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Justiceiro, 1ª Temporada – O Frank Castle que nós merecíamos?

Depois de sua elogiada presença na segunda temporada de Demolidor, os fãs do Justiceiro começaram uma forte campanha para ver uma série solo do anti-herói na Netflix, e não demorou para que a Marvel e o canal de streaming oficializassem a produção. A expectativa de um retorno triunfal de Jon Bernthal na pele de Frank Castle era algo que podia muito bem acabar se tornando um tiro pela culatra, mas graças a um roteiro acurado repleto de cenas e momentos empolgantes e cativantes, a primeira temporada de Justiceiro pode ser considerada facilmente uma das melhores séries da parceria Marvel/Netflix.

Na trama, após os eventos apresentados na segunda temporada de Demolidor, Frank Castle termina de exterminar até o último homem que ele acreditava estar envolvido no assassinato de sua família. Mas após um período de calmaria, ao qual o ex-fuzileiro não consegue se adaptar muito bem, Frank descobre que o assassinato de seus familiares pode ter relação com seus antigos companheiros de forças armadas e uma operação secreta da qual participara. Tais informações levam Castle a retomar sua busca por punição aos envolvidos, mesmo que muitos deles sejam seus antigos parceiros de armas.

O primeiro episódio de Justiceiro já mostra logo de cara a que veio, apresentando Castle se afundando em traumas e problemas, tendo dificuldade para se encaixar num mundo onde suas habilidades adquiridas na guerra não são mais necessárias, principalmente agora que sua caçada terminou. E é em uma das cenas mais violentas da série, ao final do episódio, que Frank começa a perceber que morte e punição fazem parte de quem ele é. Uma realidade da qual ele jamais poderá fugir.

Mas a série acerta em cheio mesmo ao não apenas explorar os traumas de Castle, mas também o de outras pessoas que precisam se encaixar a realidade de uma vida ordinária após anos servindo seu país. Tal posicionamento dá um senso ainda maior de veracidade e drama a série, dando vez e voz aos homens e mulheres que doaram ao seu país sua honra, suas vidas e sua lealdade, mas nunca receberam sequer um agradecimento. O caso mais explorado em questão é o de Lewis Wilson (Daniel Weber), que, ao não conseguir se recuperar de seus traumas, acaba perdendo a sanidade e se tornando um inimigo da sociedade e de si mesmo. Uma pena que ao elevar o jovem de transtornado a vilão para a série, o drama de Lewis perca um pouco de seu senso crível.

Apesar disso, os demais vilões de Justiceiro, Billy Russo (Ben Barnes) e Willian Rawlins (Paul Schulze),  são convincentes e bastante significativos. Suas ligações com Castle e seu passado em momento algum se mostram superficiais, fazendo desse background algo que por muitas vezes faz a série encontrar seu rumo, servindo como uma espécie de linha guia para ações do anti-herói.


A série também é competente ao retratar o modo como Frank tem receio de se relacionar com novas pessoas, e ao mesmo tempo falha miseravelmente ao avaliar o caráter daqueles ligados ao seu passado. Mesmo assim, a parceria com Micro (Ebon Moss-Bachrach) é mostrada de maneira convincente, e é animador ver como tal amizade vai progredindo ao longo dos episódios de maneira natural. Porém, um ponto negativo da série vem justamente dessa relação, visto que ao retratar o envolvimento de Frank com a família de seu novo parceiro, a trama acaba se tornando maçante em certas ocasiões, se estendendo de maneira desnecessária. Mas isso também pode ser explicado pela estrutura padrão de 13 episódios, comum a todas as séries solo da parceria Marvel/Netflix, algo que muitas vezes obriga os roteiristas a ficarem dando voltas e voltas até chegar ao ponto desejado. E é ao chegar a esse ponto, em sua parte final, que a série realmente entrega uma conclusão primorosa.


Explorando de maneira brilhante os fantasmas de Castle, e as verdade sobre quem ele realmente é e se recusa a admitir (algo só visto antes em HQs como Born de Garth Ennis e na fase de Jason Aaron no personagem), os quatro últimos episódios do show entregam uma trama afinada e repleta de emoções, reflexões e, é claro, tiros e muito sangue. A direção não tem medo de mostrar a brutalidade com que Castle derruba seus rivais, às vezes sem nem ao menos se importar com sua saúde física e mental, desde que isso o faça alcançar seu objetivo. É nessas cenas que Jon Bernthal parece ter encontrado o personagem de sua vida, e se entrega de corpo e alma aos traumas, trejeitos e paranoias de Frank Castle. É como ver um músico compondo sua grande obra, com a diferença que ao invés de instrumentos e acordes, esse homem usa armamento pesado e muito sangue e vísceras.


Ao praticamente não ligar Justiceiro às demais séries da Marvel/Netflix (em momento nenhum Demolidor ou qualquer outro herói é mencionado no show), o canal de streaming nos entrega uma produção redonda e bem amarrada, que, apesar de uma pequena barriga, não torna em momento algum sua maratona de episódios algo desinteressante. O Justiceiro da Netflix faz toda a espera pela sua primeira temporada valer a pena, nos apresentando um Frank Castle quebrado e atormentado, porém com um senso de justiça e dever implacável e sanguinário. Tudo aquilo que nós queríamos, e merecíamos.

Título Nacional: O Justiceiro – 1ª Temporada
Título Original: The Punisher – Season One
Direção: Andy Goddard, Tom Shankland, Antonio Campos, Kevin Hook, entre outros.
Roteiro: Steve Lightfoot, Angela LaManna, Ken Kristensen, entre outros.
Ano de Lançamento: 2017
Nota do Resenhista: 4,5 (de 5)

 


Liga da Justiça: Snyder e Elfman resgatam tom clássico

Liga da Justiça (Zack Snyder, 2017) chegou aos cinemas nesta semana com a missão de provar a funcionalidade do universo cinematográfico da DC Enterteinment. Se afastando dos erros de Batman v. Superman: A Origem da Justiça e de Esquadrão Suicida, a produção consegue chegar a um equilíbrio entre seus dois propósitos: reposicionar o tom dos heróis já apresentados anteriormente e pavimentar o caminho para os próximos filmes solo dos que fizeram agora suas primeiras aparições.

Apesar de não ser um filme perfeito, os pontos positivos somam a imensa maioria, em comparação aos negativos. O roteiro apresenta uma linha clara, na qual os heróis tem um objetivo muito definido e precisam se unir para cumprir a missão dada. A reunião do time funciona de forma orgânica, de uma maneira que o espectador compreende facilmente o que leva cada um dos componentes a se juntar ao pequeno exército liderado por Mulher-Maravilha e Batman.

Batman, aliás, mostra extrema consciência de que não está mais em seu auge e sabe que, sozinho, não tem como enfrentar a ameaça que se insinua através dos parademônios que encontra em Gotham. O tom sarcástico e, às vezes, piadista do herói se encaixam com sua situação, uma vez que percebe que é claro que não há como levar tão a sério um homem vestido de morcego e sem poderes frente ao nível de poder que os atuais algozes apresentam. Aliás, mesmo perante os colegas de equipe, Batman soaria ridículo se fosse retratado como um vigilante soturno que quer impor o medo em todos neste contexto. Bruce Wayne funciona muito bem como um mentor experiente que tem como principal função guiar e aconselhar um time de novatos superpoderosos. Ele encara com um funcional bom humor a sua inferioridade física, mas quando vai a campo se coloca como um igual, mesmo com risco de morte muito maior se comparado ao que acomete seus colegas. Ben Affleck está claramente mais à vontade com esta interpretação do personagem do que com o amargurado Homem-Morcego visto em Batman v. Superman.

A Mulher-Maravilha de Gal Gadot também não é a mesma de seu filme solo. Agora experiente e segura no campo de batalha, ela é a figura que traz inspiração ao time antes da volta do Superman. Cabe a ela também o papel de revelar a origem da ameaça que ressurge e que já foi enfrentada pelo seu povo, ao lado dos atlantes e dos humanos milênios atrás. As limitações de Gadot como atriz parecem quase que superadas, com exceção de cenas como o primeiro encontro da heroína com Ciborgue, nas quais ela ainda parece apática.

O Ciborgue de Ray Fischer parece sofrer com a troca de diretor. O personagem começa com um tom dramático crescente e, do nada, se torna a escada para as piadas do Flash de Erza Miller, o que pode ter muito a ver com a visão mais leve que Joss Whedon tem deste herói. Faltam interações que justifiquem a mudança de postura do Ciborgue com seus colegas durante o filme, o que deixa o público sem entender se ele tem uma crônica oscilação de humor ou se Victor Stone já era bem humorado antes de se tornar meio máquina e no começo do filme passava por uma crise pontual.

Já o Flash é uma das melhores surpresas do longa-metragem, sua já mencionada parceria com Victor Stone e Batman rende momentos memoráveis. Quando o Superman surge uniformizado, é notável que Barry Allen se sente intimidado e passa a se esforçar ao máximo para não fazer feio em frente ao ídolo. O Aquaman de Jason Momoa não parece ter muita função na batalha, sendo apenas uma força bruta que porta um garfo gigante. Nas cenas em que precisa dialogar, a limitação de Momoa como ator causa preocupação em relação a como ele vai conseguir sustentar o filme solo do herói aquático.

A interpretação do Superman atende ao clamor dos fãs e mostra a versão icônica do herói, alinhada com a dos filmes clássicos, séries de TV, animações e, obviamente, quadrinhos. É crível, dentro do universo do filme e do contexto de recursos que os heróis têm à disposição, a forma como ele volta. Da mesma forma, é também aceitável que ele leve algum tempo para se recompor, com ajuda de Lois Lane e Martha Kent. Depois disso, o que vemos em tela é um herói solar e inspirador, que quando entra em batalha, já no clímax, justifica a necessidade de trazê-lo de volta, tanto pelo emprego de seus poderes quanto pelo efeito psicológico que sua presença causa nos colegas. A inclusão de trechos do tema clássico do herói, composto por John Williams, pontua o que aparece em tela: o Superman de verdade voltou.

Sobre a trilha, Danny Elfman faz um trabalho de resgate. Diferente do que Hans Zimmer entregou nos filmes anteriores do universo DC, Elfman abandona a trilha simplesmente ambiental e faz dela um elemento narrativo. Embora deixe espaço para que as equipes dos vindouros filmes dos novos personagens desenvolvam seus próprios temas, quando trabalha com Batman, Mulher-Maravilha e Superman em tela o compositor entrega mais do que os fãs poderiam querer. As aparições da trindade são pontuadas por seus temas clássicos, como se Elfman quisesse afirmar quem são os verdadeiros protagonistas de Liga da Justiça. Mais do que isso, ao usar a trilha de Zimmer para Diana, ele fala, através da música, que o filme considera tudo que foi feito com a personagem em seu filme solo. Já com Batman e Superman, a mensagem é outra. A trilha que o próprio Elfman compôs para o filme do Homem-Morcego de 1989 e a trilha de Williams para Superman de 1978, dizem que ficaram para trás as versões recentes dos heróis e que suas essências estão sendo resgatadas.

Em contraponto ao acerto da trilha e a tantos outros acertos do filme, os efeitos especiais são um ponto negativo a se destacar. Além de entregar cenários dignos de games do começo dos anos 2000 em alguns momentos, o Ciborgue parece não interagir bem com o ambiente pelo excesso de computação gráfica. Aliás, este é o principal problema do vilão Lobo da Estepe. Apesar de não ter suas motivações bem desenvolvidas, ele faz referência a Darkseid e deixa claro que é um capanga de alguém, então sua personalidade rasa não chega perto de incomodar tanto quanto seu visual e seus movimentos inverossímeis. Mesmo assim, a interpretação rasa do vilão torna-se tolerável em um filme onde a principal tarefa é estabelecer a dinâmica entre os heróis. Em uma vindoura sequência, no entanto, um algoz deste nível tornaria-se inaceitável. Ainda sobre os efeitos especiais, impossível não pontuar que são notáveis as cenas em que, na pós-produção, o bigode de Henry Cavill foi apagado. Por motivos contratuais o ator, que gravava outro filme na época das refilmagens, não pode raspar o bigode, o que determinou a decisão de apagá-lo digitalmente às vésperas do lançamento de Liga da Justiça.

Aliás, Liga da Justiça possui duas cenas pós-créditos. A primeira serve para estabelecer ainda mais a dinâmica entre Superman e Flash, enquanto a segunda é um apontamento de algo que pode embasar um segundo filme da Liga da Justiça ou ainda uma ameaça para outra franquia da DC Enterteinment. No fim das contas, Liga da Justiça pode ser considerado o melhor filme do universo DC que se iniciou com O Homem de Aço, pois entrega exatamente o que promete: diversão descompromissada, coesão para seu universo e uma base para próximos filmes.

Título: Liga da Justiça
Direção: Zack Snyder (creditado como diretor) e Joss Whedon (creditado como roteirista, mas na prática também ditetor)
Roteiro: Chris Terrio
Ano de Lançamento: 2017
Nota do Resenhista: 4 (de 5)


Thor: Ragnarok – Divertido e competente, mas digno do hype?

É muito provável que Thor: Ragnarok tenha sido o filme da Marvel que mais tenha gerado expectativa pré-lançamento nos últimos anos, e isso não é para menos. A escolha inusitada de seu diretor, a grande quantidade de personagens célebres das HQs em seu elenco e as peças promocionais coloridas e cativantes, prometiam que o terceiro filme do Deus do Trovão seria uma obra digna de atenção, não apenas do grande público como também da mídia especializada. Logo que o primeiro trailer saiu, embalado por Led Zeppelin, essas expectativas foram jogadas às alturas, causando alvoroço entre os fãs que ansiavam ter, finalmente, um filme significante do personagem. Porém, apesar de ser de fato um grande filme, Thor Ragnarok fica um pouco abaixo das expectativas, mas não pela falta, e sim pelo exagero.

Na trama, após deixar a Terra, ao final de Vingadores: Era de Ultron, e partir em busca das Joias do Infinito, Thor se depara com os Nove Reinos em conflito e desordem. Ao voltar a Asgard, sua terra natal, o deus nórdico acaba descobrindo que Odin, seu pai, não está mais no trono e a chegada da vilã Hela (Cate Blanchett) irá fazer o herói não apenas enfrentar seu maior desafio, como também ter de empenhar todos os seus esforços para evitar o Ragnarok, o fim dos tempos na mitologia nórdica.

Já de cara, a primeira cena do filme explica em poucas linhas o que aconteceu com Thor no tempo em que esteve ausente, e nos presenteia com um ritmo ágil e articulado, que perdurará ao longo de toda a trama, fazendo com que as duas horas do longa passem de maneira fluída e despercebida. Além disso, essa primeira sequência também nos apresenta aquela que provavelmente pode ser considerada a melhor cena de luta do personagem nos cinemas, usando seu martelo, Mjolnir, de maneira inteligente e arrebatadora.

As cenas de luta de Thor Ragnarok merecem seu devido destaque. As coreografias criadas para o longa sabem demonstrar a personalidade característica de cada indivíduo, fazendo com que elas nunca aparentem mesmice ou marasmo. Vale destacar a principal luta do longa, o esperado confronto entre Thor e Hulk que, apesar de namorar com o previsível, não deixa o ritmo cair em momento algum, nos entregando algo capaz de suprir as expectativas do público e fazê-los sair do cinema satisfeitos com a sequência. Porém, é quando começamos a falar sobre os personagens do longa que o terreno começa a ficar um tanto quanto pantanoso.

O filme pesa um pouco a mão ao contar a relação de Thor (Chris Hemsworth) e Loki (Tom Hiddleston), pendendo a história quase que exclusivamente para o campo da comédia e parecendo se esquecer momentaneamente dos momentos dramáticos entre ambos apresentados no longa anterior do personagem. Tanto que a cena em questão é representada nesse filme de uma maneira genial, porém novamente inclinando-se ao lado humorístico. Apesar da boa caracterização, e de nos apresentar uma nova e interessante personalidade do Incrível Hulk de maneira competente, o mesmo não pode ser dito de seu alter-ego, Bruce Banner (Mark Ruffalo). O personagem aparece descaracterizado, praticamente ignorando seu lado cientista e servindo apenas como uma muleta cômica, e está tão desnorteado que chega a causar um certo incômodo no espectador, caso ele se prenda demais às falas deslocadas de Banner. Vale mencionar também que a participação do Dr. Estranho no filme é outra que se apresenta deveras deslocada, quase desnecessária.

Apesar disso, essas caracterizações equivocadas acabam passando despercebidas se levarmos em conta o talento de Cate Blanchett, que rouba a cena com sua Hela. A atriz parece realmente ter se encontrado no personagem e reina absoluta na maioria das cenas em que aparece. Quando Hela está em tela o espectador se vê automaticamente atraído para a vilã, tendo certeza que qualquer coisa pode acontecer ou advir de seus atos. Muitos já discutem se Hela pode ter roubado o posto de seu conterrâneo asgardiano, Loki, e se tornando a maior vilã do universo Marvel nos cinemas, uma afirmação que encontra fundamento no caráter implacável e destruidor da personagem.

Porém, é impossível falar de Thor Ragnarok sem mencionar seu diretor, Taika Waititi, do qual este que vos fala é um enorme fã. Quem já é conhecedor do trabalho do cineasta sabe que Taika é dono de um estilo humorístico bastante peculiar. Com uma comicidade que pende um pouco para o infantil, porém com um timing bastante acurado, os filmes de Taika costumam ser muita mais conhecidos pelos seus textos e situações divertidas do que por qualquer dramaticidade recorrente, e esse é o problema aqui. Apesar do humor do diretor se encaixar perfeitamente em filmes menores, ele parece um pouco deslocado e até mesmo exagerado nesse blockbuster. Que o filme é divertido e irá arrancar diversas gargalhadas de seu público não há dúvidas, o diretor sabe usar a veia cômica de seu protagonista Chris Hemsworth para compor de maneira competente suas piadas. O problema é que algumas delas acabando se tornando gratuitas demais, e outras parecem ter sido encaixadas a força no contexto. É quando o longa precisa declinar para o lado dramático que se percebe com ainda mais clareza certa deficiência de Taika em apresentar uma trama com mais profundidade, e o Ragnarok acaba sendo tratado mais como um efeito colateral pelos personagens, do que como o declínio de um reino inteiro.

Vale mencionar também que Taika adora fazer participações especiais em seus longas, e aqui o diretor faz a voz e a captura de movimentos do gigante de pedra Korg, que ganha uma personalidade cômica acentuada e bem diferente de sua versão nos quadrinhos.

No fim das contas, Thor: Ragnarok tem saldo positivo. É um filme competente e divertido, que deve agradar ao público geral sem muita dificuldade. Ele é de fato o melhor filme do herói no cinema, mas, verdade seja dita, esse não era um título assim tão difícil de conquistar se avaliarmos os longas anteriores. Fica apenas o gosto amargo na boca de saber que Thor: Ragnarok tinha tudo para se tornar um dos maiores filmes da Marvel de todo os tempos, e, apesar de ter chegado perto disso, acabou não se mostrando digno.

Título: Thor: Ragnarok
Direção: Taika Waititi
Roteiro: Eric Pearson, Craig Kyle e Cristopher Yost.
Ano de Lançamento: 2017
Nota do Resenhista: 3,5 (de 5)

Ps: Parece que a Marvel Studios finalmente aprendeu a esconder um pouco mais o jogo nas peças publicitárias de seus filmes. Os trailers e vídeos que promoviam o longa foram espertos ao não revelar demais a trama do filme, além de simular e enganar o público com cenas e montagens fora de ordem, ou com leves diferenças da versão final. Ponto para a equipe de marketing.


O Batman de Eddy Barrows no Renascimento

*Review de Detective Comics: A Ascensão dos Homens-Morcego

Um dos títulos mais antigos da DC Comics ainda em publicação, Detective Comics sempre teve que se renovar continuamente para permanecer relevante dentro do mercado. A proposta do roteirista James Tynion IV na nova fase do título dentro da iniciativa DC Renascimento foi acolher os personagens da Bat Família e reuni-los em uma equipe de protetores de Gotham. Ao lado dos artistas Eddy Barrows e Álvaro Martinez, Tynion não somente cria um belo grupo em 7 edições, como também consegue explorar a fundo os personagens ao seu dispor.

Na trama, o Batman decide formar uma equipe com os vigilantes de Gotham após descobrir que uma série de drones começaram a acompanhar todos os heróis da cidade. Com a ajuda da Batwoman, ele agrega ao time Robin Vermelho, Spoiler, Orfã e Cara-de-Barro. Juntos, o grupo precisa descobrir o mistério por trás dos drones, ao mesmo tempo em que cada um dos membros tem de lidar com seus problemas e dúvidas pessoais.

Se passando entre as edições #934 a #940 de Detective Comics, A Ascensão dos Homens-Morcego é uma bem-sucedida aposta na interação entre os membros disfuncionais da Bat Família. Tynion IV escreve um roteiro bem estruturado, que constrói a trama principal aos poucos, gerando suspense e curiosidade, e que ainda aprofunda a personalidade dos personagens que participam da história. Kate Kane, a Batwoman, é um dos focos principais, aparecendo como uma heroína que sempre se mostra forte e decidida. Ao mesmo tempo, vemos seus conflitos mais internos, como a relação conturbada com o pai e seus relacionamentos amorosos fracassados. É interessante notar como Tynion explora bem as características de cada personagem, encaixando-os estrategicamente dentro da equipe de vigilantes. A presença do ex-criminoso Cara-de-Barro é uma adição bem-vinda, servindo de alívio cômico e faz-tudo do grupo. A revelação do mistério pode não ser surpreendente, mas se desenvolve de maneira orgânica e é plausível ao final. Um dos problemas do roteirista se dá em alguns diálogos por demais expositivos. Não apenas em diálogos, mas o uso de recordatórios com pensamentos em primeira pessoa são tão exagerados que por vezes chegam a atrapalhar o desenho.

A arte se divide entre os desenhistas Eddy Barrows e Alvaro Martinez. Barrows desenha as duas primeiras e as duas últimas edições e apresenta uma arte que marca presença. Seus quadros de ação são admiráveis e seu uso dinâmico de posições dos personagens dá a impressão de que os mesmos estão saindo da página. O uso de luz e sombra dá noções de profundidade realistas e casa perfeitamente com o clima urbano e noturno que a revista passa. Barrows utiliza um ou outro quadro com um personagem pintado em aquarela, o que transmite um charme próprio para sua arte. A parceria já conhecida com o arte-finalista Eber Ferreira marca um traço mais denso e definido, conhecido da dupla.

O trabalho de Martinez nas três edições que desenha não deixa a desejar. Diferente de Barrows e Ferreira, Martinez traz, ao lado do arte-finalista Raúl Fernandez, um traço mais fino, mas que mantém o estilo realista e soturno da equipe anterior. Martinez prefere utilizar mais quadros por página para compor a narrativa, o que funciona principalmente para cenas de ação de personagens como a Orfã. No entanto, este método do desenhista muitas vezes causa a impressão de que a página está muito cheia, poluída com muitas cenas, o que se agrava com a já mencionada alta quantidade de balões e recordatórios. Não chega a trancar a fluidez da história, mas pode causar estranhamento por diferenciar de Barrows, que prefere páginas duplas com quadros mais espaçados. As cores de Adriano Lucas e de Brad Anderson combinam perfeitamente com a arte que cada um acompanha. A paleta de ambos bebe de tons escuros, com preto e cinza geralmente predominando, e muito bem dosados e contrastados com as demais cores utilizadas.

Publicado recentemente pela Panini nas quatro primeiras edições da mensal Detective Comics, A Ascensão dos Homens-Morcego é uma história muito eficiente da Bat Família. Com uma trama densa e bem construída, acompanhada de um bom desenvolvimento de personagens e trazendo momentos cômicos e dramáticos na medida certa, o primeiro arco da tradicional revista dentro do Renascimento é um deleite para os fãs do universo do Batman. Um resgate de conceitos que pareciam abandonados com os Novos 52, o trabalho de Tynion IV com os membros da Bat Família é muito bem-vindo em uma época de retomada de boas ideias.

 

Detective Comics: A Ascensão dos Homens-Morcego

Roteiro: James Tynion IV

Desenhos: Eddy Barrows e Alvaro Martinez

Arte-Final: Eber Ferreira e Raúl Fernandez

Cores: Adriano Lucas e Brad Anderson

Letras: Valéria Calipo

Editora: Panini Comics/DC Comics

Ano de lançamento: 2016

Páginas: 176

Nota do Resenhista: 5 (de 5)

 


O Caçador de Marte por Eddy Barrows

Esta resenha foi escrita com base nos encadernados norte-americanos Martian Manhunter: The Epiphany e Martian Manhunter: The Red Rising

Por muito tempo considerado um dos pilares do Universo DC, J’onn J’onzz, o Caçador de Marte, perdeu seu posto de membro fundador da Liga da Justiça para o Ciborgue depois do reboot dos Novos 52. Apesar de sempre presente em uma ou outra publicação, J’onn foi colocado para escanteio por um bom tempo, até finalmente ganhar uma revista própria na iniciativa DC You, em 2015, com roteiros de Rob Willians (Esquadrão Suicida) e desenhos do brasileiro Eddy Barrows (Detective Comics).

Em The Epiphany e The Red Rising, os dois arcos que compõem todo o run, vemos J’onn revelando sua verdadeira origem e as consequências disso. Ele não é o último sua raça. Ao contrário, o Caçador foi o resultado de uma criação dos marcianos, uma arma enviada à Terra para preparar o terreno para uma grande invasão que tem como objetivo fazer a sociedade marciana viver novamente. Mas, para isso ocorrer, toda a vida terrestre tem que perecer. No meio disso tudo, quatro personagens muito diferentes e uma garotinha se veem envolvidos na invasão por algum motivo misterioso.

O roteiro de Willians se mostra muito competente e até acima da média durante o primeiro arco, The Epiphany. O escritor consegue apresentar personagens muito carismáticos que transmitem empatia facilmente, cada um de uma maneira única. É também elogiável a maneira como Willians orquestra o mistério que envolve os quatro coadjuvantes, que, por mais que sua solução pareça lógica em certo momento, prende o leitor e o faz se importar com a história. O conflito de J’onn, que o faz se questionar sobre seu papel como herói, mostra-se crível e leva a uma consequência bem inesperada. Deve-se notar o ótimo desempenho de Willians na construção e dosagem de cenas de ação, com diálogos certeiros que casam muito bem na situação.

No entanto, o nível do roteiro decai muito no segundo arco, The Red Rising. Aqui, todo o mistério dos coadjuvantes é revelado e os mesmos se tornam os principais protagonistas. Infelizmente, o escritor perde um pouco seu foco, esquecendo as várias referências muito bem casadas de ficção científica e até mesmo de terror que utilizava no primeiro arco. A exploração dos personagens e seu desenvolvimento são substituídos por tomadas medíocres de ação, com direito a um vilão extremamente estereotipado e a uma luta de robôs gigantes. Willians ainda acerta em alguns momentos, chegando até mesmo a emocionar com algumas cenas, mas o estrago foi muito grande para ser remediado. Para completar, um plot twist desnecessário faz muito da história perder seu sentido e pode fazer alguns leitores se sentirem até mesmo lesados.

Eddy Barrows é o responsável pelos desenhos de quase todas as 12 edições do run. Barrows possui uma técnica de narrativa incrível, muito ágil e dinâmica, o que faz render excelentes cenas de ação. Seu uso de luz e sombra proporciona quadros muito bonitos e com noções de profundidade realistas. O artista consegue desenhar seres humanos normais com maestria e precisão anatômica ao mesmo tempo em que cria designs bizarros e criativos para os alienígenas. Sua parceria com Eber Ferreira na arte final cria um traço bem maleável, o que é perfeito para um personagem como J’onn, que passa por diversas transformações durante a história. Um dos principais méritos de Barrows é fazer com que as figuras esquisitas, que se moldam, retorcem, derretem e alargam pareçam reais, de forma que você acredita na arte e a vê como uma perfeita retratação de como seria se aquelas criaturas existissem no mundo real.

As cores de Gabe Eltaeb harmonizam com o estilo dos desenhistas, geralmente vindo de uma paleta escura com muitos tons de verde, vermelho e roxo, as principais cores do Caçador de Marte. Diógenes Neves, Ronan Cliquet, R.B. Silva, Ben Oliver e Philip Tan também assumem a arte de algumas edições. De todos, apenas Ben Oliver destoa visivelmente do estilo de Barrows, indo para um caminho muito mais cartunesco, o que prejudica um pouco a revista visto que Oliver é o responsável pelas últimas duas edições do run.

Apesar de seus altos e baixos, a fase de Rob Willians e Eddy Barrows é uma boa pedida para quem quer uma história que mistura vários elementos e gêneros diferentes com uma boa e dinâmica arte. Além disso, é uma rara oportunidade para os fãs de J’onn J’onzz o verem protagonizando sua própria HQ. Infelizmente, o run não foi publicado no Brasil, mas pode ser adquirido através dos dois encadernados americanos, que compilam toda a fase.

Martian Manhunter: The Epiphany e Martian Manhunter: The Red Rising

Roteiro: Rob Willians e Matt Kindt

Desenhos: Eddy Barrows, Diogenes Neves, Ronan Cliquet, R.B. Silva, Ben Oliver e Philip Tan

Arte-Final: Eber Ferreira, Marc Deering, Andy Owens, Ben Oliver e Jason Paz

Cores: Gabe Eltaeb e Jeremy Cox

Letras: Tom Napolitano

Editora: DC Comics

Ano de lançamento: 2015/2016

Páginas: 160 e 144

Nota do Resenhista: 3,5 (de 5)


Cavaleiro da Lua, herói ou lunático?

Criado em 1975, na HQ Werewolf By Night #32, o Cavaleiro da Lua sempre foi um personagem classe C da Marvel. Pior: ele sempre foi um personagem classe C que vivia sendo comparado ao Batman. Mas ao contrário do órfão milionário Bruce Wayne, Marc Spector era um mercenário que foi ressuscitado por Khonshu, o deus egípcio da Lua, para se tornar o protetor dos “viajantes noturnos”. Em sua nova vida, Marc assumiu três personalidades: o playboy judeu Steven Grant, Jake Lockley, um taxista de Nova York que tem diversos informantes, e o vigilante Cavaleiro da Lua. Com o tempo, o personagem foi perdendo o estigma de “Batman da Marvel” para se tornar um esquizofrênico com múltiplas personalidades, aspecto que autores de peso como Warren Ellis e Brian M. Bendis trabalharam muito bem. Mas foi apenas na nova fase do personagem, com os roteiros de Jeff Lemire, que o personagem enfim mostrou para o que veio.

“Cavaleiro da Lua Vol. 4: Lunático” é o primeiro encadernado da fase de Jeff Lemire no personagem, e o autor já começa mostrando Marc em um hospício, sofrendo diversos abusos e maus tratos dos enfermeiros. Entre uma sessão de tortura e outra, Marc é assombrado por Khonshu, que aqui serve como um guia espiritual, avisando-o que Nova York está sofrendo uma invasão do deus maligno Seth, e só o Cavaleiro da Lua pode pará-lo. Mas nem Marc – muito menos o leitor – sabe o que é realidade e o que é loucura.

Jeff Lemire é conhecido por seus trabalhos autorais e pelas suas célebres passagens nas HQs do Homem Animal e do Arqueiro Verde, e aqui o autor canadense acerta novamente. A trama é um grande quebra-cabeça que, a cada nova edição, dá respostas que só geram mais perguntas. Nas mãos de um roteirista qualquer, esse recurso resultaria em uma trama sem sentido e chata, mas Lemire sabe muito bem brincar com as expectativas dos leitores e como amarrar suas pontas. Além disso, seu texto dá uma humanidade tocante aos personagens, é impossível não se apegar a Marc e seus amigos do hospício. Outro mérito de Lemire é a forma ágil e criativa com que resgatou diversos elementos e personagens antigos da mitologia do herói e misturou com o que foi feito na fase de Warren Ellis, alegrando os (poucos) fãs antigos, mas sem se esquecer dos novos leitores, contando uma história que pode ser lida por alguém que desconhece o personagem.

A equipe artística também está de parabéns: Greg Smallwood, desenhista que já trabalhou com o herói antes, tem um traço muito ágil e agradável de ver. O artista brinca diversas vezes com os quadros das páginas, principalmente nas cenas de ação ou nas sessões de choque de Marc, e além disso, muda de traço toda vez que Khonshu aparece, adotando uma arte mais rabiscada e agressiva, lembrando muito o estilo de Bill Sienkiewicz, consagrado desenhista que começou a chamar a atenção do público justamente na HQ do Cavaleiro da Lua. A arte de Smallwood conta com cores de Jordie Bellaire, que também muda de estilo dependendo da situação, principalmente nas alucinações de Marc. Uma coisa curiosa é o uso constante do branco, cor dominante em todas as páginas, cujo efeito causa um desconforto que só contribui para a história. A quinta edição conta com a participação dos desenhistas Francesco Francavilla, James Stokoe e Wilfredo Torres, cada um mostrando uma personalidade e realidade diferente do personagem.

O encadernado é bem simples, com capa cartão, miolo LWC, reunindo as cinco primeiras edições da mensal Moon Knight, e custa R$ 19,90. Com uma história e arte muito acima da média das outras séries da Marvel, Cavaleiro da Lua vol 4: Lunático é, sem sombra de dúvida, um dos melhores lançamentos da Panini nesse semestre. Leia e não tenha medo de ser guiado pela insanidade. Garanto que vai valer a pena.

Título: Cavaleiro da Lua Vol. 4: Lunático

Roteiro: Jeff Lemire

Arte: Greg Smallwood, Francesco Francavilla, James Stokoe e Wilfredo Torres

Cores: Jordie Bellaire, Francesco Francavilla, James Stokoe e Wilfredo Torres

Editora: Panini

Ano: 2017

Páginas: 124

Nota: 4,5 (de 5)


Guardiões da Galáxia Vol. 2 e o coração do Universo Marvel

Poucos fãs da Marvel esperavam algo do primeiro longa protagonizado pelos Guardiões da Galáxia, lançado em 2014, porém a qualidade do trabalho liderado pelo diretor James Gunn, além de estruturar os parâmetros para o universo espacial da editora nos cinemas, fez do longa um dos maiores sucessos do MCU até o momento, sendo considerado por muitos o melhor filme da Marvel Studios. Dessa forma, a espera pelo retorno dos heróis, novamente sob a batuta de Gunn, era acompanhada por um gigantesco hype que poderia prejudicar a recepção dos espectadores. Mas Guardiões da Galáxia Vol. 2 não só cumpre com as expectativas, como também entrega o que pode ser considerado o longa mais engraçado e emotivo da Marvel até o momento.

Na trama, que se passa apenas alguns meses após o primeiro filme, Peter Quill (Senhor das Estrelas), Gamora, Rocket, Drax e Baby Groot já são conhecidos ao longo do universo pela alcunha de Guardiões da Galáxia. Após serem atacados pela raça dos Soberanos, os heróis são abordados por Ego, o pai de Peter, que os leva até seu planeta. Enquanto descobrem a verdade sobre as origens de Quill, os Guardiões precisam fugir dos Soberanos, que buscam vingança em nome da honra, e dos Ravengers, que querem adquirir a enorme recompensa que existe por suas cabeças.

Se podemos considerar os filmes do Capitão América como o lado racional do MCU, e Vingadores como a força, Guardiões da Galáxia Vol. 2 define os heróis galácticos como o coração desse universo. O modo como James Gunn trabalha de maneira cuidadosa o desenvolvimento individual de cada personagem, faz com que a interação entre eles se complemente de maneira orgânica e convincente. Bons exemplos disso são o modo como o roteiro aproxima o reservado Drax da solitária Mantis, os incompreendidos Yondu e Rocket, e as agressivas Gamora e Nebulosa, fazendo seus temores e ligações afetivas se desenvolverem de maneira sincera e sensível. Em momento algum o novo longa tem vergonha de assumir o lado sentimental abordado em seu antecessor, e faz desse aspecto um de seus pontos mais fortes.

O já costumeiro humor sagaz ainda é um componente de suma importância no filme. Fazendo com que as diversas situações hilárias apresentadas no longa, apesar de muitas vezes beirarem o absurdo, aconteçam de maneira a inspirar e envolver ainda mais o público com os personagens. Havia criado certo medo de que Baby Groot ganhasse mais atenção do que necessária, em virtude de seu apelo comercial, mas o diretor sabe usar as fofas participações do personagem de forma comedida, divertindo o espectador sem cansá-lo. As cenas de ação são bem planejadas e elevam o nível das apresentadas no primeiro longa, explorando de maneira inteligente o estilo de luta e o lado cômico de cada personagem. O único problema recorrente dessas sequências é a necessidade que a produção tem de frequentemente frear o andamento das cenas para encaixar alguma piadinha, que nem sempre vem a somar para o desenvolvimento. Apesar desses momentos não atrapalharem o filme como um todo, podem vir a incomodar os espectadores mais exigentes.

Apesar de ter consequências que ressoam através de toda a galáxia, a trama de Guardiões da Galáxia Vol. 2 é muito mais contida em relação ao universo Marvel nos cinemas. O longa foca praticamente toda sua atenção em seus heróis, deixando de lado a ameaça de Thanos para que o público possa acompanhar e se afeiçoar ainda mais aos Guardiões. Todavia, James Gunn, que é assumidamente um nerd da Marvel, não poupa em easter eggs e menções aos mais diferentes personagens e eventos envolvendo o universo espacial da editora. Alguns bastante sutis, e outros que lhe farão pular da cadeira de tanta empolgação – vide a fantástica participação de Stan Lee nesse filme, uma das melhores.

Após todo o sucesso da trilha sonora do primeiro longa, era de se esperar que esse ponto da produção ganhasse uma atenção especial em sua sequência. Apesar de a nova seleção de músicas não ser tão envolvente quanto a anterior, o principal ponto positivo é que aqui elas não apenas embalam o longa, como ganham importância vital para a trama. Várias vezes temos personagens usando as canções como maneira de desenvolver a história, e outros que até chegam a usar as letras das músicas para elucidar e justificar suas ações. As referências aos anos 80 também estão bastante vivas no longa, se tornando agora uma característica essencial de Peter Quill, que as usa para explicar de forma metafórica vários de seus pontos de vista.

Mais do que trabalhar o humor proveniente das diferentes origens e raças dos personagens que compõem o grupo, James Gunn usa essas divergências para compor e equilibrar as relações entre seus heróis. Guardiões da Galáxia Vol. 2 mergulha sem o mínimo receio ou vergonha sob a pele de seus personagens, explorando seus lados emotivos de forma a mostrar seus principais medos e qualidades. Mostrando que amigos de verdade brigam, discutem e muitas vezes são incapazes de se compreender, mas jamais lhe abandonam, independentemente do tamanho do desafio. Mostrando que amigos são a família que escolhemos.

Título Nacional: Guardiões da Galáxia Vol.2

Título Original: Guardians of the Galaxy Vol. 2

Direção: James Gunn

Roteiro: James Gunn

Ano de Lançamento: 2017

Nota do Resenhista: 4,5 (de 5)

Ps: Guardiões da Galáxia Vol. 2 não tem uma, nem duas, mas sim CINCO cenas pós créditos. Algumas importantíssimas para o desenvolvimento do MCU. Faça suas contas e tenha certeza de sair do cinema sem perder nenhuma.


Geoff Johns e a hora do Renascimento

Para apresentar e dar o tom de sua nova fase, que retoma os conceitos clássicos da editora, a DC Comics chamou Geoff Johns para escrever uma última HQ antes de partir para chefiar a DC Films. DC Universe Rebirth #1 apresenta algumas das principais tramas e mistérios que serão trabalhados nos mais diversos títulos mensais ao longo dos próximos anos, além de apresentar a volta de um personagem que não aparecia mais desde o início da fase Novos 52, em 2011.

Geoff Johns já é bastante conhecido por ser um grande conhecedor da cronologia do Universo DC, seus roteiros costumam ser repletos de referências e saudosismo e não é raro ver o roteirista ser chamado para ajeitar alguma confusão cronológica. Com a rejeição dos Novos 52 tanto pelo público quanto pela crítica, não foi surpresa para nenhum fã o anúncio de que Johns seria o responsável por apresentar essa nova fase ao público. Porém, mais do que uma decisão segura, a escolha do roteirista se mostrou também uma decisão deveras acertada.

A história nos é apresentada através da perspectiva da versão clássica de Wally West, que tenta voltar do exílio em algum lugar fora do tempo e do espaço. A narração de Wally é usada não apenas para conduzir a trama, mas também para pontuar as principais diferenças e mudanças entre a realidade anterior a Ponto de Ignição e a atual. De certa forma, é possível afirmar que essa foi uma maneira que a própria DC encontrou para assumir os diversos erros que cometeu com os Novos 52 e plantar uma semente de esperança de que as coisas voltem a ser da forma como eram anteriormente.

Enquanto Wally visita e observa a vida de vários dos heróis da DC na esperança de que alguém se lembre dele, Johns conduz essa viagem com a apresentação de momentos nostálgicos, o que remete ao tom heroico e esperançoso das antigas e saudosas HQs da DC Comics. Essa iniciativa de trazer de volta conceitos primordiais e fundamentais para o universo DC faz com que a trama por si só já seja digna de admiração, mesmo que tudo se apresente apenas na forma de promessas. A boa qualidade do roteiro se comprova ainda mais na cena que apresenta o encontro entre Wally e Barry Allen, um momento narrado com tamanha competência emocional que é capaz de sensibilizar até o mais durão dos fãs da editora.

A arte da revista é dividida entre alguns dos grandes nomes da editora, entre eles os brasileiros Ivan Reis e Joe Prado, Phil Jimenez e Gary Frank , que assume a maioria das páginas. Frank se utiliza de um estilo artístico que lembra lendas da editora como Neal Adams e García-López, ainda que com uma personalidade própria para o traço, se mostrando uma escolha correta para o serviço. O único problema da narrativa se dá em algumas páginas onde a arte acaba comprometida devido ao excessivo número de painéis e balões, fazendo com que planos abertos em quadros pequenos fiquem um pouco rasurados, mas nada que atrapalhe a leitura como um todo. As cores, que também contam com um time de primeira, são muito bem trabalhadas, com destaque novamente para a cena do encontro entre Wally e Barry.

A trama ainda apresenta as primeiras pistas de uma possível participação dos personagens de Watchmen e da suposta responsabilidade deles na criação desse novo universo da DC. Se isso vai se concretizar e se será algo positivo ou não, só o tempo e as próximas revistas da DC poderão revelar. O que vale mencionar é que em DC Universe Rebirth, Johns sabe implementar esses momentos em pontos de virada impactantes e competentes.

DC Universe Rebirth se mostra uma revista em quadrinhos com decisões editorias conscientes, além de um trabalho de despedida extremamente significativo para Geoff Johns. Mas mais do que isso, essa é a HQ que a DC precisava e procurava para implantar essa nova fase de suas revistas. Um trabalho competente, saudosista e esperançoso para os fãs, algo que os heróis da DC sempre foram, mas após um período de esquecimento merecem mais do que nunca voltar a ser.

DC Universe Rebirth #1
Roteiro: Geoff Johns
Arte: Gary Frank, Ethan Van Sciver, Ivan Reis, Joe Prado, Phil Jimenez e Matt Santorelli
Cores: Brad Anderson. Jason Wright, Hi-Fi e Gabe Eltaeb
Editora: DC Comics
Ano de Lançamento: 2016
Número de páginas: 72
Nota do resenhista: 4,5 (de 5)


Punho de Ferro, 1ª Temporada

A mais recente série da parceria Marvel/Netflix estreou sua temporada completa no serviço de streaming dividindo opiniões. Punho de Ferro é a última série solo antes da união dos personagens na série dos Defensores, programada ainda para este ano. Porém, apesar do show acertar em preparar o caminho para as próximas produções do canal, a série do Punho de Ferro fica devendo em sua execução e trama, e muitas vezes parece se perder e tropeçar nos próprios princípios.

A premissa gira em torno do protagonista Danny Rand, que sofreu um acidente de avião no Himalaia durante sua infância. O desastre causou a morte de sua mãe, Heather Rand, e seu pai, o bilionário Wendel Rand. Encontrado por dois monges, Danny é levado a cidade mística de K’un Lun, que aparece no plano terrestre apenas a cada quinze anos. Lá, o garoto é treinado para ser tornar um grande guerreiro marcial, e ao derrotar o dragão imortal Shou-Lao, conquista o poder do Punho de Ferro, a arma viva. Mas ao invés de assumir o cargo de protetor da cidade celestial, Danny volta a Nova York em busca de respostas sobre seu passado e a morte de seus pais.

O Danny Rand apresentado na série não é exatamente o guerreiro com o qual a maioria do público está acostumado nos quadrinhos. O protagonista aqui é um rapaz ingênuo, e que logo nos primeiros episódios é facilmente manipulado por todos à sua volta. Faz sentido que tal situação ocorra, visto que ele foi criado a vida toda em um monastério e não tem conhecimento sobre a vida na cidade. Porém, quanto mais o personagem descobre as tramas em que acaba caindo, menos ele aprende, e continua emaranhando-se em armações parecidas ao longo de todo show, nos fazendo questionar como uma pessoa que demora tanto para aprender com seus erros teve a disciplina e a capacidade para se tornar um dos maiores guerreiros marciais vivos. Para completar, a atuação mediana de Finn Jones não contribui para a construção do personagem, fazendo com que o público não se sinta ligado ou realmente se importe com os problemas de Danny.

Apesar de muitas reclamações quanto ao ritmo lento da temporada, os problemas da série podem ser mais atribuídos à inconstância de seus personagens e à desorientação da trama principal. Vide o caso de Joy Meachum, interpretada por Jessica Stroup, que em momentos se apresenta como uma amiga que se importa com Danny e com a atitude certa a tomar, mas em outros se mostra uma empresária sem escrúpulos e sem coração, determinada a tudo pelo sucesso da empresa. Essas mudanças na fundação da personagem em momento algum se apresentam de maneira convincente, a transformando em uma figura deveras superficial.

Para um show que tem como protagonista um artista marcial místico, a série do Punho de Ferro falha miseravelmente ao praticamente não apresentar nenhum desses elementos. K’un Lun é referenciada em todo episódio, mas as únicas coisas que realmente vemos referentes à cidade celestial são a entrada da caverna de Shou-Lao e breves aparições espirituais de Lei Kung, mestre de Danny. O próprio Danny Rand exerce o poder do Punho de maneira muito econômica ao longo do programa, usando a desculpa de que por ter abandonado a cidade celeste, não recebeu o treinamento necessário sobre a arte. Além disso, a série apresenta certas incongruências que a fazem perder credibilidade, como o fato de Danny não ter dificuldades na hora de enfrentar dezenas de faixas pretas em Kung Fu, mas apanhar com frequência para capangas solitários.

Porém, o maior problema da série não se encontra em seu protagonista e sim em seu antagonista, ou melhor dizendo, ao fato de o espectador nunca conseguir definir quem realmente é o grande vilão. Parte da crítica e do público reclamou de que no meio de sua temporada, a série do Luke Cage troca de vilão principal de maneira precipitada, fazendo com que a segunda metade seja muito inferior em qualidade. O que dizer então da série do Punho de Ferro, que troca de antagonista com frequência, sem saber definir valores para os mesmos? Sem elucidar de maneira expressiva qual a força do antagonismo que realmente devemos temer, a série acaba caindo em marasmo, penando por coerência, e tornando compreensivo o desânimo de alguns espectadores.

Apesar dessas diversas falhas, é errado dizer que a série do Punho de Ferro não acerta em momento algum. Se muitos personagens tiveram problemas em suas construções, o mesmo não pode ser dito de Colleen Wing, interpretada por Jessica Henwick. A personagem conquista o público com sua determinação e coragem, e pode ser considerada facilmente o ponto forte do programa. As cenas mais emotivas e intensas da série são carregadas de maneira extremamente competente por Colleen, já nos deixando ansiosos para revê-la futuramente em Defensores.

Os produtores também acertam na forma como encaixam Danny dentro do universo compartilhado da Marvel. As referências a Demolidor, Luke Cage e Jessica Jones não são apenas para agradar aos fãs, mas também fazem com que a série evolua como história. As participações de personagens já apresentados nas outras séries, como Jeri Hogarth (Carrie-Anne Moss) e Claire Temple (Rosario Dawson) são fundamentais para o andamento e progresso da trama. Além disso, a série dá a entender que o Tentáculo provavelmente será o vilão que juntará todos os heróis para suas próximas aventuras em Defensores. Para completar, as cenas de luta são deveras convincentes, apesar de que para uma trama que foca nas artes marciais, ainda ficam devendo para outras séries, como a do próprio Demolidor.

No fim das contas, a série do Punho de Ferro preza pela inserção do personagem no universo urbano da Marvel/Netflix e deixa de lado as origens místicas e orientais do herói, o que causa ao público uma sensação incômoda, e até mesmo o faz sentir-se levemente ludibriado. Resta esperar uma participação mais ativa e convincente do personagem na série dos Defensores, e que numa futura segunda temporada da série, caso ela exista, os produtores decidam tratar com mais atenção as origens do personagem, para que possamos conhecer melhor a cidade celeste de K’un Lun e todos os seus mistérios e desafios.

Título Nacional: Marvel Punho de Ferro (1ª Temporada)

Título Original: Marvel’s Iron Fist (1ª Temporada)

Emissora: Netflix

Ano de Lançamento: 2017

Número de episódios: 13

Nota do Resenhista: 2,5 (de 5)


A Entediante Família de Morte Crens

A HQ A Entediante Família de Morte Crens apresenta uma coletânea de tiras protagonizada pelo personagem de estreia de Gustavo Borges e uma história longa de 26 páginas, onde é mostrada a interação na desajustada família que dá nome ao álbum.

A rabugenta personificação da morte, que já estrelou A Entediante Vida de Morte Crens, se envolve em situações hilárias nas tiras, onde os pontos altos sempre são as suas interações com a personagem Vida. Gustavo não perde o tom em relação à coletânea anterior e leva o leitor a rir e, ao mesmo tempo, a refletir sobre a forma como encaramos a morte. A própria relação de amizade próxima ou paixão entre Vida e Morte Crens diz muito sobre a forma como estes dois estágios se relacionam. Afinal, a morte trabalha para a vida? A vida trabalha para a morte? Ou ambas trabalham juntas em prol do fechamento de um ciclo? Estas perguntas não são abertamente feitas no álbum, mas as atitudes dos personagens e a proximidade entre eles fazem com que estes questionamentos se manifestem na cabeça do leitor mais atento.

O roteiro das tiras, assim como a narrativa e os desenhos, mostram um crescente em relação a todos os trabalhos anteriores do autor. Sobre as cores, infelizmente, não se pode dizer o mesmo. Talvez por vontade de experimentar novas técnicas, Borges produz uma colorização inconstante nas histórias curtas, variando entre cores mais sólidas e páginas onde pode se notar um excesso de variações de tons e efeitos de degradê.

Na história longa o autor surpreende. Embora o tom seja de apresentação de personagens e o leitor fique ávido por conhecer mais os irmãos Guerra, Fome e Peste e sua interação com Morte, a história funciona sozinha. Ela tem ganchos para prováveis continuações, mas completa em si mesma o que propõe. Mais uma vez, um show de roteiro e narrativa e desenhos ótimos. Aqui, a cor não decepciona.

No entanto, mesmo que tiras e história longa funcionem muito bem como coisas separadas, há uma diferença notável entre o ritmo dos dois formatos. Não há uma ponte de roteiro ou gráfica que una as duas partes do álbum. As tiras, muitas delas brilhantes, têm potencial para segurar uma publicação inteira sozinhas, como já foi mostrado em A Entediante Vida. A trama maior, por outro lado, também poderia ter sido apresentada em uma HQ à parte. Juntos, os dois ótimos segmentos produzem uma publicação com problema de ritmo e de identidade.

Para que a nota desta resenha seja justa, é preciso que se pense que o projeto passa perto de ser excelente e que os descontos se dão especificamente por causa da inconstância na cor e da opção por juntar no álbum dois segmentos que não conversam.

Portanto, o conteúdo ainda é ótimo e vale cada centavo e tempo investidos na compra e na leitura.

A Entediante Família de Morte Crens
Roteiro e arte: Gustavo Borges
Publicação Independente
Ano de lançamento: 2016
Páginas: 80
Nota do resenhista: 4 (de 5)


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