reviews

Kid Eternidade

Kid Eternidade conta a história de Jerry Sullivan, um comediante que entra no meio do fogo cruzado entre Kid Eternidade e os Shichiriron, seres sobrenaturais que vieram do inferno. Ainda que com muita relutância, Jerry aceita ajudar Kid a achar os mapas do inferno para liberar Sr. Keeper de sua prisão e, quem sabe, impedir mais mortes. Bom, isso tudo parece confuso e não te diz o que afinal é Kid Eternidade? As coisas vão se explicar e você vai saber o que precisa saber com apenas um nome: Grant Morrison.

A intrigante minissérie do roteirista junto com o arista Duncan Fegredo publicada em 1991 sai agora pela Panini em capa dura, numa edição de luxo de 160 páginas. Ainda que o peso do nome do autor na capa seja suficiente para despertar atenção, vale a pena contextualizar um pouco da trajetória do personagem até chegar nas mãos de Morrison.

Criado por Otto Binder e Sheldon Moldoff em 1942, Kid Eternidade era um menino que viajava com seu avô quando foi morto em um bombardeiro durante a 2ª Guerra. O problema é que na ordem das coisas Kid deveria viver mais 75 anos, então Sr. Keeper, o encarregado de regular quem vive e quem morre, lhe deu o dom de invocar personagens históricos ao gritar a palavra “eternidade”, como um pedido de desculpas celestial. O personagem era coadjuvante da revista do Capitão Marvel, mas Morrison tirou todo o clima leve e elevou a estranheza e morbidez do personagem ao máximo.

Na época do surgimento das primeiras HQs adultas da DC Comics, que viriam a se tornar parte do selo Vertigo em 1993, antigos personagens da editora foram reformulados. Após a estrondosa fase do Alan Moore no Monstro do Pântano, Shade, Cain e Abel, Homem-Animal, a equipe da Patrulha do Destino e vários outros ganharam um ar mais maduro, sombrio e surreal. E foi assim que Morrison assumiu o destino de Kid.

Um dos seus primeiros trabalhos na DC e, consequentemente, no embrião da Vertigo, Kid Eternidade já possui suas principais marcas, como o texto complexo, o surrealismo e o misticismo. Morrison é conhecido pelas histórias “difíceis” de entender, mas aqui soube muito bem dosar a loucura, criando uma trama onde tudo se encaixa no final. Entretanto, é aí que mora o único defeito da obra.

O escritor constrói uma história envolvente, cujo encaminhamento faz esperar por um desfecho épico, mas infelizmente a solução final é tão rápida quanto uma facada de um maníaco homicida, para citar uma cena recorrente na HQ. Mesmo com todas as pontas amarradas, Kid Eternidade fica devendo o clímax e a “evolução” da humanidade, conceito melhor trabalhado em uma continuação da minissérie, escrita pela Ann Nocenti e com a arte do fantástico Sean Phillips, ainda inédita no Brasil.

Falando em arte, o grande trunfo de Kid Eternidade é o traço de Duncan Fegredo. Ao misturar aquarela com um estilo hachurado e abusar dos tons de azul e vermelho, Fegredo passa todo o clima claustrofóbico que a história pede. Sua visão do inferno e dos demônios que habitam o lugar parece ter se inspirado visualmente na obra Hellraiser, do autor/pintor Clive Baker, e tal caracterização consegue deixar o leitor desconfortável, principalmente pela escolha das cores. Destaque ainda para as capas da minissérie, que ao se juntarem formam o rosto de Kid Eternidade.

Originalmente publicada no Brasil em uma minissérie em três partes pela Metal Pesado, Kid Eternidade sai agora em formato de encadernado pela Panini. A nova edição está de parabéns pelo tratamento dado à obra, que conta com capa dura e diversos esboços do artista nos extras. Aliás, a Panini acertou em cheio ao optar pelo papel couchê, que realça ainda mais a arte e as cores de Fegredo.

Com boas ideias e uma arte fabulosa, mas um final que deixa a desejar, Kid Eternidade mostra que até mesmo os grandes podem derrapar de vez em quando. Ainda assim, se você é um dos fãs mais fervorosos de Morrison, ou quer simplesmente conferir algo incrivelmente bem ilustrado e um pouco perturbador, Kid Eternidade não deixa de ser uma boa pedida.

Título nacional: Kid Eternidade
Roteiro: Grant Morrison
Arte e cores: Duncan Fregredo
Editora: Panini
Ano de Lançamento: 2017
Número de páginas: 160
Nota do resenhista: 4 (de 5)

Leia Também

Redação Multiverso é o site colaborativo de produção de conteúdo sobre quadrinhos
da Produtora Multiverso, em uma iniciativa paralela e complementar à realização da
ComicCON RS – principal convenção de quadrinhos e cultura pop do Rio Grande do Sul.