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Um papo com o mestre Santiago

por Guilherme Wunder e Marina de Campos

Artista homenageado da ComicCON RS 2016, Santiago fala sobre sua longa trajetória como cartunista, as maiores influências no gênero, diferenças entre censura política e econômica, as vantagens e desvantagens da internet para o artista contemporâneo e o futuro da tradição do cartum no Brasil, além da satisfação em receber a medalha que leva o nome de seu amigo e ídolo Renato Canini. Confira!

“Causos do Santiago” é o teu primeiro álbum de histórias em quadrinhos. Você sente que descobriu um outro lado do teu trabalho com essa experiência? Laerte definiu o livro como “felliniano” pela atmosfera nostálgica das memórias autobiográficas. Foi um desafio deixar um pouco de lado o mundo lá fora, de onde vêm tuas charges, e se voltar para dentro?

Na virada dos meus 60 anos, tava cansado das charges de atualidade por ser uma obra que caduca muito rápido, então voltei a ter a tesão que tinha aos 14 anos pelas HQs, e o caminho natural foi trabalhar justamente com as minhas experiências vividas, na esperança de que o leitor tenha as mesmas boas emoções que eu tenho quando revivo desenhando, aqueles tempos de ingenuidade e simplicidade do mundo rural que eu vivi. Fiquei muito feliz que Laerte tenha dito isso das minhas HQs, realmente a ideia era seguir os caminhos do maravilhoso Amarcord, do grande Fellini.

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Você foi incluído pela revista Witty World na lista dos melhores artistas do mundo dentro do gênero “gag cartoon”, junto com figuras como Quino e Sergio Aragonés. Quem estaria no teu top 5 de melhores cartunistas de todos os tempos? Além deles, quem mais citaria como influência nos quadrinhos em geral?

Na área do cartum atemporal os meus 5 são, sem ordem definida: Quino, Sempé, Laerte, Carlos Estêvão, Steinberg. Na área do desenho de humor em geral posso citar como influências (mais no desenho, mas também nas ideias) Sampaulo, Bosc, a equipe Disney (principalmente o Donald de Carl Barks), Hergé e o seu Tintim, Gahan Wilson na Playboy, Borjalo na Cruzeiro, Lauzier da França, Ziraldo, Belmonte (da década de 1930), Al Hirschfeld (caricaturista), Fontanarrosa e Oski da Argentina.

O Macanudo é a tua criação mais icônica. Como foi “conviver” com o personagem por tanto tempo?

O macanudo era uma necessidade de narrar o que se passa nos campos de fronteira do sul brasileiro, e foi impulsionado quando conheci o personagem riquíssimo em humor, Inodoro Pereyra do Fontanarrosa. Minha relação com o personagem Taurino ficou abalada pela falta de publicações que albergassem o personagem, foi ficando meio bissexto, pois às vezes tinha um veículo pra ele, e às vezes não, então ele ficou parado por uns tempos. Essa vivência com o personagem e o consequente retorno que os leitores vão dando com frequência são o oxigênio de um personagem de quadrinhos.

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Você conta que não chegou a passar pelo período de maior censura pela ditadura no país, mas em compensação conviveu com muitos casos de censura interna dos próprios jornais, algumas vezes por motivações até mais econômicas do que políticas. Se uma das missões do cartunista é justamente provocar, como lidar com isso?

O humor gráfico é por natureza inviável na imprensa comercial, pois o instinto do humor é a irreverência e a crítica mordaz, e como fazer isso na mídia que depende de anunciantes que muitas vezes são os grandes poluidores e que obrigatoriamente tem que ser criticados? Claro que aí prolifera o humor engraçadinho ou criticando apenas aqueles pontos que o patrão quer que sejam criticados. Eu tive na minha carreira muita censura de anunciantes, uma vez um desenho sobre greve na Volkswagen foi vetado porque a Panambra, concessionária da Volks, era anunciante do jornal. Outro entrave é que o humor é um bicho de esquerda e a mídia não dá muito espaço pra quem questiona o capitalismo. Claro, o jornal é uma empresa que visa lucro como qualquer outra, portanto o pensamento e o questionamento da organização da sociedade fica prejudicado. O melhor modelo é o Charlie da França, que não depende de anúncios, só da venda e assinaturas dos leitores que afinam com as ideias do jornal.

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Por outro lado, como foi participar de um símbolo do jornalismo alternativo como O Pasquim? Atuar em publicações independentes, como também foi o caso no Coojornal, dá outra perspectiva ao artista? A internet consegue fazer um pouco desse papel hoje em dia?

A experiência completamente livre do Pasquim e do Coojornal é um tempo maravilhoso que não volta mais, que bom que eu tive aqueles momentos de plena criação. Hoje temos esse veículo poderoso que é a internet, que não censura (eu pelo menos nunca tive nada cortado, nem pelo Facebook), mas é um veículo que inviabiliza o profissionalismo do artista, pois não paga pela obra, o cartunista volta a ser um adolescente iniciante que publica só por vitrine. Acho isso lamentável, pois já tivemos o tempo que tudo que se fazia era pago (pouco, mas pago!), portanto é um baita retrocesso do ponto de vista profissional. Ainda tenho esperança de ver, por exemplo, o Facebook pagando alguns centavos por curtida, afinal nós profissionais abastecemos o face de conteúdos jornalísticos de alto nível, em cima dos quais são vendidos anúncios que enriquecem o gringo chefão.

O cartum tem uma tradição muito forte no Brasil. Ainda que tenha perdido espaço nos jornais e venha precisando se reinventar com a internet, você considera que essa força se mantém? E a tua relação próxima com o Rafael Corrêa, que é um exemplo da nova safra de cartunistas, te ajuda a visualizar que rumos o gênero está tomando?

Eu não sei até quando os artistas vão aguentar publicando “digrátis” na internet sem ter como pagar as suas contas mensais de água, luz, moradia, comida. Mas realmente a tradição do humor gráfico no Brasil é riquíssima e forte, hoje não podemos mais contar com veículos impressos, que era quem nos pagava por um desenho. Quando eu iniciei, às vezes tinha um bico de desenho para algum anúncio, hoje a publicidade não nos chama mais. O Rafa é um dos mestres que surgiram na primeira década de 2000, eu aprendo com esses novos nalgumas formas de enfocar a piada e na feitura gráfica.

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Você foi cogitado para ser Patrono da Feira do Livro de Porto Alegre (e deixou bem claro que não tinha interesse), numa época em que os quadrinhos vêm alcançando um novo patamar de aceitação e popularidade. Pra quem esteve nesse meio a vida inteira, como é assistir a esse fenômeno agora? Acha que a nona arte está conquistando um respeito tardio ou estão apenas sendo assimilada de maneira bastante oportuna pelo mercado?

Na ocasião achei que a irreverência que caracteriza o humor não sintonizava muito com os rituais honoríficos e cerimoniais, mas pensei muito que esse acontecimento seria um bom momento de valorizar o cartum e o quadrinho, essa nossa atividade tão maltratada e desvalorizada. Em especial o quadrinho, que já teve um momento de grande reconhecimento, na década de 1970 quando Umberto Eco e a intelectualidade francesa deu importância a ele, depois veio a concorrência com a possibilidade de termos cinema dentro de casa (video cassete, DVDs, computador) e o quadrinho foi escanteado novamente, sumiram as revistas de banca. De umas décadas pra cá o quadrinho migrou para os álbuns de grande cuidado gráfico e tomou um novo alcance. Que bom que as editoras perceberam e hoje temos uma grande quantia de quadrinhos tirados das obras clássicas da literatura universal.

Como encarou o convite para ser um dos homenageados da ComicCON RS, recebendo a medalha que leva o nome de outro ícone como Renato Canini?

Sou grande apoiador dos festivais e eventos que promovam a nossa arte, portanto foi uma baita alegria receber esse convite. E esse sim aceitei de cara, ainda mais com a medalha que homenageia o meu ídolo na adolescência e depois grande amigo Canini, gênio do quadrinho humorístico!

Foto: Maurício Mussi

Nessa altura da tua carreira, qual o legado você acredita que deixa para o público e para as futuras gerações de cartunistas?

Espero que os 16 livros de humor e quadrinhos que editei permaneçam nas prateleiras das bibliotecas escolares, fico muito satisfeito pois creio que o papel vai perdurar muito mais que as gravações via eletrônica. Se um dia der uma pane no sistema elétrico, tenho certeza que alguém vai pegar um livro ou revista velha e vai ler na luz de uma vela!

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