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O Batman de Eddy Barrows no Renascimento

*Review de Detective Comics: A Ascensão dos Homens-Morcego

Um dos títulos mais antigos da DC Comics ainda em publicação, Detective Comics sempre teve que se renovar continuamente para permanecer relevante dentro do mercado. A proposta do roteirista James Tynion IV na nova fase do título dentro da iniciativa DC Renascimento foi acolher os personagens da Bat Família e reuni-los em uma equipe de protetores de Gotham. Ao lado dos artistas Eddy Barrows e Álvaro Martinez, Tynion não somente cria um belo grupo em 7 edições, como também consegue explorar a fundo os personagens ao seu dispor.

Na trama, o Batman decide formar uma equipe com os vigilantes de Gotham após descobrir que uma série de drones começaram a acompanhar todos os heróis da cidade. Com a ajuda da Batwoman, ele agrega ao time Robin Vermelho, Spoiler, Orfã e Cara-de-Barro. Juntos, o grupo precisa descobrir o mistério por trás dos drones, ao mesmo tempo em que cada um dos membros tem de lidar com seus problemas e dúvidas pessoais.

Se passando entre as edições #934 a #940 de Detective Comics, A Ascensão dos Homens-Morcego é uma bem-sucedida aposta na interação entre os membros disfuncionais da Bat Família. Tynion IV escreve um roteiro bem estruturado, que constrói a trama principal aos poucos, gerando suspense e curiosidade, e que ainda aprofunda a personalidade dos personagens que participam da história. Kate Kane, a Batwoman, é um dos focos principais, aparecendo como uma heroína que sempre se mostra forte e decidida. Ao mesmo tempo, vemos seus conflitos mais internos, como a relação conturbada com o pai e seus relacionamentos amorosos fracassados. É interessante notar como Tynion explora bem as características de cada personagem, encaixando-os estrategicamente dentro da equipe de vigilantes. A presença do ex-criminoso Cara-de-Barro é uma adição bem-vinda, servindo de alívio cômico e faz-tudo do grupo. A revelação do mistério pode não ser surpreendente, mas se desenvolve de maneira orgânica e é plausível ao final. Um dos problemas do roteirista se dá em alguns diálogos por demais expositivos. Não apenas em diálogos, mas o uso de recordatórios com pensamentos em primeira pessoa são tão exagerados que por vezes chegam a atrapalhar o desenho.

A arte se divide entre os desenhistas Eddy Barrows e Alvaro Martinez. Barrows desenha as duas primeiras e as duas últimas edições e apresenta uma arte que marca presença. Seus quadros de ação são admiráveis e seu uso dinâmico de posições dos personagens dá a impressão de que os mesmos estão saindo da página. O uso de luz e sombra dá noções de profundidade realistas e casa perfeitamente com o clima urbano e noturno que a revista passa. Barrows utiliza um ou outro quadro com um personagem pintado em aquarela, o que transmite um charme próprio para sua arte. A parceria já conhecida com o arte-finalista Eber Ferreira marca um traço mais denso e definido, conhecido da dupla.

O trabalho de Martinez nas três edições que desenha não deixa a desejar. Diferente de Barrows e Ferreira, Martinez traz, ao lado do arte-finalista Raúl Fernandez, um traço mais fino, mas que mantém o estilo realista e soturno da equipe anterior. Martinez prefere utilizar mais quadros por página para compor a narrativa, o que funciona principalmente para cenas de ação de personagens como a Orfã. No entanto, este método do desenhista muitas vezes causa a impressão de que a página está muito cheia, poluída com muitas cenas, o que se agrava com a já mencionada alta quantidade de balões e recordatórios. Não chega a trancar a fluidez da história, mas pode causar estranhamento por diferenciar de Barrows, que prefere páginas duplas com quadros mais espaçados. As cores de Adriano Lucas e de Brad Anderson combinam perfeitamente com a arte que cada um acompanha. A paleta de ambos bebe de tons escuros, com preto e cinza geralmente predominando, e muito bem dosados e contrastados com as demais cores utilizadas.

Publicado recentemente pela Panini nas quatro primeiras edições da mensal Detective Comics, A Ascensão dos Homens-Morcego é uma história muito eficiente da Bat Família. Com uma trama densa e bem construída, acompanhada de um bom desenvolvimento de personagens e trazendo momentos cômicos e dramáticos na medida certa, o primeiro arco da tradicional revista dentro do Renascimento é um deleite para os fãs do universo do Batman. Um resgate de conceitos que pareciam abandonados com os Novos 52, o trabalho de Tynion IV com os membros da Bat Família é muito bem-vindo em uma época de retomada de boas ideias.

 

Detective Comics: A Ascensão dos Homens-Morcego

Roteiro: James Tynion IV

Desenhos: Eddy Barrows e Alvaro Martinez

Arte-Final: Eber Ferreira e Raúl Fernandez

Cores: Adriano Lucas e Brad Anderson

Letras: Valéria Calipo

Editora: Panini Comics/DC Comics

Ano de lançamento: 2016

Páginas: 176

Nota do Resenhista: 5 (de 5)

 


O Caçador de Marte por Eddy Barrows

Esta resenha foi escrita com base nos encadernados norte-americanos Martian Manhunter: The Epiphany e Martian Manhunter: The Red Rising

Por muito tempo considerado um dos pilares do Universo DC, J’onn J’onzz, o Caçador de Marte, perdeu seu posto de membro fundador da Liga da Justiça para o Ciborgue depois do reboot dos Novos 52. Apesar de sempre presente em uma ou outra publicação, J’onn foi colocado para escanteio por um bom tempo, até finalmente ganhar uma revista própria na iniciativa DC You, em 2015, com roteiros de Rob Willians (Esquadrão Suicida) e desenhos do brasileiro Eddy Barrows (Detective Comics).

Em The Epiphany e The Red Rising, os dois arcos que compõem todo o run, vemos J’onn revelando sua verdadeira origem e as consequências disso. Ele não é o último sua raça. Ao contrário, o Caçador foi o resultado de uma criação dos marcianos, uma arma enviada à Terra para preparar o terreno para uma grande invasão que tem como objetivo fazer a sociedade marciana viver novamente. Mas, para isso ocorrer, toda a vida terrestre tem que perecer. No meio disso tudo, quatro personagens muito diferentes e uma garotinha se veem envolvidos na invasão por algum motivo misterioso.

O roteiro de Willians se mostra muito competente e até acima da média durante o primeiro arco, The Epiphany. O escritor consegue apresentar personagens muito carismáticos que transmitem empatia facilmente, cada um de uma maneira única. É também elogiável a maneira como Willians orquestra o mistério que envolve os quatro coadjuvantes, que, por mais que sua solução pareça lógica em certo momento, prende o leitor e o faz se importar com a história. O conflito de J’onn, que o faz se questionar sobre seu papel como herói, mostra-se crível e leva a uma consequência bem inesperada. Deve-se notar o ótimo desempenho de Willians na construção e dosagem de cenas de ação, com diálogos certeiros que casam muito bem na situação.

No entanto, o nível do roteiro decai muito no segundo arco, The Red Rising. Aqui, todo o mistério dos coadjuvantes é revelado e os mesmos se tornam os principais protagonistas. Infelizmente, o escritor perde um pouco seu foco, esquecendo as várias referências muito bem casadas de ficção científica e até mesmo de terror que utilizava no primeiro arco. A exploração dos personagens e seu desenvolvimento são substituídos por tomadas medíocres de ação, com direito a um vilão extremamente estereotipado e a uma luta de robôs gigantes. Willians ainda acerta em alguns momentos, chegando até mesmo a emocionar com algumas cenas, mas o estrago foi muito grande para ser remediado. Para completar, um plot twist desnecessário faz muito da história perder seu sentido e pode fazer alguns leitores se sentirem até mesmo lesados.

Eddy Barrows é o responsável pelos desenhos de quase todas as 12 edições do run. Barrows possui uma técnica de narrativa incrível, muito ágil e dinâmica, o que faz render excelentes cenas de ação. Seu uso de luz e sombra proporciona quadros muito bonitos e com noções de profundidade realistas. O artista consegue desenhar seres humanos normais com maestria e precisão anatômica ao mesmo tempo em que cria designs bizarros e criativos para os alienígenas. Sua parceria com Eber Ferreira na arte final cria um traço bem maleável, o que é perfeito para um personagem como J’onn, que passa por diversas transformações durante a história. Um dos principais méritos de Barrows é fazer com que as figuras esquisitas, que se moldam, retorcem, derretem e alargam pareçam reais, de forma que você acredita na arte e a vê como uma perfeita retratação de como seria se aquelas criaturas existissem no mundo real.

As cores de Gabe Eltaeb harmonizam com o estilo dos desenhistas, geralmente vindo de uma paleta escura com muitos tons de verde, vermelho e roxo, as principais cores do Caçador de Marte. Diógenes Neves, Ronan Cliquet, R.B. Silva, Ben Oliver e Philip Tan também assumem a arte de algumas edições. De todos, apenas Ben Oliver destoa visivelmente do estilo de Barrows, indo para um caminho muito mais cartunesco, o que prejudica um pouco a revista visto que Oliver é o responsável pelas últimas duas edições do run.

Apesar de seus altos e baixos, a fase de Rob Willians e Eddy Barrows é uma boa pedida para quem quer uma história que mistura vários elementos e gêneros diferentes com uma boa e dinâmica arte. Além disso, é uma rara oportunidade para os fãs de J’onn J’onzz o verem protagonizando sua própria HQ. Infelizmente, o run não foi publicado no Brasil, mas pode ser adquirido através dos dois encadernados americanos, que compilam toda a fase.

Martian Manhunter: The Epiphany e Martian Manhunter: The Red Rising

Roteiro: Rob Willians e Matt Kindt

Desenhos: Eddy Barrows, Diogenes Neves, Ronan Cliquet, R.B. Silva, Ben Oliver e Philip Tan

Arte-Final: Eber Ferreira, Marc Deering, Andy Owens, Ben Oliver e Jason Paz

Cores: Gabe Eltaeb e Jeremy Cox

Letras: Tom Napolitano

Editora: DC Comics

Ano de lançamento: 2015/2016

Páginas: 160 e 144

Nota do Resenhista: 3,5 (de 5)


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