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Juan Ferreyra, o novo talento argentino da DC Comics

por Marina de Campos

Quando chegou discretamente na ComicCON RS como convidado argentino dessa edição, Juan Ferreyra não foi reconhecido pela cara ou pelo nome. Com poucos trabalhos publicados no Brasil, o desenhista era uma aposta diferente dentro da programação. Mas só precisou de poucas horas para atrair o público com seu carisma no palco e impressionar aqueles que visitaram sua mesa no artists alley e conferiram de perto os sketches extraordinários que ele parecia fazer sem qualquer esforço. Pode ter certeza: quem teve contato com Juan Ferreyra durante a convenção não esqueceu mais seu nome.

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   [Desenhos feitos durante a ComicCON RS, postados no twitter do artista]

Mais do que uma aposta do evento gaúcho, esta não demorou a se provar uma das grandes apostas da DC Comics em seu processo de renovação. Pois precisamente um dia após o fim da ComicCON RS, o nome de Juan Ferreyra estava em todos os sites de notícias sobre quadrinhos do mundo, na lista de novos talentos da DC Comics apresentados através da revista New Talent Showcase. O artista fez parte do seleto grupo de quadrinistas convidados para uma semana de workshops na sede da editora na Califórnia no ano passado, onde foi recebido por ninguém menos que Jim Lee, Klaus Janson e Geoff Johns. A edição é fruto do projeto, e mais um significativo passo na carreira do argentino que só neste ano passou pela revista Novo Esquadrão Suicida e logo assumiu a arte de Green Arrow, um dos títulos mais elogiados do DC Rebirth. Em novembro, Juan realiza o sonho de desenhar Superman.

Entrevista

No ano passado você foi um dos artistas convidados para um workshop da DC Comics na Califórnia. Como foi esse aprendizado?

Juan ?— ?Foi uma semana de workshops com Jim Lee, Klaus Janson e Geoff Johns? —? a melhor viagem da minha vida, definitivamente. A possibilidade de aprender com esses nomes tão importantes no mundo dos quadrinhos foi espetacular, assim como me encantou falar e discutir sobre isso de forma séria. Conhecer e trabalhar nos escritórios da DC foi um sonho realizado, tudo isso coroado com uma festa de Halloween na casa de Jim Lee! É quase inacreditável.

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Como você recebeu a notícia de que ia participar da equipe criativa de um dos títulos de destaque do DC Rebirth?

Juan?—?Fiquei muito feliz de fazer parte do Rebirth! Muito contente mesmo. Depois que descobri que ia compartilhar a arte com Otto Schmidt gostei ainda mais. Além disso as histórias são muito divertidas de desenhar! No começo tive um pouco de medo de trabalhar no título pois nunca havia lido Arqueiro Verde antes e não conhecia quase nada, nem mesmo a série de televisão. Mas quando comecei a ler os roteiros e entender melhor do que se tratava fiquei muito satisfeito. E agora que o título está tendo uma excelente aceitação de vendas e crítica não vejo a hora de que os leitores possam ler meus números!

A fama da série Arrow afeta de alguma maneira o seu trabalho no título? Hoje em dia o universo dos filmes e das séries tem muita influência sobre os quadrinhos, você precisou levar isso em conta?

Por sorte nos pediram que seguíssemos mais o estilo clássico do Arqueiro Verde, que nem mesmo assistíssemos a série, nem o roteirista Benjamin Percy assistiu, então isso não afetou nosso trabalho. O lado bom é que há muitos novos leitores que descobrem os quadrinhos por causa da série e estão contentes com o que estamos fazendo.

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Seu trabalho lembra uma fase mais clássica dos quadrinhos, analógica, detalhista, com características do desenho à mão e uma maneira bem própria de colorir, sem tanta influência dos recursos digitais que dominaram o meio nos últimos anos?—?e é justamente o que parece ter chamado atenção do mercado. Você concorda? Como é o seu processo criativo?

Juan?—?Totalmente de acordo! O digital me encanta, porém me dei conta de que muitos desenhistas começavam a utilizar a pintura digital e se apoiar demais nessa ferramenta, o que fez com que seus trabalhos se tornassem muito semelhantes, principalmente com o uso excessivo do SketchUp e do Poser. Por isso decidi utilizar mais o lápis e a aquarela, utilizando o digital apenas para finalizar as cores. Além disso, utilizar lápis e aquarelas faz com que meu trabalho seja mais rápido, antes demorava seis semanas para ilustrar uma história completa, agora faço em quatro, o que me permite trabalhar em séries mensais, e também faz com que meu trabalho não seja tão duro.

Em Novo Esquadrão Suicida, você começou ilustrando capas e depois assumiu a arte do título, com a entrada do roteirista Tim Seeley. Dar vida a essas aventuras foi divertido como parece?

Juan?—?Sim, muito divertido! Gostaria que tivéssemos feito mais números porém já em outubro quando visitei os estúdios da DC em Los Angeles, quando me ofereceram a série, também já ficamos sabendo que Jim Lee tinha intenção de me transferir para outro título. Mas foi tudo muito divertido, Tim é um excelente roteirista, e já tínhamos trabalhado juntos em Batman Eterno.

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Você se envolveu com o cinema de diferentes formas, gosta desse meio ou foi por acaso? Se inspira no universo cinematográfico? Traz referências na hora de ilustrar?

Juan – Trabalhei no cinema com o diretor argentino Damian Szifron em vários projetos, entre eles Relatos Selvagens, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, em que fui responsável pela arte conceitual. Trabalhei com desenhos animados e ganhei um concurso da MTV em 2001 com um clipe sobre Radiohead. O cinema me encanta, suponho que se não gostasse tanto de desenhar e desse universo dos quadrinhos, podia ter me dedicado ao cinema e aos videogames.

Fale um pouco sobre as experiências adaptando o filme Prometheus e a série Falling Skies, e também como foi desenvolver a arte conceitual do filme Relatos Selvagens.

Juan?—?Prometheus foi mais divertida que Falling Skies porque havia um pouco mais de liberdade criativa e não tinha que desenhar atores. Sempre é cansativo ter que desenhar personagens que se pareçam com os atores. O incrível de Falling Skies foi receber o piloto bruto da série um ano antes, e o próprio Steven Spielberg ter analisado um poster que eu fiz! Já o universo Alien é um dos meus favoritos por isso desenhar em Prometheus foi um sonho realizado. A arte de Relatos Selvagens foi uma experiência incrível, me juntar com o diretor e falar sobre as melhores tomadas e desenhar no estilo que ele queria para o filme, foi genial. Também foi diferente ler o roteiro e uns anos mais tarde ver a película na tela do cinema! O cinema me encanta, suponho que se não gostasse tanto de desenhar e desse universo dos quadrinhos, podia ter me dedicado ao cinema e aos videogames.

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Como você alcançou o mercado americano?

Comecei através de uma série chamada Small Gods, da Image Comics. Quando fui para a San Diego Comic-Con em 2005 para divulgá-la, conheci os criadores da revista Rex Mundi, e quando o desenhista se afastou do projeto me chamaram para substituí-lo. Desenhei dois números e logo depois o editor da Dark Horse Comics, Scott Allie, se interessou pelo título e nos levou para a editora. Uma vez ali, Scott me ofereceu trabalhar com muitos projetos, como Conan, Solomon Kane, Falling Skies, Colder, Kiss me Satan, Prometheus… A DC Comics mostrou interesse depois de ver capas da série de terror Colder, e me pediram para fazer capas de Constantine, depois desenhar um número, então capas se Esquadrão Suicide, Batman Eterno e Gotham By Midnight. Pensei que ia ser muito difícil encará-las pela minha adoração pela DC, mas no fim foi um prazer desenhar esses números. E hoje estou em um título grande como Green Arrow!

Colder é uma obra surpreendente, considerada uma das melhores do gênero publicadas recentemente, e chegou a ser indicada ao prêmio Eisner. Fale mais sobre esse que é um dos seus primeiros trabalhos de sucesso!

Juan?—?Colder foi uma experiência incrível, foi onde comecei a soltar mais a imaginação e a mão. A história necessitava de uma ilustração mais suja e feia, por isso tentei ser menos detalhista e limpo, larguei a tinta e comecei com lápis e aquarelas. E a possibilidade de criar um mundo sem regras, onde a loucura reinava, foi muito refrescante para mim a nível criativo.

O começo da sua paixão por quadrinhos envolve o Brasil. Conte sobre isso!

Juan?—?Quando tinha 10 anos viajei com minha família para Florianópolis e comprei pela primeira vez gibis do Superman, Batman, Liga da Justiça e outros. Lembro que o primeiro que comprei era uma edição do John Byrne em que o Superman enfrentava os Jovens Titãs! Na Argentina eu não conseguia esses gibis, então as viagens aos Brasil me encantavam sobretudo porque podia encontrar quadrinhos de super-heróis!

Sabemos que Superman é seu personagem preferido. Dá pra dizer que desenhá-lo é seu maior sonho como quadrinista?

Juan?—?Sim, seguramente, esse é meu sonho de criança, meu personagem favorito. Tenho muitos sonhos mas esse seria o maior. Depois do dia que alcançar esse desejo de desenhar Superman, acredito que vou passar a me dedicar a escrever minhas próprias histórias. [Na revista New Talent Showcase, que sai em novembro, Ferreyra desenha o personagem em uma história curta]


Redação Multiverso é o site colaborativo de produção de conteúdo sobre quadrinhos
da Produtora Multiverso, em uma iniciativa paralela e complementar à realização da
ComicCON RS – principal convenção de quadrinhos e cultura pop do Rio Grande do Sul.