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Entrevista: Alcázar, Rubim e a saga do Cão Negro

Lançada pela AVEC Editora no ano passado, O Coração do Cão Negro introduziu aos leitores de quadrinhos Anrath e suas aventuras pela Irlanda medieval. A HQ rapidamente conquistou os leitores e foi amplamente elogiada pelo público e pela crítica. Como consequência, ainda no mesmo ano a editora anunciou a sequência da HQ, intitulada A Canção do Cão Negro, dando continuidade à série Contos do Cão Negro.

O Redação Multiverso entrevistou o roteirista Cesar Alcázar e o desenhista Fred Rubim, para conhecer um pouco mais sobre os bastidores dessa criação, as inspirações por trás do personagem, as expectativas para a próxima HQ e os planos envolvendo Anrath e seu universo.

Como foi a decisão de fazer a sequência A Canção do Cão Negro? A ideia de uma série já existia desde a concepção do primeiro volume ou foi uma consequência da boa aceitação?

Cesar: Anrath, o Cão Negro, surgiu como um personagem literário. Suas histórias já apareceram em cinco livros, um deles a novela “A Fúria do Cão Negro” (além de duas aparições em revistas digitais no exterior). A ideia sempre foi ir adaptando essas histórias já existentes, e talvez escrever algumas inéditas. Mas, claro, a boa aceitação do primeiro volume possibilitou que seguíssemos adiante com esses planos.

Fred: A ideia de se fazer uma série existia desde o começo, pois o Cesar já tinha bastante material escrito sobre o personagem (O Cão Negro nasceu na literatura fantástica). E é claro que a publicação e a boa aceitação do primeiro volume também nos impulsionaram a levar a história adiante.

Quais são as maiores inspirações e referências à cultura pop em O Coração do Cão Negro? E qual seria uma influência nova que vocês poderiam citar para essa continuação?

Cesar: Minhas principais influências para as histórias do Cão são os autores Robert E. Howard (mas não as histórias do Conan, como muitos acreditam, e sim o seu chamado “Ciclo Celta”) e Karl Edward Wagner. Em termos de quadrinhos, Slaine, criação de Pat Mills, e Thorgal, de Rosinski e Van Hamme, inspiraram bastante. A atmosfera e a composição de personagens em alguns filmes do Kurosawa (Os Sete Samurais, Yojimbo) também entraram no caldeirão que deu origem ao Anrath.

Fred: Bom, logicamente que filmes, séries, HQs que abordam os temas viking e medieval são uma referência, bem como autores fantásticos como H.P. Lovecraft e Robert E. Howard. Nesta nova aventura dá pra notar ainda mais o elemento fantástico, pois temos um personagem inspirado na mitologia Celta.

Como funciona o processo de criação em conjunto? A parceria deu certo desde o início ou foi um caminho trabalhoso até encontrar sintonia? Existe alguma curiosidade dos bastidores da produção?

Cesar: Desde o início tivemos uma parceria excelente, com muita liberdade e respeito. Trocamos muitas ideias e referências sempre.

Fred: Nosso processo é bem simples e não tem mistério. O Cesar escreve o roteiro, eu leio e faço os layouts. Analisamos os esboços juntos, e aí então eu finalizo as páginas.

O início da trajetória dos Contos do Cão Negro aconteceu no meio virtual, certo? Com a experiência do digital e do físico, que comparações são possíveis? O digital pode mesmo ser o futuro? O público ainda reage diferente aos dois formatos?

Cesar: A webcomic foi uma forma de apresentar a HQ ao público. Aos poucos, criamos um grupo de interessados. O primeiro capítulo foi até pirateado e colocado em sites para download, mesmo estando de graça online. Isso já deu uma mostra de que a história estava sendo bem recebida, hehe.

Fred: Começamos publicando as páginas semanalmente no site outrosquadrinhos.com.br, projeto do nosso amigo Fabiano Denardin. Esse início no virtual foi muito importante para criarmos uma pequena base de fãs e as pessoas começarem a conhecer nosso trabalho. Foi a partir daí que surgiu o interesse da AVEC editora, percebendo que existia de fato um público para consumir a hq impressa. E sim, a reação do público ainda é muito diferente ao ver a versão física, principalmente por conta do formato europeu da edição. Os apps de leitura virtual são muito práticos, não ocupam espaço e nos permitem conhecer muita coisa, mas as versões impressas valorizam e dão personalidade às hqs. Acho que quem curte uma experiência mais completa de leitura dificilmente irá substituir 100% o impresso pelo digital.

O quadrinho nacional é bastante variado, mas ainda não explora muito os gêneros, como é o caso de O Coração do Cão Negro ao trazer o formato clássico de Espada e Feitiçaria. Como foi esse desafio, como vocês enxergam esse cenário e o que acham que pode evoluir?

Cesar: Acho que do ponto de vista artístico e criativo o cenário vai muito bem. Os gêneros estão sendo explorados sim. Vi na última CCXP várias HQs de Fantasia, Horror, Ficção Científica, Policiais… A evolução que precisamos é no sentido mercadológico. Precisamos de profissionalização para que os autores de HQ possam trabalhar e ter seu sustento produzindo HQs.

Fred: Na verdade nós não pensamos muito nisso, apenas quisemos contar uma história que gostamos  de forma envolvente e instigante. Acho que o quadrinho brasileiro é muito rico e diversificado e pode crescer muito ainda, mas precisa se profissionalizar e quebrar o preconceito dos leitores. Acredito que isso depende  muito dos autores buscarem a excelência no seu trabalho e provarem que aqui também se faz quadrinhos com qualidade.

Por que a Irlanda e a mitologia celta e nórdica? Qual tipo de pesquisa e que recursos vocês utilizaram para ser fiel às paisagens, à linguagem, etc? Conhecem o país ou isso se tornou um “sonho” depois desse mergulho intenso?

Cesar: A Irlanda exerce um fascínio que não sei explicar. Muitas vezes vendemos o livro para um leitor simplesmente por dizer “a história se passa na Irlanda”. Desde que comecei a escrever as histórias do Cão, em 2009, tenho pesquisado muito sobre a cultura e o passado da Irlanda, tanto em livros quanto na internet. Vestuário, culinária, costumes, organização social… tudo isso é bem representado no livro, de acordo com o que se conhece. Quanto à ambientação, usamos muitas referências fotográficas. O bom é que ainda existem muitas construções do século XI por lá, o que oferece uma bela ideia de como as coisas eram. Infelizmente ainda não conheço a Irlanda pessoalmente, mas um dia chego lá.

Fred: Precisa de mais algum motivo além de sangue, feitiçaria e cabeças cortadas? (Risos) Graças ao google e também à vasta pesquisa histórica feita pelo Cesar, fiquei bem servido de referências. Eu já tinha bastante interesse pela cultura dos povos celtas e a história do local, e seria excelente conhecer o país pessoalmente antes de desenhar uma próxima edição.

O lançamento de um segundo volume já é um passo em direção à expansão desse universo, mas o que mais vocês imaginam que os Contos do Cão Negro podem alcançar? Trilogia, publicação no exterior, desdobramento em outras mídias como cinema e games… algo assim em mente?

Cesar: Esperamos que a série em quadrinhos continue, pois há material para pelo menos cinco volumes. Temos procurado editoras interessadas no exterior, acho que em breve pode sair alguma coisa.

Fred: Uma publicação no exterior seria fantástico, estamos tentando.

Três obras marcantes: Qual foi o primeiro quadrinho que você leu? Qual fez com que se encantasse e decidisse se tornar roteirista/desenhista? E qual foi o último que leu e renovou sua paixão pelos quadrinhos?

Cesar: Não lembro qual foi o primeiro quadrinho que li. Talvez algo da Disney ou do Mauricio de Sousa. As histórias do Corto Maltese, de Hugo Pratt, foram as que mais me encantaram até hoje. Elas me deram o desejo definitivo de trabalhar com quadrinhos, além da prosa. A última HQ que me deixou embasbacado foi Blacksad, de Juan Diaz Canales e Juanjo Guarnido. Que obra-prima!

Fred: Difícil lembrar do primeiro, mas com certeza foi algum do Mauricio de Sousa ou do Walt Disney, já que cresci rodeado por essas “revistinhas”, e fui alfabetizado por elas. Acho que o primeiro quadrinho que li no formato “Graphic Novel” e me causou maior impacto pela qualidade foi o “Didi Volta para o Futuro”, até hoje um dos meus favoritos. E uma das coisas recentes que tenho lido e gostado muito é Paper Girls, principalmente por conta da arte do Cliff Chiang.

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