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Detective Comics e o Batman de Eddy Barrows no Renascimento

*Review de Detective Comics: A Ascensão dos Homens-Morcego

Um dos títulos mais antigos da DC Comics ainda em publicação, Detective Comics sempre teve que se renovar continuamente para permanecer relevante dentro do mercado. A proposta do roteirista James Tynion IV na nova fase do título dentro da iniciativa DC Renascimento foi acolher os personagens da Bat Família e reuni-los em uma equipe de protetores de Gotham. Ao lado dos artistas Eddy Barrows e Álvaro Martinez, Tynion não somente cria um belo grupo em 7 edições, como também consegue explorar a fundo os personagens ao seu dispor.

Na trama, o Batman decide formar uma equipe com os vigilantes de Gotham após descobrir que uma série de drones começaram a acompanhar todos os heróis da cidade. Com a ajuda da Batwoman, ele agrega ao time Robin Vermelho, Spoiler, Orfã e Cara-de-Barro. Juntos, o grupo precisa descobrir o mistério por trás dos drones, ao mesmo tempo em que cada um dos membros tem de lidar com seus problemas e dúvidas pessoais.

Se passando entre as edições #934 a #940 de Detective Comics, A Ascensão dos Homens-Morcego é uma bem-sucedida aposta na interação entre os membros disfuncionais da Bat Família. Tynion IV escreve um roteiro bem estruturado, que constrói a trama principal aos poucos, gerando suspense e curiosidade, e que ainda aprofunda a personalidade dos personagens que participam da história. Kate Kane, a Batwoman, é um dos focos principais, aparecendo como uma heroína que sempre se mostra forte e decidida. Ao mesmo tempo, vemos seus conflitos mais internos, como a relação conturbada com o pai e seus relacionamentos amorosos fracassados. É interessante notar como Tynion explora bem as características de cada personagem, encaixando-os estrategicamente dentro da equipe de vigilantes. A presença do ex-criminoso Cara-de-Barro é uma adição bem-vinda, servindo de alívio cômico e faz-tudo do grupo. A revelação do mistério pode não ser surpreendente, mas se desenvolve de maneira orgânica e é plausível ao final. Um dos problemas do roteirista se dá em alguns diálogos por demais expositivos. Não apenas em diálogos, mas o uso de recordatórios com pensamentos em primeira pessoa são tão exagerados que por vezes chegam a atrapalhar o desenho.

A arte se divide entre os desenhistas Eddy Barrows e Alvaro Martinez. Barrows desenha as duas primeiras e as duas últimas edições e apresenta uma arte que marca presença. Seus quadros de ação são admiráveis e seu uso dinâmico de posições dos personagens dá a impressão de que os mesmos estão saindo da página. O uso de luz e sombra dá noções de profundidade realistas e casa perfeitamente com o clima urbano e noturno que a revista passa. Barrows utiliza um ou outro quadro com um personagem pintado em aquarela, o que transmite um charme próprio para sua arte. A parceria já conhecida com o arte-finalista Eber Ferreira marca um traço mais denso e definido, conhecido da dupla.

O trabalho de Martinez nas três edições que desenha não deixa a desejar. Diferente de Barrows e Ferreira, Martinez traz, ao lado do arte-finalista Raúl Fernandez, um traço mais fino, mas que mantém o estilo realista e soturno da equipe anterior. Martinez prefere utilizar mais quadros por página para compor a narrativa, o que funciona principalmente para cenas de ação de personagens como a Orfã. No entanto, este método do desenhista muitas vezes causa a impressão de que a página está muito cheia, poluída com muitas cenas, o que se agrava com a já mencionada alta quantidade de balões e recordatórios. Não chega a trancar a fluidez da história, mas pode causar estranhamento por diferenciar de Barrows, que prefere páginas duplas com quadros mais espaçados. As cores de Adriano Lucas e de Brad Anderson combinam perfeitamente com a arte que cada um acompanha. A paleta de ambos bebe de tons escuros, com preto e cinza geralmente predominando, e muito bem dosados e contrastados com as demais cores utilizadas.

Publicado recentemente pela Panini nas quatro primeiras edições da mensal Detective Comics, A Ascensão dos Homens-Morcego é uma história muito eficiente da Bat Família. Com uma trama densa e bem construída, acompanhada de um bom desenvolvimento de personagens e trazendo momentos cômicos e dramáticos na medida certa, o primeiro arco da tradicional revista dentro do Renascimento é um deleite para os fãs do universo do Batman. Um resgate de conceitos que pareciam abandonados com os Novos 52, o trabalho de Tynion IV com os membros da Bat Família é muito bem-vindo em uma época de retomada de boas ideias.

 

Detective Comics: A Ascensão dos Homens-Morcego

Roteiro: James Tynion IV

Desenhos: Eddy Barrows e Alvaro Martinez

Arte-Final: Eber Ferreira e Raúl Fernandez

Cores: Adriano Lucas e Brad Anderson

Letras: Valéria Calipo

Editora: Panini Comics/DC Comics

Ano de lançamento: 2016

Páginas: 176

Nota do Resenhista: 5 (de 5)

 


O Caçador de Marte por Eddy Barrows

Esta resenha foi escrita com base nos encadernados norte-americanos Martian Manhunter: The Epiphany e Martian Manhunter: The Red Rising

Por muito tempo considerado um dos pilares do Universo DC, J’onn J’onzz, o Caçador de Marte, perdeu seu posto de membro fundador da Liga da Justiça para o Ciborgue depois do reboot dos Novos 52. Apesar de sempre presente em uma ou outra publicação, J’onn foi colocado para escanteio por um bom tempo, até finalmente ganhar uma revista própria na iniciativa DC You, em 2015, com roteiros de Rob Willians (Esquadrão Suicida) e desenhos do brasileiro Eddy Barrows (Detective Comics).

Em The Epiphany e The Red Rising, os dois arcos que compõem todo o run, vemos J’onn revelando sua verdadeira origem e as consequências disso. Ele não é o último sua raça. Ao contrário, o Caçador foi o resultado de uma criação dos marcianos, uma arma enviada à Terra para preparar o terreno para uma grande invasão que tem como objetivo fazer a sociedade marciana viver novamente. Mas, para isso ocorrer, toda a vida terrestre tem que perecer. No meio disso tudo, quatro personagens muito diferentes e uma garotinha se veem envolvidos na invasão por algum motivo misterioso.

O roteiro de Willians se mostra muito competente e até acima da média durante o primeiro arco, The Epiphany. O escritor consegue apresentar personagens muito carismáticos que transmitem empatia facilmente, cada um de uma maneira única. É também elogiável a maneira como Willians orquestra o mistério que envolve os quatro coadjuvantes, que, por mais que sua solução pareça lógica em certo momento, prende o leitor e o faz se importar com a história. O conflito de J’onn, que o faz se questionar sobre seu papel como herói, mostra-se crível e leva a uma consequência bem inesperada. Deve-se notar o ótimo desempenho de Willians na construção e dosagem de cenas de ação, com diálogos certeiros que casam muito bem na situação.

No entanto, o nível do roteiro decai muito no segundo arco, The Red Rising. Aqui, todo o mistério dos coadjuvantes é revelado e os mesmos se tornam os principais protagonistas. Infelizmente, o escritor perde um pouco seu foco, esquecendo as várias referências muito bem casadas de ficção científica e até mesmo de terror que utilizava no primeiro arco. A exploração dos personagens e seu desenvolvimento são substituídos por tomadas medíocres de ação, com direito a um vilão extremamente estereotipado e a uma luta de robôs gigantes. Willians ainda acerta em alguns momentos, chegando até mesmo a emocionar com algumas cenas, mas o estrago foi muito grande para ser remediado. Para completar, um plot twist desnecessário faz muito da história perder seu sentido e pode fazer alguns leitores se sentirem até mesmo lesados.

Eddy Barrows é o responsável pelos desenhos de quase todas as 12 edições do run. Barrows possui uma técnica de narrativa incrível, muito ágil e dinâmica, o que faz render excelentes cenas de ação. Seu uso de luz e sombra proporciona quadros muito bonitos e com noções de profundidade realistas. O artista consegue desenhar seres humanos normais com maestria e precisão anatômica ao mesmo tempo em que cria designs bizarros e criativos para os alienígenas. Sua parceria com Eber Ferreira na arte final cria um traço bem maleável, o que é perfeito para um personagem como J’onn, que passa por diversas transformações durante a história. Um dos principais méritos de Barrows é fazer com que as figuras esquisitas, que se moldam, retorcem, derretem e alargam pareçam reais, de forma que você acredita na arte e a vê como uma perfeita retratação de como seria se aquelas criaturas existissem no mundo real.

As cores de Gabe Eltaeb harmonizam com o estilo dos desenhistas, geralmente vindo de uma paleta escura com muitos tons de verde, vermelho e roxo, as principais cores do Caçador de Marte. Diógenes Neves, Ronan Cliquet, R.B. Silva, Ben Oliver e Philip Tan também assumem a arte de algumas edições. De todos, apenas Ben Oliver destoa visivelmente do estilo de Barrows, indo para um caminho muito mais cartunesco, o que prejudica um pouco a revista visto que Oliver é o responsável pelas últimas duas edições do run.

Apesar de seus altos e baixos, a fase de Rob Willians e Eddy Barrows é uma boa pedida para quem quer uma história que mistura vários elementos e gêneros diferentes com uma boa e dinâmica arte. Além disso, é uma rara oportunidade para os fãs de J’onn J’onzz o verem protagonizando sua própria HQ. Infelizmente, o run não foi publicado no Brasil, mas pode ser adquirido através dos dois encadernados americanos, que compilam toda a fase.

Martian Manhunter: The Epiphany e Martian Manhunter: The Red Rising

Roteiro: Rob Willians e Matt Kindt

Desenhos: Eddy Barrows, Diogenes Neves, Ronan Cliquet, R.B. Silva, Ben Oliver e Philip Tan

Arte-Final: Eber Ferreira, Marc Deering, Andy Owens, Ben Oliver e Jason Paz

Cores: Gabe Eltaeb e Jeremy Cox

Letras: Tom Napolitano

Editora: DC Comics

Ano de lançamento: 2015/2016

Páginas: 160 e 144

Nota do Resenhista: 3,5 (de 5)


Cavaleiro da Lua, herói ou lunático?

Criado em 1975, na HQ Werewolf By Night #32, o Cavaleiro da Lua sempre foi um personagem classe C da Marvel. Pior: ele sempre foi um personagem classe C que vivia sendo comparado ao Batman. Mas ao contrário do órfão milionário Bruce Wayne, Marc Spector era um mercenário que foi ressuscitado por Khonshu, o deus egípcio da Lua, para se tornar o protetor dos “viajantes noturnos”. Em sua nova vida, Marc assumiu três personalidades: o playboy judeu Steven Grant, Jake Lockley, um taxista de Nova York que tem diversos informantes, e o vigilante Cavaleiro da Lua. Com o tempo, o personagem foi perdendo o estigma de “Batman da Marvel” para se tornar um esquizofrênico com múltiplas personalidades, aspecto que autores de peso como Warren Ellis e Brian M. Bendis trabalharam muito bem. Mas foi apenas na nova fase do personagem, com os roteiros de Jeff Lemire, que o personagem enfim mostrou para o que veio.

“Cavaleiro da Lua Vol. 4: Lunático” é o primeiro encadernado da fase de Jeff Lemire no personagem, e o autor já começa mostrando Marc em um hospício, sofrendo diversos abusos e maus tratos dos enfermeiros. Entre uma sessão de tortura e outra, Marc é assombrado por Khonshu, que aqui serve como um guia espiritual, avisando-o que Nova York está sofrendo uma invasão do deus maligno Seth, e só o Cavaleiro da Lua pode pará-lo. Mas nem Marc – muito menos o leitor – sabe o que é realidade e o que é loucura.

Jeff Lemire é conhecido por seus trabalhos autorais e pelas suas célebres passagens nas HQs do Homem Animal e do Arqueiro Verde, e aqui o autor canadense acerta novamente. A trama é um grande quebra-cabeça que, a cada nova edição, dá respostas que só geram mais perguntas. Nas mãos de um roteirista qualquer, esse recurso resultaria em uma trama sem sentido e chata, mas Lemire sabe muito bem brincar com as expectativas dos leitores e como amarrar suas pontas. Além disso, seu texto dá uma humanidade tocante aos personagens, é impossível não se apegar a Marc e seus amigos do hospício. Outro mérito de Lemire é a forma ágil e criativa com que resgatou diversos elementos e personagens antigos da mitologia do herói e misturou com o que foi feito na fase de Warren Ellis, alegrando os (poucos) fãs antigos, mas sem se esquecer dos novos leitores, contando uma história que pode ser lida por alguém que desconhece o personagem.

A equipe artística também está de parabéns: Greg Smallwood, desenhista que já trabalhou com o herói antes, tem um traço muito ágil e agradável de ver. O artista brinca diversas vezes com os quadros das páginas, principalmente nas cenas de ação ou nas sessões de choque de Marc, e além disso, muda de traço toda vez que Khonshu aparece, adotando uma arte mais rabiscada e agressiva, lembrando muito o estilo de Bill Sienkiewicz, consagrado desenhista que começou a chamar a atenção do público justamente na HQ do Cavaleiro da Lua. A arte de Smallwood conta com cores de Jordie Bellaire, que também muda de estilo dependendo da situação, principalmente nas alucinações de Marc. Uma coisa curiosa é o uso constante do branco, cor dominante em todas as páginas, cujo efeito causa um desconforto que só contribui para a história. A quinta edição conta com a participação dos desenhistas Francesco Francavilla, James Stokoe e Wilfredo Torres, cada um mostrando uma personalidade e realidade diferente do personagem.

O encadernado é bem simples, com capa cartão, miolo LWC, reunindo as cinco primeiras edições da mensal Moon Knight, e custa R$ 19,90. Com uma história e arte muito acima da média das outras séries da Marvel, Cavaleiro da Lua vol 4: Lunático é, sem sombra de dúvida, um dos melhores lançamentos da Panini nesse semestre. Leia e não tenha medo de ser guiado pela insanidade. Garanto que vai valer a pena.

Título: Cavaleiro da Lua Vol. 4: Lunático

Roteiro: Jeff Lemire

Arte: Greg Smallwood, Francesco Francavilla, James Stokoe e Wilfredo Torres

Cores: Jordie Bellaire, Francesco Francavilla, James Stokoe e Wilfredo Torres

Editora: Panini

Ano: 2017

Páginas: 124

Nota: 4,5 (de 5)


Guardiões da Galáxia Vol. 2 e o coração do Universo Marvel

Poucos fãs da Marvel esperavam algo do primeiro longa protagonizado pelos Guardiões da Galáxia, lançado em 2014, porém a qualidade do trabalho liderado pelo diretor James Gunn, além de estruturar os parâmetros para o universo espacial da editora nos cinemas, fez do longa um dos maiores sucessos do MCU até o momento, sendo considerado por muitos o melhor filme da Marvel Studios. Dessa forma, a espera pelo retorno dos heróis, novamente sob a batuta de Gunn, era acompanhada por um gigantesco hype que poderia prejudicar a recepção dos espectadores. Mas Guardiões da Galáxia Vol. 2 não só cumpre com as expectativas, como também entrega o que pode ser considerado o longa mais engraçado e emotivo da Marvel até o momento.

Na trama, que se passa apenas alguns meses após o primeiro filme, Peter Quill (Senhor das Estrelas), Gamora, Rocket, Drax e Baby Groot já são conhecidos ao longo do universo pela alcunha de Guardiões da Galáxia. Após serem atacados pela raça dos Soberanos, os heróis são abordados por Ego, o pai de Peter, que os leva até seu planeta. Enquanto descobrem a verdade sobre as origens de Quill, os Guardiões precisam fugir dos Soberanos, que buscam vingança em nome da honra, e dos Ravengers, que querem adquirir a enorme recompensa que existe por suas cabeças.

Se podemos considerar os filmes do Capitão América como o lado racional do MCU, e Vingadores como a força, Guardiões da Galáxia Vol. 2 define os heróis galácticos como o coração desse universo. O modo como James Gunn trabalha de maneira cuidadosa o desenvolvimento individual de cada personagem, faz com que a interação entre eles se complemente de maneira orgânica e convincente. Bons exemplos disso são o modo como o roteiro aproxima o reservado Drax da solitária Mantis, os incompreendidos Yondu e Rocket, e as agressivas Gamora e Nebulosa, fazendo seus temores e ligações afetivas se desenvolverem de maneira sincera e sensível. Em momento algum o novo longa tem vergonha de assumir o lado sentimental abordado em seu antecessor, e faz desse aspecto um de seus pontos mais fortes.

O já costumeiro humor sagaz ainda é um componente de suma importância no filme. Fazendo com que as diversas situações hilárias apresentadas no longa, apesar de muitas vezes beirarem o absurdo, aconteçam de maneira a inspirar e envolver ainda mais o público com os personagens. Havia criado certo medo de que Baby Groot ganhasse mais atenção do que necessária, em virtude de seu apelo comercial, mas o diretor sabe usar as fofas participações do personagem de forma comedida, divertindo o espectador sem cansá-lo. As cenas de ação são bem planejadas e elevam o nível das apresentadas no primeiro longa, explorando de maneira inteligente o estilo de luta e o lado cômico de cada personagem. O único problema recorrente dessas sequências é a necessidade que a produção tem de frequentemente frear o andamento das cenas para encaixar alguma piadinha, que nem sempre vem a somar para o desenvolvimento. Apesar desses momentos não atrapalharem o filme como um todo, podem vir a incomodar os espectadores mais exigentes.

Apesar de ter consequências que ressoam através de toda a galáxia, a trama de Guardiões da Galáxia Vol. 2 é muito mais contida em relação ao universo Marvel nos cinemas. O longa foca praticamente toda sua atenção em seus heróis, deixando de lado a ameaça de Thanos para que o público possa acompanhar e se afeiçoar ainda mais aos Guardiões. Todavia, James Gunn, que é assumidamente um nerd da Marvel, não poupa em easter eggs e menções aos mais diferentes personagens e eventos envolvendo o universo espacial da editora. Alguns bastante sutis, e outros que lhe farão pular da cadeira de tanta empolgação – vide a fantástica participação de Stan Lee nesse filme, uma das melhores.

Após todo o sucesso da trilha sonora do primeiro longa, era de se esperar que esse ponto da produção ganhasse uma atenção especial em sua sequência. Apesar de a nova seleção de músicas não ser tão envolvente quanto a anterior, o principal ponto positivo é que aqui elas não apenas embalam o longa, como ganham importância vital para a trama. Várias vezes temos personagens usando as canções como maneira de desenvolver a história, e outros que até chegam a usar as letras das músicas para elucidar e justificar suas ações. As referências aos anos 80 também estão bastante vivas no longa, se tornando agora uma característica essencial de Peter Quill, que as usa para explicar de forma metafórica vários de seus pontos de vista.

Mais do que trabalhar o humor proveniente das diferentes origens e raças dos personagens que compõem o grupo, James Gunn usa essas divergências para compor e equilibrar as relações entre seus heróis. Guardiões da Galáxia Vol. 2 mergulha sem o mínimo receio ou vergonha sob a pele de seus personagens, explorando seus lados emotivos de forma a mostrar seus principais medos e qualidades. Mostrando que amigos de verdade brigam, discutem e muitas vezes são incapazes de se compreender, mas jamais lhe abandonam, independentemente do tamanho do desafio. Mostrando que amigos são a família que escolhemos.

Título Nacional: Guardiões da Galáxia Vol.2

Título Original: Guardians of the Galaxy Vol. 2

Direção: James Gunn

Roteiro: James Gunn

Ano de Lançamento: 2017

Nota do Resenhista: 4,5 (de 5)

Ps: Guardiões da Galáxia Vol. 2 não tem uma, nem duas, mas sim CINCO cenas pós créditos. Algumas importantíssimas para o desenvolvimento do MCU. Faça suas contas e tenha certeza de sair do cinema sem perder nenhuma.


Geoff Johns e a hora do Renascimento

Para apresentar e dar o tom de sua nova fase, que retoma os conceitos clássicos da editora, a DC Comics chamou Geoff Johns para escrever uma última HQ antes de partir para chefiar a DC Films. DC Universe Rebirth #1 apresenta algumas das principais tramas e mistérios que serão trabalhados nos mais diversos títulos mensais ao longo dos próximos anos, além de apresentar a volta de um personagem que não aparecia mais desde o início da fase Novos 52, em 2011.

Geoff Johns já é bastante conhecido por ser um grande conhecedor da cronologia do Universo DC, seus roteiros costumam ser repletos de referências e saudosismo e não é raro ver o roteirista ser chamado para ajeitar alguma confusão cronológica. Com a rejeição dos Novos 52 tanto pelo público quanto pela crítica, não foi surpresa para nenhum fã o anúncio de que Johns seria o responsável por apresentar essa nova fase ao público. Porém, mais do que uma decisão segura, a escolha do roteirista se mostrou também uma decisão deveras acertada.

A história nos é apresentada através da perspectiva da versão clássica de Wally West, que tenta voltar do exílio em algum lugar fora do tempo e do espaço. A narração de Wally é usada não apenas para conduzir a trama, mas também para pontuar as principais diferenças e mudanças entre a realidade anterior a Ponto de Ignição e a atual. De certa forma, é possível afirmar que essa foi uma maneira que a própria DC encontrou para assumir os diversos erros que cometeu com os Novos 52 e plantar uma semente de esperança de que as coisas voltem a ser da forma como eram anteriormente.

Enquanto Wally visita e observa a vida de vários dos heróis da DC na esperança de que alguém se lembre dele, Johns conduz essa viagem com a apresentação de momentos nostálgicos, o que remete ao tom heroico e esperançoso das antigas e saudosas HQs da DC Comics. Essa iniciativa de trazer de volta conceitos primordiais e fundamentais para o universo DC faz com que a trama por si só já seja digna de admiração, mesmo que tudo se apresente apenas na forma de promessas. A boa qualidade do roteiro se comprova ainda mais na cena que apresenta o encontro entre Wally e Barry Allen, um momento narrado com tamanha competência emocional que é capaz de sensibilizar até o mais durão dos fãs da editora.

A arte da revista é dividida entre alguns dos grandes nomes da editora, entre eles os brasileiros Ivan Reis e Joe Prado, Phil Jimenez e Gary Frank , que assume a maioria das páginas. Frank se utiliza de um estilo artístico que lembra lendas da editora como Neal Adams e García-López, ainda que com uma personalidade própria para o traço, se mostrando uma escolha correta para o serviço. O único problema da narrativa se dá em algumas páginas onde a arte acaba comprometida devido ao excessivo número de painéis e balões, fazendo com que planos abertos em quadros pequenos fiquem um pouco rasurados, mas nada que atrapalhe a leitura como um todo. As cores, que também contam com um time de primeira, são muito bem trabalhadas, com destaque novamente para a cena do encontro entre Wally e Barry.

A trama ainda apresenta as primeiras pistas de uma possível participação dos personagens de Watchmen e da suposta responsabilidade deles na criação desse novo universo da DC. Se isso vai se concretizar e se será algo positivo ou não, só o tempo e as próximas revistas da DC poderão revelar. O que vale mencionar é que em DC Universe Rebirth, Johns sabe implementar esses momentos em pontos de virada impactantes e competentes.

DC Universe Rebirth se mostra uma revista em quadrinhos com decisões editorias conscientes, além de um trabalho de despedida extremamente significativo para Geoff Johns. Mas mais do que isso, essa é a HQ que a DC precisava e procurava para implantar essa nova fase de suas revistas. Um trabalho competente, saudosista e esperançoso para os fãs, algo que os heróis da DC sempre foram, mas após um período de esquecimento merecem mais do que nunca voltar a ser.

DC Universe Rebirth #1
Roteiro: Geoff Johns
Arte: Gary Frank, Ethan Van Sciver, Ivan Reis, Joe Prado, Phil Jimenez e Matt Santorelli
Cores: Brad Anderson. Jason Wright, Hi-Fi e Gabe Eltaeb
Editora: DC Comics
Ano de Lançamento: 2016
Número de páginas: 72
Nota do resenhista: 4,5 (de 5)


Punho de Ferro, 1ª Temporada

A mais recente série da parceria Marvel/Netflix estreou sua temporada completa no serviço de streaming dividindo opiniões. Punho de Ferro é a última série solo antes da união dos personagens na série dos Defensores, programada ainda para este ano. Porém, apesar do show acertar em preparar o caminho para as próximas produções do canal, a série do Punho de Ferro fica devendo em sua execução e trama, e muitas vezes parece se perder e tropeçar nos próprios princípios.

A premissa gira em torno do protagonista Danny Rand, que sofreu um acidente de avião no Himalaia durante sua infância. O desastre causou a morte de sua mãe, Heather Rand, e seu pai, o bilionário Wendel Rand. Encontrado por dois monges, Danny é levado a cidade mística de K’un Lun, que aparece no plano terrestre apenas a cada quinze anos. Lá, o garoto é treinado para ser tornar um grande guerreiro marcial, e ao derrotar o dragão imortal Shou-Lao, conquista o poder do Punho de Ferro, a arma viva. Mas ao invés de assumir o cargo de protetor da cidade celestial, Danny volta a Nova York em busca de respostas sobre seu passado e a morte de seus pais.

O Danny Rand apresentado na série não é exatamente o guerreiro com o qual a maioria do público está acostumado nos quadrinhos. O protagonista aqui é um rapaz ingênuo, e que logo nos primeiros episódios é facilmente manipulado por todos à sua volta. Faz sentido que tal situação ocorra, visto que ele foi criado a vida toda em um monastério e não tem conhecimento sobre a vida na cidade. Porém, quanto mais o personagem descobre as tramas em que acaba caindo, menos ele aprende, e continua emaranhando-se em armações parecidas ao longo de todo show, nos fazendo questionar como uma pessoa que demora tanto para aprender com seus erros teve a disciplina e a capacidade para se tornar um dos maiores guerreiros marciais vivos. Para completar, a atuação mediana de Finn Jones não contribui para a construção do personagem, fazendo com que o público não se sinta ligado ou realmente se importe com os problemas de Danny.

Apesar de muitas reclamações quanto ao ritmo lento da temporada, os problemas da série podem ser mais atribuídos à inconstância de seus personagens e à desorientação da trama principal. Vide o caso de Joy Meachum, interpretada por Jessica Stroup, que em momentos se apresenta como uma amiga que se importa com Danny e com a atitude certa a tomar, mas em outros se mostra uma empresária sem escrúpulos e sem coração, determinada a tudo pelo sucesso da empresa. Essas mudanças na fundação da personagem em momento algum se apresentam de maneira convincente, a transformando em uma figura deveras superficial.

Para um show que tem como protagonista um artista marcial místico, a série do Punho de Ferro falha miseravelmente ao praticamente não apresentar nenhum desses elementos. K’un Lun é referenciada em todo episódio, mas as únicas coisas que realmente vemos referentes à cidade celestial são a entrada da caverna de Shou-Lao e breves aparições espirituais de Lei Kung, mestre de Danny. O próprio Danny Rand exerce o poder do Punho de maneira muito econômica ao longo do programa, usando a desculpa de que por ter abandonado a cidade celeste, não recebeu o treinamento necessário sobre a arte. Além disso, a série apresenta certas incongruências que a fazem perder credibilidade, como o fato de Danny não ter dificuldades na hora de enfrentar dezenas de faixas pretas em Kung Fu, mas apanhar com frequência para capangas solitários.

Porém, o maior problema da série não se encontra em seu protagonista e sim em seu antagonista, ou melhor dizendo, ao fato de o espectador nunca conseguir definir quem realmente é o grande vilão. Parte da crítica e do público reclamou de que no meio de sua temporada, a série do Luke Cage troca de vilão principal de maneira precipitada, fazendo com que a segunda metade seja muito inferior em qualidade. O que dizer então da série do Punho de Ferro, que troca de antagonista com frequência, sem saber definir valores para os mesmos? Sem elucidar de maneira expressiva qual a força do antagonismo que realmente devemos temer, a série acaba caindo em marasmo, penando por coerência, e tornando compreensivo o desânimo de alguns espectadores.

Apesar dessas diversas falhas, é errado dizer que a série do Punho de Ferro não acerta em momento algum. Se muitos personagens tiveram problemas em suas construções, o mesmo não pode ser dito de Colleen Wing, interpretada por Jessica Henwick. A personagem conquista o público com sua determinação e coragem, e pode ser considerada facilmente o ponto forte do programa. As cenas mais emotivas e intensas da série são carregadas de maneira extremamente competente por Colleen, já nos deixando ansiosos para revê-la futuramente em Defensores.

Os produtores também acertam na forma como encaixam Danny dentro do universo compartilhado da Marvel. As referências a Demolidor, Luke Cage e Jessica Jones não são apenas para agradar aos fãs, mas também fazem com que a série evolua como história. As participações de personagens já apresentados nas outras séries, como Jeri Hogarth (Carrie-Anne Moss) e Claire Temple (Rosario Dawson) são fundamentais para o andamento e progresso da trama. Além disso, a série dá a entender que o Tentáculo provavelmente será o vilão que juntará todos os heróis para suas próximas aventuras em Defensores. Para completar, as cenas de luta são deveras convincentes, apesar de que para uma trama que foca nas artes marciais, ainda ficam devendo para outras séries, como a do próprio Demolidor.

No fim das contas, a série do Punho de Ferro preza pela inserção do personagem no universo urbano da Marvel/Netflix e deixa de lado as origens místicas e orientais do herói, o que causa ao público uma sensação incômoda, e até mesmo o faz sentir-se levemente ludibriado. Resta esperar uma participação mais ativa e convincente do personagem na série dos Defensores, e que numa futura segunda temporada da série, caso ela exista, os produtores decidam tratar com mais atenção as origens do personagem, para que possamos conhecer melhor a cidade celeste de K’un Lun e todos os seus mistérios e desafios.

Título Nacional: Marvel Punho de Ferro (1ª Temporada)

Título Original: Marvel’s Iron Fist (1ª Temporada)

Emissora: Netflix

Ano de Lançamento: 2017

Número de episódios: 13

Nota do Resenhista: 2,5 (de 5)


A Entediante Família de Morte Crens

A HQ A Entediante Família de Morte Crens apresenta uma coletânea de tiras protagonizada pelo personagem de estreia de Gustavo Borges e uma história longa de 26 páginas, onde é mostrada a interação na desajustada família que dá nome ao álbum.

A rabugenta personificação da morte, que já estrelou A Entediante Vida de Morte Crens, se envolve em situações hilárias nas tiras, onde os pontos altos sempre são as suas interações com a personagem Vida. Gustavo não perde o tom em relação à coletânea anterior e leva o leitor a rir e, ao mesmo tempo, a refletir sobre a forma como encaramos a morte. A própria relação de amizade próxima ou paixão entre Vida e Morte Crens diz muito sobre a forma como estes dois estágios se relacionam. Afinal, a morte trabalha para a vida? A vida trabalha para a morte? Ou ambas trabalham juntas em prol do fechamento de um ciclo? Estas perguntas não são abertamente feitas no álbum, mas as atitudes dos personagens e a proximidade entre eles fazem com que estes questionamentos se manifestem na cabeça do leitor mais atento.

O roteiro das tiras, assim como a narrativa e os desenhos, mostram um crescente em relação a todos os trabalhos anteriores do autor. Sobre as cores, infelizmente, não se pode dizer o mesmo. Talvez por vontade de experimentar novas técnicas, Borges produz uma colorização inconstante nas histórias curtas, variando entre cores mais sólidas e páginas onde pode se notar um excesso de variações de tons e efeitos de degradê.

Na história longa o autor surpreende. Embora o tom seja de apresentação de personagens e o leitor fique ávido por conhecer mais os irmãos Guerra, Fome e Peste e sua interação com Morte, a história funciona sozinha. Ela tem ganchos para prováveis continuações, mas completa em si mesma o que propõe. Mais uma vez, um show de roteiro e narrativa e desenhos ótimos. Aqui, a cor não decepciona.

No entanto, mesmo que tiras e história longa funcionem muito bem como coisas separadas, há uma diferença notável entre o ritmo dos dois formatos. Não há uma ponte de roteiro ou gráfica que una as duas partes do álbum. As tiras, muitas delas brilhantes, têm potencial para segurar uma publicação inteira sozinhas, como já foi mostrado em A Entediante Vida. A trama maior, por outro lado, também poderia ter sido apresentada em uma HQ à parte. Juntos, os dois ótimos segmentos produzem uma publicação com problema de ritmo e de identidade.

Para que a nota desta resenha seja justa, é preciso que se pense que o projeto passa perto de ser excelente e que os descontos se dão especificamente por causa da inconstância na cor e da opção por juntar no álbum dois segmentos que não conversam.

Portanto, o conteúdo ainda é ótimo e vale cada centavo e tempo investidos na compra e na leitura.

A Entediante Família de Morte Crens
Roteiro e arte: Gustavo Borges
Publicação Independente
Ano de lançamento: 2016
Páginas: 80
Nota do resenhista: 4 (de 5)


Doutor Estranho (The Way of the Weird)

Esta resenha foi escrita com base no encadernado norte-americano Doctor Strange: The Way of the Weird. O arco é publicado no Brasil pela Panini Comics, desde a primeira edição da revista mensal Doutor Estranho (dezembro de 2016).

Com a chegada da iniciativa All-New, All-Different Marvel, a Marvel Comics lançou, em 2015, uma nova revista titular do Doutor Estranho. Com Jason Aaron nos roteiros e Chris Bachalo nos desenhos e nas cores, o primeiro arco do novo título, que é composto pelas cinco primeiras edições, apresenta uma nova abordagem para o Mago Supremo.

Na história, o Doutor Stephen Strange começa a notar que a presença da magia no nosso mundo não está em equilíbrio. As criaturas de outras dimensões que convivem de maneira invisível no planeta começaram a se comportar de modo estranho, e tudo fica ainda mais esquisito quando uma jovem procura o mago por causa de uma estranha cavidade em sua cabeça. Isso leva o Dr. Estranho a avisar os demais feiticeiros influentes da Terra para se prepararem para enfrentar poderosas e desconhecidas ameaças. Ele só não esperava ter de lidar com uma misteriosa organização interdimensional que almeja dizimar toda a magia presente na Terra.

Jason Aaron constrói um Stephen Strange um pouco diferente do que estamos acostumados a ver. O Dr. Estranho de Aaron é mais descontraído e gosta de seu trabalho como Mago Supremo da Terra. O arco procura construir um entretenimento mais descompromissado, focado em cenas de ação e de diálogos engraçados. É muito interessante a maneira com que o roteirista apresenta o mundo do feiticeiro, mostrando todas as “estranhezas” da mitologia do personagem. Aaron também aproveita este primeiro momento para fazer com que o leitor conheça melhor Stephen, crie empatia por ele e se importe com o Doutor. Talvez por isso a escolha de fazê-lo menos sério e mostrá-lo se divertindo com as inusitadas situações pelas quais passa com monstros e seres de outras dimensões, de forma que a identificação com um personagem tão sério e misterioso poderia ser mais complicada. A narrativa de Aaron é ágil, intercalando cenas de dois momentos diferentes e contando com alguns flashbacks para explicar situações. Apesar de muitas vezes o autor abusar dos textos nos recordatórios, que contam com uma narração em primeira pessoa de Stephen, o recurso se revela um importante e divertido adendo à história.

Chris Bachalo consegue transpor tudo o que o roteirista pretendia passar com esse novo momento do Doutor. O artista desenha criaturas realmente bizarras, com tentáculos, antenas e olhos por todos os lados. Muitas vezes, é difícil até mesmo saber quando termina o desenho de um monstro e começa o de outro. O artista aproveita as possibilidades de se trabalhar com o personagem. Alguns exemplos são a utilização de enquadramentos diferenciados, como a mescla de quadros nas cenas no Sanctum Sanctorum, e a utilização de splash pages nas cenas de batalha em que pode abusar de criaturas e cenários psicodélicos, que muitas vezes parecem escorrer das páginas. A arte-final, que fica a cargo de vários artistas, conta com um traço bruto, que deixa os desenhos com um estilo mais rústico, sem muita delimitação, o que combina com a temática de magia antiga. Bachalo, que também é responsável pela colorização, utiliza uma paleta de duas a três cores em tons escuros por página. O artista também abusa de listras de cores alternadas, que aparecem geralmente nos vários tentáculos das criaturas que desenha. Apesar de nem sempre conseguir criar uma atmosfera mais psicodélica, que é a marca registrada de várias histórias do personagem. Entretanto, Bachalo acerta mais do que erra e sua colorização imprime um clima de horror nas cenas em que o contexto pede por isso.

Além de apresentar muito bem os conceitos da mitologia do Mago Supremo e sua personalidade, o arco ainda abre as portas para uma história que parece contar com uma ameaça diferente de tudo o que já foi visto nos quadrinhos do Doutor. Com a abordagem mais leve e descompromissada, a HQ se mostra uma excelente oportunidade para novos leitores que se interessem pelo Doutor e também vem matar a vontade dos antigos fãs, que esperavam há tempos por uma nova revista que fizesse jus às fases clássicas do personagem.

Doctor Strange: The Way of the Weird
Roteiro: Jason Aaron
Desenhos e cores: Chris Bachalo
Arte Final: Tim Townsend, Al Vey, Mark Irwin, John Livesay, Wayne Faucher, Victor Olazaba e Jaime Mendoza
Letras: Core Petit
Editora: Marvel Comics
Ano de lançamento: 2016
Páginas: 136
Nota do resenhista: 5 (de 5)


Novíssima Wolverine (The Four Sisters)

Esta resenha foi escrita com base no encadernado norte-americano All-New Wolverine: The Four Sisters. O arco é publicado no Brasil pela Panini Comics, a partir do nº 5 da revista mensal Velho Logan.

Desde 2014, a Marvel Comics vem tentando instaurar em seus títulos o conceito de legado, atrelado à criação de personagens que prezem pela diversidade. Em 2015, a editora decidiu ir a fundo com isso, com a chegada da iniciativa All-New, All-Different Marvel, que foi o início para solidificar os novos heróis de legado. Um deles foi o Wolverine, dessa vez uma heroína, a clone de Logan, Laura Kinney. A responsabilidade ficou a cargo do roteirista Tom Taylor e dos artistas David Lopez e David Navarrot, que narram as 6 edições que compõem o primeiro arco da revista.

Com a morte de Logan, o manto de Wolverine ficou sem um portador. Laura Kinney, a X-23, resolve vesti-lo e se torna a nova Wolverine. Laura é um clone feminino de Logan, e o considerava um pai e um mentor. Agindo como Wolverine, Laura descobre que os laboratórios da Alchemax conseguiram criar outros clones com seu material genético. No entanto, os clones não eram perfeitos, não tendo desenvolvido o fator de cura e as garras. Apenas três clones sobreviveram aos testes da Alchemax: Bellona, Zelda e Gabby. A Wolverine decide ajudar suas “irmãs” a escaparem das maquinações da Alchemax e a descobrir uma maneira de sobreviver aos experimentos dos quais foram vítimas.

Tom Taylor demonstra aqui suas principais qualidades como roteirista: criar uma trama simples e objetiva, cheia de ação e que empolga o leitor. Todas as cenas são bem dosadas pelo escritor, mantendo uma narrativa ágil, que flui muito bem e com diálogos muito bem pensados para cada momento. Taylor consegue, em poucas páginas e em rápidos diálogos, apresentar Laura e desenvolver sua personalidade, de modo que o leitor consegue sentir carisma por ela de forma muito eficiente. Laura transpõe o rótulo da “Wolverine mulher”, ela funciona como Wolverine, exatamente por conhecer tão bem Logan e tentar ser melhor que ele. Isso é enfatizado nos divertidos encontros com o Doutor Estranho e a Vespa, em que ambos afirmam que Laura conseguiu superar os problemas de autocontrole do Carcaju original. As três irmãs clones também são ótimas, cada uma com uma personalidade diferente, que remete aos estágios da vida de Laura. Taylor ainda consegue ser muito competente nas cenas de humor, pontuando-as em momentos específicos, de forma que funcionem organicamente dentro da narrativa.

A arte de David López e David Navarrot combina muito com todo o contexto da HQ. O visual lembra um pouco o estilo de Steve Dillon, com traços simples e bem definidos, que funcionam bem em cenas mais calmas, mas ao mesmo tempo impressionam muito em quadros com violência explícita. Além disso, a expressão facial é o ponto alto da arte dos dois Davids: olhos grandes e sobrancelhas bem pontuadas fazem os personagens exprimirem seus sentimentos de maneira muito competente. Os enquadramentos das cenas de ação não trazem nada de muito novo, mas funcionam bem, de modo que a narrativa nesses momentos sempre seja objetiva e de fácil assimilação. É interessante notar que os artistas tendem a utilizar poucas splash pages e quadros em widescreen, o que é raro de se ver hoje em dia em quadrinhos mainstream. É até mesmo elogiável a capacidade de ambos de construírem cenas ótimas, tanto de ação quando de diálogos, em páginas com muitos quadros. As cores de Nathan Fairbairn adicionam muito à narrativa do quadrinho. Fairbairn utiliza geralmente uma paleta de tons acinzentados, que contrastam bem com o uniforme amarelo e azul da Wolverine. Provavelmente o contraste é proposital, de maneira que fique claro que Laura está agora em outro caminho, mais super-heróico, mesmo ainda tendo que lidar com situações sombrias e violentas. As cores são bem definidas, sem muitos tons de dégradé, o que combina com o traço simples de López e Navarrot.

Poucos negam o fato das histórias do Wolverine terem se pasteurizado ao longo do tempo, se tornando uma constante sem muitas expectativas que não envolvessem cenas genéricas com muito sangue e pancadaria. Novíssima Wolverine é um respiro para a mitologia do Carcaju, um caminho novo que respeita o antigo. Como a própria Laura diz, ela é Laura Kinney, X-23 e Wolverine. Não há pretensões de que ela substitua Logan ou seja igual a ele. Laura é uma heroína própria, que tenta, ao mesmo tempo, não deixar morrer o legado do pai. Se você não aceita isso, é bem provável que esteja perdendo uma das melhores histórias da mitologia do Wolverine.

All-New Wolverine TPB 1 (The Four Sisters)
Roteiro: Tom Taylor
Arte: David López, David Navarro e Nathan Fairbairn (cores)
Editora: Marvel Comics
Ano de lançamento: 2016
Páginas: 136
Nota: 4,5 (de 5)


Kid Eternidade

Kid Eternidade conta a história de Jerry Sullivan, um comediante que entra no meio do fogo cruzado entre Kid Eternidade e os Shichiriron, seres sobrenaturais que vieram do inferno. Ainda que com muita relutância, Jerry aceita ajudar Kid a achar os mapas do inferno para liberar Sr. Keeper de sua prisão e, quem sabe, impedir mais mortes. Bom, isso tudo parece confuso e não te diz o que afinal é Kid Eternidade? As coisas vão se explicar e você vai saber o que precisa saber com apenas um nome: Grant Morrison.

A intrigante minissérie do roteirista junto com o arista Duncan Fegredo publicada em 1991 sai agora pela Panini em capa dura, numa edição de luxo de 160 páginas. Ainda que o peso do nome do autor na capa seja suficiente para despertar atenção, vale a pena contextualizar um pouco da trajetória do personagem até chegar nas mãos de Morrison.

Criado por Otto Binder e Sheldon Moldoff em 1942, Kid Eternidade era um menino que viajava com seu avô quando foi morto em um bombardeiro durante a 2ª Guerra. O problema é que na ordem das coisas Kid deveria viver mais 75 anos, então Sr. Keeper, o encarregado de regular quem vive e quem morre, lhe deu o dom de invocar personagens históricos ao gritar a palavra “eternidade”, como um pedido de desculpas celestial. O personagem era coadjuvante da revista do Capitão Marvel, mas Morrison tirou todo o clima leve e elevou a estranheza e morbidez do personagem ao máximo.

Na época do surgimento das primeiras HQs adultas da DC Comics, que viriam a se tornar parte do selo Vertigo em 1993, antigos personagens da editora foram reformulados. Após a estrondosa fase do Alan Moore no Monstro do Pântano, Shade, Cain e Abel, Homem-Animal, a equipe da Patrulha do Destino e vários outros ganharam um ar mais maduro, sombrio e surreal. E foi assim que Morrison assumiu o destino de Kid.

Um dos seus primeiros trabalhos na DC e, consequentemente, no embrião da Vertigo, Kid Eternidade já possui suas principais marcas, como o texto complexo, o surrealismo e o misticismo. Morrison é conhecido pelas histórias “difíceis” de entender, mas aqui soube muito bem dosar a loucura, criando uma trama onde tudo se encaixa no final. Entretanto, é aí que mora o único defeito da obra.

O escritor constrói uma história envolvente, cujo encaminhamento faz esperar por um desfecho épico, mas infelizmente a solução final é tão rápida quanto uma facada de um maníaco homicida, para citar uma cena recorrente na HQ. Mesmo com todas as pontas amarradas, Kid Eternidade fica devendo o clímax e a “evolução” da humanidade, conceito melhor trabalhado em uma continuação da minissérie, escrita pela Ann Nocenti e com a arte do fantástico Sean Phillips, ainda inédita no Brasil.

Falando em arte, o grande trunfo de Kid Eternidade é o traço de Duncan Fegredo. Ao misturar aquarela com um estilo hachurado e abusar dos tons de azul e vermelho, Fegredo passa todo o clima claustrofóbico que a história pede. Sua visão do inferno e dos demônios que habitam o lugar parece ter se inspirado visualmente na obra Hellraiser, do autor/pintor Clive Baker, e tal caracterização consegue deixar o leitor desconfortável, principalmente pela escolha das cores. Destaque ainda para as capas da minissérie, que ao se juntarem formam o rosto de Kid Eternidade.

Originalmente publicada no Brasil em uma minissérie em três partes pela Metal Pesado, Kid Eternidade sai agora em formato de encadernado pela Panini. A nova edição está de parabéns pelo tratamento dado à obra, que conta com capa dura e diversos esboços do artista nos extras. Aliás, a Panini acertou em cheio ao optar pelo papel couchê, que realça ainda mais a arte e as cores de Fegredo.

Com boas ideias e uma arte fabulosa, mas um final que deixa a desejar, Kid Eternidade mostra que até mesmo os grandes podem derrapar de vez em quando. Ainda assim, se você é um dos fãs mais fervorosos de Morrison, ou quer simplesmente conferir algo incrivelmente bem ilustrado e um pouco perturbador, Kid Eternidade não deixa de ser uma boa pedida.

Título nacional: Kid Eternidade
Roteiro: Grant Morrison
Arte e cores: Duncan Fregredo
Editora: Panini
Ano de Lançamento: 2017
Número de páginas: 160
Nota do resenhista: 4 (de 5)


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