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Alena e o pesadelo chamado adolescência

Crescer pode ser um pesadelo. Afinal, quem não se lembra de ter vivido pelo menos uma história de terror na adolescência? São tantos os gatilhos: inadequação, baixa auto-estima, descobertas sexuais, decepções amorosas, bullying, rivalidade, rejeição, frustração e, claro, aquela típica vontade de morrer, fugir ou ser outra pessoa. Tudo isso está em Alena, e convenhamos que já seria o suficiente, mas as coisas ficam ainda mais intensas com uma boa dose de sangue, psicopatia e a presença de algo que pode ou não ser sobrenatural.

Premiada HQ do sueco Kim W. Andersson, Alena foi adaptada para o cinema, publicada nos Estados Unidos pela Dark Horse e chega agora ao Brasil pela AVEC Editora. Comparada a Carrie, A Estranha, clássico absoluto de Stephen King, a obra também lembra muito os filmes de terror dos anos 1990 e quase se pode ouvir o punk rock como trilha sonora, numa história que equilibra bem a tensão e a diversão graças ao estilo de desenho moderno, as cores atmosféricas e seu ritmo ágil e cinematográfico de narrativa. Na trama, a jovem Alena vê sua vida se transformar em um inferno depois de ingressar em um internato de classe alta e sofrer nas mãos das meninas mais populares da escola. A sombria Josefin é sua única amiga, e está determinada a não deixar que sofra mais nenhum tipo de mal, custe o que custar. Só tem um problema: Josefin está morta há um ano.

Alena já está à venda no site da AVEC Editora.

Em entrevista ao Redação Multiverso, o quadrinista sueco Kim W. Andersson fala sobre como foi ver Alena ganhar vida no cinema, sua preferência por protagonistas femininas e a expectativa em lançar seu primeiro trabalho no Brasil.

 

Alena é uma história de terror adolescente, mas aborda diversos temas sérios e muito atuais, como bullying, homossexualidade, discriminação social. Como você vê o papel da arte nessas discussões?

Eu acho que esse é um dos papéis mais importantes que a arte tem. Através de quadrinhos, podemos abordar estas questões de uma forma muito interessante, a partir de diferentes pontos de vista e experiências. Eu sou um pouco de todos os personagens da história, como vozes diferentes na minha cabeça tendo uma discussão. Este é um livro muito pessoal para mim, foi muito importante para mim escrevê-lo. Ele traz as questões que eu me perguntava sobre crescer. Muitas experiências pessoais estão retratadas na história, mas versões muito distorcidas, é claro – eu não assassinei ninguém na vida real! (risos).

Seu trabalho tem muitos elementos cinematográficos, por isso parece natural a adaptação para o cinema, mas deve ser estranho ver Alena literalmente ganhar vida. Como foi essa experiência?

Alena é a graphic novel mais cinematográfica que eu fiz. Aposto que essa é uma das razões pelas quais ela foi transformada em um filme. É fortemente influenciada por filmes de terror, muito mais do que por quadrinhos de terror. Foi uma experiência incrível ver Alena transformada em um filme. E eu fiz parte disso desde o primeiro dia até o último. Eu pude trabalhar com o roteiro, o elenco, traje, design e muito mais! Cheguei a fazer um cameo (uma aparição) no filme! Até consegui uma linha.

Lembro-me da primeira vez que vi Amalia Holm como Alena. Nós estávamos fazendo um teste de figurino. Ela saiu com o uniforme da escola e seu cabelo era como o de Alena. Ela se parece com ela, essa personagem que eu tinha inventado apenas alguns anos antes estava agora na minha frente, viva. Em carne e osso, respirando e olhando de volta para mim, sorrindo. Foi uma experiência surreal! Diferente de qualquer coisa que eu já senti. Uma grande onda de emoções apenas caiu sobre mim. É impossível descrever esse sentimento, mas estou tão feliz que eu tenha tido a chance de experimentá-lo. Tente imaginar você mesmo, desenhe uma pessoa e depois imagine que ela ganhe vida.

Considerando seu estilo alternativo e o gosto por gêneros como horror e ficção científica, quais são suas maiores influências nos quadrinhos?

Eu li um monte de quadrinhos! Quando se trata de Alena acho que os mangás de horror de Junji Ito foram uma influência. Mas também os quadrinhos maravilhosos de Jaime Hernandez (Love & Rockets), eles são alguns dos meus favoritos de todos os tempos.

Você está publicando diversos trabalhos pela Dark Horse e estabelecendo uma carreira no mercado norte-americano. Nesse caminho, muitos artistas alternativos acabam indo para editoras como Marvel e DC. Você faria algo do gênero? Existe algum personagem que gostaria de desenhar?

A Dark Horse sempre foi minha editora favorita nos EUA. Por isso estou muito feliz por ter os meus livros por lá. Certamente eu era um grande fã de Homem-Aranha na adolescência então eu acho que eu não dispensaria Marvel ou DC, se eles entrassem em contato para um projeto! Mas eu realmente quero fazer meus próprios quadrinhos acima de tudo.

Em Alena e Astrid você tem duas mulheres protagonistas fortes. É uma coincidência ou uma preferência? Retratar mulheres (e conseguir fazer isso sem apelações ou estereótipos, como você tem feito) é um desafio ou basta encarar os personagens independente do gênero?

É definitivamente uma preferência e uma escolha consciente. Há três razões, a primeira é a razão política e feminista. Deveria haver mais personagens femininas boas e interessantes na ficção. Heroínas e vilãs e todo o resto. E é minha responsabilidade como um criador para se certificar de que isso aconteça. Talvez até mais que 50% para compensar a enorme quantidade de ficção que nem sequer retrata mulheres. A segunda razão é que para mim é mais fácil escrever personagens femininas. Mesmo que eu escreva horror e sci-fi eu escrevo sobre coisas muito próximas do meu coração. Posso me esconder por trás do fato de que eles são de um gênero diferente do meu. Então eu não vou ficar envergonhado quando eu estiver escrevendo ou quando você estiver lendo. Meu próximo desafio é escrever um bom personagem masculino. A terceira razão: eu gosto de desenhar mulheres.

Novo trabalho do autor, Astrid é publicadas nos EUA pela Dark Horse

Alguma vez você imaginou que seu trabalho seria publicado em um país como o Brasil, tão diferente da Suécia? E você já teve algum contato com quadrinhos brasileiros?

Eu nunca imaginei, e estou muito feliz com isso! Espero poder visitar o Brasil, parece ser um país maravilhoso. Conheço alguns dos seus quadrinistas, como os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, que conheci através do Dark Horse. Mas eu gostaria de conhecer mais. E só quero dizer aos meus leitores brasileiros: espero que vocês gostem do meu livro. Foi um livro muito importante pra mim, é muito pessoal. Novamente, lembrem-se, eu não assassinei ninguém! (risos). Tenho muito mais quadrinhos de horror e romance se você gostar deste. Vejo vocês em breve, eu espero!

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