receio de estar me queimando com os gringos por uma piada, por uma curtida no facebook que não paga minhas contas. Fico naquelas de “Oh céus, agora nunca mais vou conseguir trabalhar com a DC, olha o que eu fiz com o Bátima?”, mas prefiro (preciso) acreditar que isso é paranoia e desculpinha de minha parte! Estamos falando do mercado que produziu a MAD Magazine, os caras TEM senso de humor, certo? …CERTO? Enfim, se tiver de rolar, vai rolar, só ter paciência.

Um dos trunfos do seu trabalho atualmente é o timing em relação às novidades da cultura pop que mais repercutem na internet, de uma forma simples e rápida, mas original. Como é esse seu processo criativo diário?

Como trabalho em casa, passo a maior parte do tempo na internet e tou sempre ligado nessas novidades da cultura pop. Quando vejo algo que pode ser explorado numa piada, a coisa é meio instantânea. Leio a notícia e já tento analisar pelo ângulo mais engraçado possível. Uma ironia, um mash-up, um trocadilho bobo. Funciona, mas é algo pra ser consumido rápido também, porque fica datado. No ano seguinte, provável que alguém veja a arte e nem entenda mais! (risos) Tou trabalhando pra lançar um encadernado de tirinhas do Cantinho do Caio por uma editora (mais novidades em breve!) e isso tem sido um problema! Selecionar material que funcione de forma atemporal. Mas tá ficando bom!

Você já lançou dois projetos pelo Catarse, tem suas outras obras disponibilizadas no Social Comics, posta conteúdo nas redes sociais… No seu caso, é vantagem ser um artista independente? E você já tem planos para novos projetos?

Eu adoro a liberdade de poder fazer o que eu quiser! Desenhar o que quiser, publicar o que quiser, isso é ótimo! E quando tem o apoio de um público alvo, melhor ainda, então posso me considerar um felizardo. Tenho vários planos pra novos projetos, todos esperando seu momento. Tou com duas histórias no lápis em vias de virarem projetos no Catarse também, e tenho pensado em dedicar mais tempo a produção de HQs maiores, não apenas tirinhas. Quem sabe criar um site pra disponibilizar essas HQs, já que não sei se o formato vingaria no Cantinho (galera tá lá pra ler tirinhas, uma HQ de várias páginas poderia cansá-los). Vez em quando aparece um trampo indie pralgum gringo também, e isso toma bastante do meu tempo. Também tenho pensado em voltar a fazer testes pras grandes editoras, já que meu portfólio tá bem defasado! Mas meu foco mesmo é material autoral…. tou cheio de histórias pra contar e ver esse material publicado é sempre mais gratificante.

Três obras marcantes: Qual foi o primeiro quadrinho que você leu? Qual foi aquele que te impressionou e fez com que decidisse se tornar desenhista? E qual foi o último que leu e renovou sua paixão pelos quadrinhos?

O primeiro quadrinho que li não vou lembrar, porque meu pai me dava uma pilha de gibis todo mês antes mesmo de eu saber ler direito (eu recortava e brincava com os “bonequinhos”). Gostava muito de brincar com um desses “bonequinhos” do Tocha Humana desenhado pelo Byrne, então acho que é isso. Curioso que hoje em dia nem curto tanto assim o Quarteto (só a fase Byrne!); Desenhar eu também desenho desde que me lembro…  muitos quadrinhos marcaram minha vida e me fizeram ter certeza que era isso que eu queria fazer, então serei injusto apontando apenas um, mas se tenho que fazer isso, então direi Marshal Law, do Pat Mills e Kevin O’Neill, porque é o tipo de quadrinho que eu gostaria de fazer, que eu TENTO fazer; E outra vez acho que serei injusto, porque recentemente tenho importado muito material fantástico que não tinha hábito de ler (fora das majors Marvel e DC), mas apontarei o mangá Parasyte, publicado recentemente no Brasil. História redondinha, repleta de ação, drama, comédia, ficção científica, e uma mensagem filosófica sem ser panfletária. Recomendo!

Alena e o pesadelo chamado adolescência

Crescer pode ser um pesadelo. Afinal, quem não se lembra de ter vivido pelo menos uma história de terror na adolescência? São tantos os gatilhos: inadequação, baixa auto-estima, descobertas sexuais, decepções amorosas, bullying, rivalidade, rejeição, frustração e, claro, aquela típica vontade de morrer, fugir ou ser outra pessoa. Tudo isso está em Alena, e convenhamos que já seria o suficiente, mas as coisas ficam ainda mais intensas com uma boa dose de sangue, psicopatia e a presença de algo que pode ou não ser sobrenatural.

Premiada HQ do sueco Kim W. Andersson, Alena foi adaptada para o cinema, publicada nos Estados Unidos pela Dark Horse e chega agora ao Brasil pela AVEC Editora. Comparada a Carrie, A Estranha, clássico absoluto de Stephen King, a obra também lembra muito os filmes de terror dos anos 1990 e quase se pode ouvir o punk rock como trilha sonora, numa história que equilibra bem a tensão e a diversão graças ao estilo de desenho moderno, as cores atmosféricas e seu ritmo ágil e cinematográfico de narrativa. Na trama, a jovem Alena vê sua vida se transformar em um inferno depois de ingressar em um internato de classe alta e sofrer nas mãos das meninas mais populares da escola. A sombria Josefin é sua única amiga, e está determinada a não deixar que sofra mais nenhum tipo de mal, custe o que custar. Só tem um problema: Josefin está morta há um ano.

Alena já está à venda no site da AVEC Editora.

Em entrevista ao Redação Multiverso, o quadrinista sueco Kim W. Andersson fala sobre como foi ver Alena ganhar vida no cinema, sua preferência por protagonistas femininas e a expectativa em lançar seu primeiro trabalho no Brasil.

 

Alena é uma história de terror adolescente, mas aborda diversos temas sérios e muito atuais, como bullying, homossexualidade, discriminação social. Como você vê o papel da arte nessas discussões?

Eu acho que esse é um dos papéis mais importantes que a arte tem. Através de quadrinhos, podemos abordar estas questões de uma forma muito interessante, a partir de diferentes pontos de vista e experiências. Eu sou um pouco de todos os personagens da história, como vozes diferentes na minha cabeça tendo uma discussão. Este é um livro muito pessoal para mim, foi muito importante para mim escrevê-lo. Ele traz as questões que eu me perguntava sobre crescer. Muitas experiências pessoais estão retratadas na história, mas versões muito distorcidas, é claro – eu não assassinei ninguém na vida real! (risos).

Seu trabalho tem muitos elementos cinematográficos, por isso parece natural a adaptação para o cinema, mas deve ser estranho ver Alena literalmente ganhar vida. Como foi essa experiência?

Alena é a graphic novel mais cinematográfica que eu fiz. Aposto que essa é uma das razões pelas quais ela foi transformada em um filme. É fortemente influenciada por filmes de terror, muito mais do que por quadrinhos de terror. Foi uma experiência incrível ver Alena transformada em um filme. E eu fiz parte disso desde o primeiro dia até o último. Eu pude trabalhar com o roteiro, o elenco, traje, design e muito mais! Cheguei a fazer um cameo (uma aparição) no filme! Até consegui uma linha.

Lembro-me da primeira vez que vi Amalia Holm como Alena. Nós estávamos fazendo um teste de figurino. Ela saiu com o uniforme da escola e seu cabelo era como o de Alena. Ela se parece com ela, essa personagem que eu tinha inventado apenas alguns anos antes estava agora na minha frente, viva. Em carne e osso, respirando e olhando de volta para mim, sorrindo. Foi uma experiência surreal! Diferente de qualquer coisa que eu já senti. Uma grande onda de emoções apenas caiu sobre mim. É impossível descrever esse sentimento, mas estou tão feliz que eu tenha tido a chance de experimentá-lo. Tente imaginar você mesmo, desenhe uma pessoa e depois imagine que ela ganhe vida.

Considerando seu estilo alternativo e o gosto por gêneros como horror e ficção científica, quais são suas maiores influências nos quadrinhos?

Eu li um monte de quadrinhos! Quando se trata de Alena acho que os mangás de horror de Junji Ito foram uma influência. Mas também os quadrinhos maravilhosos de Jaime Hernandez (Love & Rockets), eles são alguns dos meus favoritos de todos os tempos.

Você está publicando diversos trabalhos pela Dark Horse e estabelecendo uma carreira no mercado norte-americano. Nesse caminho, muitos artistas alternativos acabam indo para editoras como Marvel e DC. Você faria algo do gênero? Existe algum personagem que gostaria de desenhar?

A Dark Horse sempre foi minha editora favorita nos EUA. Por isso estou muito feliz por ter os meus livros por lá. Certamente eu era um grande fã de Homem-Aranha na adolescência então eu acho que eu não dispensaria Marvel ou DC, se eles entrassem em contato para um projeto! Mas eu realmente quero fazer meus próprios quadrinhos acima de tudo.

Em Alena e Astrid você tem duas mulheres protagonistas fortes. É uma coincidência ou uma preferência? Retratar mulheres (e conseguir fazer isso sem apelações ou estereótipos, como você tem feito) é um desafio ou basta encarar os personagens independente do gênero?

É definitivamente uma preferência e uma escolha consciente. Há três razões, a primeira é a razão política e feminista. Deveria haver mais personagens femininas boas e interessantes na ficção. Heroínas e vilãs e todo o resto. E é minha responsabilidade como um criador para se certificar de que isso aconteça. Talvez até mais que 50% para compensar a enorme quantidade de ficção que nem sequer retrata mulheres. A segunda razão é que para mim é mais fácil escrever personagens femininas. Mesmo que eu escreva horror e sci-fi eu escrevo sobre coisas muito próximas do meu coração. Posso me esconder por trás do fato de que eles são de um gênero diferente do meu. Então eu não vou ficar envergonhado quando eu estiver escrevendo ou quando você estiver lendo. Meu próximo desafio é escrever um bom personagem masculino. A terceira razão: eu gosto de desenhar mulheres.

Novo trabalho do autor, Astrid é publicadas nos EUA pela Dark Horse

Alguma vez você imaginou que seu trabalho seria publicado em um país como o Brasil, tão diferente da Suécia? E você já teve algum contato com quadrinhos brasileiros?

Eu nunca imaginei, e estou muito feliz com isso! Espero poder visitar o Brasil, parece ser um país maravilhoso. Conheço alguns dos seus quadrinistas, como os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, que conheci através do Dark Horse. Mas eu gostaria de conhecer mais. E só quero dizer aos meus leitores brasileiros: espero que vocês gostem do meu livro. Foi um livro muito importante pra mim, é muito pessoal. Novamente, lembrem-se, eu não assassinei ninguém! (risos). Tenho muito mais quadrinhos de horror e romance se você gostar deste. Vejo vocês em breve, eu espero!


Sidão e a Turma de casa nova

Depois de uma década batendo ponto na Rua do Curtume nº 745, onde foi a sede da Mauricio de Sousa Produções por mais de 30 anos, Sidney Gusman viveu com um misto de nostalgia e empolgação a transição para a nova casa da Turma da Mônica, algo como um “Bairro do Limoeiro” mais moderno para a equipe e também para os fãs que sempre fizeram questão de visitar os bastidores do lendário estúdio – e não perdem por esperar a renovada atração.

Jornalista e coordenador de planejamento editorial da MSP, nesse período Sidão ajudou a reinventar a marca com projetos como a coleção Graphic MSP, hoje um dos maiores fenômenos de vendas dos quadrinhos nacionais. O novo espaço promete acompanhar a expansão da empresa e dar ainda mais fôlego às suas ideias e projetos inovadores. Em um bate-papo com o Redação Multiverso, Sidney Gusman comenta a mudança que aconteceu no fim de janeiro e as expectativas com a nova sede, fala do que espera para 2017 e aproveita para fazer algumas considerações sobre o mercado de quadrinhos europeus depois de passar as férias em Portugal. Confira!

Como está sendo trabalhar na nova sede? Essa mudança de espaço acompanha a modernização e a expansão que vive a MSP?

Não sou exatamente a pessoa mais adequada para falar sobre a nova sede, mas tem muito disso que você colocou, a ideia é que a sede reflita o que a MSP é hoje, uma empresa que tá buscando se modernizar o tempo inteiro, inovar o tempo inteiro, e que fisicamente vai fazer isso agora na sede nova. É justamente esse o ponto, o primeiro dia que a gente foi pra lá, a sensação era de algo que eu não sentia há mais de 15 anos: pô, primeiro dia de aula na escola nova! E todo mundo com uma energia muito boa, os funcionários gostaram da mudança.

E assim, a empresa nem tá decorada ainda, as visitações estão temporariamente suspensas, pois vai haver uma tematização na empresa que vai ser arrasadora, a Alice Takeda que está comandando essa tematização, e vai ficar lindo, o estúdio vai ficar absolutamente lindo, se o pessoal gostava de visitar na Rua do Curtume, quando a gente começar a postar as fotos e mostrar como vai ficar o estúdio novo, vai ser desesperadora a fila para visitar a nova MSP.

[Despedida da antiga sede; hora da mudança; Sidão com Mônica na casa nova; prédio da sede da MSP]

Além da MSP, você segue com o Universo HQ, realiza oficinas de edição, participa de eventos pelo país… Em meio a tudo isso, o que espera do seu ano de 2017?

Pra 2017 eu espero um ano de muito trabalho, mais uma vez, que acho que é o que acaba movendo a minha vida, sou muito apaixonado pelo que eu faço em todas as áreas, então espero que tenha muito trabalho e muito sucesso em todas as frentes de trabalho. Os workshops e palestras que tenho ministrado estão indo muito bem, o Universo HQ vira e mexe a gente está tentando melhorar coisas aqui e ali, mas a gente vai implementar novidades esse ano porque a gente precisa disso, o Confins do Universo vai muito bem obrigado… e a MSP, com as graphics e outros projetos então, não posso nem falar, o pessoal fala que o sucesso reflete o amor pelo que você faz, e eu sei que isso ajuda, mas não pode ser só isso, né.

Você passou uma temporada em Portugal, visitou a Comic Con do Porto, voltou com muitas HQs… É possível fazer algumas comparações com o cenário brasileiro?

Fui para Portugal de férias mas visitei a Comic Con do Porto, e é uma estrutura bem menor do que a Comic Con Experience em São Paulo, bem diferente, as editoras estão presentes mas em estandes muito simples, não há toda aquela pirotecnia que existe aqui no Brasil. E o mercado português é muito menor do que o nosso, um álbum lá que vende bem, vende 2 ou 3 mil exemplares, apesar do público europeu ser um público leitor, Portugal está buscando de novo aumentar o número de leitores de banda desenhada, como eles chamam lá. Então é um mercado que voltou a crescer pois eles felizmente superaram a crise, mas ainda tem um caminho longo para recuperar números que eles já tiveram anteriormente, e que eram de fazer inveja inclusive ao Brasil.

Com o mercado nacional aquecido e novas editoras surgindo a cada dia, acredita que a publicação de mais quadrinhos europeus é um espaço a ser preenchido por aqui?

Costumo dizer que a gente nunca teve um momento tão bom para publicação de quadrinhos no Brasil porque tem de tudo sendo publicado. Está saindo muito mais quadrinho europeu agora do que já saía há alguns anos, isso por causa do trabalho da Sesi-SP, a Figura de Porto Alegre que estreou com uma grande HQ europeia, tem a Nemo, que está lançando uns quadrinhos não tão famosos depois de publicar Moebius e Pratt, está focando em graphic novels de autoras e público feminino. Então estão chegando HQs europeias aqui, mas ainda tem espaço, tem espaço pra muito mais, existem grandes séries europeias que nem arranharam aqui.

E acho sim que a gente vai ver esse momento. A Sesi-SP anunciou recentemente Blacksad, anunciou Valerian, material europeu clássico, então por que não Escorpião, As Águias de Roma, Bouncer… Por exemplo, pra mim o melhor quadrinho de 2016 foi o europeu Verões Felizes – Rumo ao Sul, é absolutamente fantástica a HQ, de um desenhista que pouca gente conhece aqui que é fenomenal, então acho que tem espaço pra mais e acho que nós veremos mais, essa é a parte mais legal de todas.


Rogê Antônio e o ano da Batgirl

“Não sei dizer quando surgiu o interesse em desenhar, pois é como se eu sempre soubesse o que iria fazer da vida, saca? É isso. Tinha de ser isso”. Ao ver a trajetória ascendente de Rogê Antônio nos quadrinhos, não há mesmo como duvidar. Em um ótimo momento da carreira, o artista gaúcho que há anos atua na DC Comics é o titular da revista Batgirl and the Birds of Prey no ano em que Barbara Gordon completa 50 anos. “Pra mim é uma honra estar participando da história da personagem neste momento em especial”. Em entrevista ao Redação Multiverso, Rogê fala das influências para esse trabalho, sua identificação com o universo Batman e as expectativas com o Rebirth.

 

Em 2017 a Batgirl completa 50 anos. Como está sendo atuar no título Batgirl and the Birds of Prey nesse momento importante da personagem?

Eu tô curtindo muito. Sempre achei a Batgirl uma personagem muito interessante, e essa roupagem mais “teen” dela funciona muto bem. Gosto da maneira como ela interage com a Black Canary e a Huntress, elas de certa forma se complementam e a personalidade de cada uma faz com que aconteçam momentos inusitados e engraçados. E eu tenho de dizer: esse novo uniforme da Batgirl é muito legal de desenhar! Pra mim é uma honra estar participando da história da personagem neste momento em especial, justo quando vai completar 50 anos.

Como é trabalhar com as roteiristas Julie e Shawna Benson? Percebe alguma diferença ou característica própria das mulheres nesse sentido? E qual a importância disso num título de super-heroínas?

Pô, eu adoro elas! São sempre muito abertas a sugestões, perguntam o que eu gostaria (e o que detestaria) desenhar… e os roteiros sempre são divertidos, com algumas cenas de ação mirabolantes onde tenho de me desdobrar pra desenhar (risos). Tenho também bastante liberdade para mudar cenas, e ainda assim manter o rumo da história. É bem interessante quando trocamos ideia sobre a personagem, até mesmo a respeito das páginas… e temos muitas coisas em comum em nossas intenções, inclusive sobre o fato de sempre evitar algo sexualizado, etc.

Qual é a sua principal referência para desenhar a Batgirl? Busca inspiração em artistas clássicos, figuras do cinema, outras mídias? Tem alguma curiosidade sobre o seu processo de criação atual?

Então, pra Batgirl and The Birds of Prey em especial, eu queria um look mais jovem e dinâmico, então juntei minhas referências habituais com alguns elementos do mangá, gosto muito de Katsuhiro Otomo, por exemplo. Acho que deu uma mistura boa que tem me agradado bastante. Inspiração da música eu sempre tive, principalmente do punk rock… a trilha sonora pra desenhar a Black Canary sempre é Ramones! Na verdade, a maioria das minhas inspirações vem de fora dos quadrinhos, mas creio que a música seja a principal.

Você já atuou em diversos títulos da “linha” Batman. Como é a identificação com esse núcleo específico? O que mais gosta nele?

O que mais gosto? O universo Batman é o meu preferido, me sinto muito à vontade desenhando qualquer personagem desse universo. Gosto de levar um clima sombrio pras páginas, e esse núcleo me permite isso, se bem que nessa revista eu tô tentando um caminho um pouco mais “leve”. Na verdade, acho que desde que trabalho com a DC, apenas uma vez eu fiz algo fora dessa linha Batman, que foi uma participação na revista Green Lantern: New Guardians, interessante, não tinha parado pra pensar nisso ainda.

O que você está achando da fase Rebirth? Como está recepção do público e pessoalmente o que espera dos rumos da DC?

É como se fosse um retorno às origens né, trazendo de volta a essência de cada personagem. Pelo menos as séries da fase Rebirth em que trabalhei (Nightwing, e agora Batgirl…) estão sendo muito bem aceitas, e o feedback tem sido muito bom.

Três obras marcantes: Qual foi o primeiro quadrinho que você leu? Qual fez com que se encantasse e decidisse se tornar desenhista? E qual foi o último que leu e renovou sua paixão pelos quadrinhos?

Ish… primeiro quadrinho? Que eu lembro, acho que eram aqueles dos Trapalhões, tipo “Didi volta para o Futuro”, mais tarde veio o interesse pelos super-heróis… E aí meus dois primeiros quadrinhos foram uma edição do Batman e outra do A Teia do Aranha. Eu não sei desde quando surgiu o interesse em desenhar, pra mim foi sempre algo natural, é como se eu sempre soubesse o que iria fazer da vida, saca? É isso. Tinha de ser isso.

Se tratando de super-heróis, eu tento ler coisas que estejam em volta do que estou desenhando, ou seja, gosto de ler Batman, pra saber o que tá rolando nas outras revistas. Mas algo que gosto MUITO, e releio de tempos em tempos, são as HQs do Guy Delisle, Pyongyang, Shenzhen, por aí vai. E a última coisa que li mesmo foi Hacktivist, de Jackson Lanzing e Colin Kelly (com os quais eu trabalhei na série Grayson), e gostei bastante!


Gabriel Andrade, o parceiro brasileiro de Alan Moore

Imagine ver seu nome impresso ao lado daquele que muitos consideram ser o maior roteirista de quadrinhos de todos os tempos. Ser um artista brasileiro na lista de parceiros de Alan Moore já seria um grande feito, mas há um detalhe que torna o episódio vivido por Gabriel Andrade Jr. ainda mais especial: não foi sorte, decisão da editora ou mero acaso, mas uma escolha do próprio Moore, que viu seu trabalho no especial God is Dead para a Avatar e sugeriu que ele desenhasse sua versão de Crossed, polêmica criação de Garth Ennis que já passou pelas mãos de diversas equipes criativas, e foi assinada pela dupla no final de 2014.

Desenhista autodidata natural do Rio Grande do Norte, há anos Gabriel desenvolve ilustrações para as revistas em quadrinhos da editora norte-americana Avatar Press, mas ganhou mesmo a notoriedade merecida após trabalhar ao lado do britânico no arco inicial de Crossed+One Hundred, ainda inédito no Brasil. Além disso, ele lança seu sketchbook na CCXP desse ano e tem planos de publicar sua primeira HQ completamente autoral em breve. Conheça aqui um pouco mais desse artista brasileiro cuja arte foi capaz de despertar a atenção do mago dos quadrinhos.

11742671_932715706770607_2137199646676592270_n

Recentemente Alan Moore confirmou que pretende se aposentar dos quadrinhos. Como você se sente sendo dos últimos artistas a trabalhar com o mestre?

É uma honra, para qualquer um, trabalhar com o grandes autores como o senhor Alan Moore, mas acima disso, foi um enorme aprendizado. De certa forma, é sempre um pouco triste quando grandes nomes se retiram. Tenho um enorme carinho pelo trabalho que fizemos.

Você foi escolhido pelo próprio Moore para trabalhar em Crossed! Conte como foi essa história e o que passou pela sua cabeça, a pressão foi diferente? Com toda a fama de difícil, detalhista e exigente, como foi o processo e como você lidou com as exigências do roteiro?

Trabalhamos no especial God is Dead da Avatar, em contos diferentes. O Editor chefe William, apresentou meu trabalho a ele e logo ficamos acertados de desenvolver a nova série. De cara eu já estava super empolgado com o projeto, e quando comecei a ler as primeiras recomendações e informações introdutórias, percebi que tinha algo muito legal nas mãos. Roteiros estavam bastante detalhados e muito bem escritos, porém, eu fui deixado bem livre pra criar os cenários e aparência dos personagens, inclusive na colorização desses. Mesmo os roteiros sendo bem específicos, quanto a câmera e layout, em todas as edições eu fiz diversas alterações, no ângulo, nos closes, nas ideias de design de cenário, tudo em prol da narrativa.

crossed-100-1-regular

O trabalho de pesquisa nesse trabalho foi muito específico, pois os ambientes são versões de cidades reais. Mas eu queria que tudo fosse bastante orgânico e irregular. Praticamente não usei régua na finalização dessa série, talvez apenas na feitura dos quadros. Muitos dos materiais e objetos são imaginados a partir de objetos reais reaproveitados, dessa forma, casas, veículos, móveis, todos adaptados. Nesse sentido houve muito trabalho. No final, Eu realmente senti a história acontecer. Foi muito estimulante, pelo texto, e extremamente cansativo, pelo prazo. Amei esse trabalho.

Você já era fã de Alan Moore? Com quem mais você gostaria de trabalhar? E quem são suas principais influências no meio?

Sim, eu já conhecia seu trabalho e importância no universo das Hq’s. Mas foi quando li, em 2005, o seu trabalho em “V de Vingança” que eu me tornei realmente fã dele. Nunca parei pra pensar com quem eu gostaria de trabalhar, prefiro que as coisas aconteçam. Costumo dizer que o meu traço possui influências de, pela ordem, John Buscema, John Romita Sr, Garcia Lopes, Jim Lee, Katsuhiro Otomo, Clamp, Milo Manara, Moebius, Alberto Gennari, Mike Deodato, Serpiere, Frank Cho e Adam Hughes.

Você é desenhista autodidata, certo? Quais são as dicas essenciais que você daria a quem deseja seguir esse caminho, levando em conta o seu próprio processo de aprendizado?

Praticar todos os dias e sempre. Costumo dizer que 25 anos de prática ajudam muito! Eu sempre tive essa paixão enorme por desenhar, mas nunca fui muito bom nisso, então resolvi investir mais tempo nessa atividade que me proporcionava horas muito felizes. Quando cresci, o que era uma brincadeira tornou-se algo cada vez mais elaborado e comecei a ver que isso me destacava dos demais. Eu sempre estudei desenhando as coisas que via na rua, pessoas, carros, animais, essas coisas. Mas foi só quando os primeiros trabalhos começaram a surgir que eu comecei a levar isso realmente a sério. Também ajuda muito fazer um curso de HQ. Hoje temos muitas escolas de HQ espalhadas pelo Brasil.

cpohandradememphisbridge

Como é que você saiu da música e foi parar nos quadrinhos? Você encontra relação entre essas duas artes? A música faz parte do seu processo de produção, ajuda a inspirar, se concentrar?

Eu fazia faculdade de Música Erudita, e, eu não sabia que poderia trabalhar para revistas em quadrinhos; não sabia como chegar lá. A minha vontade maior era trabalhar como ilustrador. Eu nunca tinha feito quadrinhos até começar a trabalhar com quadrinhos. Foi com a ajuda de alguns amigos que comecei a mandar amostra de ilustrações para editoras e agências. Quando os primeiros trabalhos surgiram eu tive que largar a faculdade. Eu fui chamado então pela Avatar para desenhar a série da Lady Death em 2010 e me tornei exclusivo da editora até então. Durante o processo de trabalho eu ouço de tudo: Jazz, Blues, Rock, Metal, Óperas, clássicos, alternativos. Gosto de ouvir trilhas sonoras. Mas muitas vezes, quando já estou finalizando as tintas, gosto de ouvir podcasts.

Quais são as peculiaridades de trabalhar com adaptações do cinema? Você já era fã das franquias ou precisou mergulhar nos filmes como forma de estudo? Além de Alien e Duro de Matar, que outra série cinematográfica você gostaria de adaptar para os quadrinhos?

Não há muito segredo, só precisei focar no design da produção de cada filme, e, no caso do Die Hard, manter a aparência do ator principal. Eu gostaria de adaptar Blade Runner.

Como grande fã de cinema, o que você pensa das recentes adaptações vindas dos quadrinhos? Que obra você acha que daria um grande filme? Se pudesse escolher um trabalho seu para ver no cinema, qual seria?

Gosto de uma boa parte do que está sendo feito no cinema, principalmente por serem um bom entretenimento, não sou um grande fã do gênero “super herói”, mas sei sua importância para o mercado atual. Mas sinto que há coisas muito melhores nas HQs sendo adaptado para o cinema e que não tem a mesma visibilidade. Tem um mangá muito interessante chamado EDEN. Acredito que seria um bom filme. Eu gostaria muito de ver a história que estou escrevendo “Dried Roots” em uma série de filmes (risos), pois a história nasceu com essa pretensão.

Lady Death é uma personagem que tem um público bastante fiel nos EUA, e fez parte da trajetória de outros brasileiros de renome como Mike Deodato Jr. e Ivan Reis. Como foi desenhar a série? Serviu como vitrine e te abriu portas?

Era pura diversão, Desenhar mulheres e monstros sempre foi muito natural pra min. Esse trabalho me abriu as portas da Avatar Press, enquanto crescia a confiança dos editores no meu trabalho.

Você possui um contrato de exclusividade com a Avatar Press, que publica temas bem variados, mas tem vontade de trabalhar com super-heróis clássicos como os da Marvel e da DC? Se tivesse a oportunidade que título escolheria? E no mercado europeu?

Eu sempre preferi o mercado europeu, mas não faço questão, trabalho é trabalho. Embora não me identifique com a temática dos super heróis, entendo que pra ter algum tipo de reconhecimento, principalmente aqui no Brasil, precisa ter trabalhado em alguma das grandes. Se puder escolher eu prefiro os Heróis da DC. Mulher-Maravilha sempre foi minha preferida.

trinitygabrielandrade

Você fez uma capa variante como recompensa da HQ Saint Alamo, projeto gaúcho que esteve em campanha no Catarse. O que acha do financiamento coletivo como recurso para quem está começando? E como vê a importância do incentivo de artistas consolidados aos novos talentos, você teve algum respaldo desse tipo quando começou?

O financiamento coletivo, de certa forma, tem ajudado no crescimento do mercado de Hqs aqui no Brasil. Isso é bom para todos. Quando eu estava apenas sonhado em entrar no mercado e as oportunidades para apresentar portfólio e fazer meu trabalho visível começaram a surgir, não existia nada disso e levar a frente uma HQ autoral era muito mais dificil. Como eu não sabia nada sobre a área, eu tive a ajuda dos meus amigos Milena Azevedo (Roteirista e curadora do site GHQ), Miguel Rude (Artista e Roteirista de quadrinhos) e Wendell Cavalcante (Artista e Roteirista de quadrinhos). Eles já trabalhavam para o mercado foram meus gurus no início de tudo. Eu não vejo o artista de quadrinhos como uma celebridade inacessível, e ajudar quem está começando, é legal, não dói e só incrementa na qualidade do que será publicado no futuro.

O que pode contar sobre o trabalho autoral que está desenvolvendo? Você pretende lançar Dried Roots no Brasil? Tem intenção de se dedicar ao mercado brasileiro ou seu foco é mesmo a produção para editoras estrangeiras?

Dried Roots Será uma mine série de ficção científica em 4 ou 5 partes. No primeiro momento, conta a história de 4 personagens lidando com questões distintas na organização social futurista, depois partiremos para uma jornada através o mundo. A primeira idéia para Dried Roots nasceu em 2004 enquanto eu ouvia o disco, “Dead Heart in a Dead World” do Nevermore. Inspiração que demorou alguns anos para amadurecer, junto comigo. No princípio, seria um livro de contos, mas a ideia de fazer um quadrinho me pareceu muito melhor, então reuni tudo em uma única história. Eu sempre quis publicar algo meu no Brasil. Dried Roots sairá primeiro aqui, pois ainda não sei sobre a possibilidade de levar para o estrangeiro.

driedrootsillustratebaixa


Um papo com o mestre Santiago

por Guilherme Wunder e Marina de Campos

Artista homenageado da ComicCON RS 2016, Santiago fala sobre sua longa trajetória como cartunista, as maiores influências no gênero, diferenças entre censura política e econômica, as vantagens e desvantagens da internet para o artista contemporâneo e o futuro da tradição do cartum no Brasil, além da satisfação em receber a medalha que leva o nome de seu amigo e ídolo Renato Canini. Confira!

“Causos do Santiago” é o teu primeiro álbum de histórias em quadrinhos. Você sente que descobriu um outro lado do teu trabalho com essa experiência? Laerte definiu o livro como “felliniano” pela atmosfera nostálgica das memórias autobiográficas. Foi um desafio deixar um pouco de lado o mundo lá fora, de onde vêm tuas charges, e se voltar para dentro?

Na virada dos meus 60 anos, tava cansado das charges de atualidade por ser uma obra que caduca muito rápido, então voltei a ter a tesão que tinha aos 14 anos pelas HQs, e o caminho natural foi trabalhar justamente com as minhas experiências vividas, na esperança de que o leitor tenha as mesmas boas emoções que eu tenho quando revivo desenhando, aqueles tempos de ingenuidade e simplicidade do mundo rural que eu vivi. Fiquei muito feliz que Laerte tenha dito isso das minhas HQs, realmente a ideia era seguir os caminhos do maravilhoso Amarcord, do grande Fellini.

11800158_865257450221952_8968757491992998394_n

Você foi incluído pela revista Witty World na lista dos melhores artistas do mundo dentro do gênero “gag cartoon”, junto com figuras como Quino e Sergio Aragonés. Quem estaria no teu top 5 de melhores cartunistas de todos os tempos? Além deles, quem mais citaria como influência nos quadrinhos em geral?

Na área do cartum atemporal os meus 5 são, sem ordem definida: Quino, Sempé, Laerte, Carlos Estêvão, Steinberg. Na área do desenho de humor em geral posso citar como influências (mais no desenho, mas também nas ideias) Sampaulo, Bosc, a equipe Disney (principalmente o Donald de Carl Barks), Hergé e o seu Tintim, Gahan Wilson na Playboy, Borjalo na Cruzeiro, Lauzier da França, Ziraldo, Belmonte (da década de 1930), Al Hirschfeld (caricaturista), Fontanarrosa e Oski da Argentina.

O Macanudo é a tua criação mais icônica. Como foi “conviver” com o personagem por tanto tempo?

O macanudo era uma necessidade de narrar o que se passa nos campos de fronteira do sul brasileiro, e foi impulsionado quando conheci o personagem riquíssimo em humor, Inodoro Pereyra do Fontanarrosa. Minha relação com o personagem Taurino ficou abalada pela falta de publicações que albergassem o personagem, foi ficando meio bissexto, pois às vezes tinha um veículo pra ele, e às vezes não, então ele ficou parado por uns tempos. Essa vivência com o personagem e o consequente retorno que os leitores vão dando com frequência são o oxigênio de um personagem de quadrinhos.

istoe-capa-535

Você conta que não chegou a passar pelo período de maior censura pela ditadura no país, mas em compensação conviveu com muitos casos de censura interna dos próprios jornais, algumas vezes por motivações até mais econômicas do que políticas. Se uma das missões do cartunista é justamente provocar, como lidar com isso?

O humor gráfico é por natureza inviável na imprensa comercial, pois o instinto do humor é a irreverência e a crítica mordaz, e como fazer isso na mídia que depende de anunciantes que muitas vezes são os grandes poluidores e que obrigatoriamente tem que ser criticados? Claro que aí prolifera o humor engraçadinho ou criticando apenas aqueles pontos que o patrão quer que sejam criticados. Eu tive na minha carreira muita censura de anunciantes, uma vez um desenho sobre greve na Volkswagen foi vetado porque a Panambra, concessionária da Volks, era anunciante do jornal. Outro entrave é que o humor é um bicho de esquerda e a mídia não dá muito espaço pra quem questiona o capitalismo. Claro, o jornal é uma empresa que visa lucro como qualquer outra, portanto o pensamento e o questionamento da organização da sociedade fica prejudicado. O melhor modelo é o Charlie da França, que não depende de anúncios, só da venda e assinaturas dos leitores que afinam com as ideias do jornal.

ivan-pinheiro-machado-e-os-cartunistas-fraga-millor-caulos-e-santiago

Por outro lado, como foi participar de um símbolo do jornalismo alternativo como O Pasquim? Atuar em publicações independentes, como também foi o caso no Coojornal, dá outra perspectiva ao artista? A internet consegue fazer um pouco desse papel hoje em dia?

A experiência completamente livre do Pasquim e do Coojornal é um tempo maravilhoso que não volta mais, que bom que eu tive aqueles momentos de plena criação. Hoje temos esse veículo poderoso que é a internet, que não censura (eu pelo menos nunca tive nada cortado, nem pelo Facebook), mas é um veículo que inviabiliza o profissionalismo do artista, pois não paga pela obra, o cartunista volta a ser um adolescente iniciante que publica só por vitrine. Acho isso lamentável, pois já tivemos o tempo que tudo que se fazia era pago (pouco, mas pago!), portanto é um baita retrocesso do ponto de vista profissional. Ainda tenho esperança de ver, por exemplo, o Facebook pagando alguns centavos por curtida, afinal nós profissionais abastecemos o face de conteúdos jornalísticos de alto nível, em cima dos quais são vendidos anúncios que enriquecem o gringo chefão.

O cartum tem uma tradição muito forte no Brasil. Ainda que tenha perdido espaço nos jornais e venha precisando se reinventar com a internet, você considera que essa força se mantém? E a tua relação próxima com o Rafael Corrêa, que é um exemplo da nova safra de cartunistas, te ajuda a visualizar que rumos o gênero está tomando?

Eu não sei até quando os artistas vão aguentar publicando “digrátis” na internet sem ter como pagar as suas contas mensais de água, luz, moradia, comida. Mas realmente a tradição do humor gráfico no Brasil é riquíssima e forte, hoje não podemos mais contar com veículos impressos, que era quem nos pagava por um desenho. Quando eu iniciei, às vezes tinha um bico de desenho para algum anúncio, hoje a publicidade não nos chama mais. O Rafa é um dos mestres que surgiram na primeira década de 2000, eu aprendo com esses novos nalgumas formas de enfocar a piada e na feitura gráfica.

11219445_832036450204718_2862610437897278191_o-900x599

Você foi cogitado para ser Patrono da Feira do Livro de Porto Alegre (e deixou bem claro que não tinha interesse), numa época em que os quadrinhos vêm alcançando um novo patamar de aceitação e popularidade. Pra quem esteve nesse meio a vida inteira, como é assistir a esse fenômeno agora? Acha que a nona arte está conquistando um respeito tardio ou estão apenas sendo assimilada de maneira bastante oportuna pelo mercado?

Na ocasião achei que a irreverência que caracteriza o humor não sintonizava muito com os rituais honoríficos e cerimoniais, mas pensei muito que esse acontecimento seria um bom momento de valorizar o cartum e o quadrinho, essa nossa atividade tão maltratada e desvalorizada. Em especial o quadrinho, que já teve um momento de grande reconhecimento, na década de 1970 quando Umberto Eco e a intelectualidade francesa deu importância a ele, depois veio a concorrência com a possibilidade de termos cinema dentro de casa (video cassete, DVDs, computador) e o quadrinho foi escanteado novamente, sumiram as revistas de banca. De umas décadas pra cá o quadrinho migrou para os álbuns de grande cuidado gráfico e tomou um novo alcance. Que bom que as editoras perceberam e hoje temos uma grande quantia de quadrinhos tirados das obras clássicas da literatura universal.

Como encarou o convite para ser um dos homenageados da ComicCON RS, recebendo a medalha que leva o nome de outro ícone como Renato Canini?

Sou grande apoiador dos festivais e eventos que promovam a nossa arte, portanto foi uma baita alegria receber esse convite. E esse sim aceitei de cara, ainda mais com a medalha que homenageia o meu ídolo na adolescência e depois grande amigo Canini, gênio do quadrinho humorístico!

Foto: Maurício Mussi

Nessa altura da tua carreira, qual o legado você acredita que deixa para o público e para as futuras gerações de cartunistas?

Espero que os 16 livros de humor e quadrinhos que editei permaneçam nas prateleiras das bibliotecas escolares, fico muito satisfeito pois creio que o papel vai perdurar muito mais que as gravações via eletrônica. Se um dia der uma pane no sistema elétrico, tenho certeza que alguém vai pegar um livro ou revista velha e vai ler na luz de uma vela!


David Lloyd: o homem da máscara esteve aqui

David Lloyd contradiz o esperado “humor inglês” que costuma ser tão nublado quanto o tempo em Londres, e circula pela ComicCON RS sorridente e receptivo, quase como se imitasse o sorriso perpétuo – ainda que por vezes sarcástico ou malicioso – da tão famosa máscara de V. E assim como o personagem, ele pode até estar sorrindo enquanto deixa fluir seu carregado sotaque britânico, mas o que diz é forte e nem sempre agradável – David Lloyd é seguro, ácido e contundente, e não tem medo de nenhum assunto. Fala de política com profundidade, ironiza seu parceiro Alan Moore sem qualquer receio, critica as limitações da indústria dos quadrinhos de super-heróis e até reclama dos hábitos dos leitores se for necessário. O homem da máscara tem opinião para tudo.

Atração internacional da ComicCON RS 2016 – principal convenção de quadrinhos e cultura pop do Rio Grande do Sul –, o desenhista do clássico V de Vingança é certamente o maior nome da nona arte a passar pelo estado, fazendo história em dois dias de debates, entrevistas, disputadas sessões de autógrafos e uma impressionante boa vontade para interagir com todos. Lloyd foi um dos primeiros artistas a chegar na convenção e o último a ir embora, determinado a passar o máximo de tempo possível com o público brasileiro, sentado em sua mesa do artists alley em meio a artistas independentes honrados e até meio perplexos por dividir com ele o mesmo espaço. Entre as muitas trocas de ideias que teve por aqui, o desenhista deu uma entrevista exclusiva ao Redação Multiverso, que pode ser conferida agora.

comicconrs_2016_dia1_0257

Fotos: Maurício Mussi

Hoje você é considerado criador de uma das referências mais significativas da cultura pop recente. Isso acontece com muitas obras de arte, mas às vezes significa um dilema para o artista. É complicado lidar com essa apropriação, desapegar da criação original e aceitar que ela se tornou um símbolo incontrolável?

Quando algo que você criou se torna público, você precisa esperar que aquilo terá o melhor efeito sobre todos, e o efeito que você gostaria que tivesse. Mas não é possível garantir isso. Felizmente a arte de V que tem sido utilizada no mundo real parece, em geral, ter sido adotada refletindo o espírito de sua fonte original. Estou muito feliz com isso, e apenas lamento pelas vezes em que vi isso utilizado por outras razões.

Nos extras de V de Vingança Alan Moore elogia muito a parceria que vocês fizeram, afirmando inclusive que “V é fruto do encontro da minha personalidade deformada com a de David, algo que nenhum de nós poderia fazer sozinhos ou trabalhando com outro profissional”. Como foi essa relação durante o processo? Foi tão tranquilo e harmonioso quanto parece?

Sim, foi mesmo. Estávamos em sintonia, influenciados por muitas das mesmas coisas, como filmes e livros, e nós dois queríamos colocar em V o melhor que absorvemos dessas mídias – uma história em quadrinhos que fosse para além das expectativas da produção mainstream dominante na época. E quaisquer que tenham sido as discussões que tivemos durante o processo, em todas elas chegamos a um acordo – ou seja, eu não concordaria com nada que não considerasse uma boa ideia, assim como Alan. E, ao contrário da percepção do público, nesses primeiros anos Alan não escrevia scripts extremamente detalhados para os seus parceiros, como passou a fazer mais tarde, então foi muito prazeroso trabalharmos juntos.

comicconrs_2016_dia2_0059

Além de Moore, você trabalhou com alguns dos maiores roteiristas da sua geração, como Jamie Delano, Garth Ennis, Warren Ellis e Grant Morrison. Dá a impressão de terem sido trabalhos muito bem escolhidos… Ou essa incrível lista de parcerias foi por acaso?

A maioria foi realmente uma questão de escolha, porque cedo em minha carreira percebi que se você não manter dinheiro suficiente no banco para lhe dar espaço para respirar entre um trabalho e outro, você entra em uma sequência em que é preciso aceitar o que estiver disponível para pagar as contas. Então me dei espaço para escolher. Mas eu tive sorte de trabalhar com bons escritores na maior parte do tempo, incluindo o primeiro com quem trabalhei profissionalmente, Steve Moore – o cara que ensinou Alan Moore a escrever quadrinhos. Ele foi um dos melhores, e um dos mais subestimados escritores da Inglaterra, que infelizmente não está mais conosco.

Como foi a experiência de ser também roteirista em Kickback? Essa independência e liberdade total afeta muito a forma de fazer quadrinhos?

A melhor coisa do mundo para qualquer artista que tem algo a dizer é ser capaz de dizer isso com total liberdade, por isso Kickback foi uma grande libertação para mim. Infelizmente ele foi mal promovido, e não recebeu a atenção que merecia e ainda merece, mas eu tive mais prazer de fazer isso do que qualquer outra coisa que fiz em minha carreira.

Seu trabalho como um todo parece bastante influenciado pelo gênero noir. Que outras referências importantes dentro e fora dos quadrinhos você citaria como formadoras do seu estilo?

Isso é verdade, mas só porque eu sou mais atraído por dramas sombrios por algum motivo. Não posso explicar. Mas posso citar uma longa lista de influências: Turner, Rembrandt, Millais, Geoff Campion, Steve Dowling, Giles, George Woodbridge, Jack Davis, Wally Wood, Orson Welles, H.G.Wells, Ray Harryhausen, Rod Serling, Ian Fleming, Mickey Spillane, Robert McGinnis, Josh Kirby, Ray Bradbury, Richard Matheson, Robert Bloch, Robert Sheckley, H.P.Lovecraft, Don Medford, Don Siegel, Alfred Hitchcock, Boris Sagal, Terence Fisher, Ron Cobb, Frank Frazetta, John Burns, Steve Ditko, Jack Kirby, Frank Bellamy, Al Williamson, Tony Weare, Gray Morrow, Toth, Torres, Jim Steranko, Steve Ditko, Ron Embleton, Reed Crandall, John M. Burns… tudo isso e muitos outros que eu poderia listar.

Tudo tem evoluído muito rápido e em 2012 quando você lançou a Aces Weekly essa ideia ainda era uma novidade arriscada, mas hoje os quadrinhos digitais são uma realidade e muitas outras iniciativas surgiram. Onde você acredita que esse modelo vai chegar com o tempo e qual é o seu principal obstáculo hoje?

Um dos principais obstáculos para os quadrinhos digitais é o vício dos leitores pelo papel e pelo ato de colecionar. Além disso, as pessoas têm expectativa de que os quadrinhos na internet devem ser gratuitos ou de custo mínimo, o que torna difícil vendê-los, mesmo quando eles são oferecidos a preços muito acessíveis. A melhor perspectiva para as HQs digitais é que elas sejam capazes de alcançar uma nova audiência que não está familiarizada com o quanto a nona arte pode ser incrível, e como isso é facilmente acessível através da tela do computador. No entanto, levando em conta o preconceito contra os quadrinhos que é comum entre aqueles que não leem, esse esforço poderia ser tão difícil quanto convencer os “leitores viciados em papel” a se livrar de seu hábito.

Por causa do trabalho com a revista e as convenções que frequenta ao redor do mundo você deve ter contato com muitos artistas e uma visão privilegiada desse meio. O que pensa dos quadrinhos atuais, do mainstream aos independentes?

Os quadrinhos como entretenimento de massa não mudaram muito. Não são dirigidos pelos ventos da mudança como acontece em outras áreas, porque eles têm muito apego pela sua herança de personagens como carros-chefe, e não são capazes de expandir sua audiência para além disso. Na maior parte das vezes são os independentes e as pequenas editoras que produzem as obras mais interessantes e diversificadas, usando os quadrinhos para fazer mais do que só manter franquias vivas, e também explorar o mercado que se abriu em livrarias, produzindo em formato de livro.

comicconrs_2016_dia1_0235

Você tem uma relação bem próxima com o Brasil. O que mais gosta no país?

Ah, eu tenho bons amigos aqui, e muitos conhecidos. Fiz um livro sobre São Paulo que me deu muito tempo para pesquisar a história brasileira e os seus costumes. Isso me trouxe mais para perto para conhecer melhor o lugar. Eu acho que as pessoas aqui têm um grande espírito – e é disso que eu mais gosto.

E como é a sua visão a respeito do momento que estamos vivendo? Apesar de haver uma polarização que divide a população, ela nunca discutiu e se envolveu tanto com política como agora. Você acredita que se trata de um movimento parecido com o de V de Vingança, em que o povo percebe que tem o poder de reivindicar e contestar?

Eu acho que na maioria dos países desenvolvidos, os mais ricos e poderosos estão mais determinados a manter o controle do que o povo está para garantir que está no controle. As pessoas comuns só agem para recuperar esse poder se elas estão sujeitas a um esmagamento indigno. Se elas não estão, raramente se revoltam porque têm de sacrificar muito do que faz suas vidas serem toleráveis, sem qualquer garantia de melhoria real para si. É por isso que V de Vingança é uma fantasia reconfortante sobre uma revolta popular, não um cenário realista do que poderia acontecer em uma circunstância social verdadeira.

Como você resumiria sobre o que trata V de Vingança para alguém que usa a máscara mas desconhece a obra?

Eu diria que V é sobre um combatente da resistência tentando enfrentar uma tirania – e desejaria que estivesse falando com alguém que está usando a máscara como um símbolo desse mesmo tipo de confronto em seu protesto.

 

Leia também: O peso da cultura pop em V de Vingança

chamada-v


Redação Multiverso é o site colaborativo de produção de conteúdo sobre quadrinhos
da Produtora Multiverso, em uma iniciativa paralela e complementar à realização da
ComicCON RS – principal convenção de quadrinhos e cultura pop do Rio Grande do Sul.