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David Lloyd: o homem da máscara esteve aqui

David Lloyd contradiz o esperado “humor inglês” que costuma ser tão nublado quanto o tempo em Londres, e circula pela ComicCON RS sorridente e receptivo, quase como se imitasse o sorriso perpétuo – ainda que por vezes sarcástico ou malicioso – da tão famosa máscara de V. E assim como o personagem, ele pode até estar sorrindo enquanto deixa fluir seu carregado sotaque britânico, mas o que diz é forte e nem sempre agradável – David Lloyd é seguro, ácido e contundente, e não tem medo de nenhum assunto. Fala de política com profundidade, ironiza seu parceiro Alan Moore sem qualquer receio, critica as limitações da indústria dos quadrinhos de super-heróis e até reclama dos hábitos dos leitores se for necessário. O homem da máscara tem opinião para tudo.

Atração internacional da ComicCON RS 2016 – principal convenção de quadrinhos e cultura pop do Rio Grande do Sul –, o desenhista do clássico V de Vingança é certamente o maior nome da nona arte a passar pelo estado, fazendo história em dois dias de debates, entrevistas, disputadas sessões de autógrafos e uma impressionante boa vontade para interagir com todos. Lloyd foi um dos primeiros artistas a chegar na convenção e o último a ir embora, determinado a passar o máximo de tempo possível com o público brasileiro, sentado em sua mesa do artists alley em meio a artistas independentes honrados e até meio perplexos por dividir com ele o mesmo espaço. Entre as muitas trocas de ideias que teve por aqui, o desenhista deu uma entrevista exclusiva ao Redação Multiverso, que pode ser conferida agora.

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Fotos: Maurício Mussi

Hoje você é considerado criador de uma das referências mais significativas da cultura pop recente. Isso acontece com muitas obras de arte, mas às vezes significa um dilema para o artista. É complicado lidar com essa apropriação, desapegar da criação original e aceitar que ela se tornou um símbolo incontrolável?

Quando algo que você criou se torna público, você precisa esperar que aquilo terá o melhor efeito sobre todos, e o efeito que você gostaria que tivesse. Mas não é possível garantir isso. Felizmente a arte de V que tem sido utilizada no mundo real parece, em geral, ter sido adotada refletindo o espírito de sua fonte original. Estou muito feliz com isso, e apenas lamento pelas vezes em que vi isso utilizado por outras razões.

Nos extras de V de Vingança Alan Moore elogia muito a parceria que vocês fizeram, afirmando inclusive que “V é fruto do encontro da minha personalidade deformada com a de David, algo que nenhum de nós poderia fazer sozinhos ou trabalhando com outro profissional”. Como foi essa relação durante o processo? Foi tão tranquilo e harmonioso quanto parece?

Sim, foi mesmo. Estávamos em sintonia, influenciados por muitas das mesmas coisas, como filmes e livros, e nós dois queríamos colocar em V o melhor que absorvemos dessas mídias – uma história em quadrinhos que fosse para além das expectativas da produção mainstream dominante na época. E quaisquer que tenham sido as discussões que tivemos durante o processo, em todas elas chegamos a um acordo – ou seja, eu não concordaria com nada que não considerasse uma boa ideia, assim como Alan. E, ao contrário da percepção do público, nesses primeiros anos Alan não escrevia scripts extremamente detalhados para os seus parceiros, como passou a fazer mais tarde, então foi muito prazeroso trabalharmos juntos.

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Além de Moore, você trabalhou com alguns dos maiores roteiristas da sua geração, como Jamie Delano, Garth Ennis, Warren Ellis e Grant Morrison. Dá a impressão de terem sido trabalhos muito bem escolhidos… Ou essa incrível lista de parcerias foi por acaso?

A maioria foi realmente uma questão de escolha, porque cedo em minha carreira percebi que se você não manter dinheiro suficiente no banco para lhe dar espaço para respirar entre um trabalho e outro, você entra em uma sequência em que é preciso aceitar o que estiver disponível para pagar as contas. Então me dei espaço para escolher. Mas eu tive sorte de trabalhar com bons escritores na maior parte do tempo, incluindo o primeiro com quem trabalhei profissionalmente, Steve Moore – o cara que ensinou Alan Moore a escrever quadrinhos. Ele foi um dos melhores, e um dos mais subestimados escritores da Inglaterra, que infelizmente não está mais conosco.

Como foi a experiência de ser também roteirista em Kickback? Essa independência e liberdade total afeta muito a forma de fazer quadrinhos?

A melhor coisa do mundo para qualquer artista que tem algo a dizer é ser capaz de dizer isso com total liberdade, por isso Kickback foi uma grande libertação para mim. Infelizmente ele foi mal promovido, e não recebeu a atenção que merecia e ainda merece, mas eu tive mais prazer de fazer isso do que qualquer outra coisa que fiz em minha carreira.

Seu trabalho como um todo parece bastante influenciado pelo gênero noir. Que outras referências importantes dentro e fora dos quadrinhos você citaria como formadoras do seu estilo?

Isso é verdade, mas só porque eu sou mais atraído por dramas sombrios por algum motivo. Não posso explicar. Mas posso citar uma longa lista de influências: Turner, Rembrandt, Millais, Geoff Campion, Steve Dowling, Giles, George Woodbridge, Jack Davis, Wally Wood, Orson Welles, H.G.Wells, Ray Harryhausen, Rod Serling, Ian Fleming, Mickey Spillane, Robert McGinnis, Josh Kirby, Ray Bradbury, Richard Matheson, Robert Bloch, Robert Sheckley, H.P.Lovecraft, Don Medford, Don Siegel, Alfred Hitchcock, Boris Sagal, Terence Fisher, Ron Cobb, Frank Frazetta, John Burns, Steve Ditko, Jack Kirby, Frank Bellamy, Al Williamson, Tony Weare, Gray Morrow, Toth, Torres, Jim Steranko, Steve Ditko, Ron Embleton, Reed Crandall, John M. Burns… tudo isso e muitos outros que eu poderia listar.

Tudo tem evoluído muito rápido e em 2012 quando você lançou a Aces Weekly essa ideia ainda era uma novidade arriscada, mas hoje os quadrinhos digitais são uma realidade e muitas outras iniciativas surgiram. Onde você acredita que esse modelo vai chegar com o tempo e qual é o seu principal obstáculo hoje?

Um dos principais obstáculos para os quadrinhos digitais é o vício dos leitores pelo papel e pelo ato de colecionar. Além disso, as pessoas têm expectativa de que os quadrinhos na internet devem ser gratuitos ou de custo mínimo, o que torna difícil vendê-los, mesmo quando eles são oferecidos a preços muito acessíveis. A melhor perspectiva para as HQs digitais é que elas sejam capazes de alcançar uma nova audiência que não está familiarizada com o quanto a nona arte pode ser incrível, e como isso é facilmente acessível através da tela do computador. No entanto, levando em conta o preconceito contra os quadrinhos que é comum entre aqueles que não leem, esse esforço poderia ser tão difícil quanto convencer os “leitores viciados em papel” a se livrar de seu hábito.

Por causa do trabalho com a revista e as convenções que frequenta ao redor do mundo você deve ter contato com muitos artistas e uma visão privilegiada desse meio. O que pensa dos quadrinhos atuais, do mainstream aos independentes?

Os quadrinhos como entretenimento de massa não mudaram muito. Não são dirigidos pelos ventos da mudança como acontece em outras áreas, porque eles têm muito apego pela sua herança de personagens como carros-chefe, e não são capazes de expandir sua audiência para além disso. Na maior parte das vezes são os independentes e as pequenas editoras que produzem as obras mais interessantes e diversificadas, usando os quadrinhos para fazer mais do que só manter franquias vivas, e também explorar o mercado que se abriu em livrarias, produzindo em formato de livro.

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Você tem uma relação bem próxima com o Brasil. O que mais gosta no país?

Ah, eu tenho bons amigos aqui, e muitos conhecidos. Fiz um livro sobre São Paulo que me deu muito tempo para pesquisar a história brasileira e os seus costumes. Isso me trouxe mais para perto para conhecer melhor o lugar. Eu acho que as pessoas aqui têm um grande espírito – e é disso que eu mais gosto.

E como é a sua visão a respeito do momento que estamos vivendo? Apesar de haver uma polarização que divide a população, ela nunca discutiu e se envolveu tanto com política como agora. Você acredita que se trata de um movimento parecido com o de V de Vingança, em que o povo percebe que tem o poder de reivindicar e contestar?

Eu acho que na maioria dos países desenvolvidos, os mais ricos e poderosos estão mais determinados a manter o controle do que o povo está para garantir que está no controle. As pessoas comuns só agem para recuperar esse poder se elas estão sujeitas a um esmagamento indigno. Se elas não estão, raramente se revoltam porque têm de sacrificar muito do que faz suas vidas serem toleráveis, sem qualquer garantia de melhoria real para si. É por isso que V de Vingança é uma fantasia reconfortante sobre uma revolta popular, não um cenário realista do que poderia acontecer em uma circunstância social verdadeira.

Como você resumiria sobre o que trata V de Vingança para alguém que usa a máscara mas desconhece a obra?

Eu diria que V é sobre um combatente da resistência tentando enfrentar uma tirania – e desejaria que estivesse falando com alguém que está usando a máscara como um símbolo desse mesmo tipo de confronto em seu protesto.

 

Leia também: O peso da cultura pop em V de Vingança

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