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Thor: Ragnarok – Divertido e competente, mas digno do hype?

É muito provável que Thor: Ragnarok tenha sido o filme da Marvel que mais tenha gerado expectativa pré-lançamento nos últimos anos, e isso não é para menos. A escolha inusitada de seu diretor, a grande quantidade de personagens célebres das HQs em seu elenco e as peças promocionais coloridas e cativantes, prometiam que o terceiro filme do Deus do Trovão seria uma obra digna de atenção, não apenas do grande público como também da mídia especializada. Logo que o primeiro trailer saiu, embalado por Led Zeppelin, essas expectativas foram jogadas às alturas, causando alvoroço entre os fãs que ansiavam ter, finalmente, um filme significante do personagem. Porém, apesar de ser de fato um grande filme, Thor Ragnarok fica um pouco abaixo das expectativas, mas não pela falta, e sim pelo exagero.

Na trama, após deixar a Terra, ao final de Vingadores: Era de Ultron, e partir em busca das Joias do Infinito, Thor se depara com os Nove Reinos em conflito e desordem. Ao voltar a Asgard, sua terra natal, o deus nórdico acaba descobrindo que Odin, seu pai, não está mais no trono e a chegada da vilã Hela (Cate Blanchett) irá fazer o herói não apenas enfrentar seu maior desafio, como também ter de empenhar todos os seus esforços para evitar o Ragnarok, o fim dos tempos na mitologia nórdica.

Já de cara, a primeira cena do filme explica em poucas linhas o que aconteceu com Thor no tempo em que esteve ausente, e nos presenteia com um ritmo ágil e articulado, que perdurará ao longo de toda a trama, fazendo com que as duas horas do longa passem de maneira fluída e despercebida. Além disso, essa primeira sequência também nos apresenta aquela que provavelmente pode ser considerada a melhor cena de luta do personagem nos cinemas, usando seu martelo, Mjolnir, de maneira inteligente e arrebatadora.

As cenas de luta de Thor Ragnarok merecem seu devido destaque. As coreografias criadas para o longa sabem demonstrar a personalidade característica de cada indivíduo, fazendo com que elas nunca aparentem mesmice ou marasmo. Vale destacar a principal luta do longa, o esperado confronto entre Thor e Hulk que, apesar de namorar com o previsível, não deixa o ritmo cair em momento algum, nos entregando algo capaz de suprir as expectativas do público e fazê-los sair do cinema satisfeitos com a sequência. Porém, é quando começamos a falar sobre os personagens do longa que o terreno começa a ficar um tanto quanto pantanoso.

O filme pesa um pouco a mão ao contar a relação de Thor (Chris Hemsworth) e Loki (Tom Hiddleston), pendendo a história quase que exclusivamente para o campo da comédia e parecendo se esquecer momentaneamente dos momentos dramáticos entre ambos apresentados no longa anterior do personagem. Tanto que a cena em questão é representada nesse filme de uma maneira genial, porém novamente inclinando-se ao lado humorístico. Apesar da boa caracterização, e de nos apresentar uma nova e interessante personalidade do Incrível Hulk de maneira competente, o mesmo não pode ser dito de seu alter-ego, Bruce Banner (Mark Ruffalo). O personagem aparece descaracterizado, praticamente ignorando seu lado cientista e servindo apenas como uma muleta cômica, e está tão desnorteado que chega a causar um certo incômodo no espectador, caso ele se prenda demais às falas deslocadas de Banner. Vale mencionar também que a participação do Dr. Estranho no filme é outra que se apresenta deveras deslocada, quase desnecessária.

Apesar disso, essas caracterizações equivocadas acabam passando despercebidas se levarmos em conta o talento de Cate Blanchett, que rouba a cena com sua Hela. A atriz parece realmente ter se encontrado no personagem e reina absoluta na maioria das cenas em que aparece. Quando Hela está em tela o espectador se vê automaticamente atraído para a vilã, tendo certeza que qualquer coisa pode acontecer ou advir de seus atos. Muitos já discutem se Hela pode ter roubado o posto de seu conterrâneo asgardiano, Loki, e se tornando a maior vilã do universo Marvel nos cinemas, uma afirmação que encontra fundamento no caráter implacável e destruidor da personagem.

Porém, é impossível falar de Thor Ragnarok sem mencionar seu diretor, Taika Waititi, do qual este que vos fala é um enorme fã. Quem já é conhecedor do trabalho do cineasta sabe que Taika é dono de um estilo humorístico bastante peculiar. Com uma comicidade que pende um pouco para o infantil, porém com um timing bastante acurado, os filmes de Taika costumam ser muita mais conhecidos pelos seus textos e situações divertidas do que por qualquer dramaticidade recorrente, e esse é o problema aqui. Apesar do humor do diretor se encaixar perfeitamente em filmes menores, ele parece um pouco deslocado e até mesmo exagerado nesse blockbuster. Que o filme é divertido e irá arrancar diversas gargalhadas de seu público não há dúvidas, o diretor sabe usar a veia cômica de seu protagonista Chris Hemsworth para compor de maneira competente suas piadas. O problema é que algumas delas acabando se tornando gratuitas demais, e outras parecem ter sido encaixadas a força no contexto. É quando o longa precisa declinar para o lado dramático que se percebe com ainda mais clareza certa deficiência de Taika em apresentar uma trama com mais profundidade, e o Ragnarok acaba sendo tratado mais como um efeito colateral pelos personagens, do que como o declínio de um reino inteiro.

Vale mencionar também que Taika adora fazer participações especiais em seus longas, e aqui o diretor faz a voz e a captura de movimentos do gigante de pedra Korg, que ganha uma personalidade cômica acentuada e bem diferente de sua versão nos quadrinhos.

No fim das contas, Thor: Ragnarok tem saldo positivo. É um filme competente e divertido, que deve agradar ao público geral sem muita dificuldade. Ele é de fato o melhor filme do herói no cinema, mas, verdade seja dita, esse não era um título assim tão difícil de conquistar se avaliarmos os longas anteriores. Fica apenas o gosto amargo na boca de saber que Thor: Ragnarok tinha tudo para se tornar um dos maiores filmes da Marvel de todo os tempos, e, apesar de ter chegado perto disso, acabou não se mostrando digno.

Título: Thor: Ragnarok
Direção: Taika Waititi
Roteiro: Eric Pearson, Craig Kyle e Cristopher Yost.
Ano de Lançamento: 2017
Nota do Resenhista: 3,5 (de 5)

Ps: Parece que a Marvel Studios finalmente aprendeu a esconder um pouco mais o jogo nas peças publicitárias de seus filmes. Os trailers e vídeos que promoviam o longa foram espertos ao não revelar demais a trama do filme, além de simular e enganar o público com cenas e montagens fora de ordem, ou com leves diferenças da versão final. Ponto para a equipe de marketing.

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