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Gabriel Andrade, o parceiro brasileiro de Alan Moore

Imagine ver seu nome impresso ao lado daquele que muitos consideram ser o maior roteirista de quadrinhos de todos os tempos. Ser um artista brasileiro na lista de parceiros de Alan Moore já seria um grande feito, mas há um detalhe que torna o episódio vivido por Gabriel Andrade Jr. ainda mais especial: não foi sorte, decisão da editora ou mero acaso, mas uma escolha do próprio Moore, que viu seu trabalho no especial God is Dead para a Avatar e sugeriu que ele desenhasse sua versão de Crossed, polêmica criação de Garth Ennis que já passou pelas mãos de diversas equipes criativas, e foi assinada pela dupla no final de 2014.

Desenhista autodidata natural do Rio Grande do Norte, há anos Gabriel desenvolve ilustrações para as revistas em quadrinhos da editora norte-americana Avatar Press, mas ganhou mesmo a notoriedade merecida após trabalhar ao lado do britânico no arco inicial de Crossed+One Hundred, ainda inédito no Brasil. Além disso, ele lança seu sketchbook na CCXP desse ano e tem planos de publicar sua primeira HQ completamente autoral em breve. Conheça aqui um pouco mais desse artista brasileiro cuja arte foi capaz de despertar a atenção do mago dos quadrinhos.

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Recentemente Alan Moore confirmou que pretende se aposentar dos quadrinhos. Como você se sente sendo dos últimos artistas a trabalhar com o mestre?

É uma honra, para qualquer um, trabalhar com o grandes autores como o senhor Alan Moore, mas acima disso, foi um enorme aprendizado. De certa forma, é sempre um pouco triste quando grandes nomes se retiram. Tenho um enorme carinho pelo trabalho que fizemos.

Você foi escolhido pelo próprio Moore para trabalhar em Crossed! Conte como foi essa história e o que passou pela sua cabeça, a pressão foi diferente? Com toda a fama de difícil, detalhista e exigente, como foi o processo e como você lidou com as exigências do roteiro?

Trabalhamos no especial God is Dead da Avatar, em contos diferentes. O Editor chefe William, apresentou meu trabalho a ele e logo ficamos acertados de desenvolver a nova série. De cara eu já estava super empolgado com o projeto, e quando comecei a ler as primeiras recomendações e informações introdutórias, percebi que tinha algo muito legal nas mãos. Roteiros estavam bastante detalhados e muito bem escritos, porém, eu fui deixado bem livre pra criar os cenários e aparência dos personagens, inclusive na colorização desses. Mesmo os roteiros sendo bem específicos, quanto a câmera e layout, em todas as edições eu fiz diversas alterações, no ângulo, nos closes, nas ideias de design de cenário, tudo em prol da narrativa.

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O trabalho de pesquisa nesse trabalho foi muito específico, pois os ambientes são versões de cidades reais. Mas eu queria que tudo fosse bastante orgânico e irregular. Praticamente não usei régua na finalização dessa série, talvez apenas na feitura dos quadros. Muitos dos materiais e objetos são imaginados a partir de objetos reais reaproveitados, dessa forma, casas, veículos, móveis, todos adaptados. Nesse sentido houve muito trabalho. No final, Eu realmente senti a história acontecer. Foi muito estimulante, pelo texto, e extremamente cansativo, pelo prazo. Amei esse trabalho.

Você já era fã de Alan Moore? Com quem mais você gostaria de trabalhar? E quem são suas principais influências no meio?

Sim, eu já conhecia seu trabalho e importância no universo das Hq’s. Mas foi quando li, em 2005, o seu trabalho em “V de Vingança” que eu me tornei realmente fã dele. Nunca parei pra pensar com quem eu gostaria de trabalhar, prefiro que as coisas aconteçam. Costumo dizer que o meu traço possui influências de, pela ordem, John Buscema, John Romita Sr, Garcia Lopes, Jim Lee, Katsuhiro Otomo, Clamp, Milo Manara, Moebius, Alberto Gennari, Mike Deodato, Serpiere, Frank Cho e Adam Hughes.

Você é desenhista autodidata, certo? Quais são as dicas essenciais que você daria a quem deseja seguir esse caminho, levando em conta o seu próprio processo de aprendizado?

Praticar todos os dias e sempre. Costumo dizer que 25 anos de prática ajudam muito! Eu sempre tive essa paixão enorme por desenhar, mas nunca fui muito bom nisso, então resolvi investir mais tempo nessa atividade que me proporcionava horas muito felizes. Quando cresci, o que era uma brincadeira tornou-se algo cada vez mais elaborado e comecei a ver que isso me destacava dos demais. Eu sempre estudei desenhando as coisas que via na rua, pessoas, carros, animais, essas coisas. Mas foi só quando os primeiros trabalhos começaram a surgir que eu comecei a levar isso realmente a sério. Também ajuda muito fazer um curso de HQ. Hoje temos muitas escolas de HQ espalhadas pelo Brasil.

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Como é que você saiu da música e foi parar nos quadrinhos? Você encontra relação entre essas duas artes? A música faz parte do seu processo de produção, ajuda a inspirar, se concentrar?

Eu fazia faculdade de Música Erudita, e, eu não sabia que poderia trabalhar para revistas em quadrinhos; não sabia como chegar lá. A minha vontade maior era trabalhar como ilustrador. Eu nunca tinha feito quadrinhos até começar a trabalhar com quadrinhos. Foi com a ajuda de alguns amigos que comecei a mandar amostra de ilustrações para editoras e agências. Quando os primeiros trabalhos surgiram eu tive que largar a faculdade. Eu fui chamado então pela Avatar para desenhar a série da Lady Death em 2010 e me tornei exclusivo da editora até então. Durante o processo de trabalho eu ouço de tudo: Jazz, Blues, Rock, Metal, Óperas, clássicos, alternativos. Gosto de ouvir trilhas sonoras. Mas muitas vezes, quando já estou finalizando as tintas, gosto de ouvir podcasts.

Quais são as peculiaridades de trabalhar com adaptações do cinema? Você já era fã das franquias ou precisou mergulhar nos filmes como forma de estudo? Além de Alien e Duro de Matar, que outra série cinematográfica você gostaria de adaptar para os quadrinhos?

Não há muito segredo, só precisei focar no design da produção de cada filme, e, no caso do Die Hard, manter a aparência do ator principal. Eu gostaria de adaptar Blade Runner.

Como grande fã de cinema, o que você pensa das recentes adaptações vindas dos quadrinhos? Que obra você acha que daria um grande filme? Se pudesse escolher um trabalho seu para ver no cinema, qual seria?

Gosto de uma boa parte do que está sendo feito no cinema, principalmente por serem um bom entretenimento, não sou um grande fã do gênero “super herói”, mas sei sua importância para o mercado atual. Mas sinto que há coisas muito melhores nas HQs sendo adaptado para o cinema e que não tem a mesma visibilidade. Tem um mangá muito interessante chamado EDEN. Acredito que seria um bom filme. Eu gostaria muito de ver a história que estou escrevendo “Dried Roots” em uma série de filmes (risos), pois a história nasceu com essa pretensão.

Lady Death é uma personagem que tem um público bastante fiel nos EUA, e fez parte da trajetória de outros brasileiros de renome como Mike Deodato Jr. e Ivan Reis. Como foi desenhar a série? Serviu como vitrine e te abriu portas?

Era pura diversão, Desenhar mulheres e monstros sempre foi muito natural pra min. Esse trabalho me abriu as portas da Avatar Press, enquanto crescia a confiança dos editores no meu trabalho.

Você possui um contrato de exclusividade com a Avatar Press, que publica temas bem variados, mas tem vontade de trabalhar com super-heróis clássicos como os da Marvel e da DC? Se tivesse a oportunidade que título escolheria? E no mercado europeu?

Eu sempre preferi o mercado europeu, mas não faço questão, trabalho é trabalho. Embora não me identifique com a temática dos super heróis, entendo que pra ter algum tipo de reconhecimento, principalmente aqui no Brasil, precisa ter trabalhado em alguma das grandes. Se puder escolher eu prefiro os Heróis da DC. Mulher-Maravilha sempre foi minha preferida.

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Você fez uma capa variante como recompensa da HQ Saint Alamo, projeto gaúcho que esteve em campanha no Catarse. O que acha do financiamento coletivo como recurso para quem está começando? E como vê a importância do incentivo de artistas consolidados aos novos talentos, você teve algum respaldo desse tipo quando começou?

O financiamento coletivo, de certa forma, tem ajudado no crescimento do mercado de Hqs aqui no Brasil. Isso é bom para todos. Quando eu estava apenas sonhado em entrar no mercado e as oportunidades para apresentar portfólio e fazer meu trabalho visível começaram a surgir, não existia nada disso e levar a frente uma HQ autoral era muito mais dificil. Como eu não sabia nada sobre a área, eu tive a ajuda dos meus amigos Milena Azevedo (Roteirista e curadora do site GHQ), Miguel Rude (Artista e Roteirista de quadrinhos) e Wendell Cavalcante (Artista e Roteirista de quadrinhos). Eles já trabalhavam para o mercado foram meus gurus no início de tudo. Eu não vejo o artista de quadrinhos como uma celebridade inacessível, e ajudar quem está começando, é legal, não dói e só incrementa na qualidade do que será publicado no futuro.

O que pode contar sobre o trabalho autoral que está desenvolvendo? Você pretende lançar Dried Roots no Brasil? Tem intenção de se dedicar ao mercado brasileiro ou seu foco é mesmo a produção para editoras estrangeiras?

Dried Roots Será uma mine série de ficção científica em 4 ou 5 partes. No primeiro momento, conta a história de 4 personagens lidando com questões distintas na organização social futurista, depois partiremos para uma jornada através o mundo. A primeira idéia para Dried Roots nasceu em 2004 enquanto eu ouvia o disco, “Dead Heart in a Dead World” do Nevermore. Inspiração que demorou alguns anos para amadurecer, junto comigo. No princípio, seria um livro de contos, mas a ideia de fazer um quadrinho me pareceu muito melhor, então reuni tudo em uma única história. Eu sempre quis publicar algo meu no Brasil. Dried Roots sairá primeiro aqui, pois ainda não sei sobre a possibilidade de levar para o estrangeiro.

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