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Caio Oliveira, o rei da sátira

por Lucas Gonçalves e Marina de Campos

Com vocês: Caio Oliveira, o rei da sátira, mestre do timing, ligado no hype, cultuado pelos hipsters, detestado pelos fãs e idolatrado pelos haters, abençoado por Alan Moore, jurado de morte pelo Batman, temido e odiado pelo mundo que prometeu ironizar.

Conhecido pelo estilo ácido e debochado que tem se espalhado pela internet por meio da página Cantinho do Caio, nos últimos anos o artista piauiense conquistou seu espaço no cenário dos quadrinhos independentes ao se dedicar à sátira do universo da cultura pop e seus bastidores, produzindo HQs de sucesso como O Mago Supremo, estrelada por Alan Moore e Grant Morrison, e All Hipster Marvel, com os heróis da Casa das Ideias. Neste mês chega aos colaboradores do Catarse a edição de Super-Ego, trabalho que ironiza as crises existenciais dos super-heróis dentro de um consultório de psicanálise, e que foi publicado primeiro nos Estados Unidos pela Magnetic Press.

Em entrevista ao Redação Multiverso, Caio fala sobre suas influências e os dilemas de se trabalhar com esse tipo de humor, o acelerado processo criativo diário, sua complicada relação com o Batman e a expectativa de conhecer Glenn Fabry, artista responsável pela capa de Super-Ego que estará na CCXP Tour em abril. Confira!

 

Super-Ego está chegando aos colaboradores do Catarse agora, mas a obra saiu primeiro nos Estados Unidos em 2014, antes dos seus outros trabalhos se popularizarem por aqui. Como foi essa experiência lá fora? E como foi que você acabou tomando esse caminho da sátira nos quadrinhos?

Super-Ego foi um projeto que comecei a desenvolver em 2006, em 2011 eu comecei a enviar amostras pra editoras nacionais e gringas, mas sem conseguir retorno algum. Aí engavetei. Em 2012 eu conheci o Mike Kennedy (Lobo Solitário 2100), um autor americano que iria criar um site cuja proposta seria disponibilizar uma página de quadrinho online gratuita TODO DIA! Criou vários roteiros de séries diferentes e contratou artistas ao redor do mundo pra empreitada, e eu tava no meio. Comecei a desenhar uma série chamada Vivid pra ele, que gostou bastante do meu trabalho e me chamou pra fazer mais coisas (como Prophet Hill).

Um dia, me perguntou se eu teria algum material que gostaria de publicar no site e lembrei de Super-Ego. Mostrei e ele adorou! Aí passou a publicar a história em páginas semanais, depois de um tempo contratou o Lucas Marangon pra colorir as páginas e um belo dia disse que iria fundar uma editora, a Magnetic Press, e perguntou se eu não gostaria que Super-Ego fosse o primeiro gibi impresso da editora. Eu pirei! O cara realmente abraçou o projeto, mandou colorir tudo, contratou o Glenn Fabry (capista de Preacher!) pra fazer a arte da capa, contratou alguns artistas pra fazer pinups, criou uma bela campanha do Kickstarter, etc. Sem o Mike Kennedy, esse gibi ainda estaria numa gaveta (Obrigado por tudo, Mike).

Sobre as sátiras… bom, eu sempre tive essa vibe de sátiras nas coisas que desenhava, desde criança. Lembro de ter feito sátiras de Changeman com 9, 10 anos de idade, Cavaleiros do Zodíaco aos 15, etc. E sempre me interessei por assuntos de bastidores do mundo dos quadrinhos. Some-se a isso minha paixão por coisas nerd/pop como games e cinema e temos aí minha matéria prima favorita pra tirinhas.

E essa capa assinada por Glenn Fabry?! Deve ser incrível ter um privilégio desses do cara que fez as capas de Preacher e Hellblazer. Você pretende se agarrar ao pescoço dele durante toda a CCXP Tour Nordeste?

(Risos) Pois é, eu nem acreditei quando o Mike Kennedy me disse que a arte da capa seria dele! Pulei pelo estúdio quando soube! E agora ele vai estar aqui, no mesmo evento que eu enquanto lanço Super-Ego, que timing maravilhoso! Até enviei um email pro Mike perguntando como ou se devo abordar o Sr. Fabry e pedir pra ele autografar uma cópia pra mim,  se ele não pensaria que eu estou pirateando um gibi com arte de capa dele ou sei lá (risos). Porque estou neuvosor! Vou ter que me comunicar com ele no meu inglês falcônico pra explicar que sou o autor daquele gibi que ele fez a capa anos atrás… fico nervoso só de imaginar!

Quais são as suas principais influências para os roteiros nesse gênero de sátira e humor, e quais artistas são referência para você na hora de desenhar?

Acho que o maior influenciador foi o Sérgio Aragonés da MAD. Lia Groo quando moleque e achava bem mais legal que Conan. Outro que me influenciou foi o João Vicente Cardoso com seu Los Caballeros Ridículos, que saía no gibi Hyper Comix. Foi a primeira sátira que li de Cavaleiros do Zodíaco e aquilo era divertido demais! Sou amigo de facebook do João Vicente hoje e o cara é uma verdadeira enciclopédia nerd! Grande inspiração. Na arte, minhas inspirações são artistas de gibis de super-herói, claro. Artistas como Rick Leonardi, Barry Windsor Smith, Jon Bogdanove, Alex Toth, Eduardo Risso, Frank Quitely, Ivo Milazzo, etc. Alguns dá pra perceber claramente a influência no meu traço, outros é algo mais sutil… aprendi um truque aqui, uma sombra ali, um músculo acolá, mas tão todos lá.

O que você acha da disputa entre Alan Moore e Grant Morrison? Pensa em produzir mais HQs com esses e outros personagens de O Mago Supremo? E como explicar o incrível fenômeno das camisetas com a capa da edição, que podem ser vistas em todo e qualquer encontro nerd?

Eu acho sensacional a briga entre ambos! Quer dizer, nem sei se “briga” é o termo mais adequado… me parece mais uma tentativa do Morrison de chamar atenção do Moore, algo que eu entendo e respeito. É mais ou menos o que faço com as editoras Marvel e DC quando fico zoando com minhas tirinhas, “me notem! me notem!”. Não tenho nada planejado pra uma sequência de Mago Supremo, mas nunca se sabe. Por enquanto tenho planos de utilizar Moore e Morrison novamente como personagens num outro projeto, dessa vez como “vilões”. Mas é algo que ainda estou começando a desenvolver, vai demorar um pouco. Sobre as camisetas do Mago Supremo, só posso agradecer ao Guilherme do site As Baratas por isso. Ele que teve a visão! Dizem que a camiseta é o uniforme oficial dos eventos nerds! (risos).

Caio, em uma luta de vida ou morte, quem é que vence: uma velhinha com artrite ou o Batman? E por que é a velhinha? Mas falando sério, as piadas envolvendo o Batman se tornaram uma marca. Por que ele? Nessa era dos fanboys, você já foi xingado pelas brincadeiras com esse e outros personagens?

Ah, minha história com o Bátima é tão velha quanto minha história com a internet! Quando eu comecei a “surfar na web” em 99, 2000, meu primeiro destino foi um certo fórum de quadrinhos, numa pasta chamada “Cross”. Foi ali que meu couro ficou grosso e preparado pra internet! E foi ali que minha birra com o Bátima se desenvolveu! Quer dizer, eu já achava ele antipático nos gibis por causa do Morrison, mas o contato com os fãs do personagem só agravou isso! Quando tive contato com o termo “preparo” (que pregava que ele poderia derrotar qualquer um!), “preparo” se tornou um deus ex machina insuportável do personagem que os fãs compraram, mas não justificava aquele mesmo personagem esfregar o chão com a Liga da Justiça e ser feito de idiota pelo Coringa ou o Espantalho no mesmo mês em gibis diferentes. Fui a voz destoante naquele momento, quando era mais raro encontrar alguém que não o endeusava. Hoje já tá mais tranquilo, o Bátima já tem bem mais detratores. O que é bom pra mim, que tenho um público cativo, mas é ruim também, porque gosto do personagem. Pelo menos da minha ideia do que ele é: um grande detetive e um grande artista marcial, mas não mais que isso.

Já fui ofendido algumas vezes sim por conta das minhas tirinhas e ilustrações, mas se quer saber, bem menos do que eu esperaria, afinal, ofensas em áreas de comentário na internet são a regra! Mas no Cantinho do Caio (onde publico minhas tirinhas), elas são poucas, o que mostra que a galera lá entende a intenção e tem maturidade suficiente pra rir daquilo, mesmo alguns sendo fãs das coisas que tiro sarro (eu mesmo sou fã da maioria dessas coisas, afinal).

Se tivesse a chance, com qual personagem da Marvel e da DC você gostaria de trabalhar? E não diga que seria o Batman…

(Risos) Se eu fizesse o Bátima, daria um jeito de desenhar mamilos no uniforme sem que a editora percebesse!). Eu sempre tive vontade de fazer esses personagens mais periféricos das editoras, nada dos grandões. Tipo o Dr. Estranho, Manto & Adaga, Punho de Ferro na Marvel (se bem que na Marvel todo mundo agora é mainstream, já que tão ganhando filme ou série o.O), ou Caçador (Mark Shaw), Xeque-Mate, Barda na DC. Eu ADORAVA o título DC 2000 que a Abril publicava. Qualquer personagem daquele gibi seria ótimo trabalhar hoje em dia.

O fato de você não se levar a sério é o que muitas vezes atrai o público, mas também pode ter como efeito colateral não ser “levado a sério” no meio dos quadrinhos, mesmo com todo sucesso. Você sente isso de alguma forma, ainda que provavelmente não se importe?

Eu tenho bons contatos com o meio dos quadrinhos aqui no Brasil. Grandes artistas de quem sou fã desde os anos 90 curtem e às vezes interagem nas minhas postagens, e isso é fantástico! Não sei se o conteúdo que publico me afeta negativamente, não no mercado brasileiro, já que o alvo das minhas tiras geralmente são editoras ou estúdios americanos… mas já fiquei com uma pulga atrás da orelha sim com relação ao mercado externo. Às vezes tenho receio de estar me queimando com os gringos por uma piada, por uma curtida no facebook que não paga minhas contas. Fico naquelas de “Oh céus, agora nunca mais vou conseguir trabalhar com a DC, olha o que eu fiz com o Bátima?”, mas prefiro (preciso) acreditar que isso é paranoia e desculpinha de minha parte! Estamos falando do mercado que produziu a MAD Magazine, os caras TEM senso de humor, certo? …CERTO? Enfim, se tiver de rolar, vai rolar, só ter paciência.

Um dos trunfos do seu trabalho atualmente é o timing em relação às novidades da cultura pop que mais repercutem na internet, de uma forma simples e rápida, mas original. Como é esse seu processo criativo diário?

Como trabalho em casa, passo a maior parte do tempo na internet e tou sempre ligado nessas novidades da cultura pop. Quando vejo algo que pode ser explorado numa piada, a coisa é meio instantânea. Leio a notícia e já tento analisar pelo ângulo mais engraçado possível. Uma ironia, um mash-up, um trocadilho bobo. Funciona, mas é algo pra ser consumido rápido também, porque fica datado. No ano seguinte, provável que alguém veja a arte e nem entenda mais! (risos) Tou trabalhando pra lançar um encadernado de tirinhas do Cantinho do Caio por uma editora (mais novidades em breve!) e isso tem sido um problema! Selecionar material que funcione de forma atemporal. Mas tá ficando bom!

Você já lançou dois projetos pelo Catarse, tem suas outras obras disponibilizadas no Social Comics, posta conteúdo nas redes sociais… No seu caso, é vantagem ser um artista independente? E você já tem planos para novos projetos?

Eu adoro a liberdade de poder fazer o que eu quiser! Desenhar o que quiser, publicar o que quiser, isso é ótimo! E quando tem o apoio de um público alvo, melhor ainda, então posso me considerar um felizardo. Tenho vários planos pra novos projetos, todos esperando seu momento. Tou com duas histórias no lápis em vias de virarem projetos no Catarse também, e tenho pensado em dedicar mais tempo a produção de HQs maiores, não apenas tirinhas. Quem sabe criar um site pra disponibilizar essas HQs, já que não sei se o formato vingaria no Cantinho (galera tá lá pra ler tirinhas, uma HQ de várias páginas poderia cansá-los). Vez em quando aparece um trampo indie pralgum gringo também, e isso toma bastante do meu tempo. Também tenho pensado em voltar a fazer testes pras grandes editoras, já que meu portfólio tá bem defasado! Mas meu foco mesmo é material autoral…. tou cheio de histórias pra contar e ver esse material publicado é sempre mais gratificante.

Três obras marcantes: Qual foi o primeiro quadrinho que você leu? Qual foi aquele que te impressionou e fez com que decidisse se tornar desenhista? E qual foi o último que leu e renovou sua paixão pelos quadrinhos?

O primeiro quadrinho que li não vou lembrar, porque meu pai me dava uma pilha de gibis todo mês antes mesmo de eu saber ler direito (eu recortava e brincava com os “bonequinhos”). Gostava muito de brincar com um desses “bonequinhos” do Tocha Humana desenhado pelo Byrne, então acho que é isso. Curioso que hoje em dia nem curto tanto assim o Quarteto (só a fase Byrne!); Desenhar eu também desenho desde que me lembro…  muitos quadrinhos marcaram minha vida e me fizeram ter certeza que era isso que eu queria fazer, então serei injusto apontando apenas um, mas se tenho que fazer isso, então direi Marshal Law, do Pat Mills e Kevin O’Neill, porque é o tipo de quadrinho que eu gostaria de fazer, que eu TENTO fazer; E outra vez acho que serei injusto, porque recentemente tenho importado muito material fantástico que não tinha hábito de ler (fora das majors Marvel e DC), mas apontarei o mangá Parasyte, publicado recentemente no Brasil. História redondinha, repleta de ação, drama, comédia, ficção científica, e uma mensagem filosófica sem ser panfletária. Recomendo!

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