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A Entediante Família de Morte Crens

A HQ A Entediante Família de Morte Crens apresenta uma coletânea de tiras protagonizada pelo personagem de estreia de Gustavo Borges e uma história longa de 26 páginas, onde é mostrada a interação na desajustada família que dá nome ao álbum.

A rabugenta personificação da morte, que já estrelou A Entediante Vida de Morte Crens, se envolve em situações hilárias nas tiras, onde os pontos altos sempre são as suas interações com a personagem Vida. Gustavo não perde o tom em relação à coletânea anterior e leva o leitor a rir e, ao mesmo tempo, a refletir sobre a forma como encaramos a morte. A própria relação de amizade próxima ou paixão entre Vida e Morte Crens diz muito sobre a forma como estes dois estágios se relacionam. Afinal, a morte trabalha para a vida? A vida trabalha para a morte? Ou ambas trabalham juntas em prol do fechamento de um ciclo? Estas perguntas não são abertamente feitas no álbum, mas as atitudes dos personagens e a proximidade entre eles fazem com que estes questionamentos se manifestem na cabeça do leitor mais atento.

O roteiro das tiras, assim como a narrativa e os desenhos, mostram um crescente em relação a todos os trabalhos anteriores do autor. Sobre as cores, infelizmente, não se pode dizer o mesmo. Talvez por vontade de experimentar novas técnicas, Borges produz uma colorização inconstante nas histórias curtas, variando entre cores mais sólidas e páginas onde pode se notar um excesso de variações de tons e efeitos de degradê.

Na história longa o autor surpreende. Embora o tom seja de apresentação de personagens e o leitor fique ávido por conhecer mais os irmãos Guerra, Fome e Peste e sua interação com Morte, a história funciona sozinha. Ela tem ganchos para prováveis continuações, mas completa em si mesma o que propõe. Mais uma vez, um show de roteiro e narrativa e desenhos ótimos. Aqui, a cor não decepciona.

No entanto, mesmo que tiras e história longa funcionem muito bem como coisas separadas, há uma diferença notável entre o ritmo dos dois formatos. Não há uma ponte de roteiro ou gráfica que una as duas partes do álbum. As tiras, muitas delas brilhantes, têm potencial para segurar uma publicação inteira sozinhas, como já foi mostrado em A Entediante Vida. A trama maior, por outro lado, também poderia ter sido apresentada em uma HQ à parte. Juntos, os dois ótimos segmentos produzem uma publicação com problema de ritmo e de identidade.

Para que a nota desta resenha seja justa, é preciso que se pense que o projeto passa perto de ser excelente e que os descontos se dão especificamente por causa da inconstância na cor e da opção por juntar no álbum dois segmentos que não conversam.

Portanto, o conteúdo ainda é ótimo e vale cada centavo e tempo investidos na compra e na leitura.

A Entediante Família de Morte Crens
Roteiro e arte: Gustavo Borges
Publicação Independente
Ano de lançamento: 2016
Páginas: 80
Nota do resenhista: 4 (de 5)

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